Final de noite, o silêncio prevalecia nas ruas de Damn Hill. Apenas uma alma viva na rua, o Sr. Scott. Mas o que fazia ele sozinho a altas horas da noite? Parecia estar com pressa, acelerava cada vez mais o passo. Mas o que queria? Estava misterioso, inexplicável e, de repente, parou à porta do colégio.

Espera... O que queria ele a essa hora? Tirou de seu bolso o colar misterioso e entrou no colégio. Os corredores escuros, amedrontadores, uma ventania incessante do lado de fora, que entrava pela porta que ele havia deixado aberta, e chocava-se contra os armários dos alunos. Ele sentiu que estava sendo observado, aquele frio na barriga, o medo em sua face. O Sr. Scott colocou o colar dentro do armário de um dos alunos, não sabia a quem pertencia o armário, mas queria evitar que quem quer que fosse que estivesse o observando pegasse o colar.

Assim que ia saindo do colégio, de volta às ruas escuras, percebeu que estava de fato sendo observado. Viu no fim da rua um vulto, que havia parado ali debaixo da luz de um poste de esquina. Era um homem jovem. Sr. Scott começou a andar rapidamente para o lado contrário ao daquele homem, mas vultos atormentavam-no e, assim que olhou para trás, não viu ninguém. Aquele homem havia sumido, então o Sr. Scott parou ali mesmo, no meio da rua, em frente a um barzinho de esquina, com o medo exposto em seu rosto. Estava assustado, quando escutou uma voz que disse mansamente:

— Olá... papai.

O Sr. Scott, assustado, vira-se rapidamente e logo muda a expressão para uma séria, parecia mais de raiva.

— O que está fazendo aqui? – Disse ele, despreocupado.

— Ah Sr. Scott, essa não é uma forma muito educada de se receber um convidado... Papai. – Julian referiu-se ao Sr. Scott como pai, com ironia. Aquele garoto alto de cabelos e olhos pretos, que levavam fúria e tristeza, deixou o Sr. Scott trêmulo. Ele o temia, mas já deixou logo explícito que não se importava.

— Eu não sou seu pai, sua aberração. – Disse o Sr. Scott, com agressividade na voz. Ele virou as costas e começou a andar, mas sem explicação ele parou. De alguma forma, estava preso, não conseguia mexer suas pernas. Algo mais forte o segurava parado ali.

— Aberração? Ah, sim! – Julian concordou, era uma aberração. Ele continuou com fúria no olhar, mas com a voz calma. – A aberração que você e aquele seu grupo maldito criaram... – Ele sorriu com ironia. – Criaram e depois tentaram destruir... Achou mesmo que conseguiria? – Outro sorriso correu em seu rosto, Julian aproximou-se cara a cara com o Sr. Scott. – Tentou destruir seu próprio filho. – Julian gritou enfurecido, mas controlou-se rapidamente.

O Sr. Scott percebeu o ódio no olhar de Julian, que o rodeava, olhando-o sempre nos olhos. Seus olhos pretos que fixavam um olhar frio. O Sr. Scott mostrava-se firme e nem um pouco arrependido.

— Sinto muito. Agora me deixe ir, por favor! ... Filho. – Disse o Sr. Scott, tentando comovê-lo.

Julian deixou que caísse uma lágrima de seus olhos, mas, com grande ódio no coração, secou-as rapidamente. – Eu vim de muito longe pra te encontrar, e não vou te deixar vivo... – disse ele, com uma face inexpressiva.

— Não, por favor, não faça isso. – O Sr. Scott implorou pela vida com lágrimas nos olhos. Mas o ódio que Julian tinha pelo pai era maior, e havia muitos motivos para odiá-lo!

— Sinto muito... – apenas com essas palavras, Julian fechou sua mão e o Sr. Scott caiu morto, com o pescoço quebrado. Sem o menor esforço, Julian matou seu pai, e sem tocá-lo. Como explicar isso? Não havia explicação, pelo menos não naquele momento. Sem nenhum peso na consciência, Julian virou-se e andou pelas ruas calmamente, como se não houvesse acontecido nada. E o porquê de tanta frieza? O que havia de tão assombroso no passado dele? Não tinha mais do que 20 anos, quantas coisas poderiam ter acontecido para ter esse ódio no coração, tão imenso? E ali continuou o corpo do Sr. Scott, estirado no chão, sem nenhuma gota de sangue, nenhuma digital, e nenhuma prova que culpasse Julian daquele assassinato. Como descobririam quem o matou? Não descobririam!

