Lucy
3 Capítulo 3
Eu não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Eu não estava preocupada por estar na diretoria — aquilo sempre acontecia comigo — mas eu estava preocupada por ter uma diretora nova.
A antiga diretora, Ângela Martins, sempre me dava suspensões, raramente me dava detenções, porém, quando eu passava dos limites, ela não se atrevia a ameaçar me expulsar do colégio. Primeiro porque meu pai pagava as mensalidades em dia e segundo porque além das mensalidades, meu pai dava umas ajudas financeiras que iam além bem das mesmas. Porém, com essa nova diretora, eu simplesmente não sabia o que estava por vir.
Finalmente chegamos à sala dela. Desde a última vez que eu vim – há uma semana por ter pichado a parede da escola -, a sala continuava igual a da ex-diretora. Paredes de um bege monótono, um pequeno sofá azul escuro encostado ao lado da porta, a mesa retangular de madeira com uma cadeira atrás que parecia ser confortável e duas outras na frente. Pelo visto, a nova diretora ainda não teve tempo de redecorar a sala. A única mudança que havia era em uma plaquinha preta em cima da mesa dela com os dizeres: Suzana Weber – Diretora.
Ela sentou-se em seu lugar e nos olhou.
- Sentem-se. – ela ordenou.
Fui, arrastando os pés, sentar na cadeira da direita. A líder de torcida foi rebolando sentar-se na cadeira ao meu lado.
- Quem começou a briga? – a diretora perguntou.
Eu abri a boca para falar, mas a irritante da Patrícia começou antes.
- Foi ela diretora. Do nada, essa pessoa que está ao meu lado me atacou com palavras ofencivas e depois caiu em cima de mim. – ela disse com uma cara inocente. Eu não pude me conter:
- Você me deu um tapa na cara! Não acredito que você achou que eu ia deixar isso barato.
- Não teria de dado um tapa se você não tivesse me chamado de cachorra! – ela falou ofensivamente.
- Quer dizer que você bate na pessoa que te diz a verdade?! – indaguei olhando nos olhos dela e reprimindo um sorriso. O olho que eu havia dado o soco já estava ficando roxo.
Patrícia já ia dizer algo quando a tal Suzana interrompeu.
- Tudo bem, pelo que eu entendi, tudo começou com você – ela olhou para mim – falando mal da sua colega.
Pelo canto do olho vi a Patrícia dar um sorriso de satisfação. Suspirei, eu não gostava de mentir, e o que eu mais gostava em mim era o fato de assumir os meus atos.
- Sim. – soltei de uma vez. O sorriso de Patrícia se alargou.
- E – a diretora continuou agora olhando para a Patrícia – você começou com as agressões físicas.
Os olhos delas se arregalarm por um segundo. Dei um sorriso de canto de boca.
- É, — ela confessou – foi.
- Ok, — a Suzana falou – então, vocês duas receberão uma advertência. Na próxima, será uma detenção. E também preciso que vocês peçam desculpa uma a outra.
Revirei meus olhos. O que era aquilo? Uma espécie de tortura?
- Desculpe Lucy. — ouvi Patrícia dizer com um ar mais falso do que o cabelo dela.
A diretora Suzana olhou para mim esperando uma resposta.
- Desculpe Patrícia. – disse de uma vez com a boca amarga.
- Ótimo! – a diretora sorriu – Só preciso dos seus nomes para eu poder fazer a anotação.
- Patrícia Gaton Sipriani.
- E o seu? – a diretora dirigiu-se a mim.
- Lúcia Williams Haskel – sussurrei.
- Desculpe – ela disse – eu não entendi.
- Ela disse Lúcia Williams Haskel diretora – Patrícia cantou. Dei a ela um olhar mortal.
- Obrigada. – a diretora disse distraída enquanto anotava os nossos nomes.
- Já podemos ir? – perguntei impaciente.
- Claro! – ela sorriu.
Assim que passamos pela porta a Patrícia disse provocante.
- Tchau Lucinha! – e saiu correndo virando no corredor à direita. Eu a deixei ir, iria cuidar dela depois.
Fui andando em direção à cantina. Estava completamente faminta, não tinha tomado café direito e ainda por cima não tinha parado para comer na hora do intervalo. Eu não me importava nem um pouco se tivesse que filar aula para isso. E tudo era culpa da vaca da Patrícia e dessa tal Suzana Weber.
Quando cheguei ao refeitório – cheio de alunos agora por causa da hora do intervalo — vi Alice, Vinícius, Gabriel e Manuela lanchando em uma mesa ao canto. Andei em direção a eles e me sentei ao lado da Alice.
- E aí Lucy, — ela começou direta como sempre – qual a dessa diretora nova?
- Não sei. – respondi pensativa. – ela tem cara de ser a “boazinha”.
Vinícius riu.
- Espera aí, ela não te ferrou?
- Não – respondi simplesmente – só uma advertência.
- Então ela, provavelmente, é sim uma das boazinhas.
- Melhor assim, – Manuela falou depois de dar uma boa golada no seu suco – pelo menos agente pode aprontar mais e receber menos suspensões.
- É assim que se fala amor. – Gabriel disse dando um selinho na Manuela.
