Lumos Solem
9 Capítulo IX
Notas iniciais
Pasca ficara pensando na causa da partida estranha de Sirius. Teria sido algo que ela dissera? Teria sido presa? Ela achara um pouco estranho como Sirius viera falar com ela como se eles já se conhecessem, como se conversassem durante as aulas ou sobre as aulas. Não tinha certeza se ele Black estava flertando com ela, mas se estava, não era como se ela estivesse desgostosa.
— Garotos são problema. — Disse Rachel, assumida lésbica. — Se ele vai ficar dificultando as coisas, não vale a pena.
As duas estavam sentadas com as costas contra uma árvore no jardim. Elas tinham aquele tempo livre como alguns outros jovens ao redor delas.
Havia se passado uma noite depois do esbarrão dos dois e agora ela comentara com Rachel de forma casual, pelo menos Pasca achava que tinha sido.
— Eu não estou preocupada! É só que… tem alguma coisa nele. Mas não estou preocupada.
Rachel observava Pasca com os olhos semicerrados e as sobrancelhas franzidas.
— E o animago? — Rachel indagou.
— O que tem? — De repente a barra da saia de Pasca tornou-se muito interessante.
— Progresso?
— Deixei pra lá. Não é importante. — Ela deu de ombros. — Como estão seus pais?
Os pais de Rachel eram puro sangue, porém, ao contrário da maioria, eram completamente contra Voldemort e à favor dos direitos dos trouxas. Eles faziam questão de deixar esse fato bem claro, aliás. Durante as férias, sua família fora atacada em uma padaria. Inclusive, era incrível como os estudantes de Hogwarts ainda tivessem Hogsmeade para ir, apesar do tempo cortado pela metade.
Muitos pais não permitiram a vinda dos alunos para Hogwarts, com medo do pior. Porém, os pais de Pasca e de Rachel achavam que não havia lugar mais seguro, apesar dos pais de Pasca não gostarem muito de Dumbledore.
— Finalmente dando um tempo nas manifestações. — Rachel suspirou.
A ruiva era completamente à favor da luta dos pais, porém, teve que admitir que ficara um pouco assustada depois de alguns ataques à aliados.
Alguns passos de onde as meninas estavam, James, Lupin, Pettigrew e, claro, Sirius. Os quatro Marotos conversavam sobre coisas triviais. Lupin transformava o ar em borboletas coloridas, Pettigrew observava com admiração, contado uma história, enquanto James passava um Pomo de Ouro de uma mão para a outra e Sirius olhava para as nuvens, as duas mãos nos bolsos.
— E aí Carol McLaren fez um pássaro enorme azul! Foi uma mágica bem avançada! — Acabou de contar sobre a aula de Transfiguração.
Sirius e James se entreolharam.
— E você percebeu que era afim dela quando? — Sirius disse de forma casual.
— Final do semestre passado… Espera aí, o que?? Não gosto dela! — Pettigrew tentou desesperadamente.
Eles riram em sinfonia. Até Remo riu, logo ele que estava chegando perto da lua cheia. Seu rosto já tomava as mudanças da doença: a pele pálida, suas cicatrizes mais rosadas, o cabelo mais fraco e seu humor menos alegre.
Mas ele estava mais contente com a chegada das chuvas e do frio. Os alunos de Hogwarts já começavam a tirar seus coletes de lã dos baús, e as capas não eram mais o aborrecimento que se tornaram durante o verão.
E na mesma rapidez a qual o verão passava, a semana se foi e Pasca não pensava na conversa com Sirius e sim no encontro com o cão.
No sábado de Hogsmeade, Pasca calçou suas botas de couro marrom que acalçavam seus joelhos e uma camisa branca. Antes de sair porta afora, pegou a mochila onde a capa estava e o casaco caramelo de camurça.
Suas colegas de quarto se entreolharam.
— Onde vai assim? Tem um encontro? — Mary McJenkins perguntou.
Pasca sorriu.
Mary era uma das estudantes mais fofoqueiras de Hogwarts.
— Algo assim. — Pasca respondeu fechando a porta.
Apesar de Sirius se comprometer em não revelar sua real identidade — e acreditar em seu próprio comprometimento -, nada o impediu de se arrumar antes de sair.
