Notas iniciais
Olá, como vocês estão? Espero que estejam bem, apesar de que o momento em si não favorece, mas... fazer o que né?! (ler muito, assistir muito, comer muito, dormir muito... né!) Acho que esse é o meu capitulo favorito de todos, é muito BAM! Não sei explicar, até chorei revisando ele, tem algumas partes bem doloridas, pelo menos para mim. Espero que vocês estejam gostando da fic, muita gente já se atualizou lendo os capítulos novos no Spirit, conheci pessoas incríveis inclusive, tô muito feliz, o que tem me ajudado muito na revisão. Enfim, boa leitura.

Minha respiração é profunda e reverbera por todo meu peito, o tempo parece parar quando a água atinge o topo da minha cabeça e escorrega por cada fio, tornando meu cabelo úmido, pesado, uma grande massa se acumulando em grandes mechas da cor de asas de corvos.

Vozes lutam em meio a gritos na minha cabeça, minha imobilidade é reflexo da dor que elas causam... da dor que eu quero evitar que se espalhe, eu não sei ao certo, não sei se tenho como.

“Você não é grandes coisas para pertencer à alguém”

“Um monstro sempre será um monstro”

“Ninguém nunca vai aceitar o que você é”

Meu rosto se inclina para cima e a água o atinge como agulhas frias.

“Eu cheiro apenas um monstro frio”

Dor...

Meus olhos se abrem de súbito, a dor da rejeição é tão intensa que me faz ignorar a ardência da água entrando em meus olhos abertos. Dou um passo cambaleante para fora do jato e me apoio na parede de ladrilhos frios, o ar escapa de forma escassa dos meus pulmões, apenas dor engolindo cada tentativa de respiração.

Dor... dor... dor...

Não sei quanto tempo permaneço encarando o nada, apenas sinto meu coração se destruindo, é a única coisa que posso sentir, mas não posso ficar desse jeito, sei disso assim que a movimentação de Alice chega aos meus ouvidos. Me recomponho rapidamente, desligo o chuveiro antes de me enrolar no roupão, quando abro a porta prendo a respiração e uma prece repetitiva soa nos meus pensamentos numa corrida frenética:

por favor finja que não percebeu, por favor, por favor...

Sinto alívio instantâneo quando Alice não vem até mim.

Ela está ocupada demais jogando suas roupas mais uma vez em cima da cama.

Quando olha na minha direção enruga seus lábios em um bico emburrado.

— Deus... vou começar a deixar que Bella suas roupas, as duas tem um pavor compartilhado em relação a moda.

Sinto muito por decepcioná-la, mas fico feliz que ela tenha confundido minha expressão de dor com algo tão trivial com indecisão sobre a escolha de uma vestimenta. Não estou acostumada a lidar com o luxo, é uma das coisas que sempre me horrorizou em relação a eles...

Minhas mãos se fecham com força e sinto que as unhas perfuraram as palmas, a dor faz os pensamentos obscuros irem embora, ao menos por um tempo. Me sento na cama bagunçada e passo a mão sobre as várias texturas de tecidos espalhados.

— Eu vestirei qualquer coisa que escolher para mim.

Percebo meu erro assim que encontro seus olhos, seu rosto cai em desânimo e ela respira de forma humana, o que me deixa mais uma vez desconcertada. Os Cullen pareciam sentir uma necessidade em deixar minha humanidade à vontade, então faziam gestos como “respirar” quase todo o momento, eu preferia que não o fizessem tanto, mas entendia o propósito, no final era tudo sobre mim.

— Oh querida, você não está pensando nisso ainda está?

Como não pensar, logo quando ela se refere dessa forma, fazendo tudo voltar na minha cabeça...

Dia anterior

Minha reação é retroceder, tudo que eu quero é me encolher num canto enquanto ele lança tudo sobre mim.

— Não diga isso Sam, por favor.

Alice parece magoada, seu corpo abraça o meu em uma concha de segurança, tentando me proteger da dor que não para de vir.

Não quero olhá-lo, pois sei que só me machucava ainda mais, e sempre será assim, sempre foi, por que seria diferente agora? A história se repete, perdida, assustada, perigosa, não importavam as palavras, tudo se resumia a essa rejeição padrão que sempre é sentida por aqueles que reconhecem o que eu sou.

