Lumos! Interativa
13 Em meio à tormenta.
Notas iniciais
Katherine não era a pessoa mais paciente do mundo, sem sombra de dúvida. E aquilo estava demorando demais pra terminar. Em contra partida, ainda estava entusiasmada com a adrenalina daquele pequeno joguinho. O time defensivo estava dando um desafio a altura dela, não esperava menos de Cateline. Ela poderia até mesmo dar-se por satisfeita só por participar de um passatempo tão divertido, ignorando o fato de que detestava perder… ainda mais para os poucos sangues ruins do outro lado.
Não… definitivamente, perder não era uma opção! Em que diabos ela estava pensando, afinal?
Irritadiça, desviou de um feitiço ofensivo que foi atirado sobre ela e rolou para ficar novamente ao lado de Charlottie, que havia parado de atacar e agora mantinha os lábios cerrados, os olhos estreitos, obviamente traçando alguma estratégia para vencer. — E então, o que vai ser?
— Perdão?
— Você é a estrategista aqui, e se não reparou, estamos perdendo… tipo, ridiculamente!
— Eu diria que estamos indo bem. — calmamente, ela arqueou uma sobrancelha. Passara por sua cabeça dizer que estavam empatados, mas naquela situação, isso soaria errado. Eles só empatariam se alguém de seu time ao menos conseguisse acertar o garoto. O problema era que o pessoal do outro lado estava levando as coisas realmente a sério, e não pareciam dispostos a entregar Glen sem uma boa briga. — Ainda temos tempo.
Katherine desviou o olhar para a ampulheta, bufando. Havia se passado mais de meia hora. — Não muito. Já estou ficando cansada, e a resistência de Cateline é infernal. Quanto mais demorarmos, pior vai ser para nós.
— Precisamos de uma abertura… — a grifinória mordeu o lábio inferior. — Vamos trocar de alvo… Crê que pode atrapalhar Ian?
— Ora, com quem você pensa que está falando, garota? — a resposta foi dita com um ar de deboche inconfundível. — Vai ser fácil vencer aquele panaca, ainda mais porque ele não tira os olhos de você… e das outras garotas, claro.
Lottie ignorou a zombaria. — Exatamente por isso, ele está concentrado demais em bloquear-me. Contudo, se conseguir tirar sua atenção de mim, poderei atacar Cateline diretamente.
— E você acha que é páreo para ela?
— Terei essa resposta em breve. — ela apertou com mais força a varinha entre os dedos e endireitou o corpo, fazendo um sinal para outros dois membros do seu time atacarem. Para ser bem sincera consigo mesma, Charlottie não tinha certeza alguma. A sonserina tinha uma experiência apavorante, que só poderia ser conseguida de duas formas: ou com um esforço hercúleo, ou com um treinamento absurdamente puxado. De qualquer forma, era assustador imaginar o quanto Cateline havia precisado dar em troca de sua atual força, tanto mágica quanto física. O máximo que Lottie poderia fazer era utilizar-se de seu pensamento rápido e sua inteligência para dobrá-la… considerando que Katherine conseguiria tirar Ian de seu caminho tempo necessário para fazê-lo.
— Algo vem ai. — murmurou Connor, sem tirar os olhos da briga. Seus dedos remexiam-se inquietos dentro dos bolsos. Max parecia meio nervoso com cada feitiço lançado contra Glen, solidário ao garoto.
— O que você quer dizer?
— Lottie ficou séria.
— Eu não quero nem ver. — apesar de dizer isso, seus olhos escuros mantiveram-se bem abertos. — Na verdade, eu quero sim. Isso está tão interessante… dava para escrever uma epopeia baseada nesse pessoal.
— Agora você está, definitivamente, viajando. — Connor deu-lhe um peteleco na testa. — Pare de dizer essas asneiras.
— Eu acho que daria uma história maravilhosa, Max! — Intrometendo-se na conversa, Alana levou um punho ao coração, os olhos brilhando. — Eu consigo sentir a paixão, e…
— Francamente, vocês estão aleatórios demais. — o esgar de Connor passou despercebido, porque logo em seguida Katherine cortara o campo em alta velocidade, arremetendo-se contra Ian numa descarga de raios verdes. Ele reagiu lançando ainda mais fagulhas, rubras, e logo os dois estavam em um duelo tão focado – e eletrizante – que os outros participantes do jogo precisaram afastar-se para não serem acertados por uma azaração perdida.
— Meu Deus, eles vão ficar bem? — Anastácia parecia horrorizada, levando as mãos aos lábios, temendo que aquilo saísse do controle. Se tratando daqueles dois pavios curtos, não duvidava que pudessem se machucar de verdade. Helga, mais do que rapidamente, tentou tranquilizá-la.
