Lucila
22 XXII – Temores
OLHOU O ENDEREÇO ANOTADO NUM canto da página do jornal, horrorizado! Convocado a depor numa delegacia por causa duma morte?! Em pânico, Plácido disparou no fusca para casa!! Olivia estava sozinha havia quanto tempo com aquele... “Monstro!!”, pensou sobre a jovem, envergonhando-se em seguida. Mas o que era tudo aquilo, afinal?
Em instantes, chegava em casa e abria a porta, desesperado, olhava a vizinhança, o jornal embaixo do braço atrapalhava, tudo às pressas... Para ver sua esposa, sentada no tapete diante da jovem, também sentada e quieta, observando os bichos de estimação brincando por perto.
— Ué, já em casa? – Levantou-se Olivia, dando um beijo nele – O que houve, os clientes desmarcaram?
Ele não estava entendendo nada.
Por que Sergio disse então para ele voltar para casa logo?
— Amor, preciso te mostrar uma coisa. – Seu olhar tão grave, ele mal conseguia se controlar, amassando o jornal nas mãos.
A menina continuava calma, olhando Eartha e Corto brincarem. Parecendo alheia a tudo.
***
Na mansão dos meninos, o clima também não estava nada confortável. Leitor, você já chegou em casa além da hora determinada? Ou ficou fora de casa sem avisar que ia demorar? Ah, hoje temos os celulares e aplicativos para atenuar situações, certo? Mas esta história é na época em que estas tecnologias não existiam! Telefones em casa eram luxo para a maioria das pessoas. E se numa casa onde o dono passa a maior parte do tempo viajando e deixa menores aos cuidados de seus empregados, esses jovens agirem sem dar explicação... McGillins geralmente era simpático. Mas ali, ele estava bufando feito touro em arena!
— Vão me dizer o que foi que houve, ou terei que sair batendo nas casas dos outros para saber? Porque sabem que eu faço mesmo!!
— A gente já disse que não houve nada, Mac! – Ricky sempre levava a responsabilidade, era o mais velho... – Só fomos visitar os tios. Eu esqueci um livro de ciências com a Tia Oli e fui lá pegar. Eles foram comigo e acabamos esticando por lá, só isso!
— Só isso, não senhor! Eu já dei ordem que para sair, ou saem todos juntos e com um segurança pelo menos, ou apenas comigo sendo informado, para saber se eu permito ou não!
O empresário crispava-se, andava dum lado para o outro; era um tipo não muito alto, comum à maioria. Mas sua voz era sempre grave, bem alta! Conversando normalmente, parecia gritar. E gritando de verdade, então... Voltou-se aos empregados:
— Dona Nena, venha cá agora, por favor!
Oras, D. Nena já sabia daqueles arroubos do agora seu patrão. Mas o conhecia desde criança; veio da cozinha com cara fechada, pronta para se defender. E ele que fosse doido de castigar um dos meninos... E eles já conheciam aquele olhar nela.
— Em que eu ajudo? – Perguntou a copeira, com o olhar mais enfezado que tinha. O empresário sabia o que significava; mudou o tom:
— Minha querida, me diga uma coisa; porque não conversou comigo para saber se os meninos podiam sair ou não? Sabe que desaprovo iniciativas impensadas, Nena...!
Leitor, acha mesmo que uma senhora que trabalhara por mais de trinta anos para uma família e era mãe dum militar, teria uma atitude muito submissa? Dona Nena podia ser um amor de pessoa; mas toda aquela experiência de vida lhe dera um certo pulso.
Ordenou ao caseiro:
— José, por gentileza, mantenha os outros fora da casa, enquanto conversamos aqui. – E voltando-se para o empresário, continua — Mac, por favor me escute até o final. Não falamos de crianças pequenas; eles são menores, mas já têm idades para assumir parte de seus atos. Não lhe tiro a razão de se preocupar apesar disso! Afinal, os pais dos meninos não moram conosco e você sabe que discordo, já que são menores crescidos que viajam com adultos para várias partes do mundo, mas não com seus pais. Está certo; eles têm fãs e nem todo fã é coerente... Mas eles precisam assumir certas rédeas, senão não adianta permitir que amadureçam longe de casa. Mas não em casa? Qual o sentido disso?
McGillins afundou as mãos nos bolsos, cerrando o olhar. Detestava admitir, mas ela estava certa. Dona Nena continua :
— Você diz que eles não avisaram ninguém ao sair. Então eu seria uma irresponsável, pois não mereço ser avisada...? Ao contrário. Eles me disseram sim, que iam sair. Mais tarde, Dra. Olivia me garantiu na mesma noite que eles seriam trazidos em segurança para cá no dia seguinte. E realmente, vieram no carro do marido dela! Nós somos gente que você conhece há quantos anos?