— Você não á está vendo de verdade, seus poderes fazem isso, eles a camuflam quando está assustada, é um mecanismo de defesa.

— Por que ela estaria assustada?

Sinto seus olhos profundos e escuros sobre mim.

— Ela o reconhece como semelhante.

Há algo sobre ele, como se sua presença fosse algo físico, é diferente de Jacob onde aquilo se assenta de forma natural, com Samuel Uley é diferente, como se ele precisasse lutar por aquilo, como algo que se adquire apenas com esforço.

Talvez fosse por isso que sentia essa tendência a repeli-lo.

— Não há nada de semelhante entre nós dois.

Seus olhos me analisavam da cabeça aos pés, seus lábios se retorcendo em nojo.

Desvio meus olhos assim que sinto a dor perfurando meu coração.

— Você não entende...

Olho para Alice ao meu lado e me lembro que seus braços estão ao meu redor, seus olhos concentrados em Sam, quase como se estivesse suplicando que ele abrisse sua mente e pudesse entender.

— Então me explique o que estou vendo.

Sua mão faz um gesto desdenhoso em minha direção, sinto essa camada fria se expandindo, como uma redoma de proteção contra qualquer coisa que ele faz direcionada a mim.

Meu coração está mais lento, lento demais para se identificar sequer como um batimento cardíaco humano, sei que estou fazendo algo quando todos os olhos se voltam em minha direção, a atenção excessiva me deixa mecânica.

É como se estivesse me petrificando... estou tão confusa.

— Ela cheira como vocês, age como vocês... não são truques com lentes e tecidos que vão fazer ela ser o contrário.

Edward dá um sorriso enigmático e seu olhar encontra o de Jasper que assente em concordância silenciosa.

— Você está enganado sobre isso.

O movimento é tão repentino que acontece antes de Sam piscar os olhos, Jasper abre todas as persianas com sua velocidade sobre-humana e o sol invade o recinto. A luz me cega momentaneamente fazendo meus olhos se fecharem, o calor atinge minha pele e sinto meus dedos dos pés flexionarem sobre o tapete felpudo debaixo deles.

— Olhe para ela Sam, veja-a.

Meus olhos se abrem instantaneamente, a onda brilhante toma conta de todo o ambiente, pisco meus olhos algumas vezes até me acostumar, os braços de Alice deslizam dos meus ombros e finalmente consigo olhar para ela parada ao meu lado.

Os Cullen brilham, cintilam como diamantes, deixando apenas Sam e eu apagados, como se fossemos apenas mundanos demais para uma coisa tão celestial. Todo aquele peso e frio cai por terra abaixo, como se o brilho fosse o gatilho para diminuir minhas barreiras.

Minha visão de Sam vira um borrão, há um raio de sol na minha frente, impelida pela emoção de ver a luz do sol eu ergo meu braço e a deixo me tocar, o calor penetrando na minha pele pálida e transportando um sentimento de libertação.

Tenho vontade de sair correndo, de ser engolida pelo sol e senti-lo para sempre.

— O que você é?

Sua voz quebra o encanto no qual estou perdida e posso novamente ver sua figura em pé perto da porta, sua expressão presa em sentimentos conflituosos, e é isso, saber quão confuso ele está, esse sentimento compartilhado, me faz finalmente querer falar, sem medo.

— Eu sou filha dos meus pais, sou filha do gelo, filha da lua... não sou nenhum e sou todos.

Sinto meus olhos queimarem com o sentimento, finalmente me mostrar, finalmente ser vulnerável, finalmente dizer a verdade.

— Do que está falando?

— Sam, ela não é apenas metade vampira, ela é humana, mas também é metade lobo.

Carlisle está ao lado dele agora, seu rosto inunda de paciência quando o corpo de Sam Uley começa a tremer, seus dentes a mostra quando ele rosna.

— Isso é impossível!

— Nós também pensamos que fosse, mas está aqui, é real, é o que ela é, se você apenas deixar que ela te mostre.

Bella parece tão persistente, seus olhos procuram os de Sam como se já tivesse feito isso antes, como se tentasse lhe dizer mais uma vez que ele não vive no preto e no branco.

— Eu não acredito nisso, é uma abominação...

— Você já disse essas palavras antes, não se esqueça de que você deve o benefício da dúvida a minha família, por Jacob.