— Ah, sem sombra de dúvida, apenas deixe-os extravasar. Sala vai dar uma lição neles se passarem do limite.
— Er… — a jovem suspirou, encolhendo os ombros. — Não é bem com isso que estou preocupada.
— Apenas relaxe e aproveite o show, tudo vai ficar bem!
Estreitando os olhos, ela apenas assentiu com a cabeça. Talvez Helga tivesse razão, afinal. Não que saber disso a deixasse mais tranquila, muito pelo contrário…
Cateline viu a amiga chocar-se com Ian, o que foi surpreendente num primeiro momento, afinal ela era seu alvo principal desde o começo da partida. Tão acostumada a ouvir seu instinto bélico, não demorou muito para que associa-se aquilo a uma distração. De fato, viu quando dois alunos do ataque lançaram-se em sua direção ao mesmo tempo, com a trajetória em arco, visando capturar o aborto atrás de si. Com o parceiro da Grifinória focado em outro ponto, só restava ela no círculo interno de defesa, já que a maior parte dos colegas estavam preocupados em bloquear as conjurações à longa distância.
Pensando rápido, ela deu um passo para trás, ficando ao lado de Glen e usando um feitiço de escudo para repelir a azaração do rapaz que vinha a sua direita. Pela esquerda, chegava alguém para tentar tirar o aborto da escolta, mas quando estava prestes a agarrá-lo, recebeu um potente pisão no pé por parte de sua presa, e mais uma chave de pescoço de Cat, que acabava de girar o corpo para agarrá-lo. Sem soltar a pegada, balançou uma vez mais a varinha na direção do primeiro rapaz e deixou-o paralisado. — Muito inteligente da parte de vocês, mas vão precisar fazer melhor! — ela empurrou o menino que mantinha preso para longe, visando alvejá-lo também, mas ele conseguiu bloquear a tempo. Piscou um dos olhos para seu protegido. — Bela pisada, Senhor Bom em Nada.
— Belos reflexos. — respondeu por sua vez Glen, limpando a testa com as costas da mão. — Ainda falta… muito tempo?
— Ahn… sim, um pouco, talvez?
— Nada animador.
— Fique frio… logo você estará a salvo no seu quartinho escuro e… — calou-se, puxando-o para trás de si no último segundo. Glen já estava meio cansado de ser puxado de um lado para o outro como se fosse uma boneca de trapos – ainda mais pelo time que deveria defendê-lo, e não ajudar a exauri-lo – mas se pensara em protestar, desistiu. Seus olhos esbugalharam-se ao reparar que Cateline, incapaz de responder com um contrafeitiço, recebera a azaração ferreteante em seu próprio corpo.
E de alguém que, teoricamente, deveria estar do lado deles.
Edith era uma grifinória, uma das que não tinham gostado muito daquela ideia de correr de um lado a outro por uma hora inteira, ainda mais para manter a salvo o jovem zelador do colégio. Em sua cabeça, haviam aulas muito mais produtivas e coisas muito mais úteis a se fazer em vez de ficar ali, e quanto mais cedo os atacantes se apoderassem de sua caça, melhor seria.
Ela era a traidora que Lottie e mais alguns julgaram que surgiria.
— Edith… — a expressão de ironia habitual de Cateline havia se desfeito, parte por causa do feitiço que desfigurara sua face, parte porque aquilo a irritara de verdade. Acertar ela era uma coisa, vencê-la era probabilidade, afinal em um jogo pode-se ganhar ou perder… mas traí-la? Ah… isso a sonserina definitivamente não aceitaria. — O que foi? Está tão cansada a ponto de entregar os pontos, ou está apenas sendo uma cretina por falta de coisa melhor pra fazer?
— Você está levando isso a sério demais, que ridículo. Dê logo esse garoto para eles, assim podemos terminar essa partida idiota e começar a fazer algo realmente útil.
Cat não tinha certeza se os espectadores podiam ouvi-las, o caos sonoro que se instaurara ao redor deles era grande, ainda mais vindo do ponto onde Ian e Katherine se digladiavam. Imaginou que Godric não ficaria muito feliz em ouvir aquelas palavras de uma aluna que escolhera a dedo para ficar em sua tutela. Levando em consideração as suas atitudes imprevisíveis, porém, talvez ele tivesse previsto até mesmo aquela situação.
Não importava. Não seria alguém daquele nível que iria lhe dizer o que fazer. — Não mesmo, garota. Sabe o que é? Você deveria ter tentado pedir com educação. Quem sabe assim fosse tomar uma surra menos feia.
