Notas iniciais
Gente, revisar é muito gostoso... muito melhor que criar (oh dó da pessoa que precisa escrever quarenta páginas do cap 19 da fic). Enfim, vou estar postando bem rápido os próximos, pois eles tem poucas paginas, então não acho que precise esperar 15 dias para postar um novo, enquanto os capítulos forem pequenos vou revisa-los e postar. Se deliciem!

Vergonha foi o que senti quando meu estômago grunhiu alto após minhas graves palavras, Alice riu divertida e Esme suspirou quase aliviada pela normalidade da ação involuntária do meu corpo.

— Esse é um som muito humano minha querida, venha, vou preparar algo para você, tudo bem?

Ela parecia mesmo querer fazer isso por mim. Sorria sincera, um sorriso enorme e brilhante, verdadeiro, vi uma expressão semelhante de encorajamento no rosto perfeito de Carlisle.

— Venha Ayira, ainda temos comida humana, por precaução caso Renesmee e Jacob venham nos visitar.

— Como se o cachorro realmente comesse algo que tocamos!

Rosalie bufou irônica caminhando para fora do cômodo, Emmett a seguiu logo após, seus olhos nunca me deixando, a mensagem era explícita “nós ainda não acabamos por aqui”, encarei ele de volta com o que achei que fosse a confirmação dos meus pensamentos, eu não tinha intenção alguma de ir embora, não antes de conseguir o que precisava.

Edward e Bella entrelaçaram suas mãos, seus olhos se prendendo um no outro, havia tanto entre eles, tão íntima a conversa mental entre os dois, meus olhos se desviaram, senti o sangue subindo e se concentrando em meu rosto.

Ainda era tão estranho observar tantas ações cheias de emoções e intimidade, eu não conseguia entender.

— Vamos, você vai adorar comida enlatada!

Estava tão distraída com meus pensamentos que não pude raciocinar sobre a próxima coisa que aconteceu, a mão de Alice se fechou ao redor do meu pulso, a opressão do sentimento que o toque me sentir foi como a sensação de um tapa, meu corpo congelou e então se esquivou defensivamente, um rosnado crescendo em meu peito.

Ela tirou a mão automaticamente, seu rosto se contraindo em descrença pelo próprio gesto, dei mais um passo para trás e a encarei com olhos vazios.

— Me desculpe Ayira, eu não pretendia.

Meu peito vibrava com cada respiração cuidadosa, meus olhos viam uma Alice borrada, o ar estava impregnado de tensão, cautela.

Meus olhos não se atreveram a desviar para Edward e Bella, podia sentir vergonha tremer em minhas veias.

Louca. Monstro. Aberração.

Me abracei e tremi ao sair da posição de ataque mais uma vez, meus olhos descendo para meus pés descalços, podia sentir as palavras se arranharem através da minha garganta.

— Me... me desculpe.

O momento foi de silêncio tenso por um segundo, e logo se dissipou assim que as palavras deslizaram, o sorriso de Alice quase parecia ter um som próprio, como sinos minúsculos tilintando.

— Não por isso querida, venha, vamos arrumar algo para você.

Assenti passiva e a segui em direção à porta, podia sentir os olhos de Bella e Edward queimando nas minhas costas.

Aberração

Coisa

Minha cabeça parecia um nevoeiro negro enquanto seguia Alice por sua casa, tudo era claro e iluminado em demasiado, tinha luz o suficiente para revelar qualquer segredo ao nosso redor.

Alice estava empenhada em apontar para coisas aleatórias ao redor dos cômodos, meus olhos seguiam cada uma delas por educação, quando na verdade a única coisa que eu conseguia pensar era:

O que estou fazendo aqui?

Nada ali poderia prender minha atenção, eu não me importava com decoração, arquitetura ou móveis, eu perdi anos demais da minha vida presa em um castelo de mentira para deixar de valorizar a vida por causa de pequenos detalhes tão desvalorizados.

O cheiro ficava cada vez mais forte quando chegamos perto do cômodo onde Esme se movimentava, timidamente entreabri a boca e deixei o ar tocar minha língua, minhas papilas gustativas sensíveis saborearam a complexidade do cheiro no ar. Apesar de todas os outros cheiros, ainda podia saber que se tratava de carne branca, peixe, um tipo de peixe velho, mas ainda comestível.

Quando entramos na cozinha mal podia vê-la, Esme parecia um borrão em meio a fogo, panelas e ingredientes, Carlisle observava admirado.

— Depois que Nessie nasceu Esme decidiu se aperfeiçoar na arte da culinária, é como um hobby agora, guardado apenas para visitas extraordinárias.

Alice explicou quando indicou uma das cadeiras de frente para o balcão.

O grunhido de Emmett me distraiu.

— Ou para invasores indesejáveis.

Ouvi o tapa e me encolhi involuntariamente com o som de sua força, eu sabia que para eles aquilo não tinha sido mais que um sopro de ar, mas isso não me impedia de me retrair diante da violência, mexia comigo.

Aberração

Louca

Ele sequer teve a decência de parecer constrangido com o gesto da parceira.

Logo eu estava sendo distraída novamente pelo prato depositado a minha frente, antes mesmo que ela disse as palavras eu já estava atacando a refeição, eu era como uma criatura descontrolada, como se nunca tivesse comido na vida.

