Lucys Requiem

1 Capítulo 1 - A Requiem


Lucy, a mestre do piano.

Sempre fora referida como tal desde a sua infância. Um génio do piano, capaz de ouvir uma música e de a tocar no piano sem necessitar duma partitura da mesma. Invejada por muitos, admirada por poucos. Isto, por apenas ter 20 anos e fazer sempre parte das peças mais importantes dos teatros.

No entanto, desde pequena, Lucy havia sido ensinada somente a tocar músicas alegres. A sua tutora sempre lhe dissera que \"músicas tristes de nada servem no palco, já que os espectadores esperam ver algo que os divirta\" e que Lucy era \"não só um génio do piano, mas também um génio da diversão\". Isto, porque Lucy não só era capaz de tocar músicas complicadas como transmitia uma aura de divertimento ao público.

O público, maioritariamente consistido por pessoas da alta classe, observava Lucy que se aproximava calmamente do piano, com os seus longos cabelos castanhos a seguirem os movimentos do seu corpo. Não pousava uma única vez os seus olhos esmeralda no público, mas sim sempre no piano. Sentava-se e acomodava-se calmamente como sempre e em seguida deixava os seus dedos moverem-se vagorosamente pelo piano à sua frente, como se ansiassem tocar todas as teclas para as sentir. Os bailarinos entravam, e a sala enchia-se de sons alegres e movimentos harmoniosos e um sorriso formava-se na face de Lucy. E, ao levantar os olhos do piano e ver as caras de aprovação do público, o sorriso aumentava e transmitia uma aura mais positiva ainda. Os bailarinos, ao sentir a emoção de Lucy, deixavam-se levar e exploravam o palco do modo mais alegre que conseguiam.

Lucy estava habituada a tocar em frente de muitas pessoas, mas no entanto havia um sujeito de cabelos loiros e olhos azuis que se encontrava sempre na primeira fila. Ao contrário do resto, este não apresentava características de pessoas de alta classe. Ao contrário da sua tutora, Lucy não se sentia incomodada com a presença dele. No entanto, sabia exactamente a razão pela qual a sua tutora a afastava dele sempre que ele se aproximava.

Aquele sujeito, também conhecido como Diego, era alguém que lhe deixava uma carta todos os dias no final do espectáculo. Lucy não precisava de a ler para saber o que estava lá escrito, já a sabia de cor.

Eu admiro todo o teu modo de ser e de tocar, mas há algo que não percebo. Porque é que com tantas peças bonitas, só te fazem tocar peças alegres? Eu sei que a alegria é importante, mas existem pessoas que não sentem alegria e sim tristeza. Gostava de te ouvir tocar uma música triste pelo menos uma vez...

A sua tutora sempre a havia ensinado a tocar peças alegres, era normal não querer que fosse influenciada a tocar algo diferente. Ou pelo menos, era o que Lucy pensava.

Um dia, Lucy dirigiu-se ao piano que a aguardava como sempre. Moveu os seus dedos e sorriu como sempre. No entanto, quando levantou os olhos para o público, não viu a cara que sempre reconhecia. O seu sorriso não aumentou; de facto, desapareceu, assim como a aura alegre que Lucy transmitia. No final da peça, nenhum bailarino havia percebido o que havia acontecido com Lucy, nem mesmo a própria. Levantou-se do piano e dirigiu-se para fora do palco como se nada se tivesse passado, já que o público aplaudiu como se o espectáculo tivesse estado no seu auge.

Mais e mais peças passaram e o sujeito não aparecia. A única pessoa que ela sabia que realmente a admirava e não sentia inveja do seu modo de ser; a única pessoa que não ligava ao que ela trazia vestido, mas sim ao seu modo de tocar; a única pessoa que a fazia sorrir quando olhava para o público.

Lucy continuava a iniciar a peça com um sorriso, com a esperança de que quando olhasse para o público reconhecesse a cara do sujeito. No entanto, mais e mais dias passavam, e nada de ele aparecer.

Até que, por distracção da sua tutora, Lucy encontrou todas as cartas que o sujeito lhe enviara e que ela lhe retirara, dizendo que ele era um perigo para a sua carreira. Pegou em cada uma delas e foi abrindo-as e lendo-as, reconhecendo sempre o mesmo conteúdo. No entanto, admirou-se ao ver que, no meio de tantos envelopes brancos, havia um num tom tímido de azul. Examinando-o com cuidado, decidiu abri-lo e lê-lo.

Eu continuo a admirar o teu modo de ser e de tocar, e sempre o continuarei a fazer. Sabes o que eu não compreendia...? Hoje já compreendo.

As pessoas preferem concentrar-se que é tudo sempre alegre e feliz quando, na verdade, não o é. Tu somente tocas peças alegres para alegrar o público, para o distrair da tristeza, mesmo que elas interiormente se sintam a morrer.

Amanhã é o meu último dia. Sofro duma doença mortal e deram-me alguns meses de vida. Proposeram-me ficar hoje no hospital para ser tratado, mas recusei. Prefiro viver um dia e ouvir uma música triste tocada por ti do que passar uma semana deitado numa cama.

Como tal entrego-te esta partitura dentro deste envelope. Este tipo de música é conhecida como Requiem, apesar de eu achar que não fazes ideia do que isso seja. Requiem é uma música feita em homenagem a alguém que morreu.

Peço-te que me mostres não só o lado falso da vida, mas também a verdade.

Lucy não se moveu uma única vez enquanto lia a carta, assim como a sua expressão se manteve a mesma. Pegou no envelope e na carta e dirigiu-se ao seu piano. Sentou-se e aconchegou-se calmamente como sempre, e colocou a partitura no piano. Levantou os seus olhos para esta, e começou a tocar. Os seus dedos, que antes se moviam vagorosamente, percorriam lentamente o piano como se tivessem medo de ao seu toque o quebrar. O sorriso não se encontrava no rosto de Lucy; de facto, este tinha uma expressão sem vida e lágrimas que escorriam lentamente pela sua face. Olhou para a janela e pode ver que era uma noite de lua cheia, nunca parando de tocar. Voltou os seus olhos novamente para a pauta e continuou a tocar aquela melodia triste.

E pela primeira vez, Lucy havia tocado uma música triste, e percebido a verdadeira razão pela qual ela tocava para o seu público.

Notas finais
Após muito tempo sem aparecer aqui uma única vez, finalmente decidi entrar e voltar com algo que queria escrever à muito tempo.
A intenção de acabar os meus projectos aqui postados e os que tenho comigo ainda permanece, mas no entanto é bem possível que eu não volte a escrever após a conclusão dos mesmos.
Os motivos são muitos, mas não é nada concreto ainda. Tudo depende dos próximos tempos.
E é só. ~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!