A jovem sentiu um calafrio atingi-la ao ouvir isso, e seu corpo agiu sozinho, dando passos para trás. A varinha continuou fixa em sua mão, o que a capacitou para defender os primeiros feitiços que Cat usou contra ela, mas a supremacia da sonserina era óbvia, e em um dado momento Edith foi catapultada para o lado oposto do campo, rolando da maneira mais desengonçada possível até o círculo de observadores. Resmungando uma dúzia de palavrões, a ruiva limpou rapidamente a varinha na manga de seu vestido e passou a mão pelo rosto, retornando gradativamente à sua aparência normal, ao mesmo tempo que a moça era acudida pela enfermeira presente, atestando que não houvera nenhum ferimento.
— Essa gente não aprende nunca…
E então, a última das ofensivas chegou até onde Cateline e Glen estavam. Tão ligeira que mal tiveram tempo de vê-la chegando, quando perceberam já estavam frente a frente com ela, seus olhos inteligentes brilhando com a empolgação, e um rastro de parceiros azarados atrás de si.
Charlottie estava ali, absurdamente perto, e mesmo que Cateline tenha recuperado-se o suficiente para ao menos conseguir segurá-la, a varinha da rival passou por sua defesa e tocou com leveza a testa de Glen, deixando uma marca brilhante bem no seu centro.
E então, o último grão de areia passou pela ampulheta.
Estava finalizado. Quase ao mesmo tempo, todos haviam estacado no lugar, os olhares convergindo para o trio, incertos.
— Empate. — proferiu Godric, fazendo a ampulheta sumir num estalar de dedos, em dúvida se ficava surpreso, satisfeito ou exaltado. — Meus parabéns para ambos os grupos. Vocês foram incríveis. — e, decidindo finalmente que deveria mostrar contentamento, começou a bater uma mão na outra. O resto da plateia lentamente foi se recuperando do estado de letargia que marcava o final da batalha, e o som de palmas foi aumentando na medida que seguiam a atitude do fundador.
Os envolvidos na rixa ainda permaneceram imóveis, entreolhando-se, sem saber como reagir. Charlottie e Cateline só se movimentaram quando a primeira abriu um de seus sorrisos apaziguadores, retornando a uma posição mais confortável, depois de ter o corpo solto pela sonserina. — Eu lamento ter me aproveitado de uma traição para causar um empate. Espero que não esteja chateada. — calma, moveu seus olhos para Glen novamente, inclinando a cabeça. — Peço perdão se o assustei.
Os olhos verdes de Cat se estreitaram e ela suspirou. Depois de pensar por alguns instantes, estendeu uma mão para que Lottie aperta-se. — Sem ressentimentos aqui, Menina Geniosa. Se eu estivesse no seu lugar, teria feito o mesmo. A propósito, foi uma boa jogada, e não é especificamente com você que eu devo ficar chateada. — o sorriso perverso voltou a surgir em sua face. Edith que se cuidasse, não faltava à sonserina vontade ou tempo para infernizar uma pessoa a mais.
— Hum… assustou um pouquinho de nada. — enquanto a outra jovem observava silenciosamente a mão de Cateline, desacostumada que era àqueles gestos comuns de camaradagem, pôde ouvir Glen respondê-la. Apertou o mais firme que conseguiu a mão da amiga e dirigiu ao rapaz um sorriso gentil.
— Não era minha intenção.
— Você estava planejando causar um empate desde o começo? — perguntou Cateline, soltando novamente a mão e pondo-se a arrumar suas vestes o máximo que podia.
— Eu quis ganhar, inicialmente. Tu e Ian… ambos são muito fortes juntos, no entanto. Então considerei que não seria tão ruim se finalizássemos esse exercício como iguais. A insurreição de Edith apenas facilitou o processo.
— Céus, você usa palavras tão formais que às vezes fica difícil de te entender, garota… — ela cruzou os braços, erguendo o olhar para a dupla que aproximava-se deles, já aos berros.
— Ora essa, eu sou muito mais forte que você, sabe bem disso. — retrucava Ian, ao passo que Katherine respondia num tom agudo o bastante para perfurar tímpanos.
— O quê!? Mas é muito arrogante mesmo, acha que é só porque tem esse monte de músculos que é melhor que eu? Quando se trata de magia, queridinho, o que importa é o cérebro. E, advinha, você não tem um!
— Não fui eu que quase explodi nós dois, sua retardada!
— Seu trasgo idiota!
