Lust For Life
4 4; Epílogo
Momentos fúnebres, não são algo que sabemos lidar, não é como uma lição que somos ensinados ainda nos primeiros passos da vida. Então, ele agiu normalmente. Acordando cedo, observando o horizonte, onde o adorado sol já dava alguns sinais de vida, o dia então começava, como todos os outros. Sentia-se demasiado solitário, sabia que a presença daquele que amava profundamente, nunca mais voltaria, não tinha forças para levantar-se e mesmo assim, levantava, preparando-se mentalmente para mais um dia regado de tristezas. Nada parecia lhe tranquilizar, nem mesmo meditar, algo que ele amava passar horas, conversando com Buda, limpando sua mente de tudo, – tinha temor do que tinha se transformado, um corpo vivo ainda preso à uma alma livre já –; era impossível acreditar que Mu partira, que seu maior pesadelo viera a ser real. Ainda poderia lembrar dos dias em expectativa por notícias, notícias boas sobre seu estado, o início lento da forte amizade que levou longo tempo a se firmar, dos pouquíssimos dias que passaram juntos em Jamiel, o tempo que ficavam debaixo das árvores degustando chá morno enquanto conversavam, bons momentos que nunca voltariam.
Era assustador, a escuridão embebia seu âmago, em suma: o medo. Então, segurava firme seu manto, e ficava em uma saleta horas e horas, esperando que alguém lhe desse falta ou fosse tarde demais para ficar ali. Ia, pouquíssimas vezes, ajudá-los, quando sua mente insistia um pouco mais, ou se sentia culpado, queria implorar de joelhos para que aquelas sensações que se apossavam de sua pobre consciência fossem embora de uma vez. Queria ter coragem o suficiente de se despedir de Mu de alguma maneira, nem que fosse em uma prece rápida, talvez se desfazendo das inúmeras cartas que escrevera por meses e mantinha em uma caixinha de madeira empoeirada pelo tempo de desuso e esquecimento. Queria um novo destino, que uma de suas orações recebesse um fio de esperança, que há tempos ele aguardava pacientemente.
Esperou, e esperou. Até que o tédio viesse, até que aos pouquinhos voltou aos velhos hábitos, ignorando externamente a existência de Mu, e silenciosamente, internamente, prometendo todo o seu amor apenas para ele. E seguiria sua vida, até que definhasse, levando consigo apenas o amor recíproco e puro que cultivara. Lembraria-se sempre, daquele nobre guerreiro muviano, em seus típicos trajes, de cabelos exóticos e presos, quiçá presos em uma trança frouxa, amava por deverás quando o outro prendia os cabelos daquele jeito, tão desajeitado, e mesmo assim, continuava altivo, cheio de beleza. Lembrar disso tudo era como comparar o amargo ao doce, primeiro vinha a doçura dos dias ao lado de Mu, tudo que vivera ao seu lado e depois, a amargura de saber que aquilo tudo tinha se esvaido, tão cedo, morto.
Um dia, chegou-se as gritarias, os outros, comemoravam aos montes o fim daquela guerra que ceifara incontáveis vidas, ao longe, estava Shaka, contente que tudo tinha acabado, finalmente. E ao longe, avistou os cabelos violetas que tanto conhecia, alguns centímetros mais longo, devido ao longo tempo de negligência do dono. As vestes esfarrapadas, bandagens já velhas cobriam a pele descoberta, mas não tinha importância. O louro correu, o lilás também, ansiando que pudessem tocar um ao outro, matariam as saudades que há tempos os consumiam. Tudo, teve um fim ali, com aquele encontro.
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