O sol nasceu e amanheceu o dia, dia de aula, e os alunos encontravam-se agitados pela volta das aulas, e ouviam-se os comentários:

— Chris e Dillan andavam pelo jardim do colégio, conversando:

— Minhas férias foram ótimas... Fui com o meu pai para a Europa, foi ótimo. E as suas? – Dillan comentava alegremente com Chris.

— A Grécia antiga é ótima, aprendi muitas coisas novas lá. Você sabia que, na Grécia, eles acreditam que seres místicos existem? Dizem que os deuses amaldiçoaram anjos que foram banidos do céu e os jogaram aqui na terra para serem mortais. Mas, por serem anjos, ganharam poderes. Algo do tipo. – Chris contou com entusiasmo sobre as coisas que aprendeu, também com um jeito meio estranho e desacreditado.

Dillan riu da situação com certo interesse expressado no olhar.

— Isso porque você não viu a história que meu pai inventou. – Dillan exagerava com o pai, muito raramente tinham um bom relacionamento.

— Sério? É tão ruim assim? – Chris ficou curioso para saber qual a história que havia inventado o Sr. Sullivan.

— Nada de mais, só que minha família tem uma maldição, a maldição do LOBO. – Dillan levou na brincadeira a história, falou sorrindo, com um pouco de ironia e deboche.

— Isso é loucura. – Eles riem da situação como se o pobre Sr. Sullivan estivesse louco. Dillan viu as irmãs Salton, Katherine e Nicoly, andando pelo pátio do colégio. “São lindas! ”, pensou ele.

— Aí, sabe quem são as garotas novas? – Perguntou Dillan.

— Não! – Chris olhava para as duas, e afirmou não saber quem eram as garotas, e também não mostrou muito interesse.

Katherine era alta, tinha os cabelos lisos, castanho-mel, e os olhos castanhos, que seduziam, sua pele clara e lábios cor de mel eram uma tentação. Sedutora, linda. E sua irmã Nicoly, que tinha os lábios grandes e rosados, cabelos lisos e pretos, os olhos castanhos eram lindos — ela também era linda.

— Katherine Salton, a mais nova líder de torcida do colégio, foi transferida da França para cá. Os pais mudaram-se no começo do ano e ela só veio agora, com a irmã dela, Nicoly Salton, duas calouras lindas para nós dois pegarmos. – Respondeu Dillan, dando socos fracos no braço de Chris.

Dillan, que era conhecido como o “pegador” do colégio, com um sorriso machista e sarcástico, foi até as duas.

— Olá, são novas aqui, não é?

— Sim... – respondeu Katherine, olhando-o nos olhos, com uma voz meiga e sedutora.

— E não somos o tipo de garota que você está pensando, então vai tirando seu cavalinho da chuva... Vamos, Katherine. – Nicoly interrompeu a conversa que mal tinha começado arrastando Katherine pelo gramado. Ela sabia das intenções do garoto, que não eram boas.

Dillan ficou sem palavras e olhou para Chris por cima dos ombros, ele voltou a encará-las e deu de ombros.

— O que eu fiz? – Gritou ele, sem entender.

Chris, em meio àquela situação, só conseguia rir de seu amigo.

Sophie e Sara conversavam no corredor do colégio, que estava quase deserto. Sara inclinou-se no armário, ao lado do de Sophie, escorando-se nele.

— É sério, Sophie, eu sinto esse tipo de coisa, e está na cara que ele gosta de você. – Sara ainda insistia, toda empolgada, tentando convencer a prima que Chris a amava. Chris tentava esconder, mas não conseguia, pelo menos não de Sara. Porém, Sophie não acreditava muito nisso, e não colocava muita fé. Pensava que Chris não conseguia olhá-la com outros olhos, e a vida não dava cartas vencedoras aos dois.

— Ah, Sara, não sei. Não acredito nisso, não. Sei lá, o Chris sempre foi meu amigo, fomos criados juntos, e tipo... eu acabei de terminar um relacionamento com o melhor amigo dele. E...

— Ah, fala sério, né, Sophie! O Chris é um gatinho, e é garoto sério, e não um galinha como o Dillan... Dillan Sullivan só queria transar com você, isso sim... Ainda bem que você não deu para ele o que ele queria. – Ela interrompeu Sophie, atrevidamente.

