Luas de Sangue - Vol. 1 - Ascensão (Amostra)
4 Capítulo 3
13 de agosto, 2000
Querido diário,
Agora são 22h. Não consigo dormir, estou muito ansiosa. Neste fim de semana aconteceram duas coisas ótimas.
Primeiro a Sara. A mãe dela deixou que ela viesse morar aqui comigo e com a minha avó. Ontem não fizemos quase nada, mas na noite retrasada o aniversário da cidade estava ótimo, embora tenha acontecido todo aquele alvoroço por uma sensação ruim que tive. Nunca mais quero sentir aquilo novamente, que a morte está perto de você. — Sophie sorriu sem perceber – Ela estava desfazendo as malas, e agora está dormindo. E eu? Estava ajudando a minha avó a montar a cama da Sara, e agora estou aqui.
E a segunda coisa ótima que aconteceu foi eu e o Chris nos vermos no colégio hoje. Ele não foi me ver ontem, acho que estava muito ocupado colocando as coisas em ordem na casa dele. Seus tios ainda não chegaram de viagem, então prefiro pensar que esse foi o motivo para ele não ter vindo.
Sara disse que ele está gostando de mim. Mas isso é loucura! Chris nunca iria olhar para mim, ele me vê apenas como uma irmã ou algo assim, e vou admitir: ele voltou mais lindo do que era. Aqueles olhos azuis! Não sei por que, mas eles me fazem sentir segura. Cada vez que ele me olha, eu me sinto protegida e confesso que aquele olhar me desmonta toda.
Acho que gosto dele. Nunca tinha percebido isso antes.
Hoje ele me olhou de um jeito diferente no colégio, parecia estar me desejando.
Tá! Eu vou ser sincera, eu acho que de tanto a Sara dizer que ele gosta de mim, quem está se apaixonando sou eu, tanto que até comecei a acreditar no que Sara estava falando, quando ele me olhou depois daquele gol— Sophie riu abobada. – Agora, mudando de assunto, entraram pessoas novas no colégio e algumas parecem ser legais.
Barbara Palmer, por exemplo. Ela me pareceu uma boa pessoa, gostei dela. Apesar de ser uma garota meio estranha e super fora de moda, eu me senti bem ao conversar com ela. A Barbara é confiante e parece não se importar com a opinião das pessoas, ela sim é uma garota de opinião própria.
Agora, aquela garota, a Katherine Salton...— Ela fez uma careta, enquanto continuava escrevendo. – Essa é uma estúpida. Ela trata a irmã como lixo. É tão medíocre! Mas também, a Nicoly não se defende. Acho que ela tem medo da Katherine, ou não gosta de constrangê-la, ou algo do tipo, porque ficou calada mesmo com a Katherine falando daquela forma com ela. Eu não teria engolido isso! E, para falar a verdade, tenho pena dela, embora tenha sido grosseira com a Sara.
Sara ficou louca, disse que a Nicoly tinha ouvido o que ela estava pensando! Isso é loucura, é só coisa da cabeça dela. Aliás, eu não deveria excluir a possibilidade que talvez seja verdade. Eu também, há alguns dias, não acreditava em bruxas, e aqui estou. – Ela ironizou a frase. – E também teve o tal colar que apareceu num passe de mágica no meu armário. Aquele colar é horrível, além de velho. Sara disse que aquela coisa deu choque nela. Bem, eu ainda acho que ela estava apenas brincando quanto a isso, mas quanto à Nicoly posso até considerar.
Vou tentar dormir, amanhã tem aula e tenho que estar linda! É o nosso último ano no colégio, e eu não posso aparecer em pleno segundo dia de aula com “olheiras enormes”.
Sophie parou de escrever e cobriu-se com seu edredom azul-gelo. “Tenha um boa noite, Chris! Espero sonhar com você...”, foi o último pensamento dela, antes de cair em sono profundo.
***
O dia clareou as ruas de Damn Hill, o céu estava nublado e as nuvens escuras. Clair andava pelas ruas da cidade, desnorteada, e parecia estar procurando algo ou alguém. Ela mostrava uma expressão preocupada — o medo exposto em seu rosto e seu olhar causavam suspeita. Mas que segredos Clair escondia? Que passado ela teria? E por que temeria alguma coisa? Por que fugiria? Eram perguntas sem respostas, já que a cidade começou a se encher de novas pessoas com segredos de um passado obscuro.
