Lucky

5 Capítulo 4 - Raiva


Agora que já sentira na pele o clima e os riscos aos quais estava exposto naquela escola eu sabia que uma falha seria fatal e que precisava, o mais rápido possível, aprender a controlar minhas emoções, a fim de evitar o que acontecera com Valerie no último dia.

Levantei-me relutante, ainda demoraria algumas semanas para me acostumar com a nova rotina. Enquanto me arrumava senti o cheiro do café da manhã subir até o meu quarto, logo o aroma de panquecas recém-feitas e chá com canela espantou a minha preguiça. Já pronto desci para a cozinha e sentei-me diante de Phillip, que já bebia seu chá matinal.

─Oi.

─Humn... Oi. – Ele respondeu.

Phillip deve ter notado o sorriso no meu rosto, pois franziu o cenho achando aquilo estranho. Nem eu mesmo entendia o porquê da animação, já que toda a minha vida havia virado de cabeça pra baixo da noite para o dia. Enquanto preenchia um copo com suco de acerola deixei minha mente divagar a respeito daquilo, e quando estiquei o braço para pegar uma panqueca ainda quente tive uma conclusão. Fitei Phillip, a essa altura ele começara a ler as notícias do dia no seu jornal, só então percebi o esforço que ele fizera durante os últimos dias para me fazer sentir o mais confortável possível ali, por alguns segundos me perguntei se ele sempre fora sozinho, se tinha uma família e o motivo pelo qual ajudava gente como... eu. Deixei as perguntas para outra ocasião, não queria estragar o nosso momento de normalidade.

Phillip ergueu os olhos na minha direção, me fitando por cima dos classificados.

─Algum problema?

─Ah, não, nenhum.

Notei então que nos últimos minutos eu me distraíra tanto a ponto de esquecer o meu café da manhã. Tomei um longo gole de suco, tentando sanar a estranha sensação que se alastrava no fundo do meu estômago e se acostumar à minha mais nova constatação: Eu finalmente tinha uma família. Não era a mais normal e nem a melhor, mas finalmente eu podia chamar um teto de lar e tinha alguém para recorrer quando precisasse, em outras palavras eu me sentia, pela primeira vez em muitos anos, seguro, amparado.

Ao terminarmos a refeição ainda tínhamos tempo, pelo visto eu não chegaria quase atrasado como no dia anterior. A manhã estava ensolarada e úmida, mas não quente. No caminho lembrei que segundo o meu horário escolar eu tinha naquele dia aula de educação física, o que seria mais uma das minhas primeiras vezes daquela nova vida.

Estacionamos na frente da escola e, ao saltar do carro, acenei para Phillip, me despedindo.

─Até mais, Phill.

Ele meneou a cabeça para um lado abrindo um sorriso e arrancou de volta para casa.

Valerie e Paul me esperavam ainda do lado de fora, perto da escada que levava para o interior da escola, vários outros alunos também esperavam no gramado que rodeava o prédio, mas nenhum grupo parecia mais deslocado que aquele para o qual eu recentemente entrara.

─Olá, Valerie, precisa de ajuda? – Cumprimentei os dois.

Valerie estava agachada procurando algo na sua abarrotada mochila roxo-berinjela, alguns livros e cadernos jaziam caídos ao seu redor. Ao me notar ela rapidamente jogou para trás um pouco do cabelo que cobria seu rosto e se inclinou para me ver melhor.

─Oi Axel, e não, obrigada, eu só estou procurando uma coisa. – Ela sorriu um pouco desconcertada e começou a guardar o material, murmurando algo que não consegui escutar.

Paul estava encostado no corrimão de pedra absorvido em uma leitura, quando me viu ali ele fechou o livro e abriu um sorriso, ao mesmo tempo em que lançava um olhar pretensioso na direção de Valerie.

─Sabe Axel, acho que você gostaria de saber o que Valerie procurava...

Antes que ele pudesse continuar a irmã o atacou com um caderno que segurava. Depois de levar algumas bofetadas Paul finalmente subiu as escadas sorrindo, o acompanhei num ritmo mais lento, sem dar muita importância ao que ele dissera, Valerie seguiu ao meu lado, bufando de raiva do irmão.

Dei uma rápida passada no meu armário e coloquei alguns materiais no seu interior para aliviar o peso da minha mochila, antes que eu pudesse fechar a porta de metal vi de relance um pedaço de papel cor-de-rosa, semelhante ao que encontrara no dia anterior. Revirei os olhos e peguei o bilhete.

Na sala de inglês sentei-me ao lado de Paul quase no fundo da sala, Valerie sentara mais na frente, e constantemente olhava para trás com um olhar aflito, provavelmente com medo de Paul ter me contado algo além do que podia. Deixei o bilhete sobre a mesa de Paul, sem nem mesmo ler o que havia escrito nele.

─Ela é sempre tão persistente assim? – Perguntei com um sorriso.

Paul deu uma olhada no papel soltando uma risada abafada ao concluir de quem ele viera.