Barbara tinha um jeito meio gótico, os olhos e cabelos pretos lisos amarrados com um laço de fita preto. Ela usava batom preto e lápis também preto nos olhos. Aproximou-se indiscretamente. Ela não se importava com o que pensavam dela, era confiante:

— Com licença, eu tenho aula de História agora, e... Em qual sala deveria estar? É que sou nova no colégio e... vocês sabem, né, difícil de acostumar... Ah é, desculpa o mau jeito. Meu nome é Barbara, Barbara Palmer. – Ela pegou na mão de Sara e Sophie, apresentando-se, uma garota de boa aparência, mas um pouco esquisita. Porém, tinha um forte caráter.

— Claro que sei, é aquela sala ali, sala 19. E meu nome é Sophie, Sophie Winchester. E essa é minha prima Sara. – Sophie agradou-se com o jeito da garota.

— É, eu sei quem são vocês. Obrigada, com licença. – Barbara virou-se rapidamente e saiu em direção à sala de aula.

Sophie olhou para Sara com um sorriso que dizia “garota estranha”. Ela abriu o armário e o colar misterioso caiu junto aos seus livros. Pegou-os e, quando viu o colar, levantou seus olhos para Sara, assustada.

— Ai, meu Deus, o que é isso? – Sophie pegou o colar com um pouco de receio, olhando para Sara com os olhos esbugalhados. E levantou-se lentamente, erguendo o colar. – Um colar? É velho!

— Me deixa ver. – Sara pegou a pedra escura e levou um choque, que a fez saltar para trás. – Ai! – Ela gritou.

— O que foi? – Sophie assustou-se com o grito de Sara.

“Está louca?”, pensou ela.

— Essa coisa me deu um choque. – Disse Sara, enquanto sacudia os dedos, soprando-os para que amenizasse a dor.

Sophie não acreditou e pegou a pedra do colar. “Está louca!”, novamente o pensamento veio à sua mente, sem que Sophie percebesse.

— Está de brincadeira comigo, Sara? – Ainda segurando a pedra do colar, Sophie olhou para Sara com olhar de reprovação, como se Sara estivesse mentindo para ela. Mas não estava, o colar havia sim dado um choque nela. Mas por quê?

— Não, é verdade. Isso me deu um choque, eu juro. – Sara gaguejava em sua defesa. “Por que essa pedra maldita fez isso?... E por que a ela não?”, pensava.

— Ok! Então vou guardá-lo até aparecer um dono. – Sophie colocou o colar dentro do bolso superior da sua bolsa. Ela arregalou os olhos para Sara e puxou os lábios entre os dentes, respirando fundo. – Pronto, agora podemos ir? Esse papo já me encheu. E eu não quero correr um risco de levar um choque do colar. – Disse ela, com um pouco de deboche.

— Tudo bem, então... – Sara pegou no ombro de Sophie, ainda se perguntando “por quê?”. Elas começaram a andar lentamente. – Mas que ele gosta de você, ele gosta. – Sara ainda insistia.

Sophie continuava não aceitando a ideia da prima, encarando-a com reprovação. As duas entraram na sala, sorridentes.

O apito soou e o jogo começou. Julian estava ali, sentado na arquibancada, olhando com mágoa para Chris. Estava na dele, quieto, apenas observando. Não se mostrava nada preocupado, era como se não houvesse acontecido nada na noite passada. Estava tão calmo. E, por enquanto, continuava observando da arquibancada.

Os outros alunos jogavam futebol intensamente.

— Passa, passa. – Chris gritava para Dillan.

Dillan tocou a bola para Chris, o qual marcou o gol, e veio a vibração da torcida.

— GOOOL! ...

Chris andava pelo campo e olhava diretamente para Sophie, com afeição, como se tentasse seduzi-la apenas com o olhar e o sorriso, que estava se formando em seu rosto. Dillan percebeu o clima e balançava a cabeça. Ele não aceitava ter perdido a bela Sophie Winchester. Dillan ficou ali em pé, parado, e sem aceitar o que estava vendo acotecer. O apito soou novamente e o jogo voltou.

Sara aproveitou a oportunidade para insistir na ideia que tanto fazia Sophie pensar. Ela estava certa que Chris amava Sophie, os olhares trocados tinham acabado de comprovar isso.

— Sophie, viu? Olhou para você... Eu te disse. – Disse Sara, abraçando de lado a prima.