Ela parou bem ali, em frente à casa de Anne, a avó de Sophie. Clair olhava para a casa como se ela lhe pertencesse. Uma lembrança tomou sua mente.
Julho de 1925.
— Oi. – Uma jovem garotinha conversava com Clair, que se escondia nas sombras, em uma noite escura. As pessoas abraçavam a si mesmas no desejo de se esquentarem.
— Oi... – Clair respondeu com a voz baixa. Estava tão pálida que até parecia a neve que caía do céu.
— Você é uma vampira, não é? – A garotinha olhava para Clair com grande afeto.
— Como você sabe? – Clair encarou-a, surpresa.
— Sou uma bruxa! Você quer ser minha amiga? – A garotinha sorria inocentemente, sem medo, nem com a repulsa que todos tinham contra vampiros.
— Você sabe o que eu sou... E mesmo assim quer ser amiga de uma assassina? – Clair murmurou em voz baixa.
— Sei que não vai me fazer mal, eu senti isso quando cheguei perto de você. – A garota era tão doce, sua voz era angelical. – Vamos ser amigas para sempre. – Dizia a jovem mocinha que deveria ter não menos que doze anos. Ela tirou do bolso uma pulseira de ouro e, em seus gomos, havia detalhes de prata que brilhavam como a lua. Ela sorriu para Clair, que pegou a pulseira olhando a garota nos olhos. Clair nunca tinha sido presenteada por uma amiga. Aliás, nunca fora presenteada. Ela não tinha amigas, não naquela época.
Clair voltou a si com lágrimas nos olhos. Aproximou-se da casa, passo a passo, encarando a porta. Quando Clair subiu na varanda da casa, antes mesmo que pudesse bater à porta, Anne abriu.
— O que a traz de volta a essa cidade, Clair?
— Olá, Anne, minha velha amiga. – Com os olhos lacrimejando e um grande sorriso no rosto, Clair reencontrou quem procurava e abraçou-a intensamente. – Estava com saudade de você, minha amiga...
— Sim, você estava, mas não foi isso que a trouxe de volta... O que foi? Ou devo perguntar, quem foi? – Anne interrompeu-a. Ela era a garotinha de que Clair se lembrara segundos atrás.
— Preciso da sua ajuda, Anne, é ele... – Clair fez uma pequena pausa. – Ele está de volta... e está atrás de mim novamente. – Ela abriu logo o jogo, mostrando-se preocupada.
— Ele, quem? – Anne não se lembrava quem era “ele”.
— Como assim, ele quem? Ian Parker. – Clair referia-se a esse homem com medo na voz, no olhar e nos gestos. Ficava trêmula ao falar aquele nome.
— Ian Parker? – Clair apenas balançou a cabeça, confirmando. – Mas como? Eu pensei que o tivesse matado. – Anne lembrou-se na mesma hora que Clair pronunciou aquele nome, e também se mostrou muito preocupada.
Mas quem era Ian Parker? Por que aquele nome causava tanto medo? E por que trazia tanta preocupação às duas?
— Eu também, mas ele não morreu, e está atrás de mim... Eu preciso de um feitiço de ocultação, para ele não poder me localizar e não saber onde estou... Você é a única bruxa que conheço que pode fazer isso por mim... Por favor, Anne?
— Eu não deveria lhe convidar para entrar, e você sabe os motivos, mas esta é uma situação crítica e, se ele está atrás de você, quer dizer que depois virá atrás de mim e da minha família também... – Anne fez uma pequena pausa, franzindo a testa. – Então, você quer entrar? – Clair, ainda do lado de fora da casa, pegou as mãos de Anne.
— Eu juro que, se ele aparecer, protegerei você e sua família. Anne, não vou deixar que ele machuque minha melhor amiga, nem a família dela... Aliás, você me presenteou com isso, – Clair levantou a pulseira. – Lembra? Por causa dela, estou livre para andar à luz do sol novamente... Então, isso seria o mínimo que poderia fazer por você. – Clair falou aquilo do fundo de seu coração, e estava certa do que dizia. Anne tocou a pulseira fascinada.
— Você a guardou...
— Claro!
— Mas você sabe que não precisa dela para sair sob o sol, o que te protege é ser presenteada por uma bruxa, e não o presente que ela te dá.