Os dois cessaram a gritaria quando Godric veio até eles e apoiou as mãos em seus ombros, imprimindo certa pressão que se tornava incomoda. Ambos estavam cobertos de uma camada de fuligem, e lançaram olhares homicidas em resposta, ignorando num primeiro momento quem havia segurado-os. O fundador mantinha seu sorriso no rosto, mas havia algo tão assustador brilhando em seus olhos que os dois arrependeram-se amargamente de tê-lo encarado. — Vocês dois estão sendo mais irritantes do que um par de mandrágoras. Se querem tanto duelar, façam isso com as varinhas, não com a boca, por obséquio. Na realidade, evitem começar uma briga, podem acabar se matando.
Ele suspirou, soltando-os e jogando as madeixas rubras para trás, agora voltado para o trio, mais especificamente para Glen. — Parece-me que você aguentou bem.
— Eu não fiz quase nada, senhor… acho que, se estou tão intacto, devo tudo aos meus defensores. — o rapaz estava sem graça, esfregando minimamente a testa, sem saber o que Lottie tinha posto nela. — Tomara que não seja nada permanente.
— Ah, mas você aceitou me ajudar, eu sou gratíssimo por isso. — o professor bateu as palmas das mãos, mantendo-as unidas e fechando os olhos. — E ainda por cima foi um belo espetáculo que tivemos aqui hoje! Vou recompensá-los com uma rodada de cerveja amanteigada em Hogsmead… — deu uma pausa, reabrindo os olhos e franzindo o cenho, pensativamente. — No fim de semana, pelo menos… Ou Rowena vai me matar.
A ideia de um passeio no vilarejo soava deveras agradável, melhorando ainda mais os ânimos daqueles que participaram da contenda – e deixando os que estavam de fora com um tanto de inveja – fazendo com que o empate não parecesse assim tão ruim. Godric espreguiçou-se e pôs-se a caminhar em direção a entrada do castelo novamente, dispensando os alunos, com uma Helga eufórica atrás de si.
— Você realmente tem umas ideias legais… às vezes perigosas, mas muito legais.
— É o que me dizem sempre, Helguinha… — ele piscou para ela, antes que sua expressão anuvia-se. — Eles parecem bem preparados.
O rosto sempre sorridente da fundadora também modificou-se, mostrando tristeza. — Era isso que você esperava conseguir?
— Em parte… queria testar uma teoria, também. — olhando de soslaio os alunos atrás dele, para uma em particular, uma tensão desceu sobre seus ombros. Parecia-lhe que estava carregando o peso do mundo nas costas.
— E conseguiu? — sua parceira imaginava muito bem que teoria era aquela. Era-lhe óbvio que ela ainda não gostava de tratar sobre aquele assunto.
— Eu não sei… gosto do que vejo, mas nem tudo é o que parece.
— Não é seu costume ser tão desconfiado.
— Não é seu costume ser tão melancólica. Ainda assim, estamos tendo essa conversa, não é? — um sorriso triste brotou dos lábios dele, enquanto oferecia o braço para que a outra segura-se, afinal a capacidade de Helga tropeçar no nada sempre existia. — Sinto cheiro de mudança no ar…
— Mudanças nem sempre são ruins.
— Não tenho tanta certeza disso, agora. — a tarde bonita dava lugar a um céu escuro. Choveria em breve, era possível notar os trovões que cortavam as nuvens cinzentas. Quem olhasse para fora, mal poderia cogitar que o firmamento estava tão azul, uma hora atrás. — Vem tempestade por ai.
Do jeito que ele falara, ficara implícito que não estava se referindo a mudança súbita no tempo. Helga assentiu brevemente com a cabeça, sacudindo-a em seguida, numa tentativa inútil de espalhar as ideias. Seus modos confiantes retornaram com força total, e ela apertou um pouco mais forte o braço dele, numa maneira de chamar sua atenção. Os dois se encararam por alguns segundos, antes que ela voltasse a falar. — Seja o que for que venha por ai, podemos enfrentar. Contanto que nos quatro estejamos juntos, podemos lidar com qualquer coisa.
— Verdade… você tem toda a razão. — ele deu uma última olhada para o céu, e então sorriu-lhe de volta.
X-X
Andrômeda entrou na casa dos pais, atravessando a sala, deixando um rastro molhado por onde andava. Os cabelos rebeldes estavam pesados e encharcados, molhando ainda mais o vestido negro que ela usava. A chuva que caía do lado de fora tornara-se torrencial, e mesmo assim ela preferia estar em baixo dela. O frio parecia despertar-lhe para a realidade, forçando-a a aceitar o inevitável.
Ela não era mais uma criança para ficar fantasiando.
Ela tinha noção do que a magia podia ou não fazer.
