Luas de Sangue

2 A Estrada Até Aqui


Notas iniciais
Olha você por aqui novamente! Vejo que gostou de minha companhia! Eu sei que gostei bastante da sua... companhia. Se aproxime mais, venha mais perto! Somos velhos companheiros, não é mesmo? Não tenha medo! Sei tudo que você quer! Sei o que você veio ouvir e eu irei lhe contar, contarei como ela chegou lá. Toda lenda tem um começo... Deite-se comigo, logo logo você não vai mais querer levantar.

No dia mais deprimente que já vivi em minha insignificante existência o sol estava esplendoroso no céu e as nuvens que pairavam ao seu redor pareciam algodão. Era o primeiro dia de primavera e todos estavam apreciando o desabrochar das primeiras flores, entretanto para mim a vida se tornou um eterno e impiedoso inverno. Nada que a vida me trouxesse hoje me faria feliz, nem que ela carregasse o melhor sorriso e um belo cartão. E ela, com seu sorriso mais maroto, me trouxe uma nova família, uma nova cidade e uma nova vida.

Minha tia, que eu não sabia que existia até que meu pai começou a gritar que ela tinha de vir me buscar no telefone, chegou a poucos instantes para me levar até a cidade natal de minha mãe, Aldorarg (um fim do mundo que ninguém nunca ouviu falar, e cuja a localização e história é altamente desconhecida por mim). Aldorarg, de fim de mundo a lar. Um tapa bem recebido do mundo, eu sei, sempre avisaram que ele dá voltas, não é mesmo?

—Melinda... – Ela repentinamente fica sem fala e me olha da cabeça aos pés, avaliando-me. – Quanto tempo, já é uma moça feita.

Tia Katrina, cuja a existência eu ia adorar ter descoberto em qualquer outra ocasião que não fosse exatamente essa, me puxa para um apertado abraço de urso e sufoca-me contra seus avantajados seios. Quando ela me larga e eu posso novamente olhar seu rosto percebo que seu sorriso está enorme e ele é lindo. Minha tia tem aqueles sorrisos que alcança dias nublados, aquele tipo de sorriso que te faz prometer que você fara tudo para que aquela mulher nuca pare de sorrir, que te faz querer ter o poder de deixar todos os dias dela alegres, é o tipo de mulher que te faz sentir que a vida é fácil.

— Sinto tanto por você meu pequeno anjo! – Seu olhar era gentil e piedoso. – Entretanto, pense que em certas ocasiões coisas nefastas servem para o bem e não para o mal. Quem sabe tudo não aconteceu para que você pudesse encontrar sua verdadeira felicidade e para que você pudesse finalmente saber quem é. Pense um pouco nisso!

Suas palavras atingem meu peito como uma bala, cada uma das palavras daquela sentença ficou gravada em brasa nele. Aquelas palavras me acalmaram, mas ao mesmo tempo elas me deixam muito tensa. Durante aquele dia nefasto, eu perdi tudo em que eu poderia me segurar, mas essas palavras agora se tornaram minha tabua de salvação. Ainda não acordei desse pesadelo agonizante, e estou preparando-me para todo a dor que ainda tenho de enfrentar pela frente porque sei que ainda vem coisa, pois o dia agora que começou.

Minha madrasta, sem paciência alguma (ela nunca tem nenhuma, tenho pena de meu pai), chama a atenção de minha tia para si. Ela toca o baço de minha tia e aponta delicadamente para a escada, mostrando de forma indireta que ela tem o que fazer. Minha tia e minha madrasta- que não deseja nem tocar no que um dia foi meu – para arrumar o resto de coisas que tenho, mas não muitas coisas, não posso levar muitas coisas, não dá tempo. Ainda atordoada eu arrumei algumas coisas em uma mochila velha. Coisas preciosas, minhas coisas favoritas, coisas que fariam falta se eu morresse. Deixei ela no pé da escada. Entretanto meus “pais” acham que são poucas coisas e por isso minha tia vai arrumar algumas coisas ela mesma.

O delegado disse que eu deveria deixar aquela cidade o mais rápido possível, sem que ninguém me visse viva, pois assim eu poderia facilmente ser dada como morta junto aos dois. Morta de forma agonizante por um maníaco louco, ou por um animal semienlouquecido, os detalhes eu deixarei para a imaginação deles. A parte importante é que poderei sair com vida e liberdade dali, e deveria agradecer a minha madrasta e seus muitos amantes (nunca achei tão útil os chifres de meu pai) e à violência do delegado, que precisava esconder um corpo.

