Lucky

1 Prólogo


A cidade estava calma e a noite parecia mais fria e escura que o normal, os prédios, ao longe, cresciam formando longos e brilhantes espinhos, que pareciam perfurar o manto negro pontilhado de estrelas. Mais afastado do centro, num bairro residencial apinhado de casinhas estreitas e mal acabadas, estava prestes a acontecer algo que afetaria a vida de muitas pessoas, em especial a de uma que nem ao menos havia nascido.

Em uma das ruelas do bairro uma mulher de com mais ou menos vinte e dois anos de idade andava apressada, seus cabelos loiros eram bagunçados pelo vento e alguns fios grudavam no seu rosto pálido e suado, sua expressão era de urgência, quase de pânico.

A mulher dobrou em algumas esquinas e passou por alguns becos até parar na frente de uma casa pintada de amarelo, ela abriu um portão meio enferrujado e se dirigiu até a porta, lá, foi recebida por uma senhora aparentemente simpática, as duas apenas trocaram olhares. A mais velha guiou a visita até uma espécie de biblioteca, onde um ancião descansava numa poltrona, suas pálpebras estavam fechadas. Logo a mulher correu ao encontro do velho e ajoelhou-se ao seu lado, a senhora que lhe trouxera fechou a porta, se afastando.

─Ele descobriu tudo, e provavelmente está vindo atrás de mim, você tem que me ajudar, agora.

O anfitrião abriu os olhos, eles eram de um azul tão profundo que fixá-los era quase o mesmo que olhar para o próprio mar. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, mas logo se manifestou:

─Minha filha, agir por impulso nem sempre é o certo a se fazer, você tem que estar ciente das consequências.

Sua voz era quase inaudível, enquanto ele falava todo o seu corpo estremecia, como se aquilo lhe exigisse muito esforço.

─Eu sei das consequências, e do que preciso ensiná-lo, por favor, faça!

Ela parecia cada vez mais nervosa e constantemente olhava ao redor num claro sinal de nervosismo, seus olhos verdes se mantinham bem despertos e rodeados de olheiras. O homem assentiu com a cabeça, mesmo parecendo não concordar com o que estava prestes a fazer. Ele tirou os braços de debaixo da manta que lhe cobria e deixou a mostra sua pele desgastada pelo tempo, enrugada e flácida, cruzou os dedos a frente do peito e manteve os olhos abertos, fitando a mulher a sua frente, que o observava apreensiva.

Dentro de alguns minutos, estranhos acontecimentos começaram a rondar pela biblioteca, um livro caiu da estante e uma escrivaninha passou a vibrar, derrubando algumas canetas que repousavam sobre ela. Nada disso parecia surpreender a mulher, ela apenas continuou a olhar para o velho. Enquanto mais alguns objetos faziam coisas fora do normal os olhos do ancião adquiriram uma nova tonalidade, mais forte e brilhante que a anterior, ele parecia estar ficando cada vez mais fraco a cada segundo, até que num certo momento voltou a fechar os olhos, seus membros se relaxaram caindo para os lados, ele estava morto. Nesse exato minuto, a vários quilômetros dali, um homem dirigia seu carro esporte numa velocidade anormalmente alta serpenteando entre outros carros e furando incontáveis sinais de trânsito, mas sua sorte não durou por muito tempo, ao passar por um cruzamento seu carro moderno não foi suficientemente bom para salvá-lo de um ônibus desgovernado que vinha na direção oposta.

Em outra ocasião ele poderia tranquilamente sair ileso daquele acidente, porém, outras forças atuavam sobre ele naquele momento, forças que não lhe deixavam outra alternativa.

De volta à biblioteca a senhora que recebera a visita encontrou o corpo do velho e, de pé ao seu lado, a mulher passava a mão no próprio abdômen, mais uma vez as duas trocaram olhares, dessa vez a senhora abaixou os olhos e levou uma mão até o rosto, contendo algumas lágrimas.

─Está feito, o sucessor já está a caminho.