Ela preferia que os contos de fadas fossem reais, tola garota perdida… os gritos da namorada de Arthur ainda soavam em seus ouvidos, como o choro de uma Banshee, levando-a ao desespero completo. O corpo dele tinha sido bastante maltratado, e o caixão estava fechado desde o velório até o sepultamento. And chorara e brigara para tentar vê-lo, em vão. A caixa de madeira foi jogada na cova, e então soterrada, e a única coisa que sobrou foi a lapide simples, com o nome do irmão e as datas de nascimento e morte.
Se ela tivesse visto seu rosto, talvez sua raiva tivesse amainado. Quem sabe, dessa forma poderia acreditar que estava tudo acabado, que ele nunca mais voltaria, que havia uma pista, qualquer que fosse, para achar quem lhe fizera aquilo.
Ninguém sabia o que de fato tinha acontecido ao rapaz, encontraram seus restos mortais na floresta próxima à vila italiana em que vivia. Cogitaram, pelas marcas, que tivesse sofrido o ataque de algum animal selvagem. A jovem só teve acesso a essa informação quando chegara a presença dos pais, que prefeririam dizer-lhe as condições da morte só então, alegando que estavam poupando-a de uma crise pior.
Pior que saber que o velório já durara três dias e que ela fora a última a saber?
Pior do que nem ao menos ter a chance de despedir-se do irmão de maneira decente, ao menos poder ver seu rosto uma última vez?
Pior do que perder a voz pela segunda vez, enterrando os joelhos na lama, enquanto pedia, implorava para não baixarem o caixão?
Ela não estava em crise, estava histérica, e com toda razão. Por mais mórbido que tenha sido seu desejo, Andrômeda precisava ter noção do que enfrentaria. Ainda achava que não havia sido um acidente, que Arthur não havia meramente se perdido na floresta e encontrado com alguma fera violenta. Ele era seu irmão, era inteligente, e prudente, e não faria algo idiota do tipo.
No abismo entre a tristeza esmagadora e uma fúria desastrosa, a garota adentrou o banheiro, despindo-se e afundando-se na banheira que haviam preparado para ela, quase transbordando de água quente. Não se moveu por um tempo, deixando apenas a cabeça pra fora, apoiada na porcelana impecavelmente branca, os olhos fitando o teto sem realmente vê-lo. Disse para si mesma que não ia mais derramar uma lágrima sequer… era hora de tomar resoluções, não de prantear.
Fácil de falar, difícil fazer, como bem diz o ditado.
A moça só conseguiu colocar-se em movimento quando a água já estava quase fria e sua pele bastante enrugada. Tateou para segurar as vestes que haviam separado para que utiliza-se, encarando-as de mal humor quando notou que eram para ficar em casa. Eram simples e de cor acinzentada, monótona, perfeitas para se usar entre quatro paredes familiares.
Sua intenção não era, nem de longe, pernoitar por lá. Por falta do uniforme de inverno da escola que poderia protegê-la do frio, contudo, decidiu vesti-las assim mesmo, atravessando posteriormente a casa até seu quarto, à procura de um manto ou algo que o valesse, para complementar sua indumentária.
Seus pais viram-na retornar à sala, pronta para sair novamente, os cabelos ainda molhados caindo desengonçadamente sobre seus ombros. Os três se encararam por um tempo, inspecionando-se mutuamente. Seu pai, com a pele bronzeada, as madeixas negras e os olhos azuis, era uma presença controladora, quase opressiva, ainda que tenha acabado de perder seu primogênito. A mãe era seu oposto em todos os sentidos… pálida, loira, de olhos verdes e aparência frágil, submissa.
— Onde você pensa que vai, menina?
— Para Hogwarts. Para a minha escola. Não parece óbvio?
Sua mãe entreabriu os lábios, pronta a dizer algo, mas pareceu pensar melhor. Era sempre assim, ela nunca dizia o que pensava, apenas vivia à sombra do marido, fazendo o que todos mandavam. And sentiu a raiva borbulhar uma vez mais, e fechou as mãos em punhos, as unhas ferindo a carne ao apertá-las, tentando manter a compostura.
— Você não vai. Seu irmão está morto, precisamos de você aqui. Alguns dias longe dos estudos não vão lhe fazer muita falta.
— Muito conveniente usar ele como desculpa, não é mesmo? Vocês não me deixaram vê-lo, me deram a notícia de sua morte três malditos dias depois de terem encontrado-o. — seu tom de voz estava bem mais alto do que o que costumava usar. Ela sempre acabava descontrolada quando tinha que lidar com os pais ou, pelo menos, desde que se lembrava. — E agora, pai, você me vem dizer que eu tenho que ficar aqui porque Arthur morreu? Sério mesmo?