— Cala a boca, vai, Sara. – Sophie criticou-a. E, com um olhar de quem estava se convencendo com a ideia, ela olhou para Chris e admirou-o, olhando de cima a baixo enquanto ele corria pelo campo. Os braços fortes, os cabelos liso-ondulados, os olhos azuis que a hipnotizavam, a boca, o sorriso. Sophie olhava-o com admiração e convencia-se cada vez mais. “Será que ele me ama? ”, os pensamentos de Sophie tomavam conta de seu ser lentamente.

Sophie, ao olhar para o lado, viu que Katherine encarava Dillan com olhar sedutor. Ela o admirava assim como Sophie a Chris. O garoto que tanto a fizera sofrer. Os braços, olhos, boca. Aquilo tudo chamava a atenção de Katherine, que gostava de ter aos seus pés todos os homens. “Eu o terei para mim”, Katherine pensava com um sorriso.

— Katherine, para de olhar. – Nicoly interrompeu com serenidade.

— Por quê? Ele é lindo! – Katherine criticou a ordem da irmã. Ela não conseguia aceitar receber ordens de sua irmã caçula.

— Sim, é lindo, não posso negar. Mas é “galinha”, só pensa em sexo... Foi o que ele pensou quando te viu e o que continuou pensando o tempo todo.

— Credo, para de ser azeda, Nicoly. Desse jeito vai ficar solteirona para o resto da vida. – Disse Katherine, ironizando.

— Katherine, você sabe muito bem que eu sei de tudo que se passa pela cabaça das pessoas... E...

— É, você sabe, sim. E às vezes você se torna uma mala com isso de poder ler a mente das pessoas. – Katherine fez uma pequena pausa. – Então vê se lê isso... Cai fora! – Disse ela, em voz alta. Katherine virou as costas para a irmã e saiu de perto, como se tivesse repulsa dela.

Katherine foi para perto das outras líderes de torcida.

Sophie e Sara viram o que aconteceu, e a reação de Nicoly, que ficou calada para não magoar Katherine, enquanto Katherine não se importava se suas palavras a magoariam ou não.

— Credo, que grossa. – Sara sussurrou para Sophie, com um pouco de pena de Nicoly.

— Tenho até pena dela. – Disse Sophie, franzindo a testa e repuxando os lábios.

Nicoly não podia ouvir as duas conversando, mas conseguia ouvir cada pensamento delas. Ela podia mesmo ler os pensamentos das pessoas. E isso não se explicava, mas ela conseguia mesmo saber o que as pessoas pensavam.

Nicoly levantou-se, estressada, e andou até Sophie e Sara.

— Ela foi grossa, sim, mas ela não é nada disso que vocês estão pensando. – Nicoly arregalou os olhos, que lançavam faíscas em Sophie e Sara.

Elas pensavam “que bruxa! ”, “garota grossa” e “estúpida” a respeito de Katherine.

Nicoly começou a andar. E Sara pensou consigo mesma: “Estúpida e grossa igual à irmã”.

— Estúpida é você. – Nicoly gritou, e saiu sem ao menos olhar para trás.

Sophie olhou espantada para Sara. Sara apenas retribuiu o olhar sem entender, ela tinha muitas dúvidas. “Como poderia alguém ler minha mente? ”, pensou ela, indignada.

— Ela leu a minha mente! – Sara franziu a testa e arregalou os olhos, assustada.

Sophie não entendeu nada: “Isso foi uma pergunta? ”, pensou ela. Ficou calada.

— Eu pensei em chamá-la de estúpida e, antes que eu pudesse dizer isso, ela falou, como se tivesse ouvido o que eu pensei.

Sophie ficou com dúvida, encarando Sara.

— Isso é coisa da sua cabeça, deixa isso para lá. – Por mais estranho que tivesse sido, Sophie queria apenas continuar olhando para Chris.

Sara, assustada, encarava Nicoly, enquanto está andava até Katherine. Sara ficou com uma imensa curiosidade de saber como aquilo era possível.

A ventania tomou conta do campo. Um corvo enorme os observava de uma árvore próxima, enquanto jogavam. O céu escureceu. Julian levantou-se confiante e, certo do que iria fazer, foi até o treinador do time.

— Me deixe fazer o teste para o time?

— Já jogou alguma vez? – Disse o treinador, medindo-o dos pés à cabeça.

— Sim, senhor. – Confirmou Julian, com a voz baixa.