- Lucy, amanhã é o seu aniversário de dezessete! – Alice exclamou como se aquilo fosse uma das sete maravilhas do mundo.
- E...? – perguntei retórica.
- Vamos no bar do Abel amanhã comemorar! – Vinícius exclamou.
- Bom... na verdade não vai dar. – disse chateada. Tinha acabado de lembrar que o meu pai iria para casa jantar comigo amanhã.
- Por quê? – Manuela perguntou.
- Coisas de família. – respondi.
- Ah, tá. – Alice falou meio deprimida.
- Certo, – falei pegando a maçã de Alice e dando uma grande mordida sem me abalar – o que vamos fazer? Hoje é o dia de aprontar a maior travessura do ano!
- Já sei! – Manuela exclamou feliz de repente – Vamos pixar as paredes do colégio.
- Não! – Gabriel falou entediado – Fizemos isso na semana passada, e, além disso, essa não seria a “travessura do ano”.
Suspirei. Não adiantava pedir ajuda, era eu que sempre tinha de dar a idéia.
- Vamos destruir o banheiro feminino. – falei largando metade da maçã de Alice em cima da mesa.
- Qual banheiro? – os olhos da Alice brilhavam.
- O do andar de cima. – falei simplesmente. – Vai dar tempo de fuga já que a diretoria fica no de baixo.
- Quando? – Gabriel perguntou.
- Depois do almoço, agora eu preciso comer! – fui correndo comprar um hambúrguer e, mal havia voltado para mesa, o sinal indicando o fim do intervalo tocou.
- Filar aula. – Vinícius disse.
- Filar aula. – concordei dando uma grande mordida no meu hambúrguer.
Depois de eu encher o estômago com um bom e suculento hambúrger, nos dirigimos ao andar de cima por o nosso plano em prática, passando antes na sala do zelador para pegar um martelo – o zelador nunca estava lá.
Eu, Alice e Manuela fomos verificar se tinha alguém no banheiro. Havia uma garota com cabelos muito pretos, quase azuis e uns óculos redondos do tipo fundo de garrafa lavando as mãos na pia.
Alguém de lá de cima – ou de lá de baixo — gostava mesmo de por nerds na minha frente.
- Sai daqui cara de mosca! – Manuela falou.
Quando a garota passou por mim eu dei um belo chute bem na bunda dela. Ela saiu correndo.
- Podem entrar meninos! – Alice gritou da porta.
- Vocês repararam que aquela garota tinha cara de mosca? – Gabriel perguntou enquanto tirava o martelo que estava escondido sob a camisa.
- Esse banheiro é até limpinho. – Vinícius comentou enquando fechava a porta do banheiro.
E era mesmo. Um pouco espaçoso e claro, com três boxes, três pias e, sobre as mesmas um enorme espelho.
Manuela pegou um batom vermelho que ela trazia no bolso e começou a escrever “Fuck you!” em um canto do espelho. Gabriel abriu a porta de um dos boxes e começou a dar grandes pancadas, com o martelo, no vaso sanitário, que passou a ser apenas pedaços de cerâmica no chão. Gabriel acabou por acertar no cano e a água de vaso sanitário começou a espirrar do boxe. Ele saiu de lá encharcado.
- Eca! – exclamou – Água de vaso sanitário!
- Me dá isso aqui! – falei enojada pegando o martelo da mão dele. Arremesei-o contra o espelho que se espatifou em mil pedacinhos sobre a pia e pelo chão.
- Ei, também quero! – Vinícius e Alice falaram juntos. E ambos acabaram com a pia do canto do banheiro que imediatemnte começou a jorrar água por todos os lados.
- Vamos, vamos embroa antes que alguém chegue. – disse apressada.
Saímos correndo do banheiro, acabei esbarrando em alguém que caiu, derrubando vários livros no chão. Usava um casaco preto com um capuz que cobria totalmente o seu rosto.
- Vê se olha por onde anda! – gritei por cima do ombro.
Chegamos rapidamente na escada e falei para todos pararem.
- Calma, não podemos parecer afobados se não todo mundo vai desconfiar. Vamos descer como se nada estivesse acontecendo.
- Acontecendo o que? – Vinícius brincou.
Mas mal começamos a descer a diretora já vinha afoita pelas escadas.
- O que está acontecendo? Ouvi um barulho de lá de baixo.
- Nós não vimos nada diretora. – Alice falou com cara de santa. Não era difícil para ela fazer essa cara.
- Tudo bem, — ela falou confusa — podem ir.
Começamos a descer parecendo tranquilos quando ela falou.
- Esperem, por que vocês estão molhados? – ela perguntou olhando sugestivamente para o Gabriel, encharcado até os pés, Alice e Vinícius, que haviam molhado a camisa da escola.
- Bem, é que nós... nós... – Vinícius começou, mas não terminou. Uma das líderes de torcida, — a morena – descia correndo as escadas e, quando viu a diretora, desatou a falar.
- Diretora Weber, o banheiro das meninas está todo destruído, tudo encharcado...
Senhor, me lembre de matar essa garota depois.
A diretora então olhou as roupas molhadas, as nossas caras de culpa e fez a ligação.
- Eu quero os cinco na minha sala. Agora. – ela disse lentamente.
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