— Você está sendo uma criança imatura, Andrômeda, comporte-se e nos obedeça, uma vez na vida. Não vê como estamos sofrendo? — sua mãe interferiu, o que deixou-a ainda mais zangada que antes.
— Eu também estou sofrendo, droga! E quanto mais eu ficar nessa casa pior vai ser para mim, então ao menos finjam que se importam e deixem-me ir esfriar a cabeça em algum lugar! —as palavras simplesmente jorravam, ela não parecia ter muito controle sobre elas. Exausta, até mesmo um pouco assustada, Andrômeda fez o que sabia fazer de melhor quando estava irritada. Puxou a própria varinha e desaparatou para longe dali…
Quando reapareceu, próxima às cercanias de Hogsmead, acabou desequilibrando e rolando pelo chão, mais uma vez ficando enlameada, as gotas pesadas de chuva batucando freneticamente em sua cabeça. A dor explodira em sua perna direita, assim que aparatara no local, e agora estava com muito receio de procurar pela causa.
Fechou bem a boca para não gritar e esforçou-se para erguer-se sobre os braços, apenas o bastante para que conseguisse virar a cabeça e observar a parte inferior do corpo. Logo que o fez, o berro que estivera lutando para segurar deixou seus lábios. Sua desaparatação descuidada culminara com a perda de um pedaço enorme de sua coxa, a falta de pele e carne chegando até o osso. O sangue vertia da ferida aberta, e a vertigem causada pela perda deste aliada àquela visão fez com que Andrômeda vomitasse tudo o que havia em seu estômago, o que não era muito, levando em consideração que mal comera durante o dia. A cabeça rodou. Nauseada, girou o corpo para o lado, na esperança de livrar a perna machucada para longe das torturantes gotas de chuva. Agora estava de barriga para cima, o rosto sendo lavado pela tormenta e as mãos tateando desesperadamente em busca da varinha perdida. Se não conseguisse enfeitiçar-se para encerrar a hemorragia…
Uma pontada mais forte de dor fez com que joga-se a cabeça para trás, em agonia, e só então conseguiu discernir o objeto que tanto procurava. Deixou escapar outro gemido choroso, estava tão longe… esticou o braço o máximo que podia, seus dedos não encontrando nada além de lama. Precisaria ficar de bruços novamente e rastejar-se para conseguir segurá-lo, mas já estava tão exausta que não conseguiria mover um centímetro a mais que isso.
Oh, céus… por que ela não podia discutir com os pais como uma pessoa normal, por que diabos não se trancara no quarto em prantos como qualquer adolescente com seu nível de rebeldia faria?
Ela fechou os olhos, sentindo o frio penetrar em sua pele e a dor latejar, ainda mais em contato com água das poças abaixo dela. Quando a sua consciência ficou por um tênue fio, conseguiu notar o barulho de algo caminhando por baixo da chuva. Esforçando-se, mais do que nunca para reabrir os olhos, viu então uma luminosidade que se aproximava. Alguns segundos mais tarde, Rowena encarava-a de cima, desconcertada, como se tentasse discernir quem estava ali, no meio de tanta lama e sujeira. Quando reconheceu-a e viu a origem de seu tormento, ajoelhou-se rapidamente para acudi-la, puxando seu corpo para que ficasse ao menos sentada, enlaçando-a em seus braços delicados. — Andrômeda… o que fostes fazer, criança?
Apesar de o tom ser reprovador, ela parecia genuinamente preocupada. A jovem pensou que jamais ficara tão feliz em ver Rowena Ravenclaw antes. Incapaz de falar, só conseguiu ouvir a mulher sussurrando baixinho magias para os primeiros socorros, e então erguendo a voz e uma das mãos, com o lampião que segurava anteriormente – a fonte da luz que chamara a atenção de Andrômeda – de maneira que outra pessoa as encontrasse. — Salazar, encontrei-a! Temos que levá-la imediatamente para um local seco, a menina estrunchou.
Um segundo vulto aproximou-se, a ponta de sua varinha iluminada. Seus olhos não demostravam emoção alguma ao ver a própria aluna naquele estado lastimável. Mesmo assim, ele agachou-se para pegá-la, passando um braço por baixo de suas costas e outro por suas pernas, evitando o local ferido. Quando ergueu-se e ajeitou-se para poder segurá-la melhor, Slytherin voltou a olhar a parceira. — E quanto à outra?
— Apenas carregue-a até Hogsmead, eu vou rondar os arredores uma vez mais e encontro-os lá… — a mulher levantou-se, tentando não escorregar no lamaçal, para logo após afirmar: — Não dá pra procurar ninguém nessa tempestade. Aquela criança escolheu um péssimo dia para sumir.
