Lullaby
20 Crawling back to you
Rastejando de volta para você.
Tudo ao meu redor parecia ter sido reprimido. Minha cabeça parecia ter sido posta sobre a água, os gritos de Drake chamando-me pareciam distantes, as mãos de Derek em meu corpo não tinham forças suficientes para me tirar dali, o choro de Ethan estava partindo o meu coração, o sangue do corpo de Aiden ecoava em minha cabeça. Ping, ping, ping. Cada gota de sangue que caia de seu corpo até o chão me torturava, eu devia ter me colocado a sua frente, deveria ter lutado contra Theo. Todo o local tremeu com o grito de Lydia, meu ouvido estava sangrando por conta do som, mas não não consegui erguer minhas mãos para tampar. Entao cai, meus joelhos cedendo a força do meu corpo contra o chão. Minhas mãos ficaram postas sobre o piso, impedindo que meu rosto de chocar-se contra o chão, e meus joelhos ficaram dobrados sobre minhas pernas. Minha boca se abriu, e junto de Lydia eu gritei, mas o que saiu foi um rugido. Não percebi que havia me transformado, minha raiva naquele momento era tanta que a forma lupina simplesmente assumiu o lugar, e o rugido foi forte o bastante para quebrar todas as janelas ali perto.
Quis correr dali ao avistar minha mãe, ou o que um dia foi minha mãe, em minha frente. Mas minhas patas não me obedeciam, avançando em posição de ataque na direção dela, meu corpo não me obedecia naquele momento, agindo por um impulso de raiva, estava rosnando e avançando nela cada vez mais. Porém, meu corpo foi travado ao sentir os dedos de Drake em minhas costas, acariciando os pelos. Ele não chegava a olhar para minha mãe, mantendo o olhar fixo somente em mim, sorrindo e me puxando para trás. Minha consciência, que antes não era comida por mim, conseguiu ser posta de volta e recuei. Aquilo causou um riso debochado em Marta, minha mãe.
Instantaneamente voltei a posição de ataque, rosnando e colocando uma pata sobre a outra para manter uma pose mais firme. Porém, minha mãe parecia não importa-se com o fato de estar a centímetros de mim, agachando no chão e sentando sobre seus joelhos, tendo de erguer um pouco a cabeça para me olhar. Claro, minha forma lupina chegava a quase dois metros, todos ali eram pequenos comparados a mim.
— Você não mudou nada. – decretou, balançando a cabeça de um lado a outro. Sua voz estava doce, diria gentil, sem nenhum requisito de segundas intenções ou ironia. Aquilo me desarmou, ela ainda possuía a forma de minha mãe e sua voz, mesmo que a personalidade fosse diferente. Seus olhos azuis encontraram os meus verdes, mas que na forma lupina eram azuis também, e fiquei olhando minha mãe, ela sorria para mim e estendeu a mão para tocar minhas costas. – Está tão crescida. – murmurou, sorrindo ainda mais para mim. Vi quando a sombra de um sorriso maligno passou por seus lábios, desaparecendo o mais rápido para que eu não visse. Avancei contra ela, rosnando e quase morrendo seu pulso se a mesma não o tivesse puxado. Sua expressão mudou instantaneamente, transformando-se na raivosa e debochada de minutos atrás. – Loba estupida.
Ela tentou tocar de novo em mim, mas fui rápida o suficiente para morder sua mão. Não pude sentir uma pontada de culpa, ela ainda tinha a forma física de minha mãe e isso me abalava, mas não demostrei. Theo avançou contra mim quando minha mãe levantou, mas Drake acertou um chute entre suas pernas e um soco em seu rosto, forte o bastante para retirar a mandíbula do lugar. Alex tentou avançar também, mas Scott pulou sobre ela em uma espécie de voadora que acertou o rosto da garota com os pés do lobisomem. Estava prestes a avançar contra minha mãe, quando Stiles chegou no corredor do hospital, bem perto de Theo, Alex, minha mãe e dois lobisomens que estavam ao lado dela.
— Por que eu sempre tenho que ficar em perigo? – escutei ele resmungar, recuando alguns passos ao ter o olhar de todos em si. Atrás dele surgiu uma garota, cabelos castanhos com pontas loiras, alta e magra, olhos castanhos claros e um sorriso selvagem.