Olho para a porta semiaberta de minha casa, tendo um vislumbre da grama bem aparada da casa de meu pai. Morta. Serei apenas um cadáver apodrecido para essa cidade. Um corpo sem nome, morto e enterrado em uma cova decorativa, onde muitos choraram a perda da brilhante mente que um dia eu fui.

Minha tia desce apenas algumas vezes, para colocar pequenas caixas em sua minivan vermelha e verde, que era o carro que iriamos para Aldorarg. Minha madrasta permanece no andar superior sem ajudar em nada, para ela eu morri no momento em que sai no dia anterior e ela pretende me enterrar firmemente. Para meu pai eu também morri e de forma calada ele anda pela casa, colocando coisas na minha frente como quem faz tributo aos mortos, sem me olhar, sem me dirigir a palavra. Desde que descobriu o que fiz ele decidiu me fazer um fantasma, pois sua amada filha morreu naquela infernal floresta.

Não sei se essa decisão colocou um peso em suas costas ou o tirou.

Minha tia desce de meu antigo quarto com um pano em sua mão, uma coisa vermelha, que ela me estende de forma delicada com suas longas unhas esverdeadas. Um acordo de paz em meio àquela turbulência. Olho para suas mãos e para as pessoas no loca, meu pai e sua mulher, e decido aceitar de suas belas mãos o meu novo destino. Me levanto e olho meus antigos responsáveis de modo igual.

— Estudiosa e aplicada.

Minha voz sai rouca, pelo longo tempo que fiquei calada. Meu pai me olha sem entender, olhando-me verdadeiramente confuso. O deixei sem saber o quefazer mais uma vez naquele fatídico dia.

— No epitáfio. Não quero nada como “Filha amada, amiga querida”, não era assim que todos se referiam a mim. “Estudiosa e Aplicada”, era apenas isso que eu era para todos. Aceite a vontade de uma morta.

Meu pai perde a fala e minha madrasta revira teatralmente seus olhos e bufa para mim. Sorrio grandemente e os olhos uma ultima vez, chegou a hora de dizer adeus. Eu morri e seu que futuramente ele irá chorar minha perda diante de uma bela lapide e de um enfeitado caixão. Todos choraram por mim lá, serei mais uma distração nessa cidade onde nada acontece.

— Até indo embora você me dá despesas. Agora vou ser obrigada a gastar dinheiro com uma babá.

Minha amável madrasta fala ranzinza. Isso é a única coisa que gosto dela, o fato dela ser verdadeira. Nunca esconde o que pensa, sempre fala tudo o que deve falar. Lembro-me de Meredith, minha pequena irmã que dorme no andar superior da casa, a única coisa que essa mulher trousse de bom para a minha vida, meu coração se aperta.

— Não chore muito, pode borrar o rímel, e ele é caro né?

Eu mando um beijo no ar para ela e ela me dá um pequeno sorriso. Andando para a saída eu enxugo minhas imaginarias lagrimas e dou um teatral adeus, como fazem aquelas modelos me passarelas. Seguro o casado com capuz vermelho que peguei do braço de tia Katrina, usei ele no dia das bruxas do ano passado, Dani me fez usar uma fantasia elaborada nesse ano. E desta forma, igual a chapeuzinho vermelho eu sigo o caminho indicado pelo lobo para poder chegar à casa da vovozinha.

Minha tia vai na frente abre a porta do carro para mim, enquanto a sigo rapidamente eu olho para trás, uma última vez. Meu pai está com sua expressão triste, parado solitariamente na porta, ele segura fortemente a manga de sua camisa.

—Adeus minha linda.

Ouço sua voz ser carregada pelo vento, como o prenuncio do canto de morte. A perspectiva da partida me atinge o peito e me faz perceber que agora não sou mais Melinda, agora sou ninguém.

Entro no carro de minha tia e fecho a porta, enquanto coloco o cinto ela já está seguindo estrada. Que minha mente metaforiza e transforma na estrada da vida, na qual eu tenho de caminhar. Minha tia segue muito rápido, tudo ao redor nas janelas se transforma em um borram, não posso ver as casas, nem os prédios, as lojas e nem a floresta.

