Lumos Solem

23 Capítulo XXI


Notas iniciais
Demorou para chegar o domingo?

— Percebo agora o que fiz de errado… — Pasca disse referindo-se às suas mãos no cabelo de Sirius. — Não vou fazer de novo. Prometo.

Enquanto ela falava, dava passos vacilantes na direção dele. Sirius sentia um impulso enorme de se chocar contra ela novamente, sua razão esperneava gritando para ele se afastar, que aquilo já fora demais. Era raro ele escutar essa parte dele, a parte que dizia coisas sensatas, mas dessa vez ele escutou.

— Não posso. — Ele murmurou e transformou-se em cão antes de sair da sala.

Pasca o observou correndo em quatro patas no corredor do lado de fora da sala. Ela saiu depois de alguns minutos, batendo a porta com um estrondo, chamando a atenção de ninguém.

Jogou o peso do corpo na cama do dormitório e alguns minutos depois, Felicitchi Rios adentrou o quarto, levemente bêbada.

— Iiih, a sua noite não deu certo. — Ela disse com uma careta.

— Podemos dizer isso. — Pasca disse com os pés no travesseiro.

— O que aconteceu com o seu namoradinho? — Ela perguntou tirando as botas de salto.

Pasca tinha encoberto a parte que ela estava saindo com dois garotos — aparentemente -, não queria ficar mal falada.

— Ele… fugiu? — Pasca disse.

— Mas o seu cabelo está tão bonito hoje! — Felicitchi disse como se aquilo fosse um argumento para um encontro perfeito.

Pasca riu com ironia. — Um penteado completamente desperdiçado.

“Até porque ele nem viu.”, Pasca pensou, enganada, revirando os olhos. Felicitchi fez um beicinho de pena e a ofereceu seu cantil prateado. Pasca aceitou relutante e deixou o Xarope de Cereja enjoadamente doce escorrer por sua garganta enquanto escutava o uivar de um cão do outro lado da Floresta Proibida.

Sirius correu sem direção depois de sair da Sala Precisa, espairecendo as ideias e deixando o nervosismo passar. Suas pernas corriam tão depressa que parar parecia impossível, seu fôlego aparentava perto de acabar o tempo todo, mas nunca terminava.

A lua estava alta no céu quando ele diminuiu a corrida, ele estava em um leve trote quando parou e olhou ao redor.

Esta era a sua forma de meditação. Levando em conta a respiração das pessoas que meditam, aquilo tinha sentido. Sua concentração estava toda em correr, não tropeçar, respirar, inspirar, expirar, inspirar, expirar, inspirar, expirar, inspirar, expirar. Sua mente era limpa, focada, centrada, nenhum sinal de cachos dourados.

Sirius olhou ao redor e era só floresta, ele sabia que estava na Floresta Proibida e não sentia medo. Ele sentou nas patas traseiras e uivou na direção da lua. Levantou-se e transformou-se novamente em homem. Não teve que esperar muito, seus amigos vieram correndo em suas formas animais. James com Lupin nas costas e alguns instantes depois Pettigrew surgiu de algum buraquinho do chão.

— Sirius, você está se estressando à toa. E olha que sou eu que estou falando isso. — Lupin disse.

James assentiu em sua forma de cervo.

— Você deveria estar se concentrando no encontro com a Pasca amanhã, quando você não precisará omitir nada dela.

— Isso me preocupa também. — Sirius disse encarando o rato sentado ao seu lado na pedra. — Hoje... Quando eu a beijei… Foi ótimo. Foi muito melhor do que… com qualquer outra garota. Talvez isso tenha sido só porque nunca tive que esperar tanto, mas a questão é que… eu quero repetir.

— E daí?

— E daí, Lupin, que não há chances de ela não perceber que é a mesma pessoa. — Sirius disse ansioso, remexendo o cabelo.

— Hum… — Lupin murmurou.

James remexeu-se, seu corpo reduziu-se, o cervo ficou ereto nas duas patas traseiras. O pelo sumiu e no lugar vieram suas roupas, os cascos se dividiram em dedos e a galhada desapareceu, substituída pelo cabelo bagunçado de sempre.