— Ótimo, vai colocar o uniforme... – o treinador entregou um dos uniformes que estavam sobrando em cima do banco. – Anda! Está esperando o que? Quer um convite? – O treinador disse, com serenidade, olhando para Julian como se fosse um detento.

Julian pegou o uniforme com os olhos negros e escuros fixos em Chris, passando para os olhos do treinador, e começou a andar para o vestiário.

— Olha lá, Chris, o novato vai jogar. – Dillan debochou de Julian.

Chris logo percebeu a má intenção de Dillan.

— Você não vai fazer nada, Dillan...

— Ah, Chris, para! Isso é um jogo! As pessoas se machucam. – Dillan interrompeu Chris, debochando de seu bom coração.

Chris somente o olhou com reprovação.

— Pronto, senhor. – O treinador ouviu uma voz baixa, mas firme, vindo de trás dele. Ele se virou e viu Julian pronto para o teste.

— Certo! Lucas, vem para o banco e deixa o novato entrar, ele fará o teste. – O treinador impôs a ordem a um dos seus alunos.

— Que droga. – Lucas murmurou por estar sendo substituído por um novato, e continuou parado no meio do campo.

— Deixa comigo, vou mostrar para ele. – Dillan sussurrou perto do ouvido de Lucas. Ele estava mal-intencionado, dava logo para perceber. Os olhos desejavam ver o novato no chão, machucado.

Mas Dillan estava prestes a provocar a pessoa errada. Não era muito inteligente provocar um garoto como Julian, que fora capaz de matar seu próprio pai e ficar sem nenhum ressentimento, nenhum remorso, nenhuma culpa.

Julian, logo que entrou em campo, encarou Chris. Parecia odiar Chris, o desdém com que o olhava era impossível de negar. Soou o apito.

— Corre, corre...

O jogo começou e a bola rolava pelo campo. Um dos jogadores tocou a bola para Julian, que se viu na oportunidade de poder chutar para o gol. A sensação era única, parecia nunca ter tocado em uma bola antes. Julian correu em direção ao gol, mas Dillan veio pelas costas e derrubou-o, deixando-o no chão, com dor no tornozelo. E novamente soou o apito.

— Dillan, para o chuveiro. – O treinador gritou, tirando Dillan do jogo sem pensar duas vezes.

— Mas treinador, eu...

— Dillan Sullivan, para o chuveiro. – Ele o interrompeu. – Lucas, você entra.

Dillan ficou irritado, mas, mesmo chateado, debochou e zombou, saindo com um sorriso por ter deixado Julian no chão, com a perna machucada. Mas Julian não iria deixar isso barato... não! Ele tinha algo em mente. Julian olhava para Dillan com raiva e ansiedade.

Dillan, que ainda andava em direção ao vestiário, lentamente se ajoelhou com as mãos na cabeça, que doía tanto. Era como se um caminhão a esmagasse. Mas ele não gritou, ficou ali, com medo do que poderia acontecer. Certamente pensou que poderia morrer.

— Você está bem? – Chris interrompeu, sem perceber a intenção de Julian. – Não liga para ele... É um idiota às vezes... Vem, levanta, vamos continuar o jogo. – Ele estendeu a mão para que Julian se levantasse.

Julian segurou a mão de Chris para levantar-se. Voltaram ao jogo, mas Julian ficou parado ali no meio, ainda encarando Dillan. O que se passava na cabeça de Julian a respeito de Dillan? O que estava querendo fazer? Como conseguiria fazer sem ao menos tocá-lo? Chris pegou a bola do chão e jogou-a para Julian, para que ele cobrasse sua falta.

— Joga a bola! – Foi o grito de Chris para Julian.

***

Na mansão do Sr. Scott, tudo estava assombroso. A escolha dele em pedir para que a casa ficasse num lugar mais distante da cidade era estranha, mas indiscutível. A casa estava, de certa forma, sombria. O vento soprava as folhas, que caíam das árvores, e estas dançavam hipnotizando as nuvens, que estavam escuras. Um raio cortou o céu, e parecia que iria chover. Damn Hill era conhecida por ter um tempo frio, ventoso e chuvoso.

E, do lado de fora, o Sr. Dezon tocou a campainha da porta da frente, olhando os redores da casa, encarando as janelas fechadas. Ninguém o atendia.