Vi quando ela se jogou para frente, avançando em um impulso e transformando-se em um coiote. O mesmo coiote que eu havia recebido um dardo tranquilizante a quase um mês. O pelo cinza e preto, misturado com branco em pequenas e quase invisíveis partes. Era de grande porte, mas acabava por ser menor que eu. Ela aproximou-se de minha mãe, cercando de frente e eu a encurralei por trás, minha mãe olhou para nos duas feio e rosnou. Olhei para trás e vi Derek retirando Lydia dali, junto de Ethan com o corpo de seu irmão, Scott lutava entre Alex e um dos lobisomens que estava do lado dela, Drake lutava com Theo e Derek logo se aproximou para lutar com o ultimo lobisomem que tentou acertar Drake por trás. Agradeci silenciosamente a Derek, não suportaria que nada acontecesse ao meu irmão. Literalmente.
Estava prestes a avançar contra marta, quando um flecha foi disparada contra ela. Depois outra, acertando dessa vez o chão e lançando luzes fortes para todos os lados. Fechei os olhos de imediato, a luz forte o bastante para fazer meus olhos arderem, ouvi o ar sendo cortado e novas flechas serem disparadas. A luz durou menos de um minuto, abri meus olhos e vi minha mãe a minha frente, pouco importando-se com a flecha que atravessa sua barriga — que inesperadamente não saia nenhum sangue. Ela encostou os dedos em minha têmpora, depois na sua, fechando os olhos e recitando palavras em uma língua estranha. Quando disse a ultima palavra, minha cabeça rodou e girou, minha garganta fechou e minhas patas falharam. Fui ao chão, ficando a mercê da dor que atravessou meu corpo, enquanto minha mãe levantava e corria com Alex e Theo, ja que os outros dois lobisomens que estavam com ela estava mortos no chão. A coiote que tinha me ajudado estava ao chão, tampando os olhos da claridade de segundos atrás. Virei para trás, olhando quem estava ali e que havia acertado as flechas.
Era William, meu pai, Chris e Gerald. Eu conhecia Gerald de anos atrás, inclusive o encontrei vomitando sangue preto em uma casa abandonada em uma cidade deserta. Os três tinham arcos nas mãos, exceto Chris que estava com sua típica besta e tinha o corpo de Allison em seus braços. Vi Derek jogado em um canto da parede, segurando a barriga e fazendo uma pequena carreta, o que franzia seu nariz e o deixava de certa forma... Fofo. Foi impossível não ir até ele, abaixando o focinho alguns centímetros para que sua mão tocasse minha cabeça. Ele acariciou meu pelo, fazendo movimentos circulares abaixo de minha orelha. Quando seus dedos tocaram meu pelo, as veias pretas surgiram em minha pele mas foram tampadas pelo pelo, retirando a dor de Derek de si e transmitindo a mim. Aquilo era doloroso, odiava fazê-lo por triplicar a dor para quem recebia, mas tratando-se do bem estar de Derek não tive escolha. Vi seus olhos encontrarem os meus, mantendo um contato visual que me prendeu o ar. Eu amava os olhos de Derek, verdes iguais aos meus, porém em um verde-musgo inebriante e lindo,que brilhava a medida que o nosso olhar se mantinha. Vi um sorriso nascer em seus lábios, e aquilo causou um suspiro em mim, mas saiu mais como um som nasalado em forma lupina, causando um riso baixo em Derek e aumentando a intensidade do carinho em meus pêlos. Comecei a lamber seu rosto, melecando toda a parte esquerda, Derek riu e apertou minhas costas para me afastar.
Estava prestes a jogar-me no colo de Derek, em minha forma lupina mesmo, quando perdi todo o ar de meus pulmões. Minha visão turvou, ficando embaçada e não conseguindo manter-se estável para focalizar em algo. Não conseguia respirar, tanto pela boca quando pelo nariz, o ar simplesmente não chegava aos meus pulmões e aos poucos ia me sufocando com a falta dele. Percebi que Drake sentia o mesmo, caindo de joelhos no chão com as mãos na garganta. Estava quase ficando sem ar nenhum em meu corpo quando comecei a me afastar, e Drake pareceu ter recuperado uma quantidade mínima de ar quando dei um passo a trás. Percebi então o que estava acontecendo: Minha mãe tinha me jogado uma magia, não conseguia ficar perto de Drake e respirar. Comecei a correr para perto de Drake, ao mesmo tempo que a falta de ar aumentava.