— Você pode fumar aqueles cigarros fedorentos que você fumava um tempo atrás! — James disse com metade da voz ainda alterada pela transformação.

— Na verdade eu realmente sinto falta deles… É uma boa ideia! — O garoto exclamou saltando da pedra.

— E eles não são fedorentos… — Sirius disse. — São mágicos. Ótima ideia, James!

— Não diga como se fosse raro.



A manhã seguinte foi calma para o chão de pedra de Hogwarts. Poucos alunos acordaram cedo para comer mingau de aveia, tomar chocolate quente e passear nos jardins gelados. O clima e as provas cansativas da semana contribuíram para tal feito.

Porém, Pasca estava desperta desde cedo. Alguns goles de Xarope de Cereja, licor altamente alcoólico, foram o suficiente para nocauteá-la nas cobertas amarelas e pretas. Agora, horas depois, ela ainda estava com a dor de cabeça de quando acordara.

De pantufas e moletom, ela esperava deitada em um dos sofás com um bule de chá.

— Como vai a sua cabeça? — Felicitchi perguntou às 11h, descendo as escadas para o Salão Comunal da Lufa-Lufa.

— Provavelmente melhor que a sua. — Pasca disse depois de conferir que Felicitchi falava com ela.

Felicitchi deu um riso contido.

— Já tomei três poções diferentes e nada faz passar. — Pasca disse.

— Ah, novata em Xarope de Cereja… Tem que ser isso aqui. — Felicitchi deu um comprimido com um pó lavanda dentro da cápsula.

Pasca sentou-se e serviu-se de mais chá. Felicitchi suspirou e pegou o bule. As duas brindaram o bule contra a xícara sem nada dizer e engoliram o comprimido com a ajuda do chá.

— Quais são seus planos de hoje? — Felicitchi perguntou depois de sentar ao lado de Pasca. — Tem uma festa maneira no Salão Comunal da Grifinória. Todo mundo vai ter que usar máscaras. — Felicitchi disse sorrindo animada, seus ombros fazendo uma dancinha.

Pasca já se sentia melhor, com a cabeça mais fresca.

— Tenho um encontro hoje. — Pasca disse sem pensar e viu os olhos escuros de Felicitchi aumentarem.

— Outro cara?

— Não… O mesmo. — Pasca deu um gole no chá, fingindo naturalidade. — Ele me mandou uma carta hoje. Eu a queimei porque estava muito irritada, mas depois decidi ir. — Pasca emendou rapidamente, criando uma história sem provas.

— Humm. — Felicitchi acomodou-se no sofá, levando as costas contra as dezenas de almofadas, enquanto bebericava o chá no bule. — Muito… Generoso de sua parte dar mais uma chance para ele.

— É, com certeza. — Pasca imitou Felicitchi.



A tarde não demorou a chegar e Pasca estava ansiosa, não sabia para onde iriam, o que vestir… O tempo que fazia que ela não se interessava por ninguém como se interessava por Sirius… E por dois caras ao mesmo tempo… Esse pensamento a fez sentar na cama com somente uma toalha ao redor do corpo e uma na cabeça. Suas mãos começavam a suar. Será que nos beijaremos?, ela pensou tocando os lábios com as pontas dos dedos.

Sua gata, Theo, aproximou-se ronronando. Pasca deu um meio sorriso para o bichano, passando seus dedos em seu pêlo fofinho.

A loira pegou um pedaço de pergaminho e um pena, onde escreveu de qualquer jeito o seguinte:

Acho que preciso de ajuda?

Estou no quarto.

—P.V.

Ela amarrou o bilhete na coleira de Theo e sussurrou em sua orelha: — Procure Rachel e Torry.

Poucos instantes depois as suas amigas estavam no quarto de Pasca observando as roupas no armário da garota.

— Esse aqui é legal! — Rachel disse para um vestido muito curto de tecido preto.

— Rachel, está fazendo 2ºC. — Pasca disse.

Rachel deu de ombros e continuou a procurar.

— Tá, isso aqui, é isso aqui. — Torry disse combinando algumas opções em cima da cama de Pasca.