No banheiro, ele penteou os cabelos negros e lustrosos com a escova de Pettigrew — coisa que nunca fazia — e encarou seu próprio reflexo por um tempo, por fim colocou o cabelo atrás da orelha e percebeu que seria a opção segura tirar o brinco. Ele optou por suas roupas usuais: o casaco de couro preto, camisa preta e jeans escuro. E adicionou um lenço azul ao redor do pescoço. A chateação do outro dia já perdida no tempo.
— Que gatão! — James assobiou para Sirius.
Black soltou um riso entredentes enquanto fazia uma pirueta.
— Estou indo resgatar sua capa.
E saiu porta afora.
— Só isso? — James murmurou como piada para Lupin e Pettigrew.
Sirius rumou para o vilarejo, as mãos nos bolsos do casaco, e alguns minutos atrás estava Pasca. Ele estava encostado em uma das portas de uma das lojas fechadas de Hogsmeade quando ela passou em sua frente. Com a varinha na mão, ele fazia grama nascer entre os paralelepípedos do chão.
Sirius tomou um passo para a direita e para trás, se escondendo em um beco. Nas sombras, ele tentou novamente o feitiço Camananin Visibelis. Murmurou o encantamento e do jeito certo, dessa vez, uma grossa camada de clara pareceu cobrir-lo da cabeça até os pés.
Sirius olhou para si mesmo e ficou maravilhado em como o feitiço era útil. Ele seguiu Pasca há uma rua de distância, por precaução.
Enquanto isso, ela pensava em como eles deveriam ter combinado um ponto de encontro. Continua caminhando em direção a floresta do outro lado do vilarejo, sua pulsação já alterada por causa do passeio.
Quando Sirius percebeu o plano, ele correu na frente, buscando maior distância, e tomara a forma de cachorro ao mesmo instante que os pés de Pasca chegavam à clareira distante do vilarejo.
Sirius estava sentado ao lado de uma árvore, a menina sorriu e caminhou na direção do cachorro com o lenço azul ao redor do pescoço. Ela se sentiu um pouco boba em falar, já que sabia que ele não responderia, mas o fez de qualquer jeito.
Sirius assentiu com a cabeça, em uma forma de cumprimento.
— Não convivi com muitos animagos. — Ela disse colocando o peso do corpo na perna direita. — Professora McGonagall é a única.
Sirius piscou, esperando o objetivo dela falando aquilo.
— Imagino que você esteja em Hogwarts. — Ela continuou.
Sirius assentiu uma vez.
— E que esteja no meu ano ou no último.
Sirius a encarou.
— Se fazendo de difícil, né? Certo...
Ela sentou-se na frente de Sirius com agilidade. Ele se aproximou dela e apontou para o próprio lenço com o focinho.
— Você quer que eu te elogie? — Ela brincou. — É uma cor ousada para um cão.
Ele repetiu o movimento, ela puxou o lenço e olhou para ele, esperando mais instruções. Ele fez um gesto com a cabeça com quem diz “continue”. Pasca desembrulhou o lenço em seu colo e havia alguns bilhetes numerados.
A garota levantou seus olhos para o cão, a cabeça ainda inclinada para baixo, que repetiu o gesto de “continue”. Pasca pegou o primeiro bilhete e abriu:
“Capa?”, ela riu.
— Nem um pouco sutil, não? — Ela disse olhando para Sirius.
Sirius negou com a cabeça. Pasca retirou a capa da mochila e colocou em seu colo. Sirius suspirou de alívio e deitou-se em posição de esfinge.
— Agora que você confia um pouco mais em mim… Você é do mesmo ano de Hogwarts que eu?
Sirius hesitou em balançar a cabeça afirmamente e ficou imóvel.
— Certo, certo… Mesma casa? — Ela tentou.
Ele permaneceu imóvel, o que fez Pasca suspirar.
— Os meus pais não. — Ela disse depois de um tempo em silêncio. — Eles eram da Sonserina em seus anos de Hogwarts. E seguem muitos princípios da maior parte dos alunos de lá.