O olhar dele parece louco e então sóbrio quando escuta a voz de Bella, diferente de seu corpo que parece crescer numa presença invisível, há essa fumaça prata sendo expelida por seus poros, é quase imperceptível, mas o suficiente para o alerta nas próximas palavras de Edward.

— Sam, acalme-se.

— Não me diga para ficar calmo, você trouxe desolação para nossas terras novamente.

— Por favor, me acompanhe.

Sua relutância o mantém parado me encarando, eu conheço tão bem esse olhar, só de sentir seu significado já me sinto ansiosa e inquieta. Eu não posso desviar, por alguma razão desconhecida eu continuo segurando seu olhar, sinto como uma obrigação, porque no brilho dos olhos de Samuel Uley há um predador, e se tem algo ao qual me recuso a parecer é a uma caça.

Eu sou uma guerreira… sou uma caçadora.

Meu predador interior se ergue no movimento dos meus ombros, no apertar da minha mandíbula, no poder que cresce no meu olhar, e Sam também sente, sua postura vacila por um momento, Edward o chama novamente de um cômodo muito longe, então o homem arrasta seu pé direito para trás com esforço e se vira, nossos olhares só se quebram quando ele finalmente se vira.

Eu sei que aquilo não foi desistência, não, porque se fosse, eu não me sentiria tão derrotada, ele tinha acabado de demonstrar com gestos que acabara de virar as costas para mim.

— Achei que o lobinho iria explodir a qualquer momento.

O comentário debochado de Emmett não tem qualquer efeito sobre mim.

Carlisle e Bella saem do quarto rapidamente, sequer olham na minha direção, só me sobram Esme, Rosalie, Jasper e Alice. Eu sei pela reação de cada um que também perceberam o mesmo que eu, através do rosto curvado de Esme que evita olhar para qualquer um, pelo de Rosalie que está fixado no meu com pena, ou na postura protetora de Jasper que se coloca entre a porta e eu.

Sinto no gesto de Alice quando segura minha mão com força e sorri.

— Não é a primeira vez que sou rejeitada, não se preocupem.

Minha voz não falha, não bombeia ou transmite emoção, a destruição dessa realização está em meu estômago, se apertando e embrulhando, todo o frio se expande novamente, congelando meu coração em batidas imperceptíveis.

Quando finalmente me forcei a olhar em direção ao silêncio de Emmett, percebo quão inconsciente ele esteve do que aconteceu, toda sua expressão é um ponto de interrogação.

Desvio meu olhar antes que veja da mesma pena que vi nos de sua parceira.

Me viro sem me importar com a falta de educação repentina e subo em direção ao quarto onde me dirijo para a cama e me deito de lado e espero do veredito.

Eu simplesmente paro de ouvi-los, tudo que quero é silêncio, mas dentro desta casa o silêncio não existe, não neste momento, não com os outros tentando argumentar com Sam em algum cômodo da casa. Eu não quero escutar mais, não quero, e se pudesse tornaria meus ouvidos surdos, como sempre tem sido, a minha vontade não é prioridade para o mundo. Edward entra no quarto e começa a falar com Alice e Jasper, finjo que não estou prestando atenção, meus ouvidos captam cada palavra contra a minha vontade.

Ele contou tudo para Samuel Uley, cada detalhe da minha vida até agora, e diz que o lobo talvez tenha começado a digerir tudo, o que é uma resposta boa de acordo com suas palavras.

— Ayira, precisamos que você mostre a ele.

— Por quê?

É como se eu estivesse sonhando, Bella está sentando ao meu lado na cama, seu rosto transmite uma preocupação a escutar negação na minha voz, talvez eu estivesse mesmo presa em um sonho.

— Ele está começando a acreditar, mas palavras não são o suficiente, ele precisa de uma prova real do que você é.

Engulo em seco com a insegurança que cresce no meu peito, meus olhos se desviam dela e fico pensando enquanto minha mão passeia pelo forro de cama.

— E se ele não gostar do que eu sou?

A mão de Bella cobre o lado direito do meu rosto e o vira para ela, há um sorriso melancólico de reconhecimento nos seus lábios, a nostalgia repentina que brilha em seus olhos faz meu coração se acelerar.

— Você sabe, Renesmee me fez a mesma pergunta uma vez... é como no passado, há uma nova descoberta no nosso mundo, um novo desafio, uma nova esperança de aceitação, uma criança querendo ser amada...