— Sim, eu sei, mas você é minha melhor amiga e, como eu já disse, vou proteger você e suas netas, não se preocupe.
Anne sabia que Clair nunca quebraria uma promessa. Ela sorriu e puxou Clair lentamente para dentro de sua casa.
***
Chris e Dillan iam de carro para a casa do tio Sam. Eles conversavam distraídos sobre a temporada de jogos que iria começar no colégio, e sobre a tal festa que ocorreria no famoso barzinho da esquina. O mesmo no qual o corpo do Sr. Scott fora deixado, jogado, na rua. O mesmo corpo que havia desaparecido misteriosamente.
— Você vai à festa hoje? – Dillan estava animado. Chris nem tanto, mas sabia que Sophie estaria lá.
— Sim! Eu vou.
— Fiquei sabendo que a festa vai estar espetacular! O colégio inteiro vai estar lá... – Dillan sorria sem motivos. – Vou pegar geral.
Chris parecia estar incomodado com algo. Ele não gostava da forma que Dillan falava. “Desde quando você está tão estúpido assim? ”, pensou Chris, que ficou apenas calado. Dillan percebeu que o amigo não estava bem. Sabia que Chris amava Sophie.
— O que está rolando com você e a Sophie? Porque, se vocês estiverem juntos, tudo bem. Ela e eu não estamos mais... E você é meu amigo... Merece ser feliz, e não serei eu a estragar sua felicidade. – Dillan estava certo do que dizia, e sua hipótese também não estava errada.
— Olha... – Chris alterou a voz. – Quer saber? É... Eu gosto dela, sim... – Chris estava sendo sincero. Afirmou como se tudo aquilo estivesse sendo guardado para ele há muito tempo. – Ela me deixa louco, o jeito, os olhos, tudo nela me atrai.
— Cara, você está apaixonado... – Dillan riu da cara de Chris, debochando, sem intenção, do amor que o amigo sentia por Sophie.
Chris ficou irritado com a atitude de Dillan. Franziu a testa e arregalou os olhos, repreendendo-o. Chris abriu a porta do carro e saiu.
— Você é um Zé Mané, sabia? – Chris bateu forte a porta do carro e começou a andar.
— Chris, foi mal, cara. Volta para o carro.
— Eu vou a pé.
Dillan parou o carro e colocou as mãos na cabeça, como se dissesse: “Fiz besteira”.
***
— Sara, para com isso, tá? Por favor? Quantas vezes tenho que falar que ele não gosta de mim? – disse Sophie, franzindo a testa, enquanto andava em direção à sua casa.
— E quantas vezes preciso te dizer que ele gosta de você? Sophie, só você que não enxerga isso! O jeito que ele trata você, a forma como conversa, o jeito que te olha... não é como amigo. Eu tenho certeza que ele te ama.
Sara e Sophie ainda continuaram discutindo sobre Chris gostar ou não de Sophie. Ela não queria acreditar naquilo, mas, no fundo, sabia que era verdade. Quando iam chegando perto da casa de sua avó, viram Clair saindo dela.
— Sara, olha ali... – Disse Sophie.
Sara olhou e, antes que percebesse, perguntou:
— Quem é ela?
— Não sei, ia te perguntar a mesma coisa. – Sophie rapidamente respondeu.
Elas entram na casa.
Anne estava na cozinha, picando uma cebola. Preparava o almoço.
— Vovó, quem era aquela garota que saiu daqui de casa antes que chegássemos? – Sophie perguntou, curiosa para saber de quem se tratava.
— Era só uma velha amiga, querida. – Esta não era a resposta que Sophie esperava. Ela se decepcionou.
— Velha amiga? Ela não deve ter mais de dezoito anos, vovó... Como pode ser uma velha amiga? – Criticou Sophie, debochada.
— Querida, lembra o que a vovó te contou? – Anne recebeu apenas um balançar de cabeça, confirmando sua pergunta. – Há coisas que você só irá saber com o tempo. Agora, pare de fazer perguntas e venha me ajudar.
— Ah, vovó, sério? – Sophie queria ter uma resposta concreta sobre o que queria saber, ali mesmo.
Anne confirmou a pergunta de Sophie com outro balançar de cabeça.
— Agora me ajude. – Anne insistiu pela ajuda.