O peixe derreteu rápido de mais na minha boca, não tive uma opinião concreta a respeito do modo que foi preparado, só tinha certeza de que estava satisfeita com o modo que ele havia sido preparado, fresco e cru teria sido saboroso, mas estava faminta demais para me preocupar com qualquer dessas coisas, só precisava comer e ser gentil com Esme por ter me feito uma refeição. Talvez mais tarde, quando eu não fosse mais considerada um inimigo, eu pudesse sair para caçar em agradecimento. Enquanto comia podia sentir um exército de olhares me observando atentamente, com curiosidade, perplexidade, hostilidade e até felicidade.

Assim que Esme depositou o copo de água a minha frente eu soube que não poderia mais ignorar todas as perguntas que estavam por vir, limpando a boca com as costas da minha mão eu encarei um ponto qualquer do balcão e respirei fundo.

— Vocês podem começar.

— Querida, nós temos tempo, não se apresse, você pode tomar o tempo que for preciso para contar-nos.

Esme tão linda como era franziu incomodada o seu cenho, muito atenciosa e gentil, boa demais, quando eu olhava de relance para ela era quase como se visse algo humano, frágil e valorosa, e então seu cheiro me atingia, e assim eu me lembrava do que ela era de verdade.

— Esme tem razão, talvez você deva descansar mais um pouco...

— Não é necessário.

Interrompi Carlisle educadamente enquanto me virava para Edward.

— Você vai me ajudar?

Seus olhos me analisavam em busca de hesitação, eu sequer respirei quando ele assentiu.

— Sim.

Antes que eu pudesse contar mais alguma coisa Emmett me interrompeu com uma pergunta, não fiquei surpresa.

— Como você pode saber do que aconteceu conosco, e de como os Volturi pensavam sobre os novos vampiros?

— Eu ouvi muitas histórias, sobre suas guerras, seus dons, suas vidas, cada pequeno detalhe que pudesse ser do interesse dos Volturi.

— Quem contava essas coisas?

— Na maioria das vezes… Alec.

Minhas mãos se fecham com força sobre o meu colo.

O olhar de descrença de Emmett é algo que eu não posso entender, então registrei o olhar de incentivo para prosseguir no rosto de Edward.

— Antes eram apenas fábulas, contos de fadas, era quase como se ele quisesse me ensinar as coisas indiretamente, eu era apenas um bebê... Então mais tarde as histórias ficaram mais reais , cheias de ambição e dor, como se fossem vivas demais para sequer se tornarem contos.

— Ele começou a contar sobre o que faziam.

Edward completou quando cai num silêncio reflexivo, me senti incomodada ao perceber que ainda me referia a Alec como alguém que pudesse confiar, como um mentor caridoso e gentil, era errado, pensar dessa forma não apagava sua participação no que os Volturi fizeram comigo.

— Quando você soube que era metade lobo?

A pergunta veio de Carlisle, ele de longe, parecia o mais alheio a todos as coisas que eu disse relacionadas a Alec, era quase como se ele estivesse mais fascinado com a parte biológico da minha condição, eu decidi dar o que ele queria.

— Eu me transformei involuntariamente, no meu primeiro ano de vida... assim que voltei à forma humana tudo havia mudado, eu tinha o corpo de um adolescente completo, ou ao menos é isso que meu corpo tentou dizer a minha mentalidade infantil… foi difícil lidar no começo, mas minha natureza mudou isso. Estive presa aos Volturi por oito anos, sendo estudada, violada e torturada. Assim que meu corpo e mente se ajustaram Aro decidiu me dar de presente para seus gêmeos, eles eram os meus carcereiros, cuidaram da minha criação, educação e saúde, ou era suposto que o fizessem assim...

— Isso é degradante, até para Aro.

Carlisle parecia inconformado, seu tom de voz carregando um rosnado de frustração, sua empatia para com a injustiça que eu vivi fez meus ombros.

Ficar bravo não encaixava nele, não parecia ser natural a sua personalidade.

— Fui transformada num animal de estimação, os gêmeos tinham permissão para fazer o que quisessem, achei que ser torturada e tratada como um animal selvagem fosse a pior coisa que me aconteceu depois da perda de meus pais...

— O que aconteceu?

Olhei para o rosto belo e perfeito de Rosalie e vi dor surgir em seus olhos.

— Bem, eu estava enganada, quando o primeiro sangue veio e me tornei mulher Alec decidiu que eu não era mais um brinquedo, ele queria que eu fosse seu troféu, sua companheira... sua esposa...

— Imundo!

Rosalie rosnou e saiu da cozinha com sua velocidade inumana. Meus rosto se petrificou com sua reação, um sentimento mesquinho cresceu no recinto, todos tinham esse olhar triste, como se olhassem para o passado.

Eu não podia continuar, meus olhos procuraram os de Edward em busca de ajuda, ele apenas assentiu e deslizou por minha mente.

— Isso só fez Jane ficar mais incisiva nos castigos, mas Alec sempre vinha a defesa de Ayira, ele achava que se a protegesse conseguiria sua devoção.

— Eu não o queria, nunca poderia querer... eles tomaram tudo que eu tinha... eu não queria mais viver. Desistir da minha vida parecia algo tão simples, fácil… e no começo eu tentei, tantas vezes, mas em todas eu me curei rápido demais.

Alice se encolheu cada vez mais ao som da minha confissão.

Edward era o único que se mantinha firme, e sua força me ajudou a continuar.

— Você quase conseguiu.

— Sim, eu quase consegui morrer, foi esse “quase” que se tornou minha única chance.

Notas finais
A mão já tá tremendo pra postar o próximo. Beijos L.