Lust For Life
1 1; Amanhecer
Notas iniciais
Aquele dia era quase assustador – para quem sequer imaginasse o que realmente acontecia naquela calmaria repentina –; um caos indesejável se aproximava cada vez mais, e nenhuma oração parecia ajudar à luz a vencer aquela escuridão que vinha desesperada em frente. Nenhum de seus clamores era atendido, dava calafrios nele. Há dias, só rezando, implorando pela segurança de seu amado, e tudo que recebia em troca era: indiferença e falta de fé. Não importava o que acontecesse, iria continuar ali, esperando por boas notícias que talvez nem existissem mais. Mas a essência de sua vida, dizia que tudo estava bem, e que nada de ruim aconteceria, e sua fé inabalável continuaria, até que sua vida se esgotasse.
De olhos fechados, não que fosse algo incomum, caminhou até uma das janelas cobertas pelas finíssimas cortinas do mosteiro, e observou o pequeno vilarejo que acordava aos poucos, voltando à vida rotineira de sempre. O dia acordara nublado, mas ainda quente o suficiente para usar um de seus finos mantos de cores sutis. Shaka segurou firme seu rosário, depositando no mesmo seus mais profundos pensamentos, e saiu da sala onde à frente repousava uma estátua de Buda. Outros monges, assim como ele mesmo, estavam ali fora também; Shaka sempre fôra quase como um mito entre todos eles, além de certos olhares de pessoas de fora – monges não deveriam ter seus cabelos raspados? Era sempre a primeira indagação que saía da boca dos outros –, além de sempre estar de olhos fechados, diziam com pesar que ele era cego, mesmo que não fosse a verdade absoluta por trás daquilo.
Há algum tempo, Buda não fôra sua única preocupação; as pessoas boas e más, o certo e o errado, tudo. Absolutamente tudo mudara perante seu olhar minucioso, aquele que sempre estivera solitário, mudou seus pensamentos, suas vontades e suas preces, e seu tempo de meditação acabara sendo afetado – não era algo ruim, ao contrário disso, Shaka poderia entender mais os sentimentos, as emoções, tudo, o mundo mudava em seus olhos, como um grandioso ensinamento –, quando esteve ao lado de Mu, um nobre guerreiro muviano, sentira emoções estranhas demais, e transtornado, recorreu à única pessoa que poderia lhe ouvir: Buda, passou horas e horas meditando, e de uma simples atração, viu um potencial à se apaixonar por alguém. E por incrível que poderia parecer, ele se agarrou sutilmente aquele sentimento novo, e deixou-se levar.
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