Lágrimas queimam nos meus olhos, quase me sinto próxima a Renesmee novamente, como se ela estivesse aqui, para me apoiar e me instruir.

— Queria que ela estivesse aqui... seria tão mais fácil.

O rosto de Bella se contrai.

— Eu também querida, eu também.

Ela me puxa para seu colo para acariciar meu cabelo.

Meu nariz entope e os lábios tremem, fecho meus olhos com força e tomo uma respiração afiada pela boca.

— Ele ainda está aqui?

— Sim — seus dedos fazem cócegas no meu couro cabeludo — está desconfiado demais para sair sem respostas. Eu não sei o que Jacob lhe disse...

— Eu sei que Jacob é o verdadeiro Alfa.

Ela para de acariciar meu cabelo assim que eu faço a confissão, não pode ignorar minhas palavras, levanto meu rosto de seu colo e me sento, sua expressão é cheia de curiosidade, eu tinha que fazer minha parte, tinha que lhe contar a verdade.

— Não posso me mostrar a Samuel Uley, mas não é porque eu não quero, é porque não posso.

— O que você quer dizer Ayira?

— Eu não posso me transformar, não consigo sentir.

— Sentir?

—Eu não sei, talvez seja como aconteceu com Jacob, eu voltei apenas quando ele me forçou.

— Então, isso quer dizer que você só se transformaria com a influência de um Alfa...

— Esse é o problema, Samuel... ele não é um Alfa, não para mim.

— Você não pode obedecê-lo, pois já o faz com Jacob.

— Eu não sei...

— Me desculpe, não quis dizer exatamente dessa forma.

— Teremos que achar outra maneira, Sam não vai acreditar até que você prove o contrário.

Jasper tinha acabado de entrar no quarto.

— Qual maneira?

— Bom, primeiramente, você precisa afrouxar seu bloqueio, não consigo sentir as emoções que tem influenciado essa reação, só sinto o que você quer que eu sinta.

Ele cruzou seus braços, seus olhos imóveis faziam uma ronda silenciosa.

— E eu não consigo ver você, é como antes, um borrão.

Alice vem para o lado da cama e me encara por tanto tempo que parece uma agonia para ela.

— Se eu estou bloqueando vocês, então o mesmo acontece com Edward... como faço parar?

— Eu não sei.

Jasper está tão pensativo e distante, não consigo sentir nada da ligação que estabelecemos um com o outro anteriormente, a sensação é a de perda, isso faz meu rosto se contrair de desgosto.

Preciso me esforçar, eles já fizeram tanto, se arriscaram tanto, tudo o que eu tenho feito é choramingar e me encolher nos meus sentimentos egoístas, não é justo.

— Me levem até ele.

— Você não precisa fazer isso.

Quando me levanto e saio da cama Bella acompanha meu movimento em sincronia.

— Eu quero, preciso tentar.

— Tudo bem... vou estar ao seu lado o tempo todo.

Alice estende sua mão e eu a tomo imediatamente, Jasper saí à frente e o seguimos, descer cada degrau nunca foi tão tenso, com ansiedade cada passo é uma tortura, meus pés descalços sentem a madeira oscilar e gemer, meu coração bate naquele ritmo lento e fraco, sinto o frio na minha cabeça, no meu coração e em todo o meu corpo. Não posso impedir que meu receio se coloque no caminho, não posso controlar como meu instinto se torna alarmante.

Então lá está ele, andando de um lado para o outro, ele para apenas quando ficamos no meio da sala.

— Mostre-se.

Seu comando é como alfinete atingindo o muro de gelo que se constrói ao meu redor, não faz sequer cócegas, eu não posso, não o sinto o suficiente para me mostrar, na verdade, eu não consigo sentir o lobo.

Solto a mão de Alice e vou até Sam, ele fica tenso cada vez que me aproximo e por isso paro a três passos dele, encaro seus olhos negros sem medo, pois preciso ser franca, preciso ser forte e verdadeira para que ele acredite.

— Eu sinto muito, eu não posso me mostrar a você, não consigo.

Seu rosto se contrai numa expressão de impaciência e raiva.

— Isso só prova que toda essa história não passa de uma fábula para acobertar um erro.

Fogo queima em meu estômago e garganta ao escutar a última palavra que sai de seus lábios.