— Acredito que tenha fugido… contudo, se Ana Lisender puder ser encontrada, nós o faremos. — ele deu as costas à fundadora e começou a andar com passos largos, silenciando-se. Rowena pensara em retrucar algo, então meneou a cabeça e retornou aos seus afazeres, puxando o capuz por cima da cabeça para evitar a chuva.
Andrômeda foi levada até uma hospedaria do vilarejo, num percurso molhado e silencioso. Os donos estavam contentes por ter Salazar em seu estabelecimento, até porque todos sabiam o quanto o fundador era rico, e portanto não corriam o risco de serem passados para trás. O homem pediu por água morna e panos, assim como remédios, e subiu até o quarto. A jovem estava um pouco mais calma, uma parte da dor tinha passado, graças à intervenção de Rowena. Mantinha-se acanhada, no entanto. O professor não era conhecido por ser paciente, muito menos amável. Poderia a qualquer segundo começar um de seus sermões intimidadores, que faziam as pessoas preferirem estar na sala ao lado de um cemtauro furioso.
— Foste impulsiva e imprudente da maneira mais inútil que tenho capacidade de imaginar.
— Eu sei.
— Ótimo. Porque não repetirei.
Vai me deixar pra me afogar na lama, na próxima vez?
Andrômeda refreou a língua. Dizer tal coisa era pedir para sofrer ainda mais, e ela não sabia se suportava mais uma dose de desastre em sua vida. Lembrou a si mesma que aquele era seu mestre – muito severo, por sinal – e que graças a ele e Rowena fora salva. O estresse que a comia por dentro a horas finalmente deu uma abrandada. Ainda assim, sem nem mesmo olhar para ela, Slytherin tinha uma ideia do que se passava em sua cabeça.
— Não. És minha aluna, ainda que de vez em quando seja idiota a ponto de eu lamentar tal fato. É minha obrigação protegê-la, salvá-la enquanto estiver sob minha tutela.
Ela ficou em silêncio, notavelmente sem graça, a pele colorida pelo rubor da vergonha, apagando sua palidez. Suas olheiras habituais deveriam estar mais fundas do que o normal, ela sentia-se um trapo, e o que menos queria era ser lembrada do quão ingrata conseguia ser. — Vocês… mencionaram Ana.
— Desaparecida. Foi vista pela última vez ontem, ao fim do dia, e ninguém mais pôs seus olhos nela desde então. Não se encontra em lugar algum do castelo. — o fundador havia entrelaçado os dedos das mãos, focando sua atenção neles. — Helga, desesperada como sempre, suplicou para que déssemos uma busca nas proximidades.
— E aqui estamos…
O olhar afiado de Salazar concentrou-se nela, e apesar de toda a sua gratidão, não foi capaz de impedir que os calafrios subissem por sua espinha. — Descanse, por hora. Quando seus ferimentos estiverem melhores, serás movida para o castelo.
A cabeça da garota estava cheia de dúvidas. Mas o cansaço era mais forte e acabou vencendo, abraçando-a e carregando-a para um sono sem sonhos, o que ela sem sombra de dúvida apreciaria. Nas noites seguintes, ela só teria pesadelos.
X-X
Ano de 2017
O trio de alunos havia demorado bastante para encontrar a Dama Cinzenta, por fim deparando-se com seu corpo translúcido e aura depressiva atravessando os corredores, quando estavam prestes a desistir e retornar à leitura do pergaminho. Dominique correu para ficar de frente para a fantasma que, distraída como estava, apenas atravessou o corpo da jovem direto, continuando seu passeio agourento. A moça precisou se livrar das dúzias de calafrios causados pela passagem da entidade, antes de girar nos calcanhares e observá-la. — Ei! Helena, espere!
O nome proferido fez com que o espírito estacasse no ar, sem dignar-se a se virar para encarar quem a chamava. — Já não uso esse nome faz séculos.
— Sabemos que reagiu a ele, alguns anos atrás. Quando Você Sabe Quem retornou dos mortos. — Benjamin alegou, cruzando os braços e postando-se ao lado da amiga. Scorpius, que vinha por último, fez uma careta de profunda irritação.
— A gente não combinou que íamos ser simpáticos? Simpáticos, delicados, solidários, qual a parte que vocês dois não conseguem entender? — ele não era a pessoa mais simpática, delicada e solidária do mundo, mas céus, como aqueles dois complicavam tudo!
— Simpáticos ou não, ela está a ignorar-nos… — Benj apontou metodicamente para o fantasma, que voltara a flutuar, girando uma esquina, dando-lhes tanta atenção como daria ao inseto.