É o dia mais funesto para mim, perdia a vida na noite passada e ainda tenho de lidar com tudo isso e dizer a deus a tudo que eu conhecia. A pior parte da morte quem carrega são os vivos, ou mortos-vivos, no meu caso. Tenho que me desprender de tudo, para poder seguir adiante, mas não sei se consigo, apesar de saber que devo. Ah, estou tão confusa e admito depressiva. É só que eu perdi tudo, perdi tudo na noite que ainda vivo.

Minhas resoluções são deixadas de lado quando minha tia para der repente o carro. Estamos em uma lanchonete de beira de estrada, uma daquelas bem velinhas e duvidosas.

— Hey linda, vamos comer algo. Ainda não comi nada e estou f-a-m-i-n-t-a!

Ela não está me perguntando nada, ela está me informando, por isso eu apenas a sigo e deixo com que ela tome as rédeas e compre o que desejar e aparentemente ela deseja muitas coisas. todos em volta nos olham para ver quem comerá toda aquela quantidade de comida, nenhum dos caminhoneiros ao redor pediu algo assim. Brinco com um pouco de minha panqueca, sem querer comer nada.

— Hey Mel, coma! Fica mais fácil controlar ela se você estiver de barria cheia, por isso coma bastante!

Meu corpo entra em colapso, e a olho com os olhos arregalados por debaixo da franga. O que ela disse? Controlar ela? Como assim? Minha tia percebe a agitação que se formou em mim e me olha compassiva.

— Hey baby. De barriga cheia você pode controlar melhor a raiva e a tristeza. Coma!

Raiva? Tristeza? Como ela pode supor que eu fiz tudo por uma mera raiva? É bem maior que isso é algo muito mais forte. Eu sei controlar minha raiva muito bem, queria gritar isso para ela, entretanto preferir me manter calada e fazer o que me foi mandado. Por isso eu começo a comer, e cara, que fome. Como quase todo que estava na mesa, fazendo com que minha tia, também faminta, tivesse de pedir mais. No fim saímos da lanchonete com uma quantidade grande de olhares abismados para nós, e uma conta bem grande paga a dinheiro.

Me escapa um sorriso ao chegar no carro, sou uma pessoa renovada após terminar de comer. O carro segue sua incessante busca pelo fim do mundo, mas conhecido como Aldorarg. Minha tia também parece estar mais relaxada e feliz, acho que uma boa comida faz bem a todos. Sorrio internamente, mas acho que uma parte de meu sorriso me escapou os lábios. A vida não parece tão sem rumo agora. Tia Katri me olhou de canto, como se eu fosse louca, e acho que sou mesmo, mas não tão louca quanto um chapeleiro.

Logo paramos novamente, pelo visto vai ser uma viagem repleta de paradas. Entretanto desta vez paramos em um grande estacionamento bem em frente a uma grande loja de departamentos, destas que tem em estradas e que você pode comprar de tudo. Eu e Dani sempre queríamos vir numa dessas, entretanto a mais próxima ficava três cidades de distância e a mãe dela nunca deixou.

O carro está indo bem rápido, não sei como não fomos parados pela polícia ou multadas. Bom, isso não é uma coisa que eu deveria e nem queira me preocupar. Me deixo preocupada apenas em seguir minha tia para dentro da loja, onde ela me entrega um carrinho.

— Renasça, vai ser preciso renascer. Compre tudo que te faça ser uma nova mulher. Você merece um mimo!

E desta forma ela parte, comandando outro carrinho. Vejo ao longe ela jogar coisas nele, como aquelas crianças que fazem compras com a mãe.

Renascer.

É necessário que eu renasça, mas quem sou eu agora? Para renascer eu preciso saber quem morreu, mas não acho que essa seja uma resposta fácil. Eu era menina perfeita, não é? Modelo de perfeição escolar, estudiosa e inteligente. A garota que nunca apronta nada e que não tira nenhuma nota baixa. A menina submissa, que nuca reclama. A menina dos sonhos de qualquer professor ou pais, mas nunca a menina popular. Eu fui a menina aplicada. Fui, verbo conjugado no pretérito perfeito do indicativo mesmo, pois agora não sou mais. Minha alma está no limbo e está preste a renascer.

Sei quem fui, mas e agora? Quem quero ser? Que tipo de mulher que me tornar? Acho que essa é a resposta mais importante.

Ando com o carrinho pela loja, olhando as prateleiras. Renasça! Grito para mim mesma. E bem, irei. Pego tudo que eu um dia sonhei usar, mas que nunca combinaria com a menina número um que eu era. Sias, brincos, blusas, casacos, botas, saltos, meias, sutiãs, calcinhas, tinta, pulseiras, colares... tudo que vai me ajudar a tornar-me uma nova mulher.