─Não se preocupe, é sempre assim com os novatos que ela acha interessantes, mas depois de um tempo ela esquece, é só ignorar, a não ser que você queira...

Ele levantou uma sobrancelha me fitando. Demorei um pouco para entender, mas quando o fiz acabei soltando uma risada, desconcertado.

─Ah, não, claro que não.

Rimos durante mais alguns minutos, até o sinal tocar mais uma vez sinalizando o início da aula. A professora de inglês tinha uma expressão severa, e pelo visto isso essa era uma das suas principais características. Depois de entrar na sala ela logo começou a escrever no quadro sem ao menos nos cumprimentar, a julgar pelo silêncio que todos fizeram resolvi não abrir a boca, apenas olhei para Paul e ele me devolveu o gesto com uma mensagem implícita: Fique quieto se quiser sair daqui vivo.

Engoli em seco e permaneci calado durante toda a aula, até que não foi tão horrível como eu imaginara, mas eu justifiquei isso com o fato da professora não ter me notado ali, caso contrário eu tinha certeza de que ela faria questão de pegar no meu pé, e no momento eu não podia me dar ao luxo de ter uma professora como inimiga.

Ainda tivemos algumas aulas de química e logo fomos liberados para o intervalo. Dessa vez tudo correu normalmente, Katherine até nos viu, mas não quis se aproximar. Talvez por estar com medo de acontecer o mesmo do outro dia, porém, ela ainda acenou na minha direção e eu acenei de volta, só para não se passar por mal educado.

Quando o intervalo acabou eu e Paul nos separamos de Valerie que iria se reunir com o grupo de jornalismo da escola e fomos para o campo de beisebol, no caminho Paul explicou que não gostava nem um pouco do esporte, e nunca teve vontade de entrar para o time da escola, o Angry Owls. Passei a achar seriamente que também ficaria na mesma situação que Paul, apesar de não conhecer muito a respeito do esporte.

Dirigimos-nos ao vestiário e trocamos os habituais uniformes pelos da educação física, que tinham como estampa uma coruja de olhos arregalados e o nome do time escrito em grandes letras laranjas, o resto da roupa era na cor preta.

O campo rodeado de arquibancadas não estava tão cheio, estava sendo usado apenas um canto onde alguns alunos corpulentos treinavam algumas jogadas. Ao longe, do outro lado, um grupo de garotas usando roupas minúsculas tentavam formar uma pirâmide humana, mesmo distante eu pude notar Katherine com seu costumeiro ar de superioridade.

─É sempre assim. – Paul chamou minha atenção. ─Como o campeonato está próximo os jogadores do time precisam de mais atenção, e nós podemos fazer o que quiser até o horário acabar.

Ele abriu um dos seus melhores sorrisos e começou a realizar alongamentos simples, aparentemente disposto a fazer algum exercício, apesar de não ser necessário. O acompanhei nos alongamentos, concluindo que aquela aula não seria tão ruim como eu imaginara.

─Que tal uma corrida? – Convidei-o com um sorriso.

Paul assentiu e sem nem deixar que eu me preparasse disparou pelo gramado que alternava entre verde escuro e verde claro.

Chegando ao outro lado do campo eu estava ofegante e minhas roupas ensopadas de suor, já Paul parecia ter apenas andado alguns metros, logo atribuí a isso o fato de eu não estar acostumado a qualquer esporte.

Passamos mais algum tempo apenas caminhando ao longo do campo e conversando sobre coisas relacionadas à escola, o que me fez começar a achar que Phillip não era o único que preferia não tocar no assunto que mal saía da minha cabeça. Apesar de estar me descontraindo com Paul vez ou outra um pensamento vinha à tona, me fazendo ficar tenso por alguns segundos.

O horário estava quase no fim quando Paul apontou para onde os jogadores treinavam, de longe os avistei em volta de um tonel vermelho. Apressamos o passo na direção deles e, ao chegar mais perto, vi que o que eu vira na verdade se tratava de um grande barril de plástico cheio de suco, que estava num canto ao lado de uma torneira que servia para regar o gramado. Ver todos consumindo a bebida me fez perceber que estava quase tendo um ataque de desidratação.

Sem mais demoras peguei um copo descartável e comecei a beber o líquido, saciando minha sede.

Eu e Paul estávamos no segundo copo e íamos pegar o terceiro quando três jogadores com capacetes nas mãos se aproximaram do barril ao mesmo tempo em que nós começávamos a encher nossos copos. Pela expressão de sarcasmo no rosto dos jogadores conclui que Katherine não seria meu único problema naquela escola.

─Ora ora, um novato, porque não se juntou a nós no treinamento? – Perguntou um deles ao se aproximar.

Ele tinha cabelos curtos e loiros e olhos castanhos que me fitavam de cima para baixo. O modo como suas sobrancelhas se arqueavam emanava uma certa crueldade, o uniforme que cobria seu tórax ajudava a construir a imagem de cruel, mas preferi acreditar que aquilo era preciso quando se tratava de um esporte tão violento.