— Eu estou com medo, Hay. – disse Drake, assim que estava perto o bastante. Sua pele na estava ficando pálida pela falta de ar, assim como os lábios que arroxavam. – Me ajude a não ter medo, Hayley. – implorou, jogando-se nas minhas patas, quase chorei com seu tom de voz desesperado e sua expressão aflita.
Então o fiz, corri. Corri para fora do local o mais rápido possível, e a medida que ia me afastando, o ar ia voltando aos meus pulmões. Eu não podia ficar perto de Drake, ou ambos morreríamos sufocados e sem ar. Aquilo me doeu, uma das únicas pessoas que eu amava não poderia ficar próximo a mim. A raiva imediatamente me consumiu ao lembrar que minha mãe era quem causou aquilo, deixando-me ainda mais irritada. Ouvi passos próximos a mim, e logo William estava ali. Estava colocando seu arco nas costas e caminhando ao meu lado, passando a mão sobre meus pêlos nas costas.
— Também fiquei a balado com a volta de sua mãe. – começou, suspirando e olhando para os pés. Meu pai não gostava de demostrar sentimentos, sabia que havia herdado isso dele.
— Ela não é minha mãe. – cortei, não soando ríspida ou algo do gênero, mas sim cansada. Eu realmente estava cansada, com vontade de chorar e jogar-me na cama. – Minha mãe está morta.
— Sim, está. – afirmou Will, mantendo o tom baixo e neutro. Percebi que havia sido um pouco indelicada, meu pai amava minha mãe e era sempre difícil admitir que ela tinha ido. – Mas aquela mulher tem a mesma aparecia que ela, mesmos gestos e características. – concluiu, apertando os dedos entre meus dedos de maneira carinhosa, o que causou um ronrono em mim involuntariamente. – Eu quase não consegui atirar uma flecha nela, sabe o porque? Porque vi o mesmo olhar amoroso que ela lançava a você quando viva, o olhar de ter a coisa mais preciosa do mundo em suas mãos. De certa forma, sua mãe ainda esta la, apenas não sendo capaz de dominar seu corpo.
Vi meu pai suspirar, abraçando-me desengonçado de lado. Parei de andar e me virei para ele, colocando minha cabeça abaixo de sua mão para ganhar carinho. William assim fez, acariciando meus pêlos e sorrindo.
— Vamos lutar contra ela, mas juntos. Quero sua confiança, quero ser seu pai e quero que sejamos uma família. Eu, você e Drake. – revelou, causando um sorriso em meu rosto, mesmo que na forma lupina não saísse exatamente como um sorriso. – Também iremos lutar contra Alex, mas a deixe viva para mim. Quero ter a honra de arrancar a cabeça dela com as mãos e cortar o dedo dela fora. Sei que ela pegou minha aliança. – seu modo raivoso e irritado causou um riso em mim, que saiu mais como um som anasalado.
William estava conquistando aos poucos, tornando-se o pai que eu sempre quis. Ele ainda não sabia, mas parte de meu coração ja era dele, eu confia nele e o considerava como pai. Mas ele não saberia disso, não até merecer.
(•••)
Ao pisar no Loft de Derek, escutei o som do meu celular tocando no sofá. Não sabia como ele estava ali, mas voltei a minha forma humana e fui em direção a ele, pouco importando-me com minha nudez. Vi na tela a foto de Drake sorrindo, os olhos fechando-se pelo sorriso largo, aquilo causou uma certa dor, quase insuportável de conter um suspiro triste.
— Por que quando você foi embora eu consegui respirar? – inquiriu assim que a ligação foi atendida, com seu tom confuso e aflito de sempre.
— Marta lançou um feitiço, não podemos ficar perto um do outro. Tenho certeza que é para atacar, então não fique sozinho. – expliquei da maneira mais calma que conseguia no momento. Drake resmungou mil palavrões do outro lado, fazendo sons estranhos e fungando. – Fique bem, por favor.
