Lucille - A Pedra Nihil

11 Sobre Vampiros e Novas Ideias


Notas iniciais
Boa leitura :D

Lucille estava sentada em uma poltrona ao lado de Andrew, na ala hospitalar do casarão. Estiveram revezando, ela, Daiana e Vitor, esperando que o rapaz melhorasse. Odete explicou para Lucille que, uma vez que vampiros se transformavam, se não estivessem muito bem treinados e acostumados, perdiam o controle, e se transformavam em seres comandados puramente pelo instinto de violência e cede de sangue, o que poderia perdurar dias ou semanas. Andrew conseguira manter o controle sobre si mesmo, o suficiente para libertar Lucille, e então a fera tomou conta de suas ações. A bruxa observava seu novo amigo, ainda incapaz de acreditar que o rapaz sério, cheio de decoro, que há alguns dias parecia incapaz de qualquer ato impulsivo, fosse um vampiro.

Tudo que ela sabia sobre os sugadores de sangue, é que eles eram vilões, era nisso que ela acreditava. Nunca em sua vida se deparara com um que não estivesse interessado apenas em seu pescoço, pelo menos não até agora. As feições do rapaz já haviam voltado ao normal, seu rosto recobrara o tom rosado, e as presas haviam desaparecido.

Enquanto a garota analisava o rapaz, com um livro esquecido em seu colo, ele começou a dar os primeiros sinais de consciência. Depois que Lucille o derrubara com o feitiço do sono, ele permaneceu, por mais dois dias, desacordado. Nesse meio tempo Lucille, conversou com seus colegas, sobre o que acontecera na casa assombrada.

— Hei. — Ela disse, assim que o rapaz abriu os olhos. Andrew tentou erguer uma de suas mãos, mas ele estava preso a cama por correntes – Desculpe, Elísio disse que era mais seguro te manter assim, até que você melhorasse.

— Eu entendo. — O rapaz respondeu com uma nota de tristeza – Não é a primeira vez que isso acontece.

— Como você está se sentindo? — Havia um pouco de receio em sua voz.

— Melhor do que eu mereço. — Respondeu, virando-se para ela – Espero que eu não tenha machucado ninguém dessa vez. — Disse, deprimido.

— Não, Daiana foi mais rápida. — Lucille assegurou. Ficaram um momento em silêncio, antes que a bruxa voltasse a falar – Eu jamais imaginaria – Começou, sem saber como colocar seu pensamento em palavras – Sempre achei que… Bem, que…

— Que vampiros fossem criaturas malignas, sem qualquer moral ou pudor. Que não houvesse um deles no mundo que não fosse desprezível e digno da morte. — Falou como se não fosse a primeira, e provavelmente não fosse a última vez que dissesse isso.

Lucille se sentiu envergonhada, não era de sua natureza ter preconceitos, ainda mais quanto já sofrera com eles em sua infância. Ela não discordou do que Andrew disse, porque em parte era realmente o que ela pensava, logo só disse o que achava que era o correto no momento:

— Me desculpe. — Baixou seu olhar para o livro em seu colo.

— Não precisa se desculpar. — Falou, se ajeitando – Eu entendo que os da minha espécie não fazem muito para melhorar nossa reputação. — Se remexeu novamente no colchão – Você poderia me soltar. — Pediu, puxando as correntes.

Lucille hesitou por alguns segundos, antes de fazer um leve gesto com as mãos. Ouviram um “clique” indicando que as correntes tinham sido abertas, e Andrew puxou suas mãos para a liberdade. Murmurou um “obrigado”, e caíram novamente no silêncio.

— Você conhece a verdadeira história dos vampiros? — Ele perguntou.

— Tudo que eu sei sobre vampiros, eu li em livros de mitologia. — Lucille disse, dando de ombros.

— Muita da mitologia é fantasiosa, coisas como não poder andar sob a luz do Sol, ou a história do alho. — Gesticulou com as mão enquanto falava, como se fosse um professor dando uma aula – Claro que a parte de depender do sangue para se alimentar é real, a força sobre-humana, a incapacidade de ser morto por meios comuns, todas essas coisas são verdades. — Lucille assentiu – Embora as histórias sobre a origem dos vampiros sejam, em geral, bem divergentes, existe uma verdade e várias inverdades. A história correta é essa: Drácula era um aliado de Lúcifer na batalha celestial, trabalhando na Terra sob a promessa de poderes e uma vida eterna. Quando o arcanjo sucumbiu, seus comparsas caíram junto. Drácula ganhou os poderes e a vida eterna que tanto desejava, mas foi amaldiçoado. Seu sangue secaria, e viraria pó, a única maneira de sobreviver era se alimentando do sangue de outrem.

“Como uma doença, a maldição podia ser passada, hereditariamente, ou pela mordida. Mas diferente de Drácula, o original, seus descendentes amaldiçoados viravam feras, ensandecidas pela necessidade do sangue.”

Ele fez uma pausa, como se pensasse em suas próprias palavras.

