Luas de Sangue
7 O começo do fim
Notas iniciais
Me deixo cair na cama. É a primeira vez que deito nela. Está no começo da manhã e estou descansada. Acho que fiquei desmaiada pela noite inteira então meu corpo está leve, entretanto minha mente está a mil. Ela fervilha de pensamentos, minha vida foi virada de ponta cabeça, parece que foi a milênios que eu arrumei a bolsa para ir com Dani e Kaion, enquanto sei que foram a pouquíssimos dias. Parece até mesmo longe a minha vinda de carro até aqui... meu pai... uma dor latente no peito deixou-me consciente da falta de minha antiga vida. Minha irmã. Seus cachinhos. Não era exatamente saudade, mas sim uma falta. Falta da normalidade da minha vida. Falta de uma vida que eu via lobisomens apenas como caras sem camisa na televisão.
A vida aqui é boa. Tia Kathy, Pietro, a casa, a fera, ser eu mesma. Eram dádivas dos deuses. Presentes da lua. Porém, não sei que se aquele era o meu lugar, eu não parecia me encaixar, não sei se me encaixo em algum lugar. Não sei onde ficar.
Ouço uma batida na porta. É uma batida leve, bem leve. Imagino que deve ser tia Kathy. Não sei se quero falar com ela, não sei se quero falar com ninguém. Não tenho muita coisa o que fazer e não quero ter de ouvir o que ela tem a falar. Não quero ouvir nada. O silencio é o único companheiro que quero. Viro na cama, agarrando o travesseiro cor de rosa. Algumas teimosas lagrimas se suicidam de meus olhos. Não as culpo, todos tem o direito de pular, apesar de que não devem usá-lo. Algumas outras as segue, é quase sempre algo em cadeia. Uma não aguenta a dor e se torna corajosa para ir e outras se vão junto a ela.
O silencio é quase que absoluto, interrompido pelo vento apenas. Ouço as batidas na porta. Que insistência. Ela irá continuar até eu abrir a porta? Impossível. Mais uma interrupção no silencio, dessa vez não a porta, nem o vento, mas sim um uivo. Um lobo.
O chamado arrepiou-me inteira. Era como se algo superior á mim estivesse em ação. Era algo maior. Algo bem maior. Eu tinha de obedecer, tinha de ir. Não podia ficar ali. Eu tinha de me curvar e fazer o que ele desejasse. Esse era o meu lugar.
Nunca. Jamais. Nosso lugar é no topo, bem lá em cima. Bem no alto. Não podemos nos curvar a ninguém. Não devemos. Não queremos.
Dessa vez não há batida, tia Kathy apenas abre a porta.
—Levanta. Toma banho, veste alguma coisa e vamos.
Não quero sair da cama. Ela vasculha minhas gavetas e meu guarda roupa. Joga algumas roupas em cima de mim.
—Nada de prata e nem algo que remeta a prata. Eles podem considerar como uma ofensa, ou uma ameaça. Não queremos que considerem nenhum dos dois.
Continuo deitada, não há muitas coisas que me faria levantar no momento. A fera concorda com meu pensamento. Mesmo o chamado feito estamos barrando, não queremos responder. Não queremos nada no momento. Minha tia percebe isso. Ela me olha, seus olhos azul claro estão vibrantes. Olhos de vidro. Olhos esbranquiçados. Ela não está para brincadeira. Ela não está ali para passar a mão em meu cabelos e me acalentar. Sua postura mudou, suas expressões faciais mudaram, ela é uma nova pessoa bem na minha frente. Como eu disse, poucas coisas me faria levantar nesse momento, essa foi uma delas.
Em um pulo eu estava de pé. Correndo para o banheiro. Ela era mais assustadora que o Luciam. Porque dela não se espera nenhuma reação, sempre doce e amável, quem diria que carrega uma fera dentro de si? Uma fera de garras afiadas. Tomo um banho rápido, tento não me apoiar na minha perna. Retiro o curativo que deixei todo molhado. Não há mais sangue. Passo o shampoo para deixar meus cabelos acinzentados. Queria que ficassem assim naturalmente e que eu não necessitasse ficar arrumando eles sempre.
Minha tia continua lá quando saio, seu solhos não são mais de vidro. Ela tem rosto de anjo, não me deixarei enganar. Ela me ajuda a fazer o curativo, não conseguiria fazer sozinha.
—Tenta não abafar isso.
Sua voz não tem doçura.
—Não demore. Estarei lá em baixo.