— Tá, vovó. – Sophie sorriu. Ela não gostava de desagradar à mulher que a criou. Fora abandonada pelos pais e criada pela avó, e era uma ótima menina, bem-educada. Anne tinha orgulho de Sophie, que, para ela, era como sua filha. Uma filha que perdera há muito tempo, a mãe de Sophie.
Após terminar de ajudar a avó, Sophie subiu para o quarto e deitou-se em sua cama. Sara estava no banho, pois iam para a festa no barzinho da esquina. Sophie lia um dos livros de magia de sua avó. Era velho, as páginas estavam meio amareladas, e os desenhos e rabiscos que representavam os feitiços, meios apagados. Ela estava tão ansiosa e concentrada, que sorria, e seus olhos brilhavam ao ver tantas coisas novas. Até que um som fino chamou sua atenção. Em seu celular, chegara uma mensagem. Era de Chris: “Você vai à festa hoje? ”
Sophie pensou por três segundos antes de responder. Depois de pensar severamente no que escreveria, respondeu-lhe: “Vou sim! E você? ” Assim que a mensagem foi enviada, a resposta chegou rapidamente. “Também! Podemos nos encontrar lá? ” Sophie, sorridente, respondeu: “Sim! ” E, novamente, a resposta veio rápido: “Então nos encontramos lá. ”
Feliz, ela abraçou seu celular como se estivesse abraçando o próprio Chris.
Infelizmente, o barulho da porta do banheiro se abrindo fez com que atirasse o celular sobre a cama e colocasse o livro de feitiços embaixo dela.
Sara saiu do banho apenas com as roupas íntimas. Seu sutiã de bojo com renda era cor de chocolate. Ela abriu o guarda-roupa com tanta ansiedade, que era como se procurasse ouro. Sophie fitava-a com o olhar e franzia a testa, com dúvida.
— O que está procurando, Sara? – Perguntou ela.
— Estou procurando o salto novo que comprei. Aquele preto e rosa, mas não acho em lugar algum. – Sara revirava o guarda-roupa.
— Sara...
— O quê?
— Ele está em cima da cama...
Sara olhou assustada para seu salto.
Sophie, sorridente, levantou-se e foi em direção ao banheiro.
— Por que está tão feliz assim? Viu um passarinho de olhos verdes? Ou devo dizer, azuis? – Sara perguntou ironicamente.
Sophie sorriu histericamente. – Quase isso. – Disse, enquanto ainda sorria, fechando a porta.
***
Depois do susto que tomara na casa do Sr. Scott, o Sr. Dezon chegou a sua casa, nervoso. Assim que entrou, deparou-se com uma figura sentada em sua poltrona, na sala. O choque e a surpresa foram imediatos. Tanto que não conseguiu pronunciar nenhuma palavra, por dois segundos e, depois, pegou o ar que lhe era necessário.
— Você... O que está fazendo aqui?
— Não está feliz em me ver, pai? – Disse aquela figura, com um sorriso irônico na face.
Quem era aquele garoto sentado na poltrona chamando Sr. Dezon de pai?
Erick calmamente se levantou. Sr. Dezon já se encontrava assustado pelo que havia passado nas mãos de Julian, e assustou-se ainda mais ao ver seu filho, Erick, ali. “Eu poderia te matar aqui e agora, mas isso quem vai fazer é seu filho”, as palavras de Julian ecoavam em sua mente.
— O que foi, pai? Está assustado? Pensou que eu estivesse morto, não é? – Disse ele, enquanto se levantava lentamente e aproximava-se do Sr. Dezon, passo a passo. – Bem, eu estou de volta, Sr. Dezon, e vou retomar o lugar que me foi roubado.
Sr. Dezon não estava em uma situação apropriada para criticar. Com medo de que aquilo que falasse pudesse lhe custar a vida, permanecia calado, engolindo sua própria saliva e com o coração palpitante. Erick rodeava-o calmamente, na intenção de intimidá-lo.
— Cinco anos... – começou ele. – Eu tinha apenas cinco anos, e você me entregou para aquela... – Erick deu uma pequena pausa, fazendo expressão de desdém. – Aquela sociedade de merda... Eu passei doze anos sendo obrigado a servir de cobaia para a sua sociedade secreta, e o que vocês fazem? – Ele segurou o Sr. Dezon pelo ombro, com agressividade. – Tentam matar todos nós, como se fôssemos experimentos fracassados... Como se fôssemos lixo.