Sirius pareceu interessado, então Pasca prosseguiu. Ela contou a ele sobre seus pais e sobre o que achavam de Voldemort e contou também de como sua amiga, Rachel, e sua família estavam em perigo. Também disse que os pais dela não aprovavam Dumbledore, mas como ela própria achava que ele era o melhor diretor que Hogwarts já tivera e disse que comparara-o com os outros de “Hogwarts, Uma História” e contou para ele algumas coisas do livro — depois de se certificar que ele não havia lido. Pasca contou várias coisas sobre os Lufanos… Falou sobre como muitas vezes eles se sentiam sozinhos e como mais ainda ela se sentia sozinha, já que seus amigos pertenciam a Sonserina e que eram julgados.
— Eles não têm ótimos exemplos por aí. E sempre acham que todos eles são suspeitos!
Durante esse breve discurso Sirius produziu vários sons, como se quisesse argumentar. Pasca os tomou da forma correta e argumentou contra o que ela achava que ele diria.
Eles continuaram a conversa unilateral até o dia já escuro começar a escurecer cada vez mais.
— Olha a hora! — Ela exclamou levantando-se e colocando a mochila nas costas.
Sirius chorou para chamar sua atenção e apontou para os bilhetes com o focinho.
— Certo, qual eu abro? — Ela agachou em frente ao lenço.
Sirius bateu a pata duas vezes no chão e Pasca riu, abrindo o pedaço de papel com um 2 feito à pena.
“Depois de amanhã? De manhã?”
Ela ficou levemente ruborizada com o rápido pensamento de que ele já havia escrito aquilo antes da conversa deles.
— Sim. — Ela balançou a cabeça afirmamente.
Sirius bateu a pata três vezes.
“Sala dos monitores. Uma hora antes do café da manhã.”
Pasca assentiu e amarrou o lenço no pescoço de Sirius, a capa da invisibilidade embrulhada dentro do lenço.
Sirius virou-se e saiu correndo em direção a algum lugar que Pasca não conhecia. E segunda-feira de manhã eles se encontraram e Pasca contou algumas coisas sobre seus amigos e fez mais perguntas de “sim ou não” para Sirius, que respondeu mais naturalmente.
Só que havia perguntas que não eram de “sim ou não” ou mereciam um complemento e Sirius queria tanto responder… Ele começou a pensar em formas que eles pudessem realmente conversar, mas só uma ideia era realmente verossímil.
— Você sabe como isso pode ser perigoso, certo? — Disse Lily.
Sirius e Lilian caminhavam atrás de James, Lupin e Peter, esse era o único tempo livre que todos compartilhavam.
— Ela não é perigosa. — Sirius disse dando de ombros.
Lily riu balançando a cabeça.
— Se segure, cara, vocês se viram umas três vezes.
Sirius corou levemente.
— Parece que eu conheço ela faz tempo, na verdade.
— Quando vocês vão se ver de novo? — Lily perguntou.
— Amanhã. Temos um tempo livre em comum. — Disse Sirius e lembrou como tinha sido difícil comunicar “eu também tenho esse tempo livre” sem ter como falar ou apontar com dedos.
— Se vendo quase todos os dias, né. — Ela provocou, um dedo comprido cutucando sua costela. — Tá afim dela, né?
— Como você está insinuando… é muito cedo para dizer. — Sirius revirou os olhos com um pequeno sorriso em seus lábios.
Lily sorriu também e enrolou seu braço ao dele de forma carinhosa. Ela gostava da quantidade de sorrisos que Sirius distribuía recentemente. Enquanto isso, ele pensava no sorriso de Pasca e no final de semana que eles se veriam.
E como esses dias demoraram para chegar… Todo o furor dos últimos dias impediu Sirius de se concentrar nos dias mais longínquos do calendário. Seria lua cheia naquela sexta e ele só notou quando James o impediu de ir para o quarto.
— Vamos, Casa dos Gritos. — Ele disse, a mochila nos ombros.
Sirius encarou James por alguns instantes antes de cobrir o rosto com as mãos e fazer um som gutural. Os outros Marotos encararam Sirius e sem querer revelar que encontraria logo mais com Pasca, ele os seguiu, rumo à casa mal assombrada.
E no dia seguinte, Pasca se encontraria sozinha em frente à uma árvore, com um bilhete nas mãos.
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