E então ela se vai. Fechando com força a porta atrás de si. Coloco um vestido. É verde, preso na parte de cima e rodado em baixo. Fica acima do joelho e tem mangas compridas. Fechado na parte da frente, sem decote algum. Decotado na parte de trás, até o fim da costa. Uma bota marrom claro. Cabelo dividido para o lado. Desço a escada o mais rápido que posso, o que é bem devagar por causa do ferimento.
Tia Kathy é a única na sala. Não me oferece ajuda, apenas me olha e sai porta a fora. Eu á sigo, é meu dever.
Não veja com essa para cima de mim. Dever. Oras. Está apenas com medo dela. Eu sei.
Olha quem fala. Você também se tremeu todinho. Um fera com medo. O dia está amarelado, nada das fofas nuvens no céu. Tem muita gente na rua. Das vezes em que sai da casa não havia ninguém. Agora a cidadela está apilhada de gente. Gente de todo o tipo. Altas e baixas. Gordas e magras. Brancas e negras. Ruivas e loiras. Asiáticas e europeias. E meios termos. Pessoas de todos os lugares. Nada em comum. Desculpe-me, quase nada em comum. Por que uma coisa eles tinham em comum, como uma família. Os olhos. Todos carregavam seus olhos de boneca. Olhos de boneca como os meus. Olhos dos mais diversos. Verdes, azuis, negros, castanhos, avermelhados, cor de mel, arroxeado, irreais. Alguns deveriam usar lente de contato para sair nas ruas, se não seriam perseguidos. Perseguidos por serem bruxos. Viva a inquisição.
—Aqui é o lugar deles. Sua cidade. Sua rua. Suas casas. Essa é a sua cidade também Nikaia . Efodorward.
Tia Kathy está falando comigo novamente. Ela olha para todos. E cumprimenta a todos. Todos a olham respeitosamente. Como se ela fosse algo mais por ali, mas ao mesmo tempo, não fosse nada de essencial. Eu não sabia interpretar. Eram coisas diversas, eu não tava entendendo muita coisa.
—Muitos deles tem casa aqui. A vida sempre foi complicadas para nós, para todos nós. Muitos sofreram o pão que o diabo amassou, e pensa num padeiro bom, ele deu de comer a todos por aqui. Todos foram perseguidos e perderam alguém de quem sentem falta. A vida não nos aceita como somos, é necessário se esconder, mas não é fácil esconder quem somos. Por isso essa cidade foi criada. Um refúgio. Um lugar onde todos podem viver em paz. Aqui não tem perseguição, somos todos uma família.
Uma mulher de longos cabelos loiros passou por nós. Cumprimentou titia com dois beijos na bochecha e se foi, falando com outras pessoas. Todas as lojas estavam funcionando, tudo estava a mil. Todos sorriem e falavam alegremente uns com os outros.
—Não podemos viver todos aqui. Se não estaríamos extintos. Somos competitivos. Briguentos. Dominantes. Não aceitamos alguém que mande em nós e não obedecemos as ordem de alguém abaixo de nós. Não nascemos para viver em uma grande sociedade. Somos seres de matilha. Matilhas são pequenas famílias. O grande segredo está no pequena.
Desta vez foi um homem que nos parou. Alto e forte. Pele morena, pele queimada de sol. Cabelos cacheados, com mechas clareadas, aloiradas. Ele tinha o corpo de quem trabalhava arduamente para viver, um corpo digno de um deus grego. Tinha o rosto de cigano e o sorriso de conquistador. Um mediterrâneo, posso ter certeza disso. Ele cumprimenta tia Kathy.
—Que bela visão. Não sei como aguento essa beleza toda.
Tia Kathy fica envergonhada, vermelha. Sorrio de sua reação. Parece uma menina jovem. Um anjinho. Quem não conheça que compre, estou vendendo bem barato. Ele me olha, enquanto ela está com o rosto abaixado. Me manda um piscadinha de canto de olho. Levanto uma sobrancelha, questionando. Seu sorriso fica mais puxado, mas de canto. Como um malandro num bar. Ele se despede de titia e se vai andando. Com um andar prepotente e quem tem o mundo da mão. Tia Kathy me olha, ainda vermelha.
—Aquele é Marcos. Ele é um lobo solitário. Geralmente vive na Espanha. De vez em quando aparece por aqui.
Sua voz está leve. Adocicada. Gargalho internamente com tal coisa. Paramos em uma loja onde vende doce. Bolos de todos os sabores. Titia pede duas fatias. Bolo de chocolate.
