Notas iniciais
Olá! Cá estou eu, com o último capítulo desta história que há tempos gostaria de escrever (ou não). Espero que tenham gostado, e parabenizo-os de ter chegado até aqui. Último capítulo, quem diria! Também, três capítulos é até que fácil de ler! Um grande agradecimento à todos que leram, comentaram ou favoritaram, recebi alguns elogios tão belos de vocês, um apoio incrível, só tenho o que agradecer ♥ (Nas notas finais do capítulo, deixei uma coisinha pela qual devo o título desta fic!) Boa leitura. ps. ainda temos um epílogo cof cof

Passarem diversas noites após aquele encontro, ficaram um bocado de tempo sem se ver novamente – entristecia até à mais impetuosa alma daquele vasto mundo pueril –, mas com um hábito de trocarem cartas, não exatamente neste contexto, Mu pedia um ou dois favores à amigos que iriam ao vilarejo onde Shaka se encontrava, que mal teria pedir para ver como o amigo andava? Ou só dizer um recado repetido de que estava bem e sentia saudades? Muitas vezes Shaka sequer via o tal “amigo”! Os outros monges lhe contavam, com um ou dois elogios deverás piegas de como Mu era um grande amigo, cheio de valores e bondade em seu coração valente, não era uma mentira, Shaka sabia muito bem. Enchia-se de orgulho pelo amigo a cada novo elogio, gostaria de ser tão bom com palavras como os outros, mais a verdadeira sinceridade que tinha em mente ainda se mantia presa, como uma caixinha que aguarda ansiosamente alguém dar corda.

E claro, enquanto refletia sobre tais pensamentos​, longe da habitual (como diria Mu) sala onde a estátua de Buda permanecia, sentara-se em um tapete fino sob à terra, embaixo de algumas árvores que lentamente desabrochavam flores pequenas e delicadas. Elas serão belíssimas​! – disse Mu certa vez, em uma das vezes que viera visitá-lo; tinha dado um jeito de fazer Shaka dar uma caminhada consigo por aí, conversando sobre a vida, falando até mesmo sobre pedras, e finalmente, o muviano avistou algumas árvores, jovens e longe de desabrochar, não se importou, elogiou e mostrou tudo que sabia a Shaka, normalmente em um gesto pomposo e exibido, mas, fôra totalmente o oposto. Mas uma razão para ficar horas à fio pensando sobre o amigo, que há algum tempo desistira de compreender sua afinidade, afeição e preocupação, emoções não precisam de explicação, ele nem queria imaginar​ um motivo x para tudo, então, acostumou-se aquela vida que lhe era entregue com tamanho sentimentalismo, e a aceitou de braços abertos.

Ele gostava de Mu, como? Por quê? E tal razão dessa afirmação, ele não sabia, e como antes, não gostaria de saber, não ainda. Apenas permitia-se sentir, nada mais. Até lembrava alegremente de um ocorrido de recém semanas antes, onde tinha sido convencido de ir até Jamiel. Mesmo que à tal viagem nunca tivesse acontecido, ele lembraria inconscientemente da promessa que fizera à Mu. Prometa-me de irmos à Jamiel juntos! Mu dizia, de cócoras catando algumas​ ervas daninhas na frente do louro, Não posso prometer algo assim.., respondia, com o olhar preso aos dedos pálidos e marcados de trabalho e esforço concentrados numa atividade tão singela. Você não esta me ajudando.. vamos, só alguns dias!, olhou para o de pé, com um meio sorriso, e os olhos brilhando na expectativa, Me entristece saber que não quer me visitar onde eu nasci, sabe a importância que isso tem para minha pessoa., completou, e por fim, Shaka se rendeu: Certo, você venceu, eu irei com você.., a conversa cessou por aí, Mu tinha que voltar, as tréguas não tinham ​tempos determinados​, poderiam ser rápidas ou com um suave gostinho de liberdade, que logo terminaria em uma nova batalha.

Estou pensando o quê?, pensou, aquele hábito de mentir suas próprias emoções, É apenas saudade.. sim, saudade de Mu!

· · ·

O de cabelos liláses estava escorado defronte à janela, a brisa do fim de tarde bagunçava seus cabelos e as finíssimas​ cortinas de cor amarronzada, o cheiro de incenso enchia o cômodo, atrás dele, Shaka repousava no chão, de olhos fechados, prestando atenção em cada mínimo detalhe que Mu poderia fazer. O guerreiro tinha chegado no início da tarde, antes tinham conversado sobre o tempo que ficaram separados, sentados embaixo de uma árvore tomando chá, alguns outros monges sentaram-se ali também, para ouvir algumas das histórias que Mu contava.