— Eu não sou um erro...

Ele ignora a minha mágoa e se dirige a Carlisle.

— Eu sinto muito por estarmos nessa situação novamente, mas mais uma vez vocês se colocaram nisso, não posso ajudá-los, se eu não vejo, então minha alcateia também não verá. O conselho nunca vai aceitar... vocês só tem duas escolhas, ou se livram dessa coisa, ou vão sofrer as consequências.

— Isso é uma ameaça?

Rosalie parece na beira de um precipício, prestes a se jogar em sua raiva repentina, Emmett se coloca ao seu lado e sua expressão escurece.

— Não, é uma chance.

Com isso ele olha uma última vez para Edward e Bella e se vira, ele vai embora, sem um último olhar sequer para mim. Como se eu fosse nada, como se não existisse.

Eu sabia que sem a proteção da alcateia estaria colocando os Cullen em perigo, sabia que tinha apenas uma oportunidade de mudar isso, e agora que tudo estava perdido não podia imaginar que acabará de colocar uma sentença de morte sobre suas cabeças, da mesma forma que fizeram antes com Renesmee.

Permaneço quieta assim como os outros, o medo fortalece as barreiras que me escondem deles, assim sei o que preciso fazer.

— Nós vamos conseguir convencê-lo, só precisamos de tempo.

— Tempo é uma coisa que não temos quando se trata do pacto Alice, logo os lobos estarão aqui e mais uma vez lutaremos, a minha pergunta é: pelo o que estamos lutando agora?

— Pela vida dela, por Ayira, você não vê quão importante ela é?

— Para você, o que ela significa para o resto de nós?

— Eu achei que você mais do que todos entenderia, ela é uma criança, assim como Renesmee era quando os Volturi vieram atrás dela, e você a defendeu com sua vida, porque agora seria diferente?

— Eu acho que a pergunta aqui deveria ser sobre onde Renesmee está, não acham? E se ela está mesmo em segurança?

Eu não queria isso, não queria colocá-los uns contra os outros, não tinha o direito de fazer isso com eles, eu sou apenas um erro, assim como Sam disse.

— Por favor, não briguem, não por minha causa...

— Ayira tem razão, não é o momento para ficarmos uns contra os outros, nós precisamos contornar um obstáculo, precisamos mostrar que ela é igual a eles, não é como se isso não fosse acontecer novamente, se não vierem os lobos então virão os Volturi, de uma forma ou de outra estamos num mundo que a guerra sempre irá nos perseguir. Sempre haverão pessoas como Renesmee e Ayira, se não os protegermos, quem irá?

As palavras de Carlisle eram honestas e mostravam o quanto ele se importava, mas a única coisa que gritava em meus pensamentos era que eles nunca estariam protegidos, e esse era o momento de eles terem proteção, é meu dever protegê-los, eu tinha uma dívida para com eles.

— Você está pensando em fugir.

Meus olhos se levantam abruptamente, minha tendência é a de sempre olhar para Edward, pois ele é o primeiro a tirar meus pensamentos, no entanto, dessa vez seu olhar está na sua esposa, e Bella me vê, seus olhos possuem tristeza, as palavras ficam sufocadas dentro do meu peito, não consigo contra a sua tristeza.

— Está pensando em se sacrificar para nos proteger não é?

Ela não entende, as complicações estão entranhadas em mim. Aonde quer que eu vá, sempre estarei correndo, e todos aqueles que se aproximarem vão morrer.

Estava tão desesperada, para me sentir pertencer a algum lugar que não pensei no quão perigoso seria, se eu ficasse com os Cullen então os Volturi viriam, mas também estaria colocando os lobos em perigo maior... Caius não perdoaria.

Eu tinha a morte no meu encalço.

Mais uma vez pensei na possibilidade de estar sempre sozinha e correndo, meu coração doía, mas essa parecia ser a única forma de manter todos seguros, e ficar longe do mundo sobrenatural.

— Não pode ir embora, não sem antes lutar.

Os olhos de Jasper se prenderam aos meus, uma força persistente me segurava, como se ele pudesse me fazer sentir toda a sua luta pessoal, os obstáculos, as perdas, todas as dúvidas e as dificuldades de querer pertencer e não saber como... era por isso que me sentia tão ligada a ele e a Alice, eles tinham esse peso para sempre em seus olhos, um peso que só alguém que passou por tormentas infinitas poderia sentir.

