Momentos fúnebres, não são algo que sabemos lidar, não é como uma lição que somos ensinados ainda nos primeiros passos da vida. Então, ele agiu normalmente. Acordando cedo, observando o horizonte, onde o adorado sol já dava alguns sinais de vida, o dia então começava, como todos os outros. Sentia-se demasiado solitário, sabia que a presença daquele que amava profundamente, nunca mais voltaria, não tinha forças para levantar-se e mesmo assim, levantava, preparando-se mentalmente para mais um dia regado de tristezas. Nada parecia lhe tranquilizar, nem mesmo meditar, algo que ele amava passar horas, conversando com Buda, limpando sua mente de tudo, – tinha temor do que tinha se transformado, um corpo vivo ainda preso à uma alma livre já –; era impossível acreditar que Mu partira, que seu maior pesadelo viera a ser real. Ainda poderia lembrar dos dias em expectativa por notícias, notícias boas sobre seu estado, o início lento da forte amizade que levou longo tempo a se firmar, dos pouquíssimos​ dias que passaram juntos em Jamiel​, o tempo que ficavam debaixo das árvores degustando chá morno enquanto conversavam, bons momentos que nunca voltariam.

Era assustador, a escuridão embebia seu âmago, em suma: o medo. Então, segurava firme seu manto, e ficava em uma saleta horas e horas, esperando que alguém lhe desse falta ou fosse tarde demais para ficar ali. Ia, pouquíssimas vezes, ajudá-los, quando sua mente insistia um pouco mais, ou se sentia culpado, queria implorar de joelhos para que aquelas​ sensações que se apossavam de sua pobre consciência fossem embora de uma vez. Queria ter coragem o suficiente de se despedir de Mu de alguma maneira, nem que fosse em uma prece rápida, talvez se desfazendo das inúmeras cartas que escrevera por meses e mantinha em uma caixinha de madeira empoeirada pelo tempo de desuso e esquecimento. Queria um novo destino, que uma de suas orações recebesse um fio de esperança, que há tempos ele aguardava pacientemente.

Esperou, e esperou. Até que o tédio viesse, até que aos pouquinhos voltou aos velhos hábitos, ignorando externamente a existência de Mu, e silenciosamente, internamente, prometendo todo o seu amor apenas para ele. E seguiria sua vida, até que definhasse, levando consigo apenas o amor recíproco e puro que cultivara. Lembraria-se sempre, daquele nobre guerreiro muviano, em seus típicos trajes, de cabelos exóticos e presos, quiçá presos em uma trança frouxa, amava por deverás quando o outro prendia os cabelos daquele jeito, tão desajeitado, e mesmo assim, continuava altivo, cheio de beleza. Lembrar disso tudo era como comparar o amargo ao doce, primeiro vinha a doçura dos dias ao lado de Mu, tudo que vivera ao seu lado e depois, a amargura de saber que aquilo tudo tinha se esvaido, tão cedo, morto.

Um dia, chegou-se as gritarias, os outros, comemoravam aos montes o fim daquela guerra que ceifara incontáveis vidas, ao longe, estava Shaka, contente que tudo tinha acabado, finalmente. E ao longe, avistou os cabelos violetas que tanto conhecia, alguns centímetros mais longo, devido ao longo tempo de negligência do dono. As vestes esfarrapadas, bandagens já velhas cobriam a pele descoberta, mas não tinha importância. O louro correu, o lilás também, ansiando que pudessem tocar um ao outro, matariam as saudades que há tempos​ os consumiam. Tudo, teve um fim ali, com aquele encontro.

Notas finais
Novamente venho agradecer por tudo. Dessa vez acabou mesmo! Espero que tenha rendido uma boa leitura, rendido várias reações com o decorrer da estória, e se divertido ao decorrer de tudo. Sobre o final, é uma escolha própria de cada um, mesmo que exista um final verdadeiro, acho digno os leitores terem seu próprio "final feliz", ou não. Beijos, e até uma próxima oportunidade!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!