O baque dos dedos de Mu contra as bordas da janela ecoavam pelo cômodo, um som fraco. Tinha algo errado, muito, mas o monge não iria perguntar-lhe, o que deixava Mu ainda mais irado, queria prensa-lo contra a parede, dizer o que realmente estava lhe incomodando, como se pudesse.

— Você prometeu. – encolheu os ombros, ainda de costas.

— Eu sei muito bem. – respondeu Shaka. — Eu prometi algo e irei cumprir.. não será necessário mais uma revolta sua, senhor Mu. – avisou, seu tom puxava um toque mínimo de humor, cujo o louro se permitia na companhia do amigo.

— Não me chame de senhor Mu.. me sinto velho demais.. – reclamou, mesmo que há algum tempo fosse apenas um apelido bobinho que compartilhavam. — É tão difícil me chamar pelo nome?

— Mu.. está satisfeito? – pôs as mãos na cintura, já de pé. — Agora, quando iremos? Para Jamiel, digo.

— Amanhã, bem cedo! É uma viagem daquelas até chegarmos! – avisou. — Tenho certeza que irão amá-lo.

— Não gostaria que tanto entusiasmo acabasse por me magoar com algo diferente do que você conta. – afirmou.

— Você não irá ferir esses sentimentos inquebráveis. – advertiu Mu. — Não há nada que se preocupar, já lhe contei alguma mentira?

Ah, claro! Quando promete-me voltar bem.. sabendo que com um único movimento, sua vida se extinguiria em um piscar de olhos, sem direito à despedidas decentes!, pensava, segurando suas vestes alaranjadas com cuidado. Por fim encarando os olhos verdes, que aguardavam uma resposta, seriamente debatendo se viria algo mesclado ao sarcasmo, ou só um novo sermão.

— Nunca. Confio plenamente em você. – disse. — Mu, és um amigo admirável, mesmo que deixe-me de cabelos em pé com muita frequência, ainda desejaria ser seu amigo.

— Belas palavras​. Nada menos para um monge sábio como é, Shaka. – sorria. — Adoro-te como um amigo maravilhoso, mesmo que puxe minhas orelhas o tempo todo!

— Então, irei pegar algumas coisas que irei levar. – fez menção de sair da sala. — Com licença, sinta-se à vontade até que eu volte, pode se acomodar por aí.

— Estarei por aí, depois me procure. – avisou.

Shaka entrou pelos corredores, acabou por encontrar um dos outros monges. Conversaram brevemente sobre a saída de Shaka por alguns dias, e logo, o loiro já tinha ido ao pequeno quarto que possuía.

· · ·

— Aqui. – Mu largou sua bagagem no chão, enquanto alguns de seus amigos vinham logo em frente para cumprimenta-los. — Até o Kiki veio! – ele sorriu, enquanto um garoto pulava contra si.

— Mu! – gritava animadíssimo. — Você finalmente voltou! Estava com saudades, Shion já não aguentava mais para poder vê-lo também! – atropelava as próprias palavras, numa agitação que só crianças como ele teriam para dar.

— Ei, calma, Kiki.. – Mu era só sorrisos para com aquele menino. Não que Shaka estivesse enciumado, longe desse sentimento, estava encantado, de certa forma, vendo-o com outras pessoas diferentes de seus companheiros de batalha ou monges curiosos, apenas, sendo ele mesmo. — Ainda nem lhe apresentei ao meu esplêndido amigo de grande ego – riu-se da situação, mesmo que Kiki apenas encarasse Shaka com os grandes olhos violetas cheios de curiosidade. — Este é Shaka, um monge budista do vilarejo onde eu constantemente estou, depois das guerrinhas por aí, é claro.

— Shaka? É um enorme prazer conhecê-lo – disse, já saltitando para frente do loiro. — Me chamo Kiki, sou amigo de Mu.

— Olá, Kiki. – tentou sorrir para este.

— Não se preocupe, ele raramente diz algo. – avisou Mu, já sendo atacado por alguns amigos. — Vamos logo, quero esmagar Shion em um abraço!