Era uma camisa curta com mangas compridas em um tom de azul claro, com uma torção elegante no meio que concedia um decote bonito. Torry escolhera uma calça preta de cintura bem alta, de forma que deixava só uma parte da cintura de Pasca exposta. Ela também havia selecionado botas pretas de saltos altos e quadrados e por cima de tudo, o sobretudo caramelo.

Do lado de fora da Sala Comunal, ao lado dos barris, Sirius esperava Pasca sair com o mapa em mãos, observando seu borrão de tinta remexer-se na sala.

Ele tinha que admitir estar nervoso. Seu coração estava desconfortavelmente agitado no peito e suas mãos suavam. Suas mãos nunca suavam. Mas estavam suando agora.

Mas quando Pasca saiu do Salão e quase tropeçou ao vê-lo, ele lembrou porque valia a pena ter suas mãos suadas.

— Boa tarde. — Ele disse.

— Oi! — Ela respondeu muito surpresa, o que trouxe um sorriso para seus lábios.

— Nós vamos indo então! Vou levar essa mocinha para comer uma torta. — Rachel disse entrelaçando seu braço ao de Torry, que deu um grande sorriso surpreso com sobrancelhas altas.

Pasca riu, seus cachos balançaram. Ele percebeu que ela estava usando o cabelo de um jeito diferente e seu rosto ficava muito bonito, o penteado era elegante com alguns cachos presos na parte detrás da cabeça e outros soltos na frente.Também percebeu o decote bem decorado e a calça justa, evidenciando locais que ele só pensara.

— Onde vamos? — Ela perguntou.

— Surpresa. — Ele disse com as bochechas vermelhas cobertas pelas sombras do corredor.

Ela arqueou as sobrancelhas.

— É sempre surpresa com você, né? — Ela perguntou retoricamente.

— Você nem imagina. — Ele murmurou virando-se para saírem da entrada da Sala Comunal.

Sirius também havia passado um bom tempo pensando em que roupas usaria. Não tinha chamado seus amigos, achara que seria ridículo. No final, optou pelo casaco de couro fosco, camisa até os punhos carmim e calças e coturnos negros.

— Como sabia onde eu estava? — Ela perguntou caminhando ao lado dele, seus saltos fazendo clap clap.

Sirius apenas levantou o mapa.

— Claro. — Ela disse sem surpresa.

— Como foram as provas? — Ele perguntou guiando o caminho.

— Acho que bem. — Respondeu dando de ombros, tentando demonstrar naturalidade que ele sabia que não era verdadeira.

— Espero que sim. Demorou muito tempo para nos vermos. — Ele disse olhando para ela.

Sirius a levava em uma direção que ela não conhecia, podia ver que ela o estava seguindo completamente, sem noção de que entrariam em mais um atalho escondido.

— Isso não te impediu de me ver. E me distrair. — Ela disse tentando não ser afetada pelo flerte.

— Eu te distraio? — Ele perguntou enquanto eles viravam uma direita, ainda olhando para ela.

— O céu é azul? — Ela murmurou.

Sirius riu, tocando com o cotovelo uma das milhões de pedras da parede. Uma aldrava com cabeça de leão apareceu. Pasca arfou, dando um passo para trás.

— Realmente não sei mais porque me surpreendo.

Sirius deu de ombros com um sorriso maroto e abriu a porta, fazendo um sinal cortez para ela ir seguir na frente, ele olhou ao redor antes de entrar e fechou a porta. O lugar era um breu antes da porta ser fechada.

— Como vocês conhecem todos essas passagens secretas? — Pasca sussurrou.

Sirius demorou um instante para responder, ocupado fazendo a aldrava sumir dos dois lados da passagem.

— Bom, — ele disse com a voz na altura natural — nos especializamos nisso.

Ele pousou a mão nas costas dela, o que a fez arfar de susto novamente. Sirius sorriu, e continuou a andar, o que ela imitou, agora sendo guiada por ele.

— Algumas pessoas vêm aqui para estudar poções, outras aprendem que gostam de transfigurações, nós gostamos de tudo. E todas as matérias são necessárias para entender o castelo, então uma coisa levou à outra. — Sirius disse.