— Você tinha cinco anos e estava com câncer terminal, foi a única forma que encontrei de tentar fazer com que meu filho permanecesse vivo... – Sr. Dezon, com os olhos cheios de lágrimas, tentou se explicar e, bem, o motivo não era dos piores. – Quando soube que os experimentos tinham dado certo, eu voltei para te buscar. – Ele se lembrava das cenas e envergonhava-se da sua atitude. – Mas eles não quiseram te devolver para mim.
Setembro de 1988
Sr. Dezon e Sr. Scott estavam detrás de um vidro olhando um garotinho deitado em uma maca, entubado, fraco. O soro pingava lentamente no acesso em seu braço. Pessoas com roupões azuis e verdes andavam pela sala, o barulho do oxímetro de pulso mostrava que o coraçãozinho daquela criança batia normalmente.
– Obrigado, Sr. Scott, é tão bom ver meu filho bem. – Disse Sr. Dezon, feliz por saber que Erick estava curado.
— Não me agradeça, Sr. Dezon, fiz o melhor que pude.
— Tenho que agradecer sim, pois se não fosse você, não conseguiria pagar os médicos para curar meu filho. – Sr. Dezon fez uma pequena pausa. – E quando vou poder levá-lo para casa?
— Você não vai.
— Como assim?
— Seu filho, Sr. Dezon, foi mais um experimento que teve sucesso. Não podemos deixar que o tire daqui. – Disse Sr. Scott, dando-lhe as costas. – Tirem-no daqui. – Disse ele aos seguranças.
— Não! – Disse o Sr. Dezon quando os seguranças o agarraram, um em cada braço. – Sr. Scott, não pode fazer isso comigo, ele é meu filho... É meu filho!
— Bem, agora ele pertence a nós. – Sr. Scott começou a andar tranquilamente.
— Ele não pertence a vocês, Sr. Scott, não faça isso...
— E eu te aconselho a não comentar sobre isso com ninguém, Sr. Dezon, você sabe o poder que nós, da associação, temos. Eu odiaria que algo acontecesse à sua bela esposa.
O Sr. Scott saiu calmamente.
Quando o Sr. Dezon percebeu que tudo aquilo era inútil, começou a ofendê-lo, enquanto era carregado pelos seguranças.
— Você é um maldito, desgraçado... Está me ouvindo? É um desgraçado, Sr. Scott.
E mesmo assim, o Sr. Scott continuava andando, sem olhar para trás.
— E aí você me deixou lá, me abandonou... – Erick sentia-se esquecido, tinha ódio por ter sido deixado para trás e ouvia seus próprios gritos em sua mente: “Papai... por favor, não me deixe” e o som de seu próprio choro, que o atordoava.
— Eu sei, eu fui fraco. Não devia ter deixado tirarem você de mim... Não podia ter te deixado lá. – O Sr. Dezon chorou, arrependido por ter abandonado Erick naquele lugar. – Tive que dizer para sua mãe que você não tinha suportado... – ele fez uma pausa, secando uma lágrima, que caía lentamente pelo seu rosto. – As noites acordado escutando o choro de sua mãe, que no começo ficou louca e não aceitava a sua morte.
— Mas eu não morri. Eu não morri, eu estou aqui... – Erick gritou. – E eu vim para pegar o lugar que me foi roubado há doze anos por SUA CULPA... – Erick alterou novamente a voz, enquanto apertava o pescoço do Sr. Dezon com apenas uma mão. Mas desistiu do que iria fazer e jogou-o no sofá, que estava a poucos metros dele. – Eu devia te matar, mas não vou... A morte é pouco perto do que você merece, Sr. Dezon... – Ele não aceitava tudo o que acontecera, é claro! Um pai que abandona o filho não é pai. O ódio de Erick consumia-o mais, a cada dia que ele passava preso ali naquele “inferno” sem poder ver sua família, sua mãe, sem ter o carinho e a proteção de quem o amava. – Se prepare, Sr. Dezon... pois vou fazer da sua vida um inferno pior do que foi o meu, eu vou te atordoar o máximo possível... – Naquele mesmo momento, a Sra. Dezon desceu os degraus da escada, assustada com os gritos.
— Amor... que gritaria é essa, aí embaixo? – A Sra. Dezon não precisou olhar muito. Chocada e surpresa, apenas se aproximou e, como o coração de mãe não se engana, tocou a face de seu filho, com carinho e apreensão. – Filho...?