Antes que eu pudesse formular uma resposta ele prosseguiu:

─Quem sabe não arranjamos um lugar para você na equipe? Se tiver talento é claro.

O garoto olhou para Paul ao meu lado e em seguida para os seus amigos, que logo lhe acompanharam numa risada de escárnio. Aquilo já foi o suficiente para confirmar minhas suspeitas. Fitei-o com uma expressão fria, e já abria a boca para revidar quando Paul deu um passo à frente.

─Fique sabendo que Axel tem muito talento, mas não está interessado nesse time idiota. – Ele cuspiu as palavras na direção do líder do grupo, que no mesmo instante desfez o sorriso com ar de superioridade.

Todos ao nosso redor ficaram em silêncio, esperando a reação do jogador loiro. Ele, por sua vez, se aproximou ainda mais de nós enquanto mantinha o olhar fixo em Paul, sua expressão estava até então ilegível. Por uma fração de segundo vi um sorriso dissimulado brotar no seu rosto e logo ele abriu a boca, mostrando os dentes alvos.

─Então é isso que você acha do nosso time? Já era de se esperar, você mal consegue lançar uma bola.

Ele deu mais um passo e eu temi o que fosse fazer, porém, já era tarde demais. As mãos dele se ergueram e empurraram Paul para trás que caiu sentado na grama aparada. Aquilo foi a gota d’água, olhei para Paul e o vi respirando fundo várias vezes, provavelmente tentando controlar seus poderes, o problema era que eu não tinha tanta facilidade.

Voltei os olhos para o grupo de jogadores, que agora tinham seu líder de volta e gargalhavam aos berros apontando para Paul, caído. Senti minha respiração cessar por alguns segundos e forcei meus pulmões a voltarem a funcionar, enquanto algo quente ardia no meu estômago e se espalhava pelo resto do corpo: Raiva.

Cerrei os dentes, imaginando o desfecho daquilo. Logo os efeitos começaram a surgir, o vento antes ameno e morno caiu de temperatura e ganhou força, fazendo alguns equipamentos grandes – que são usados para simular outros jogadores – cairem de lado. No começo tentei lutar contra o sentimento, mas acabei deixando que a sensação tomasse conta de mim, eu sentia o poder fazer meus nervos pulsarem e meu coração bater de forma ritmada. Eu quase gostava daquilo, mas entendia que era potencialmente perigoso para qualquer um ao meu redor.

Meus olhos estavam focados no garoto que empurrara Paul, mas com a visão periférica vi quando o tonel de suco caiu de lado e a torneira explodiu, fazendo um jato da bebida ser lançado na direção do time. Tentei mover meus pés, mas eles pareciam grudados no solo. Os jogadores olhavam para os lados estranhando a mudança de clima e tentavam se desviar do suco. Uma mão tocou meu ombro e logo Paul colocou-se na minha frente.

─Axel, controle-se, não é tão difícil, apenas respire fundo e...

Ele tinha uma expressão preocupada, e mal havia fechado a boca quando a mangueira ali perto começou a esguichar água para todos os lados, batendo descontroladamente em tudo que estava no caminho. Vendo a gravidade da situação, Paul agarrou uma das minhas mãos e me puxou pelo gramado até o interior da escola. Ao chegarmos perto dos vestiários ele abriu uma porta e entramos num compartimento minúsculo, apesar de estar num estado de transe vi alguns objetos dispostos em prateleiras acima de nós. Paul fechou a porta e segurou meus ombros com firmeza. A pouca luz que entrava pelas frestas da porta me deixou distinguir seu rosto.

─Tente pensar em outra coisa, em história, ou álgebra, afaste os pensamento raivosos.

Seus olhos oscilavam de um lado para o outro, fitando os meus. Os objetos nas prateleiras vibraram por alguns minutos e pararam, escutávamos agora apenas nossas respirações aceleradas. Paul continuou me segurando, e eu pisquei algumas vezes retomando a consciência aos poucos, do lado de fora ouvi algumas vozes se aproximando e temi sair dali.

─Temos que ir, a aula acabou.

Saímos e nos trocamos em silêncio, eu ainda estava abalado demais para falar sobre aquilo.

Valerie nos encontrou dois na frente da escola, e apenas com uma rápida olhada pareceu perceber o que tinha acontecido, mas preferiu não fazer perguntas. Só quando nossos pais chegaram senti vontade de dizer algo.

─Até amanhã. – Abri um sorriso pouco convincente. ─E Paul, obrigado por me ajudar.

Eles sorriram na minha direção e acenaram em resposta. Phillip me esperava no carro com a mesma expressão serena de sempre. No caminho para casa contei a ele os ocorridos do dia, e mais uma vez ele escutou sem demonstrar qualquer estranhamento.

O resto da minha noite foi tão normal quanto a de qualquer adolescente, depois do jantar me recolhi e terminei as atividades escolares pendentes até sentir o sono tomar conta do meu corpo e dormir sobre os livros.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.