Lucila

29 XXIX – Angústia


NO QUARTO, os outros meninos ouvem apenas o barulho da tempestade, sem dizer nada. Todos com medo, mesmo Robert, que até ali usava uma atitude sarcástica para descobrir em que seus amigos haviam-se envolvido. Agora o medo é o de cada um contra todos os outros... Era assim que ele se sentia. E será que os outros sentem o mesmo, ele pode usar isso para saber mais?

Não há como arriscar... Mas o que impressiona os outros na verdade, é a capacidade de um deles em tentar criar um clima ruim. E não entender o porquê de Robert em mudar a conduta. Mas desconfiam que o que motive o amigo seja o mesmo sentimento que todos eles têm, mas que um sente diferente do outro: angústia.

A vida deles é muito mais complicada do que se pode imaginar.

São pessoas públicas. Jovens demais para muitas experiências que, normalmente, acontecem muito mais tarde na vida de gente que não é famosa. Arrumar emprego, administrar salário, questionar o quanto ganha, por que ganha tal valor, mandar dinheiro para a família, saber notícias dos parentes... Não viver mais em casa. Viver o tempo todo longe de pai, mãe, irmãos, avós. De uma namorada, talvez. E não sair de casa em paz, não poder ir para uma escola a pé, sair para se divertir. Nada disso. Era somente uma agenda repleta de gente fazendo perguntas o tempo inteiro! Gente nos bastidores de tudo aquilo que chegava ao público, disfarçado de vida maravilhosamente livre, uma gente que facilita tudo a uma cabeça muito jovem, em troca de dinheiro e favores. Todos inexperientes para tudo aquilo. Ele tenta lembrar todo santo dia, se o avisaram de que seria assim.

Tudo o que consegue recordar é de que todos os dias acorda numa casa que não é a sua. Não é seu quarto. Nada ali é dele. Nem a vida. Nem a vida dele, nem as dos amigos.

Agora três deles mentiram para todos naquela casa... O que revoltava Robert, o quarto mais jovem na banda e encarado pelas fãs como um dos mais “inocentes”, era a sensação de ser passado para trás: se eles estavam tentando ser livres, saindo escondidos, por exemplo, por que não contaram para ele? Se eles sabem que ele também quer tanto quanto eles ser livre, ainda que apenas umas horas... Por que fugiram apenas os três? Que tanto eles escondiam e por que era tão grave? Porque só podia ser grave, para aquela avalanche de mentiras acontecerem! De que adianta ser sempre obediente, disciplinado a ponto de virar modelo de comportamento para os fãs, se dentro disso tudo não acontece assim? Lá embaixo, será que Ricky não estava mentindo de novo para a copeira? “Até que seria bom que ela aplicasse castigo, para aprenderem”, pensou o rapaz.

Olhava para a janela, a vidraça sendo golpeada pela chuva inclemente, parecia que o vidro trincaria a qualquer momento. Os garotos, já acostumados com a escuridão, olham uns para os outros... Tomando cuidado para não se deixarem notar.

Robert não os encara. Não precisa.

Ele não quer aquele sentimento ruim dentro dele, mas não consegue evitar. Está a ponto de explodir e sabe que vai.

De repente, um relâmpago ilumina o quarto, o estalar de um raio ameaça um clima a piorar. O da natureza e o da casa. Os garotos sentem que algo vai acontecer. Algo que não podem evitar e nem o que eles se tornaram não os protegerá.

— Não se ouve nada nessa chuva... – Diz Robert.

Ele sabe que os meninos o escutaram. Ninguém responde.