Os três apressaram-se para não perdê-la de vista, virando no mesmo local e correndo para emparelharem-se com o espectro. A melancólica Dama Cinzenta parecia mais irritada do que chateada naquele momento, e a única coisa que impediu-a de atravessar o chão ou o teto para despistá-los era o fato de que não estava a fim de modificar sua rota para fugir de meros adolescentes impertinentes. — Não sei o que querem, mas já aviso para irem embora.
— Mas nós queremos sua ajuda… — justificou-se Domi.
— Tem vários fantasmas pelo castelo, peçam a outro.
— Tem de ser você. — foi a vez de Scorpius alegar, por pouco não dando de cara com a parede, quando a Dama parou bruscamente e girou no ar para encará-los.
— Eu já dei toda informação pertinente e importante que poderia dar, a anos atrás. Não tenho mais razões para trocar palavras com os vivos. Deixem-me em paz.
— É sobre a Desgraça Rubra. — Benj finalizou, era o único que mantinha-se mais atrás no momento, cuidando para que não perdesse o fantasma de vista. — Estudavas em Hogwarts na época em que esse caso ocorreu, certo?
A fisionomia daquela que um dia fora Helena Ravenclaw tornou-se curiosa, enquanto seus olhos espectrais percorriam os três alunos, indo de um para o outro. Eles pararam sobre Scorpius, que tinha o pergaminho em seu poder, e os lábios dela crisparam-se, antes que o atravessasse, saindo pelas suas costas com o documento em mãos. Abriu-o com os dedos translúcidos, lendo o começo do texto rapidamente e fechando-o depois. — Ora, ora… se não são uns pequenos ratinhos… onde conseguiram isso?
— Creio que não faça diferença para você. — o loiro deu de ombros, estendendo a mão para que ela lhe devolvesse o pergaminho. Às favas com a gentileza, aquela ali não se incomodaria de zombar deles.
Estranhamente, a Dama Cinzenta entregou as escrituras sem causar nenhum tumulto. — Foi a muito tempo… era um mistério para todos nós, na época, e as consequências foram imprevisíveis. Irei lhes contar a história, através do que eu vi e do que me falaram mais tarde. Mas…
— Sempre tem um “mas”, não é? — Dominique suspirou, ajeitando seu cachecol e trocando olhares com os outros dois amigos.
— Porém, mas, entretanto… — Scorpius deu de ombros, colocando as mãos nos bolsos das calças. — Quem liga? Agora quero conhecer essa história a fundo, e não há ninguém melhor do que ela para nos dizer.
— Diga seus termos, Helena. — Benjamin abriu um sorriso adorável, o qual a aparição fez questão de desdenhar, e esperou.
— Pois bem, crianças. Vou narrar as coisas do meu jeito, das teorias conspiratórias aos receios dos fundadores, até a ascensão da Desgraça Rubra. Vocês sabem que foi um traidor que recebeu essa alcunha, certo?
— É o que diz o pergaminho, pelo menos. — a moça franziu o cenho. — Quem é, afinal? O tal traidor?
— Ai é que está… vocês terão de juntar os fatos e descobrir sozinhos, e só continuarei o relato se puderem me dizer a resposta no ponto da história que eu questionar. — O fantasma abriu um sorriso divertido, nada habitual. — O que me dizem?
— Oh, sério?
— Parece-me que esta situação a diverte. — sussurrou Benj, um tanto confuso.
— De fato. Mistérios são feitos para serem desvendados. Eu só estou lhes dando a oportunidade de fazê-lo por si mesmos, diria que é muito justo.
— Mas… a senhorita passou por isso. — Domi inclinou a cabeça, sem entender a reação da assombração. — Quer dizer… você passou por tudo isso, por todos esses horrores… é compreensível que queira evitar falar sobre essas coisas, não que transforme tudo em uma brincadeira.
— Que diferença faz, eu estou morta mesmo. — agora a Dama Cinzenta demonstrava enfado. — E então, aceitam a proposta? Caso contrário, cuidarei dos assuntos dos mortos, não tenho vontade de gastar palavras infrutíferas convosco.
Os três amigos trocaram olhares. Não tinham nada a perder… se não conseguissem descobrir o tal enigma na hora H, ainda tinham o pergaminho para sanar suas dúvidas. A escolha de procurar Helena fora apenas baseada no pretexto de que fatos em “primeira mão” eram sempre mais interessantes e detalhados.
Se ela queria tanto que eles resolvessem aquele mistério, talvez fosse algo realmente divertido. Como um jogo… um jogo que podiam ganhar de qualquer jeito. Com esse pensamento em suas mentes, eles assentiram com a cabeça ao mesmo tempo. — Aceitamos.
— Conte-nos o que você sabe…
— E faremos nossa parte.
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