— Oi, mamãe... – Erick passou do olhar fixo que estava nos olhos de seu pai, lentamente se virando, até alcançarem os olhos de sua mãe, que corria para os seus braços.
Isso foi o suficiente para fazer com que as lágrimas da Sra. Dezon corressem pelo seu rosto, a emoção de um reencontro consumiu-a. Sem se controlar, ela o abraçou com todas as forças e sentiu a sensação de ter seu filho de volta em seus braços. Ela estava tão feliz, que não se lembrou da mentira que seu marido lhe contara. E também não queria lembrar.
***
Aquela noite estava com uma lua cheia muito linda. E, no bar da esquina, a festa acontecia. Muitos carros estacionados, jovens do colégio por toda parte e até quem não eram do colégio estava lá. Dillan viu Chris chegando e, sem pensar duas vezes, foi até ele.
— Chris, me desculpa, cara. Fui um idiota debochando de você daquele jeito. – Dillan era sincero.
— Tudo bem, Dillan, pilha com isso, não. – Chris aceitou as desculpas sem fazer questão de muito. Esse era o grande e bondoso Christopher Master, o grande amigo.
— Pensei que não viria depois que eu... – disse Dillan, assentindo. Mas percebeu que Chris não estava muito afim de conversar. Na verdade, estava com outra intenção, procurava Sophie passando os olhos por todo o lugar. Queria poder ver os olhos castanhos dela, que brilhavam, e o sorriso que fazia seu coração martelar cada vez mais forte. Essa era sua verdadeira intenção ao ir à festa.
— Deixa isso para lá, Dillan, eu já esqueci, e você deveria fazer o mesmo... Dá licença, eu estou procurando uma pessoa.
Chris entrou no bar e andou até o balcão.
Ali estava a bela Sophie Winchester e sua prima Sara, sentadas próximo ao barman. Sara segurava um copo de uísque, virando-o na boca de uma só vez, e Sophie olhava aflita para o celular, passando o dedo para ver se havia alguma ligação ou mensagem. Chris ficou parado ali em pé, olhando para Sophie, que ainda não havia percebido sua presença.
Sara foi quem viu Chris. Um sorriso escorreu pelos seus lábios e ela cutucou Sophie.
— Ei. Psiu! – Disse ela, ainda cutucando Sophie.
— O quê? – Sophie olhou para Sara com uma expressão de “não percebeu que estou ocupada? ”
— Olha só quem chegou e não para de te olhar. – Disse ela, levando o olhar para Chris, que ainda olhava para elas, sem desviar.
Sophie logo percebeu que a prima estava falando de Chris e, sem demora, procurou-o, fitando a multidão que dançava no meio do bar.
— Onde? – Perguntou ela, com empolgação na voz.
— Ali... – Sara elevou o olhar novamente, erguendo juntamente as sobrancelhas em direção a Chris. – Vai lá. – Sara insistiu para que Sophie tomasse uma atitude, mas Sophie estava tímida. Até demais. Aquela não era a Sophie que Sara conhecia. Ela se lembrava de Sophie sempre ativa e confiante, mas aquela na sua frente era a Sophie apaixonada.
— Eu não! Ai, meu Deus... Ele está olhando para cá, será que ele me viu? – Disse Sophie, tentando esconder o rosto com os cabelos sedosos.
— Ele está vindo para cá, então acho que a resposta é... sim, ele te viu...
Chris andava em direção a Sophie e, assim que se aproximou, Sara levantou-se, decidindo deixá-los a sós.
— Boa sorte, prima... Oi, Chris. – Disse ela, passando a mão no peito de Chris. – Tchau, Chris. Aliás, está um gato. – Sara retirou-se para deixar os dois mais à vontade.
— Oi para você também, Sara. – Chris sorriu meio sem jeito. Ele se sentou ao lado de Sophie. – Tudo bem? – Chris dirigiu-se a ela com a voz baixa, sedutora. Ele, em sua mente, tentava achar a melhor forma de dizer a ela que a amava.
— Sim, estou ótima, e você? – Sophie passou a mão nos cabelos, colocando-os atrás da orelha. A forma com que ela se movia deixava Chris deslumbrado. Tanta beleza... Ele se perguntava: “Como não fui me apaixonar antes? ”, e olhava-a de forma tão desconcertante de desejo que Sophie começou a ficar vermelha, como se seu sangue subisse todo para seu rosto. Também, com a prima enchendo sua cabeça com a ideia que Chris a amava, não tinha como não ficar envergonhada.