— Você não precisa falar sobre isso se não quiser. — Lucille disse – Tenho certeza que o Vitor e Daiana vão querer saber que você está bem. — Ela começou a se levantar, mas Andrew a deteve, pousando sua mão sobre a da bruxa.

— Eu prefiro falar tudo agora. — Ele se ergueu na cama, e Lucille voltou a se sentar – Só quem sabe sobre a minha condição são nossos amigos Vitor e Daiana, e Elísio e Odete. Eu vim para o Brasil tentando deixar para trás meu passado. — Andrew sentou com as costas apoiadas no encosto da cama – Meu pai, se é que eu posso chamá-lo assim, era um vampiro puro sangue, descendente direto de Drácula. — Lucille ergueu as sobrancelhas em surpresa. A bruxa notou como o sotaque dele se adensava a medida que contava sua história – Ele enganou minha mãe, a seduziu, no fim queria apenas alguém que o ajudasse a gerar uma prole. Quando ela se deu conta disso, tentou fugir, e teria conseguido, não fosse pelo fato das contrações terem começado dois meses antes da data estimada para o meu nascimento. Sem ter como fugir, em seu trabalho de parto eles a capturaram, e assim que eu nasci ela foi morta.

A bruxa prendeu a respiração, sentindo novamente aquele aperto em seu peito, uma tristeza que antes ela só sentia ao se lembrar de Adelaide. Lucille murmurou um “sinto muito”, e deixou que o rapaz continuasse.

— Tentaram fazer de mim um assassino, mas eu simplesmente não conseguia ser como eles. Na primeira oportunidade que tive, entrei em um avião para o Brasil, aproveitei o fato de saber português para ficar o mais longe que podia de meu pai. Depois de um tempo tentando me misturar, eu estava definhando, sem beber sangue há muitas semanas, mas eu preferia morrer a atacar alguém. Foi quando Elísio me achou, ele estava em uma missão, e eu escondido na casa abandonada que eles foram investigar. Fui levado para a dimensão, na qual consegui entrar sem problemas, garantindo que não tinha intenções ruins. Desde então eles vem me alimentando com bolsas de sangue que Odete consegue em um hospital, e eu venho tentando ajudar nas missões com minhas habilidades em combate e conhecimento do sobrenatural.

Lucille ouviu com atenção, e então permaneceu em silêncio, digerindo o que acabara de ouvir.

— Espero que isso não vá afetar a maneira como você me vê. — Andrew completou.

— De forma alguma. — Lucille garantiu,dando um leve aperto na mão do rapaz, que por todo aquele tempo estivera sobre a dela – Você tem sido, nesse curto período de tempo, um bom amigo, o fato de ser ou não um vampiro não vai mudar isso. — Ela deu um sorriso que o rapaz espelhou.

Logo Vitor e Daiana entraram na sala, junto de Elísio e Odete. Lucille discretamente puxou sua mão para pousá-la novamente sobre o livro.

Seguiram-se uma série de questionamentos sobre se Andrew estava bem, e como estava se sentindo, se precisaria de mais sangue. Discutiram uma vez mais sobre o que acontecera no casarão.

— Não acho que Lucille deveria deixar a dimensão novamente. — Vitor disse.

— Eu não quero ficar presa aqui. — A bruxa argumentou.

— Eu quero sugerir uma terceira opção que vai mantê-la aqui por algum tempo, mas não vai deixá-la sem ter o que fazer. — Odete começou, ao que todos prestaram atenção – Apesar de ser uma Plenus, e ter sido instruída no mundo mágico, você não teve um treinamento adequado. Eu gostaria de saber Lucille, se você me aceitaria como sua professora, e treinaríamos aqui mesmo, dentro do galpão. Em vez de sair e praticar seus poderes em combate, você poderia dominá-los antes, e quando saísse em missão, ficaria cada vez mais difícil pegá-la desprevenida.

— Acho que seria ótimo. — Lucille respondeu.

— Mas ela vai continuar nos acompanhando? — Daiana perguntou.

— Eu quero ensinar alguns feitiços que vão ajudá-la a se defender melhor, isso só vai durar algumas semanas, e então acho que seria seguro deixá-la sair novamente. O grupo de Nikolaus não é despreparado, eles já provaram isso, mas eu não acho que eles façam dimensão do que é brincar com um Plenus. Quanto mais Lucille praticar a magia dentro dela, mais forte ela vai se tornar, e mais difícil vai ser investir contra ela. Logo algemas enfeitiçadas não farão nem cócegas em você Lucille, mas antes precisamos garantir que todo seu potencial seja liberado.

— Vamos fazer isso então. — Lucille disse, animada.

Com a perspectiva de aprender magias novas sob a tutela de Odete, a bruxa começou a experimentar um sentimento que há muito ela não sentia, o conforto da amizade, a sensação de ter mais pessoas zelando por seu bem-estar, mesmo que eles também estivessem pensando no resto da humanidade, Lucille sentia crescer nas pessoas ao seu redor uma afeição sincera, que ela esperava poder devolver.

Notas finais
Espero que tenham gostado ♥