Conhecera Shion também, e diversas outras pessoas – pessoas calorosas e alegres, que lhe cumprimentavam com grandes sorrisos e as vezes abraços e beijos –, Mu sorria de orelha à outra junto aquelas pessoas, e Shaka, deixava-se levar por tudo. Apegadíssimo à Kiki, que tinha agarrado seu manto, já se sentia amigo dele também. Não podia parar de pensar no motivo que lhe deixara tão 'mole'. Com certeza era a alegria, o caloroso sentimento de amor, paixão pela vida, aquela vida pacata, mesmo que tivessem em guerra com algum outro povo, a alegria da vida se mantinha intacta, era maravilhoso, quase a visão da perfeição.

Ele estava deslumbrado com tudo aquilo, o quão importante poderiam ser as pessoas ali, sentiu-se feliz, imensamente feliz, de poder estar ali com estes. Algumas crianças lhe atacaram enquanto Mu conversava com outras pessoas, inclusive Shion, o homem de cabelos​ claros e que tomava Mu como sobrinho, ou algo similar. As crianças lhe perguntavam diversas coisas, até se interrompiam e o falatório recomeçava, de novo e de novo, mas respondia tudo que pudesse para elas, espalhando seu 'vasto' conhecimento.

Iria permanecer ali apenas por dois dias, não tinha permissão para permanecer tanto tempo fora de suas obrigações, e Mu, logo partiria para terras distantes novamente, levado pelo enxurrada de batalhas​ incessantes​. Tinha repousado na casa de Shion, onde morava Mu e Kiki – cujo ele ainda desconhecia o tal vínculo que unia os três e que jamais indagaria por puro receio –, durante o dia, Mu o levava para todos os cantos, de cima para baixo, papeando com várias pessoas gentis, as vezes até lhe enfiavam alguns tipos de comidas​, saborosas​, Mu parecia uma criança, sendo paparicado junto à Shaka. Eram horas felizes, acompanhado de seu amigo. Admiraram​ até o céu azul, com poucas nuvens que pareciam algodões, ou o sol que esquentava fracamente entre à brisa suave e gélida. Sentados sob tapetes de várias cores, Shaka agradeceu por tudo aquilo, e Mu, com um grande sorriso, cheio de sentimentalismo, segurou sua mão, e o momento, ficou por isso, não tinha mais o que ser dito, palavras​ não expressariam tal momento.

· · ·

Já era tarde da noite quando Mu finalmente achou Shaka, em frente à sacada, seu manto claro tremia ao vento daquela noite gélida nas montanhas, nada atípico, se estivesse acostumado. Não queria interromper o loiro de seus próprios pensamentos, mas, tinham que ir logo de acomodar em seus colchões, o próximo dia seria cheio para todos.

— Shaka? – chamou-o. — Estou atrapalhando? Não gostaria, juro. Mas precisamos nos retirar agora.

— Ah, já irei – virou-se. — Que desatento de minha parte, devo estar atrapalhando ficando aqui até tão tarde! Vamos, amanhã nós dois teremos que estar em ótimo estado, não é mesmo?

— Gostaria de poder obrigá-lo a ficar mais tempo – disse tristemente, com os olhos presos nas estrelas naquele vasto céu escuro. — Mas tenho meus compromissos e você também.

— Sempre poderei voltar. – sorria. — Não precisa de remorso, foram dias maravilhosos! Conheci pessoas de sentimentos​ dedicados, é como ver o mundo em outros ​olhos, senti a vontade de viver, a paixão presente em todos, sinto-me grato por ter os conhecido.

— São minha família. – Shaka tremeu ao toque quente da mão do outro. — Isso é tão bom de se ouvir de sua vocação​ arrogante.

— Eu não sou tão arrogante como você diz. – desviou o olhar. — As vezes é difícil apenas.. conversar como qualquer outro. Não tenho voz suficiente para isso, conversar com Buda é tão fácil, permanecer na inércia, com minhas próprias ideias.

— A solidão nem sempre é o melhor para nós – calou-se por instantes. — Precisamos espalhar o que sentimos, nem que seja uma única vez. E a sua solidão findou-se já, você têm punhados​ de pessoas gentis à volta todo momento, e você tem minha eterna amizade fora do normal.

Por que “fora do normal”?, debateu internamente, sem respondê-lo. O olhar curioso de Mu o atingia, o que tinha de errado afinal de contas?, entendia os termos sinceros que o lilás dizia, uma relação construída através de verdades, nunca mentiras, um pilar bem constituído de ideias sobre ele, nada de anormal. Porém..

