Lucerna
3 Lucerna
Notas iniciais
Refletia sobre o que havia acontecido hoje: uma convulsão que possuiu o meu corpo, um pensamento que não gostaria de ter tido (que veio quase que involuntariamente, com tanta certeza que me assustou), um homem morto. Os médicos me disseram que ele morreu quase que imediatamente.
Remexia-me na cama, sem conseguir pregar meus olhos. Toda vez que eu fechava vinha meu pensamento: "Eu vou morrer". E toda vez, eu via o rosto do homem, com sua cabeça sangrando e manchando seu terno cinza fino.
A luz do teto do meu quarto piscava, e eu rezava a meus santos para não apagar. Tinha medo do escuro. Tinha medo dos meus pensamentos. Coloquei um fone de ouvido, somente para ouvir uma música e me desvencilhar de tudo.
Dormi em um sono entrecortado, e acordei de madrugada, com a luz já apagada. Tentei acendê-la, e não funcionava.
Meu gato, Ignis, miava pedindo comida. Cheguei em casa tão transtornada que havia esquecido.
"Calma Ignis", disse, "vou pegar sua comida".
Desci pé ante pé, a casa estava totalmente escura, a luz havia acabado por conta do temporal que caia. Talvez, mais uma árvore da floresta tenha caído e acertado um poste de luz das redondezas.
Acendi uma vela e coloquei a ração, acariciando o gato.
Eu vivo tão sozinha, desde que decidi estudar latim na universidade, meus pais continuam em sua cidade-natal.
Levo a vela para meu quarto, colocando-a em cima de um banco. Me sento ao lado, para ler um livro. Eu tenho que distrair desses pensamentos, continuo sentindo emoções que tento dispersar.
Lia a brochura emprestada da biblioteca do campus, era algum romance egípcio antigo, mas não absorvia nenhuma letra. Nada entrava. Eu só pensava freneticamente.
Fechei meus olhos, tentando parar meus pensamentos e meditar. Respirei fundo diversas vezes.
Abri e olhei a vela, fiquei apreciando o fogo que corria, aumentando e diminuindo.
Foi quando eu enxerguei:
Destruição.
Pessoas correndo.
Explosões.
Palavras em francês.
Choro.
Caos.
Atentado.
Lágrimas corriam pela minha face. O que era aquilo?
Soprei a vela e me recolhi na cama, tremendo, sem conseguir falar, nem me mexer.
Fale com o autor