— Não quero ficar longe de você. – seu tom de voz era carinhoso e choroso, quase derrubando-me no chão pela vontade súbita de chorar. Santo Deus, eu era tão fraca quando o assunto era meu irmão e sentimentos. – Eu não quero te perder, Hayley. Eu sei que vou te perder em algum momento e isso acaba comigo, meu jeito é assim e eu sempre perco tudo que é bom para mim. – se antes ja estava destruída, foi impossível não cair no chão e abraçar meus joelhos. Prendi o choro, mesmo sabendo que não era bom prender o choro.
— Eu estou precisando tanto de você, perdi o Aiden, que havia virado um dos meus melhores amigos e irmão do meu namorado. Não consigo olhar para ele sem me sentir culpado, se não tivesse caído no chão você teria se colocado a frente de Aiden e o salvado. – minha respiração estava presa, meus lábios presos entre os destes para me impedir de chorar. – Eu te amo tanto, Hay. Não consigo ficar um segundo longe de você. Você acha que eu sou do tipo de pessoa que as pessoas lutam?
— Você é do tipo de pessoas pela qual as pessoas vão a guerra, Dray. – pela primeira vez em anos usei seu apelido, causando um soluço dele. Eu estava me machucando em escutar o choro dele. – Eu amo você com todas minhas forças, por isso não posso ficar perto. Não quero que você morra, quero que sobreviva para que possamos viver como uma família novamente. Então, prometa-me que ira ficar bem?
Escutei o choro do outro lado da linha e desliguei. Foi impossível não conter uma lagrima que escapou, apoiando minha cabeça nos joelhos e engolindo o choro. Não gostava de prender o choro, sempre que o fazia uma parte de mim morria afogada. Então senti dedos tocarem meu queixo, erguendo minha cabeça. Reconheci os olhos verdes de imediato. Derek estava a minha frente, com uma das mãos em meu queixo e sorrindo para mim.
— Quero lhe mostrar uma coisa. – indicou a janela com a cabeça, estendendo a mão para me levantar. A aceitei e fui erguida, indo parar contra o corpo de Derek.
Ele entregou uma blusa grande para mim, disfarçando um sorriso presunçoso ao passar o olhar pelo meu corpo nu. Corei e coloquei a roupa imediatamente. Fui encaminhada até a janela ali próxima, as que eram enormes e sempre tinham uma bela visão para o céu. Mas agora estavam abertas, deixando a imagem do céu livre. Estava estrelado, com uma linda lua cheia brilhando e iluminando as estrelas menores, realçando as maiores. Relaxei imediatamente, sentindo-me tranquila com a lua cheia, eu adorava noites como aquele, era o meu refugio para escapar do mundo. De certa forma, eu conseguia a paz com a noite. Derek sentou na mesa, e sentei so seu lado. Quase emgasguei com a saliva quando seus braços envolveram meus ombros, mas acabei sorrindo de leve.
— Tive uma nova descoberta sobre você. – começou, em sua típica posição de durão, mas o tom ameno. – Eu gosto de você, Hay.
Fechei os olhos, sentindo-me entorpecida. Eu adorava escutar coisas assim dele, mesmo sabendo que no outro dia ele estaria mais ríspido para compensar o jeito carinhoso que estava sendo hoje.
— Se você gostasse de mim um pouco do que eu gosto de você, só um pouco, eu já estaria satisfeita. – sussurrei, ainda de olhos fechandos e evitando o olhar que eu sabia estar sobre meu rosto.
Mas entao senti suas mãos em meu rosto, virando-me para ele e obrigando meus olhos a serem abertos. Odiava o efeito que ele tinha sobre mim, a maneira que perdia o ar fácil com seu olhar.
— Eu realmente gosto, Hay. Por isso te garanto, você pode continuar não esperando nada bom de ninguém. – murmurou, sorrindo minimamente para mim e aproximando nossas mãos, entrelaçando os dedos. – Mas eu sempre vou fazer o possível para você sempre receber o melhor de mim.
Então virou-se para a lua, deixando um beijo na minha testa. Fiquei sorrindo, com nossas mãos entrelaçadas e olhando a noite. Derek era um bom motivo para rastejar, para lutar, e quem sabe, morrer.
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