— Qual foi a primeira coisa que vocês encontraram? — Pasca perguntou.

Sirius refletiu sobre a pergunta. Primeiro na causa da pergunta, depois no que teria sido.

— O espelho de Ojesed. — Sirius respondeu de uma vez, sem lembrar de pensar em porque ela perguntaria aquilo.

— O que é isso?

— É um espelho que reflete seus desejos. — Sirius disse. — “Ojesed”. “Desejo” ao contrário.

— E o que você deseja? — Pasca perguntou sem pensar.

O coração de Sirius errou um compasso. A resposta era clara. Ela estava bem ali.

Ele olhou na direção dela, era a única coisa que conseguia ver no caminho, sendo aquele corredor enfeitiçado para ter total escuridão, mas mesmo que não fosse, ele não tinha certeza se veria algo mais.

Sirius parou de andar, Pasca fez o mesmo, imitando. O garoto levantou a mão direita e tateou a parede a sua frente, aquela que Pasca não sabia que estava ali, e empurrou a pedra, outra aljava se prontificou a ser puxada.

— Chegamos.

Do outro lado da porta havia a Aldeia de Hogsmeade. Pasca deixou o ar escapar e Sirius soltou mais um de seus sorrisos.

— Você sabe aparatar? — Sirius perguntou a puxando pela mão e fechando a porta rapidamente. — Pasca, resposta rápida. Não podemos ser vistos aqui.

— N-Não.

— Ok, então outra estratégia. — Ele disse a conduzindo para uma casinha afastada em cima de um morro. — Varinha na mão, sim?

Pasca assentiu, tirando a varinha do sobretudo.

— Por que tudo tem que ser perigoso com você?

— É mais divertido depois que passa. — Ele disse virando para ela e piscando.

Pasca engoliu em seco e permaneceu quieta. Eles não tiveram que caminhar por muito tempo, a passagem secreta era bem próxima da casa.

Sirius olhou ao redor antes de pular a cerca.

— Vem cá. — Ele a chamou com as mãos, pedindo para ela se aproximar.

Sirius enlaçou sua cintura e Pasca deu um impulso, ele a segurou e perpassou-a por cima da cerca. Ela pousou bem próxima a ele, suas mãos ainda em seus ombros, as dele em sua cintura, seu peito contra o dele. Pasca ainda estava ofegante quando ele olhou em volta e a puxou pela mão. Agora não, agora não. Perigo, perigo, ele pensava tentando não se distrair.

Sirius soltou a mão de Pasca e jogou seu ombro contra a porta.

— Essa não é aquela casa com fantasmas? — Pasca indagou ligeiramente assustada.

Sirius voltou-se para ela. Ele estava esperando que ela não percebesse, essa era a conexão que ele não queria que ela fizesse.

— Não é verdade. — Ele falou sem olhar para ela. — Não é verdade que tem fantasmas aqui.

Ele fechou a porta atrás deles e rumou escadas abaixo.

Pasca olhava a decoração tenebrosa do lugar com atenção. Havia marcas de unhas e dentes em todos os móveis. Eles não pareciam muito velhos, mas estavam tremendamente desgastados pelo o que quer que tenha passado por ali.

— Pasca? — Sirius chamou do andar debaixo e ela seguiu sua voz.

— Uau. — Ela disse com menos entusiasmo e mais nervosismo.

Sirius estava em cima de uma moto de aparência pesada em uma garagem. O portão da garagem já estava aberto e o moreno estava com a mão estendida.

— Está com medo? — Ele perguntou baixo, mas ela escutou perfeitamente, apesar do motor ligado.

— Sim.

— Confie em mim. — Ele disse de forma sedutora, o que a levou a segurar sua mão e montar na moto, apertando seus braços ao redor da cintura dele.

Notas finais
Olar, leitores! O que acharam do início do primeiro encontro do Sirius e da Pasca? Este era para ser O capítulo do encontro, mas ia ficar maior do que já tá, então deixamos o final para o próximo! Tenho uma surpresa muito interessante tanto para vocês, quanto para a Pasca! Até quarta e comentem! Digam-me o que estão achando ♥