— Estou sem palavras – confessou. — Não acho que poderia retrucá-lo. Mas, tenho dúvidas sobre o que você acabou de dizer.

— Quero dizer que estamos entre uma boa amizade, cujo foi cultivada com a mais pura honestidade – afirmou. — Mas eu saí dos eixos, há algum tempo já.

Saiu dos eixos? – sua testa devia estar toda enrugada, a seriedade que aquilo tinha levado. — Explique-se:

— Não há como explicar, Shaka! – brandou. — Você não se sente diferente em relação à nós? Nem um pouquinho que seja?

Diferente, como? Sua mente confundia-se profundamente, o que Mu começara à lhe dizer? E aonde pretendia chegar com tudo aquilo?, não podia evitar de se sentir incapaz de sequer não perceber que o buraco era ainda mais fundo que sua imaginação propunha anteriormente. O que tinha de errado entre eles? Tudo parecia tão certo, inofensivo, bem, de certa forma, até tinham feito uma viagem à Jamiel juntos, passeado, aos sorrisos largos e olhos brilhando felicidade.

— Eu não consigo compreendê-lo, me sinto estúpido – afirmou, de olhos abertos, até arregalados​ ao ver do lilás. — Não posso reparar em um mínimo detalhe, que parece bastante claro para você.

— Idiota – repreendeu. — Idiota, idiota.. – balbuciava, já puxando o louro pelos ombros, sem se importar em amassar seu manto.

Idiota?

— Mu..?

Sua respiração pareceu falhar, mas ele ainda respirava. Os lábios claros do guerreiro tocavam delicadamente os seus, um beijo, um simples selar tímido. Seus olhos azuis, outrora arregalados, agora apenas encaravam muitíssimo perto o rosto angelical de Mu, pele branquinha e suas pintinhas escuras, de olhos fechados, cílios espessos. O beijo estava parado, nenhum dos dois parecia ter coragem para fazer algo à mais, e talvez Shaka sequer reagira sobre o que estava acontecendo, automaticamente. Mu puxou-o mais, as roupas se roçando, a pele colando, o beijo ‘andou’ e ninguém impediu. Um contato íntimo, o primeiro tão sério de ambos, provavelmente.

Um.. dois.. três, três beijinhos, nada afogueado. Delicado, tímido, de certa forma romântico, respeitoso, e cheio de dúvidas do sentimento real. Enquanto Mu parecia ter total convicção sobre o que sentia e dizia, Shaka era uma confusão de sentimentos, rubor e, acima de tudo, encantado de uma forma até então desconhecida (ou despercebida).

· · ·

Gostaria de contar-lhes uma boa estória de romance, mas, sendo franca, depois de alguns beijos inocentes trocados à luz do luar, de palavras assustadas de um monge e um guerreiro, nada mudou. No dia seguinte, Shaka voltou para o mosteiro, Mu voltou à seus dias de guerrilha, com seus companheiros. Nada mudara, nenhuma palavra fôra trocada, nenhum plano sobre o futuro de ambos. Apenas um “boa noite” e um “até logo” – afinal o ‘adeus’ não existia aos dois. Mesmo que tudo que lhes aguardasse fosse apenas um, uma, briguinha idiota que poderia separá-los de certa forma. Não poderiam deixar algo como aquilo morrer, correr atrás de seus próprios sonhos e ambições, fôra dito certa vez, talvez tivesse dado a grande ideia à Mu; um pedaço de papel, um pouquinho de tinta e algumas palavras bem empregadas, bastante fácil, até. Logo, aquele simples papel com palavras desenhadas tinha um destino, e um verdadeiro dono, conhecido principalmente por cabelos longos e dourados e lindíssimos​ olhos azuis.

O início foi lento, começando por narrações de seus sentimentos, ações e mesclando ao clima abafado que certos lugares pareciam possuir como uma característica. Depois, mudando à pequenas declarações, nenhum dos dois parecia a fim de admitir cartas de amor ou um namoro escondido, sem intromissões, só, os dois, levando o pouco contato que possuíam da melhor maneira possível. Mesmo que restasse apenas papéis desgastados e tinta, eles escreveram desesperadamente uma ou duas linhas, de palavras carregadas de sentimentalismo verdadeiro e a promessa de reencontro.

