Lucille - A Pedra Nihil
18 Fale Conosco Andrew
Quando Lucille chegou na área de treinamento, avistou Andrew encostado sobre uma das bancadas a observando com um olhar distante. A bruxa respirou fundo e se aproximou tentando ignorar a aura de ameaça que rodeava o rapaz naquele momento. O que quer que estivesse escrito naquela carta, o enfurecera e entristecera no mesmo grau.
— Você está bem? — Lucille tentou assim que chegou perto o suficiente. O rapaz apenas acenou que sim e alcançou uma das espadas que ficavam nos suportes, uma de verdade com lâmina de metal e cabo trabalhado com joias — Nós vamos começar a usar espadas de verdade? — A bruxa quase não conseguiu conter se ânimo. Ela queria descobrir o que tinha acontecido com Andrew, por ela e por Daiana, mas já que o rapaz não parecia pronto para falar sobre isso, ela se concentraria em seu treino.
— Você vai lutar com o alvo. — Ele apontou para um manequim estufado com palha que estivera ali desde o primeiro treino — Só para se acostumar com a mudança de peso da lâmina. Mas... — E um pouco do brilho de antes retornou ao seus olhos — Se eu conheço alguma coisa sobre bruxos, eu imagino que você não vá sentir muito da diferença. — E dizendo isso ele simplesmente jogou a espada que vinha segurando, uma de lâmina longa, para Lucille, que a pegou quase sem esforço.
O rosto da bruxa se iluminou, ela estava segurando uma espada de verdade, uma com o corte tão afiado que só de olhar para a lâmina já poderia machucar. Lucille se conteve para não começar a dar pulos de agitação. Ela poderia fazer com que a água se dobrasse ao seu comando, poderia fazer o tempo passar como se numa piscina de mel, poderia criar uma explosão que facilmente levaria uma casa de dois andares abaixo, e, ainda sim, ela se sentia uma criança hiperativa por estar segurando uma espada. Andrew sorriu minimamente, sua preocupação e nervosismo cedendo ante a animação de Lucille.
Durante horas ela treinou os mesmos movimentos que até aquele momento ela praticara com a espada de madeira, ouvindo as correções que Andrew sugeria, arrumando seus pés, sua posturas, o ângulo do cotovelo. Foi como trocar de cordas de nylon para cortas de metal em um violão, era tudo praticamente igual, e ainda sim, diferente. Haviam os cortes, e logo a bruxa descobriu que aquele alvo não era um simples e inerte alvo de palha. A princípio ela notou que ele fora enfeitiçado para se regenerar de qualquer estrago maior que lhe fosse feito. Talhos profundos, pedaços arrancados, sempre acabavam voltando ao normal. Logo Lucille descobriu que ele também fora enfeitiçado para bloquear ataques.
Assim que o rapaz deu o treino por encerrado (embora Lucille relutasse em lhe devolver a espada), os dois se sentaram no chão da área de treinamento, a garota tentando recuperar o fôlego. Os dois se entreolharam por alguns segundos, e Lucille achou que ele lhe contaria o que estava acontecendo, mas Andrew apenas se sentou em silêncio, esperando que a amiga descansasse. Depois de alguns minutos ele se levantou, dizendo que precisava conversar com Odete, e deixou o galpão. Intrigada e novamente preocupada, Lucille permaneceu estática por mais um longo tempo, antes de se levantar e procurar por Daiana.
...
Era a segunda vez naquele dia que Andrew se sentava na frente de Odete e Elísio. Da primeira vez foi para lhes mostrar a carta, agora era para pedir permissão para deixar a dimensão. A bruxa mais velha ainda segurava o papel escrito que o rapaz lhe entregara mais cedo. Ela relera algumas vezes, e até mesmo a testara para saber se não fora enfeitiçada.
— Você tem certeza que quer fazer isso? — Odete perguntou, devolvendo a carta para Andrew, que apenas acenou positivamente — Certo, eu não gosto nada da ideia de um de vocês deixando a dimensão sozinhos, mas eu acredito que você possa lidar com qualquer crise eventual. Amanhã eu vou abrir uma passagem, levante-se cedo, vamos tentar evitar os olhos curiosos. — Mais uma vez o rapaz acenou, e então saiu.
Caminhando de volta para seu quarto, ele encontrou Lucille, sentada de pernas cruzadas em um dos cantos do corredor, com um livro cuja capa era de um alarmante tom de amarelo e no título era possível ler " Auras Positivas e Como Reconhecê-las". Não era coincidência que ela estivesse ali, a bruxa estava esperando Andrew voltar para seu quarto, mas conforme os minutos passaram ela começou a sentir entediada, e como trouxera aquele livro da biblioteca, achou que poderia fazer o tempo passar mais depressa usando apenas a magia da leitura.
— Lucille. — Ele chamou, fazendo a bruxa dar um salto, e colocar o livro de lado.
— Oi! — Começou, olhos arregalados logo tomando um tom de seriedade — Daiana, eu e Vitor queremos conversar com você. — Disse em um quase tom de demanda.
— Conversar sobre o que? — O rapaz andou até sua porta, não vendo Lucille revirar os olhos.
— Você sabe muito bem, a carta que chegou para você, te deixou diferente, nós só queremos ter certeza de que está tudo bem. — Falou enquanto se levantava e ia até ele.
— Está tudo bem, vocês podem ter certeza. Que tal? — Andrew entrou em seu quarto e estava prestes a fechar a porta, mas essa travou a meio caminho, bloqueada por um objeto invisível. — Me deixa fechar a porta Lucille. — O tom dele era cansado, e era como o rapaz se sentia, aquele dia o esgotara mentalmente e ele queria apenas o conforto temporário de sua cama. Mas a bruxa parecia obstinada, e o rapaz quase podia compreender, se os papéis fossem trocados, Andrew também estaria insistindo para saber o que preocupava Lucille, mas naquele momento, e com aquele assunto, ele preferia que os outros não soubessem, não porque não confiava neles, confiava neles plenamente, no entanto aquele era um assunto do qual Andrew sentia vergonha. A carta trouxera consigo uma época no passado sobre a qual ele gostaria de esquecer.
Os olhos da bruxa passaram de obstinação a nada além de preocupação e afeto, e o rapaz sentiu sua força de vontade ceder. — Pode chamá-los. — Andrew se ouviu dizendo — Eu vou contar tudo. — Uma parte dele já se arrependia da decisão, mas então braços curtos rodearam seu torso. O abraço durou apenas alguns segundos, nos quais Andrew não deve tempo de devolver a demonstração de afeto, quando seu cérebro raciocinou sobre o que estava acontecendo Lucille já o soltara para chamar Daiana e Vitor.
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