Ninguém diz nada. Ricky sentado no sofá, pensando nas mentiras que contou a ela. McGillins a encarava respeitosamente... A vontade de responder, mas quieto. Rubem em algum canto da sala, ouvindo tudo sem olhar para ninguém, o juízo aceso. Dona Nena olha o relógio na parede e encerra:
— Se não confiar nos desta casa, nem nos seus amigos de longa data, o que mais vai fazer? Trancar os moços nesta casa não o deixará mais seguro. Se isso basta e não precisa mais de mim, voltarei aos meus afazeres. E vocês rapazes, todos para a cozinha! Mac, você tem hora. Sua licença.
Voltou à copa, passando as mãos no avental. Mas claro, tinha uma pulga atrás da orelha. Na sala, McGillins encara os meninos:
— Falaremos mais noutro instante. – E saiu.
Sergio sentado na escada, olhava para Ricky. O amigo assumiu o problema todo, não disse nada sobre ele e Rubem. Levaram bronca também, já que os três saíram juntos, mas o bombardeio de repreensões foi somente em cima do amigo. Mais um peso na cabeça... “Tio Plácido, ligue para cá”, pensava. Na verdade, queria mesmo era correr para lá de volta, mas naquele clima, nem dava para tentar. Mas ainda iria arriscar, ah se ia!
E os outros dois? Os pequenos pestinhas?
Escondidos na grade do corrimão, no andar de cima. Ninguém os notou! O empresário estava tão bravo por não ter visto os mais velhos em casa que nem falou com eles direito. Dali, ouviram a conversa toda. Roba cutuca Ralphy:
— Eu não falei? Eles estão escondendo alguma coisa.
E o caçula só ouvia, calado. Sergio, pensativo, nem os percebeu ali.
Ricky entrou cabisbaixo na copa. D. Nena, no balcão da pia, o percebe sem olhar:
— Venha cá – Ordena. Ele obedece quieto. — Como foi na casa de Dra. Olivia?
— Aah... Bem, D. Nena. Tudo na mesma, tio Plácido brincando o tempo todo...
— Certo. E... Onde está o livro de ciências?
O rapaz trava e ela tem certeza. O encara:
— Você mentiu, não foi?
***
Olivia e Plácido se afastaram para a cozinha, para conversar sem que a menina os ouvisse.
— Vicente, morto? Não consigo acreditar, amor...
— Também estou chocado, Ollie. Ele estava em evidência por causa de suas pesquisas, aparecia nos jornais... Não entendo como pode ter pensado em se matar.
— Mas se a Polícia acredita que foi suicídio, por que querem que você deponha?
— É o que quero entender. Mas não posso recusar a ir ou acabo preso. E também não quero deixar você sozinha com ela aqui em casa, os rapazes talvez nem possam voltar aqui logo.
— Acha que eles tiveram problemas?
— Coisa de garoto que dormiu fora, acho. Mas talvez tenham que demorar lá um tempo até poderem voltar aqui e não podemos passar por cima das condutas na casa do McGillins.
— Entendo. De qualquer modo, ela não demonstrou nada de estranho hoje. Só não teve muita fome, mal tocou na comida que fiz pela manhã. E agora, Eartha e Corto nem a rejeitam mais, estão no tapete com ela...
— É, mas não podemos relaxar até saber mais.
— Queria ir com você até à Delegacia.
— Eu sei, querida. Mas melhor não. Aquilo não deve ser lugar para você ir e ela não deve ser deixada sozinha aqui. Prometo que não demoro além do necessário e peço para ligar para cá, não é possível que neguem esse direito.
Olivia suspirou:
— Está certo. Por favor, tenha cuidado e pelo amor de Deus, Plácido; não deixe que eles te irritem, releve.
— Não deverá ser nada. – Deu um beijo nos cabelos dela – Somos médicos. Vicente estudou comigo, talvez queiram histórias de calouro. Até porque não terei nada além disso para contar a eles. Melhor eu ir logo para voltar logo. Não diga nada aos garotos ainda, tá bem?
— Certo.
— Vou levar o jornal comigo, talvez possam me dizer alguma coisa por lá. Nem li a reportagem e agora não dá tempo.
Seguiu assim o veterinário ao distrito. Olivia tinha um pressentimento ou coisa que o valha. E a sensação piorava ao olhar a menina, deitada de barriga no tapete, as finas asas balançando levemente e apoiando o rosto nas mãos feito criança, olhando Eartha brincar.
Então a jovem olhou para ela e sorriu.
Olivia devolveu o sorriso, mas isso não a sossegava.
Temia.
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