Uma espécie de segredo só deles, era belo, tímido e suave. Conduziam de forma acanhada, não faziam tumulto sobre os próprios sentimentos, simplesmente sentavam-se e poderiam passar horas pensando sobre isso, como uma única palavra ou ação poderia intercalar tudo, absolutamente tudo. Amor era uma confusão, um livro grosso e sem fim, um grande desafio aos desavisados, mas, ambos pareciam ir bem, como se andassem pelas bordas de um prato de porcelana, onde à comida ali servida ainda parecia ferver, fritar ou assar. Que bastava aguardar esfriar um pouquinho?

Aguardar bons momentos era como uma tradição entre os dois, depois, degustariam chá morno sob árvores levadas pela brisa do entardecer, conversando sobre o cotidiano que escapara das cartas deverás piegas e carregadas de um sentimento abrasador. Há tantos meses era assim, e logo, seriam anos, e em nenhum momento, aquilo tudo os incomodava, pelo contrário, pareciam adorar esses raros momentos! E logo, poderiam​ contar os dias da semana até uma nova dispensa de batalha, uma viagem longa e uma correria apenas para poderem se ver, não teria muitos abraços e beijos (antigamente, atualmente tudo seria feito de maneira secreta, até que estivessem aptos para revelar​ para outras pessoas). Esperar até onde aquele caminho os levaria, atitude sábia, ou uma desculpa para não misturar outras pessoas em um romance de um único par.

E logo, Mu estava de volta, nos braços de Shaka, sendo segurado com todo o temor do mundo. E na esperança, que ficasse nos braços daquele monge para sempre.

— Agora terei que ir de verdade. – o olhar de Shaka repousou sobre o outro, a sua frente.

— Não tem outra maneira? – perguntou, por fim.

— É o caminho que escolhi – Mu respondeu. — Agora tenho medo de nunca mais voltar.. dessa vez é sério para mim.. é normal eu sentir medo?

— Anormal seria você não sentir. – tocou o rosto pálido do lilás. — Posso pedir que não vá?

— Eu preciso ir – disse. — Mesmo que preferisse o calor de seu amor, me dediquei nisso há tanto tempo, chegou a hora.

— Estarei aqui, esperando-o pacientemente – avisou. — Nem que leve minha vida inteira, eu o esperarei.

— Shaka.. – os corpos se aproximaram no afetuoso abraço. — Eu te amo, mais que poderia expressar em palavras.

— Eu também te amo, Mu – sorriu. — E não desejo expressar esse forte sentimento em palavras.

· · ·

O tempo seguiu, para Shaka, era como se tudo voltasse ao típico normal – que transformara-se em anormalidade –, escrevendo carta após carta para Mu, todos os dias, guardando em suas memórias cada pequenina lembrança desnecessariamente interessante​ para escrever uma carta para Mu antes de dormir. Adicionando todo seus sentimentos, medos e felicidades, tudo. E depois, guardando aquele pedaço de papel em uma caixinha simples de madeira com um cadeado dourado, um pouquinho enferrujado.

As notícias corriam soltas por aquelas bandas, cada vez mais guerreiros voltavam​, sem vida ou muito machucados, quase à beira da morte. O impacto daquela guerra infindável, que finalmente veio a eclodir, só afetava ainda mais os moradores simplistas e sem muita expectativa de aventuras épicas.

Os monges ajudavam alguns feridos, oferecendo abrigo e proteção, até certo ponto. Shaka prosseguia ali, ajudando-os, até meditando atrás de sabedoria, orando infindáveis vezes para que, um dia não tivesse que velar o corpo de Mu ou ter que suportar a tristeza que isso viesse a acarretar, lembrava dos amigos do amado, tão bondosos​, sorridentes, junto ao guerreiro de cabelos exóticos.

A tristeza, era o único sentimento que se agarrava nele como um moribundo desesperado pela fome, e mesmo assim, ele se mantia um poço de calmaria, ajudando que viesse, cuidando, e por fim, toda sua angústia estava presa em folhas de papéis, que seriam descartadas em uma caixinha, mais tarde, Shaka iria dormir, agarrado em um fio de esperança de que no dia seguinte Mu voltaria, e iria tê-lo nos braços novamente, embalando seus mais profundos sentimentos.

Como ele gostaria que esse sonho fosse real, mas, ele nunca se tornaria real, já que os mortos não voltam a vida.

Notas finais
coisinha: https://youtu.be/eP4eqhWc7sI