— Estou bem! – Ele respondeu, e o silêncio prevaleceu por alguns segundos.
Os dois olhavam para lados distintos, estavam sem jeito de olharem olho no olho. Uma música lenta começou a tocar e Chris resolveu tomar iniciativa.
— Você quer... – ele fez uma pequena pausa – quer dançar?
Chris estendeu a mão para ela com um sorriso no rosto e um brilho no olhar, que Sophie não conseguiu negar. Ele sabia que, por ser uma música lenta, teriam que dançar mais próximos, praticamente colados, e aproveitaria para dizer a ela o que realmente sentia. Foi uma boa ideia, mas gritos que vinham de fora do bar os interromperam.
— Parem já com isso. – uma garota gritou com firmeza. De início Sophie não reconhecia a voz.
Todos se assustaram com os gritos e saíram para ver o que estava acontecendo.
— É a voz da Amanda. – Disse Sophie, levantando-se. Pegou sua bolsa e correu para fora, Chris acompanhou-a e logo viu que Dillan brigava com um colega de turma.
Lucas estava bêbado e segurava consigo uma garrafa de vidro, quebrada, para agredir Dillan.
— Amor, pare com isso, por favor. – Dizia Amanda para Lucas, tentando convencê-lo a parar. Ela segurava um dos braços de Lucas com força, tentando afastá-lo dali. – Vamos embora, por favor.
Clair passava por uma rua próxima daquele local, onde se via de uma distância segura a briga.
Lucas partiu para cima de Dillan com a garrafa de vidro, fazendo com que Amanda recuasse um ou dois passos com a força que ele usou para se soltar. Dillan desviava-se com muita facilidade, era ágil e, quando Lucas menos esperava, ele o agrediu com um soco certeiro no nariz.
— Dillan, o que você está fazendo? Pare com isso! – Chris chamou atenção de Dillan, mas de nada adiantou.
Dillan apenas estava usando de autodefesa. Novamente, Lucas, com o nariz sangrando, foi para cima de Dillan com a garrafa. Desta vez, o trágico incidente aconteceu: Dillan agarrou a mão de Lucas e empurrou-o com tanta força, uma força sobrenatural, que Lucas foi lançado contra um carro e caiu com a garrafa de vidro na mão. O que ninguém esperava era que ele tivesse caído com o pescoço sobre a garrafa, cortando sua garganta. O sangue corria pelo chão da rua, sendo espalhado em forma de uma grande bolha vermelha.
Aquilo não era bom. Dillan acabara de provocar a morte de um ser humano, mesmo que por acidente, o que ele não esperava era que a história sobre a maldição do lobo, que seu pai havia lhe contado, fosse verdade.
Clair sentiu aquele cheiro de sangue e, naquele momento, seus olhos mudaram, ficaram vermelhos e fortes, olhos de assassino. Suas presas cresceram, e ali estava a surpresa. Este era o segredo que a bela Clair guardava: ela era uma vampira, por isso conhecia tão bem a avó de Sophie. Anne ajudara-a nos anos de sua juventude, presenteando-a para que Clair pudesse andar à luz do dia.
Clair sentia-se como se não fosse conseguir se segurar e, para que não machucasse ninguém, saiu correndo dali. Era rápida, muito rápida e, em questão de milésimos de segundos, desapareceu.
Quando Dillan matou Lucas por acidente, a maldição foi despertada. Dillan começou a se sentir estranho e as vozes pareciam penetrar seus ouvidos, chegando ao cérebro.
— Você o matou...
— Ele está morto.
Eram os comentários que invadiam sua mente.
— Não! Foi sem querer. – Dillan defendia-se, recuando alguns passos lentamente. – Eu não queria... Ele era meu amigo. – Eram os argumentos de Dillan em sua defesa. Ele estava ficando perturbado com tudo o que acontecia ao seu redor. Seus ouvidos escutavam quatro vezes mais do que o normal e ele sentia suas forças aumentando. As presas começaram a crescer e os olhos ficaram amarelos, meio que dourados. Ele não se aguentava, sentia seus ossos queimando e, para fugir daquilo tudo, correu sem destino.
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