As escadas pareciam longas demais pra mim.
O ano começou de novo. E estou entrando uma semana e meia depois. Peguei conjuntivite um dia antes das aulas voltarem. Minha irmã mais nova, Emily, passou pra mim. Engraçado é que ela ficou duas semanas e quando já está quase curada resolve me passar. Eu estava ansiosa que não me continha para voltar as aulas. Não pela escola em si, mas eu precisava saber. Saber se ela estava lá. Se ela, mesmo sem saber ainda faria meu coração bater mais rápido.
Fiquei arrasada quando percebi que estava doente. Era o universo conspirando contra mim. Mas agora, eu subia as escadas fervorosamente para esperar o recreio a fim de vê-lá. É infantil. Mas é uma paixonite. Ou eu acho que seja.
-Anne! Finalmente! — A professora de ciências disse. Linda.
-Pois é.
Sentei no fundo. As horas passavam tão devagar que eu queria gritar frustrada.
"TRIMM...".
Pulei não esperando meus amigos. Necessitava vê-lá.
E foi então que a vi. Correndo. E agora, seu recreio não era separado do nosso. Até o 5° ano, você toma lanche com os mais novos. Depois, do 6° pra frente, com o mais velhos. E ela estava lá. Sorrindo e sem perceber, fazendo meu coração disparar ridiculamente.
Ano passado, vezes ou outro ela me olhava, mas agora... Parece que nunca existi. Ela havia esquecido. É claro que sim. Quem não? Sou sem graça. Baixa, 1, 55 pra ser exata. Gorda. 68 quilogramas. Com cabelos crespos — agora lisos e ruivos — negros. Realmente, não a culpo. Passou por mim, e nem me notou.
Sentei no chão e abaixei a cabeça entre meus joelhos.
-Anne, que tal esperar? — Vinicius estava ofegante por ter corrido atrás de mim.
-Foi mal — Sorri amarelo.
E meus dias seguintes foram sem cor. Dando apenas lampejos quando a via. Se tornando pior ao ter que não vê-lá.
Era sempre a mesma coisa. No recreio eu a olhava, e quando via que ela ia notar desviava. Sempre assim.
- Aqui estão os projetos desse ano. Escolham bem! — A coordenadora da escola, Roseli, disse.
Eu não ia fazer nada. Mas eu vi. Teatro. Eu precisava me distrair.
Toc, Toc.
Bateram na porta da sala.
-A Roseli está chamando a Anne Giulia.
Dona Rosana era uma inspetora, que desde que me lembro, estava lá. Era amigável.
Entrei na sala de coordenação e a vi.
-Mandou me chamar?
-Sim! Fiquei tão feliz ao ver que entraria pra aula de teatro! Você é uma pessoa tão culta. Lê bastante. Vai se dar bem.
-Obrigado.
-Como você está?
-Estou... Em pedaços. Me reformando. Estou bem.
Ela sorriu triste. Desde que descobriu minha sexualidade, tenta me rondar.
-Se precisar, estou aqui.
Assenti e voltei a sala de aula.
As aulas de Teatro eram de segundas-feiras das 13:00 às 14:30. Eu faria.
Percebi que ela estava lá. Emilin, a garota que roubou meu coração. Ela fazia futsal de segunda das 12:30 às 13:30.
Caramba. É o céu conspirando contra mim. Já podem parar. Ouviram? Já podem parar!
Sabia que era errado. Mas mesmo assim... Eu ficava até dar o horário dela e ia pra minha aula. Sempre chefiando atrasada. Mas eu tinha decidido mudar. Não cheguei mais atrasada. Dando meu horário eu ia. Com dor no coração.
Dias depois, no recreio, Vinicius tagarelava algo sobre músculos e peitorais quando Emilin passou atrás de mim rindo e puxando minha blusa. Olhei em volta mas... Nada. Ela fez isso duas ou três vezes até o sinal bater.
No Teatro conheci Amanda. Da sala de Emilin.
- Você é apaixonada por alguém de sua sala?
- Não! — Torci o nariz com desgosto — você é?
-Sim!
-É a Emilin! — Disse brincando.
- A Emilin é sapato- Oh professor, que que é pra fazer?
Eu tenho certeza do que ouvi.
- Amanda — Chamei quando tudo já havia acabado — O você ia dizer?
- Eu? Sobre o quê?
-Você sobre a Emilin.
- Ah, nada.
- Eu ouvi. Você disse que ela era sapatona. Mas depois parou achando que eu não tinha ouvido.
- É, olha só, não fale pra ninguém Okay? Não quero problemas.
Eu ri.
- Tudo bem. Eu acho que a escola inteira acha também. Ela é bem masculina. Joga futebol/futsal/esportes, vem com roupas de garoto.
Sai andando. Me virei e disse.
- Amanda, só pra constar, eu também sou. Mas não diga a ninguém.
Ela ficou boquiaberta.
Achei engraçado. Crianças.
Os dias foram passando. Mas eu queria sorrir. Como proceder?
O Facebook estava parado. Até que vi a mãe de um antigo amigo. Sua foto havia sido comentada por... Meus olhos custavam a acreditar. Por Gislaine... Mãe de Emilin. Eu não sabia seu nome até ver e reconhecer. Caraca... Olhei o perfil e havia fotos. Muitas. Mas o que mais me chocou foi ver a loirinha de vestido.
Nunca imaginei que viveria pra ver tal coisa.
Estava linda... Estava encantadora.
"Hemily e Jierry". Seu irmão. Oh meu deus, errei o nome dela desde sempre...
-Com licença! — Ouvi uma voz feminina muito grossa. Olhei de relance e quase cai da cadeira. Qual é. É perseguição, só pode. Onde vou encontro lésbicas. Fala sério. Não que seja ruim, mas por**, por que não uma da minha idade? Não é pedir muito. Eu acho. Ela me olhou enquanto pegava a pá que ficava pendurada na Lousa e sorria. Não. Definitivamente não. Não posso com isso. Seu sorriso era pequeno e suas bochechas enormes. Ela não era bonita. E era... Cheinha. Assim como eu. Me via nela no futuro.
Eu iria mudar.
Na semana seguinte, entramos em greve. Os professores entraram. E, tínhamos uma feira do estudante pra ir. Fomos mesmo assim. Lá, deram uma plantinha. Havia várias pra escolher. Um ipê amarelo chamou-me de a atenção. E então o escolhi.
Sorri e voltei no ônibus no qual tínhamos ido.
A faxineira me parou e sorrindo galante " ou ela devia achar que estava " e pegou a plantinha de minhas mãos. Eu fingia que não percebia mas eu via. Ela me encarava descaradamente. Dei um jeito de ser educada e fui embora.
-Estamos de mudança.
Meu mundo caiu. Hemily... Entrei em desespero e comecei a chorar.
Na semana seguinte, dei tchau para todos. Muitos choraram. Outros surtaram. Outros ficaram feliz.
Mas no final... Eles me esqueceriam.
Fui atrás de uma loira. Três anos mais nova. Não tinha como ter vergonha.
A chamei e sem motivo algum a abracei. Algumas lágrimas ameaçavam cair. Malditas. Beijei a bochecha dela, que permanecia estática, com os olhos verdes vibrando, e sai correndo.
Eu iria embora.
Eu nunca mais a veria.
E eu não voltaria. Não tão cedo. Não agora.
Era um adeus. Meu coração estava destruído.

Eu estava indo.

Notas finais
Espero vocês nos comments
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.