— Velho estúpido. – O Sr. Dezon ficou nervoso por ter sido convidado a estar na casa do Sr. Scott, e não ser recebido ao chegar lá. Não o encontrar deixou-o indignado. Encarou aquilo como um desaforo. Como ninguém havia saído para atendê-lo, virou as costas, fazendo um leve movimento de que iria embora, e começou a descer os degraus. Um, dois, três degraus. E, sem explicação, do nada, a porta abriu-se. O Sr. Dezon não entendeu. A porta estava aberta, mas não havia ninguém para recebê-lo. Então, curioso, ele voltou e parou em frente à porta. Respirando fundo, entrou na casa.

— Sr. Scott? – Com um pouco de medo e dúvida, olhou de um lado para o outro. Sem resposta. “O colar”, uma voz em sua mente o mandava subir para a sala onde o Sr. Scott pegara o colar. Até que ele resolveu subir os degraus e ir até lá. – Deve estar por aqui... – Ele procurava, aflito, pelo colar. “Se soubesse o poder que aquela pedra possui, teria mais respeito”, o Sr. Dezon lembrou-se das palavras que o Sr. Scott tinha dito na noite passada.

— Acho que o meu pai não poderá recebê-lo... – Foi a voz que o Sr. Dezon ouviu, antes de virar-se e se deparar com Julian.

Assustado, Sr. Dezon arregalou os olhos como uma coruja assustada, e afastou-se. Andou para trás da poltrona, que estava ali, no centro da sala.

— Calma, Sr. Dezon, não vou machucá-lo... – Julian sorriu, debochando do medo do Sr. Dezon.

Julian gostava do medo que fazia as pessoas sentirem. Aquilo fazia com que ele se sentisse vivo.

Com medo do que poderia lhe acontecer, Sr. Dezon perguntou:

— O que você quer? Onde está o seu pai?

— Eu não quero nada! – Julian entrou porta adentro e trancou-a, retirando a chave. Andou até a poltrona e sentou-se. O Sr. Dezon afastou-se lentamente e andou para detrás da mesa, que ficava perto de uma grande janela – Eu só queria ter uma vida normal, só queria poder viver em paz. Queria ser normal, mas vocês tiraram isso de mim... – Julian manteve a voz baixa e calma. – Queria que ninguém entrasse na minha casa sem permissão. E quanto ao meu pai? Ainda não recebeu notícias? – Julian não entendeu o porquê de ninguém ter espalhado notícias da morte do Sr. Scott.

— Notícias? Como assim? Que notícias? – Perguntou o Sr. Dezon, com a voz trêmula. Ele apenas queria poder sair correndo, mas relutava e entendia que não seria uma boa ideia, pois, ele sabia o que Julian poderia fazer apenas com um pensamento.

— Nenhuma, deixe isso para lá... – Julian não o alertou sobre a morte. E continuou. – Mas me diga, e seu filho, Sr. Dezon? Como ele está? Conseguiu tirá-lo do laboratório antes que tentassem matar todos nós? As suas experiências? – Olhou furioso para o Sr. Dezon. E, com seus poderes sobrenaturais, jogou-o contra a parede como se fosse uma pena. – Experimentos que tentaram fazer com seus próprios filhos... Erick é o nome dele, não é? – Sr. Dezon, consciente do que Julian falava, apenas ficou calado. Julian levantou-se e se aproximou lentamente dele, completando seu raciocínio. – Você sabe o quanto nós sofremos naquele lugar? Você nem imagina o quanto eu sofri... por culpa sua, culpa de todos vocês... – disse Julian, alterando-se, com a voz firme, mas vazia. Segurou o Sr. Dezon pelo pescoço, atrapalhando assim a passagem de ar e a respiração dele. Ergueu-o o mais alto que conseguiu. – Eu poderia te matar aqui e agora, mas isso quem vai fazer é seu filho. – Julian soltou Sr. Dezon, que caiu de joelhos, recuperando o fôlego. E, enlouquecido, Julian derrubou as papeladas, os livros e tudo o que estava posto sobre a mesa, no chão. – Vai embora.

— Eu sinto muito... – disse Sr. Dezon, levantando-se e andando lentamente até a porta, arrependido.

— Sai daqui, vai embora!

O Sr. Dezon continuou dentro da sala, andando lentamente.

— Vai embora! – Julian gritou, enlouquecido, enquanto empurrava violentamente o Sr. Dezon, que não insistiu em ficar, e saiu rapidamente porta afora.