—A senhora falou ontem. Festival. Lua de sangue. Lideres. todos os lugares. Mas eu não entendo. Por que?
Titia me entrega a fatia. É quase do tamanho de um bolo pequeno. Minha fome está voraz. Estou faminta.
—A cada lua cheia o véu entre o humano e o lobo dentro de nós se torna frágil. Perdemos o controle entre o humano e o lobo. Não sabemos para que lado vamos pender. Se ficaremos leve ou se nos tornaremos assassinos. Por isso todos se mantem afastados de todos aqueles que podem machucar. Por isso todos os lobisomens ficam em grupo, por que assim dominaremos uns aos outros. O festival é também um momento de decisão do futuro. Da vida. A cada três anos ele acontece, aonde a lua for mais visível. Desta vez é aqui.
Ela come um grande pedaço. Sentamos na grama ao lado de uma sorveteria. Tenho certeza que depois ela irá querer comer alguma coisa de lá. Todos nós olham. Para a anfitriã e para a garota nova.
—A cada lua de sangue. A cada três anos. Realizamos a morte ou o nascimento. Alguém se oferece para ser morto diante de todos, como um sacrifício para a lua. Ou alguém se oferece diante de todos para dá uma nova cria, uma dadiva para a lua. Não se sabe o que vai acontecer amanhã. Sabe-se que hoje é dia de estar em paz. Comer, beber, namorar e fazer de tudo um pouco para agraciar a lua e a todos os descendentes dela. Devemos ser leves, está fora da casa, ao ar livre. Falar com todos e não brigar. Esse é o mandamento do primeiro dia.
Ela terminou o bolo. Não consegui comer todo o meu. Não sou fã de doce por doce. Me enjoa.
—Vamos, vamos andar. Se ficar e pensar de mais vai acabar não aproveitando.
Então vamos donzela. Vamos aproveitar o dia. Carp dien. Aproveite o dia como se o amanhã não fosse existir.
Me levante com uma certa dificuldade. E a sigo. Comendo comida de todos os tipos e sabores. Falando com todos os tipos de pessoas, todas sempre belas e fascinantes. Descobri que tia Kathy é um mulher de muitos amores e que fica vermelha com a simples menção de seu nome em meio à multidão. É uma romântica incurável. Fico imaginando se ela acha que todo amor é um amor eterno.
vi muita gente, mas a única vez que vi Luciam ele estava com outros quatro senhores distintos. Todos tinham os olhos vermelhos sangue. Todos tinham ar prepotente. Todos eram arrogantes. Todos era inesquecíveis. Um era um loiro alto que se vestia como se fizesse parte da realeza vitoriana, era um verdadeiro vampiro de crepúsculo, com a única diferença de que era um lobisomem e aqui é a vida real. O segundo era moreno de cabelo raspado, usava um terno chique e parecia um demônio pactual de sobrenatural. O terceiro era ruivo e de sorriso largo, vestia roupas largas e amarronzadas, se não tivesse os olhos vermelhos eu o chamaria de Wesley. O último homem era o mais novo, cabelos negros e longos, usava uma camisa do Link Park e uma calça rasgada, ele olhava para todos os lados. como se procura-se por alguém. como se procura-se por alguma coisa.
—São os manda chuvas.
Pietro estava do meu lado. Tomei um susto, não o havia percebido chegar. Ele sorrir e coloca o braço sobre os meus ombros. Ele sorrir para mim.
—O loiro é Victor. O moreno é Antony. O ruivo é o Stark. E o último é o Carlos. Eles comandam grandes alcateias. Todos tem de se curvar à eles. Junto com o papai eles são como o conselho negro dos lobisomens. Nada escapa da percepção deles. As regras são feitas e executadas por eles.
Olho para eles mais uma vez. Os olhos do mais novo encontram o meu. Meu sangue congela. Seus olhos sorriem para mim, um sorriso macabro. um sorriso de um demônio.
—Vamos. Você não vai querer se meter com esse. Com esses não.
Pietro me arrasta de lá.
Não tenha medo princesa. Estou aqui. Eles não são nada perto de mim. (Imagino ele forçando o braço, mostrando os músculos) Eu te protejo. Nada vai te acontecer.
Gargalho sem tanto humor. Mesmo a fera está preocupada. Não quer que nada acontecesse com ela, e isso significava que nada deveria acontecer comigo.
Pietro me levou para perto das árvores. Longe da maioria das pessoas, mas perto o suficiente para correr até a segurança dos outros se algo acontecesse.
—Sua perna ainda dói?