Encontro com minha tia no caixa, ela também comprou muitas coisas e das mais variadas. De biscoitos a celulares. A moça do caixa, talvez suspeitando da quantidade de coisas, pergunta o motivo de tantas comprar. Minha tia ri abertamente e diz que estamos nos mudando.

— Toda mulher merece renascer quando se livra de algo, não é mesmo?

A atendente sorri para ela.

Com a mala do carro quase lotado, seguimos sem espaço algum. Novamente voando com o carro. A uma boa distância do local minha tia pega o cartão e quebra em vários pedaços, jogando-os pela janela, olho para ela como se estivesse ficando louca e começado a criar chapeis e tomar chá. Ela gargalha gostosamente.

— Não se preocupe, eu irei te ensinar a viver de verdade.

Ela está rindo como uma louca. Parece o coringa com um plano diabólico para o Batman no fim acabo rindo com ela, sem poder evitar. A loucura é contagiosa. Enquanto isso, mecho no celular que ela me deu, segundo ele são uma hora da tarde, o dia seguiu rumo e eu não reparei. Não devo vasculhar minha antiga vida, nem criar perfis novos para mim na internet. Por isso baixo alguns jogos no celular, de todos os tipos, de logica a tiro. Passei o resto da viagem assim, enclausurada em um joguinho de celular. Tenho de tomar cuidado para não ficar viciada.

Quando chegamos a Aldorarg eu não tomei consciência de início. A cidade é pequena e rustica, com casas simples e ruas sem asfalto, um fim de mundo realmente. O ponto a favor da pequena cidade e quantidade absurda de lojas que tem nela, e das mais diversificadas coisas, desde arminhos a lojas de comida asiática. A variedade de coisa ali era incrível, estou sem palavras.

Tia Katri deixa a minivan ao lado de uma loja de tecnológicos, imagino a casa ao lado da loja deve ser meu novo lar. A casa era toda feita de madeira escura, com uma varanda muito bonita e enfeitada com grandes cadeiras acolchoadas. A janela e as portas eram feitas de vidro, um vidro escurecido. A casa tinha dois andares e o segundo também continha uma varanda carregada de flores.

—Entre meu pequeno anjo e sente-se um pouco no sofá. Irei pedir a ajuda de Pietro e levaremos todas as coisas para o seu novo quarto rapidinho, assim logo poderemos conversar. Tudo bem?

Não quero discutir sobre ajudar ou não, seus olhares foram bem direcionados, ela queria que eu subisse. E bem, apesar de não querer que ela fizesse tudo sozinha, eu estava cansada, então eu subi as escadas e parei em frente a porta, ela não me deu chave alguma, forcei a porta, ela abriu facilmente, acho que eu cidade pequena, não tem uma preocupação muito grande com roubos ou invasão de propriedades. A segurança é assegurada.

A casa era bem decorada por dentro, com moveis de madeira clara brilhantes e grandes quadros nas paredes, a sala se dividia em estar e jantar, de um lado uma grande mesa de vidro e do outro um sofá branco com almofadas grandes e de aparência macia.

Sem me ater a nada mais eu sigo em direção ao sofá e me deito, que era realmente muito macio e aconchegante. Eu mal coloquei a cabeça no travesseiro e já estou em direção aos braços fortes de Morfel.

Tive um sonho conturbado e decadente, nele eu via Kaion morrer novamente, mas eu não estava no meu corpo e sim no de Dani e estava morrendo de medo da fera. Meu corpo tremia todo.

A fera estava com Kaion nas mãos e ia arremessa-lo para o abismo, ela ia mata-lo e eu sabia que seria a próxima. Ajoelhei-me pedindo perdão por tudo que uma poderia ter feito, supliquei desesperadamente por minha vida. A fera olhou para mim sem emoção e eu vi em seus olhos amarelos que eu ia morrer, chegou a minha vez... eu corri pela floresta, tentando escapar. A fera vinha atrás de mim, eu olhava para ela toda hora por cima do ombro e ela parecia sorrir, ela parecia se divertir. Ela queria me matar... Toc...Toc...Toc... Não abra a porta para o lobo mal.

Notas finais
Se for achado algum erro, por favor me informe e eu irei arrumar. Fico agradecida por ler, caro senhor(a). *arrumado