Ele perguntou tocando no alto na minha coxa. Era um toque íntimo de mais. Deixei os olhos cair. A fera não gostou do toque, parecia ameaçador. Quando levantei os olhos vi refletindo no azul dos seus o amarelado da fera. Pietro interpretou errado, se aproximou mais. Suas mãos subiram a coxa, passando pela bunda e se colocando no final da costa. Sua boca foi ao meu pescoço. Não fiz nada, tentava controlar a fera dentro de mim, ela não poderia sair agora. Ela se sentia ofendida, abusada. Sua boca era delicada, não parecia que irei fazer algo contra mim, ele apenas parecia apaixonado.
Coitado...
—Acho que sua mãe o estava procurando criança.
Pietro se afasta de mim com tudo, com uma força acima do comum, jogando-me para trás. Quase despenco no chão. Algo me segura, equilibrando-me. Olho por meus ombros. Me vejo encarando esmeraldas da mais fina lapidação. Sombra. Estou perto das árvores. Os dois homens não estão prestando muita atenção em mim. Estão concentrados em seus próprios problemas.
—...não mande em mim, você não é meu pai.
Pietro estava falando entre dentes, ele estava zangado, com uma raiva intensa.
—Graças a Deus deixei a oportunidade passar. Não sabe o quando eu agradeço.
Marcos estava debochado, com aquele sorrisinho no rosto. Ele era tão magico, magnifico realmente. Era um homão da porra. Fico admirando aquela cena inebriante. O lobo negro nas minhas costas me cutuca com o focinho. Devagar, bem devagar eu ando para trás. Deixo aqueles dois lá. E corro. Corro como uma selvagem, corro junto com um lobo numa floresta cheia de sombras.
O riso me sai da garganta, ele estava preso. Um grito de satisfação me eclode. A fera se sente viva, assim como eu. Começo a rir e paro de correr. O monstro negro que corre comigo se volta para mim. Está feliz, saltitando. Correndo ao meu redor. Mexendo em mim com o focinho. Parece um grande cão feliz.
O crepúsculo deixa o local alaranjado. O sol está se pondo, a lua já já se tornará a rainha. Me sento ali, admirando a noite crescer ao nosso redor. O lobo se senta na minha frente, me olha nos olhos. Deixo a fera olhar pelos meus. Olho no olho. O fio vai tecendo. O tempo tictacando. Nossos olhos juntos. Nosso corpos a pouco tempo de distância.
Tudo parece tão perto e ao mesmo tempo tão distante. O que acontece no mundo para ele ser assim? Estou me sentindo angustiado. Isso não é normal...
A fera está confusa. Sorrio com os seus pensamentos dela. O lobo na minha frente meche a cabeça. Não está entendendo muita coisa. Estamos lá a tempos. Minha barriga ronca. Que fome. Acho que tenho de voltar. Me levanto. O lobo me segue o ato. Afago sua cabeça, me esquecendo por um tempo que não é uma animal de estimação, mas sim uma fera que está ali comigo. A fera me olha como se me pedisse para não ir. Como se não desejasse me deixar ir. Acho que uma volta a mais não vai me matar de fome.
Começo a correr novamente, com o vento nos cabelos, deixando os cachos cinzas rebeldes. A adrenalina não deixa a perna doer, para falar a verdade ela não dói a um tempo. Sombra me segue de perto, merecendo o nome de sombra. Começo a correr de costa, fazendo graça para ele. Brincando com ele. Não bato em nenhuma árvore. Não bato em lugar nenhum, mas der repente o chão some dos meus pé.
A água enche meus pulmões. Não sei nadar. Começo a me desesperar, bato como louca as pernas e os braços ao mesmo tempo. Em todas as direções. Minha visão está sumindo. Meus sentido estão me deixando. Estou desesperada. Bato com os braços em alguma coisa. Dou o abraço do afogado, me agarrando sem pensar ao que quer que estivesse ao meu lado. Era alguém. Por baixo da água. Reconheço o par de olhos verdes. O par de brilhantes olhos verdes. Olhos desesperados. "Pare" me diziam por debaixo d'água. Deixei o corpo imóvel. O nosso corpo subiu. Puxo o ar com toda a força que tenho. Me agarro a vida. O dono do par de esmeraldas me leva ao raso. Quando meus pés tocam o chão um grande alivio me inunda.
—Obrigada.
Falo para ela. Para a mulher cujo o corpo escultural está junto ao meus. Para a mulher de lindos olhos verdes.
Acho que estou apaixonado. NIkaia não me deixe perder essa mulher.
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