Meus lábios tremeram quando tentei falar, os apertei com força e olhei para todos.

A esperança nos olhos de Alice, o encorajamento no de Jasper, a fé nos de Carlisle, o sorriso persistente no de Esme, a confusão nos de Rosalie, a relutância nos olhos de Emmett e o ceticismo nos de Edward.

Quando finalmente olhei para Bella consegui falar, pois só em seus olhos em conseguir o que precisava finalmente.

Coragem

— O quê eu preciso fazer?

Dia atual

— Não pense nisso, se concentre no agora, só assim vai poder continuar.

De repente, a minha aceitação na alcateia não é a minha maior preocupação, os Cullen desenvolvem todo um processo para me ajudar a desbloquear os meus poderes, minha rotina consistia em longas e torturantes horas de treinamento, muita pressão e ensinamentos gerais, tudo com o objetivo de finalmente me destravar, nas palavras de Esme.

Ignorando qualquer um dos meus sentimentos eu olho para Alice e aponto para um tecido leve e cor de rosa, ela sorri divertida e meneia a cabeça enquanto pega um par cinza de aparência rústica.

— O que é?

— Moletom, estamos indo treinar.

O frio na minha barriga é o que me faz ficar calada.

Concentre-se Ayira, apenas continue...

Eu me vesti e os acompanhei para fora da casa, não podíamos ficar muito longe, pois os lobos estavam à espreita em busca de apenas uma oportunidade para atacar, esse perigo constante me deixava alerta o tempo todo, eu sabia que a qualquer momento eles poderiam vir, e estaria pronta para me jogar a frente dos Cullen.

Os primeiros dois dias foram maçantes, eu lutava sempre em agonia, tentando me defender e não machucar Jasper, no entanto, ele não se importava tanto quanto eu, pois me atacava de forma insistente, o que era frustrante e causava um cansaço mental destruidor que me dava apagões repentinos durante a noite, meu corpo se desligava como o de um morto, e eu acordava com aquela presença ansiosa me observando as cinco da manhã.

Os poderes de Jasper pareciam ser os únicos que estavam passando por minhas barreiras, talvez o meu cansaço ajudasse, pois tudo se tratava do sentir.

Depois de uma longa tortura física, Edward me fazia refém por duas horas seguidas, ele me mantinha sentada em uma cadeira de frente a sua e tentava com afinco penetrar em meus pensamentos, era excruciante e doloroso, mesmo que tentasse desvanecer minhas barreiras sentia uma necessidade intensa de me defender do ataque mental de Edward.

Quando já estava totalmente esgotada, o que restava da minha psique era dominada pelos estudos com Carlisle, ele sempre me deixava comer algo enquanto contava histórias, e mesmo que estivesse dolorosamente acabada mental e corporalmente, tudo o que se derramava da voz de Carlisle parecia hipnotizar todo o meu ser, ele era como um encantador usando todo seu conhecimento me entranhar ao mundo.

Ele me ensinava arte, matemática, história e o que ele mais amava e ensinava com paixão: a ciência.

Enquanto cuidávamos do meu conhecimento eu o deixava ganhar um bônus, sabia que desde que me conhecera ele sentia uma pretensão quase infantil e curiosa em descobrir tudo sobre o que eu era e, tudo o que me fazia ser, entre exames físicos e sanguíneos nós dividimos fatos aleatórios sobre nós mesmos.

Havia dificuldade em todo esse processo de reeducação é claro, durante o treino corporal não era apenas eu que tinha cuidado, Jasper sempre parecia ser cuidadoso, afinal, mesmo que eu pudesse projetar uma compleição vampírica, ainda assim possuía carne e ossos que estavam entre humanos e imortais, ainda era fraca de certa forma, quebrável como Emmett dissera durante uma piada. Às vezes acordava e de uma hora para a outra meu corpo entrava em pane, como em certa ocasião quando deitei minha cabeça sobre o balcão enquanto Esme fazia o café da manhã, ainda tinha meu cabelo bagunçado, quando o cheiro da refeição me acordava sentia um peso diferente entre as costas, e me sentia confusa e surpresa ao encontrar uma trança elaborada no lugar do ninho escuro com o qual me levantei.

Alice sorria como uma criança feliz enquanto eu assimilava que Rosalie deixará seu rastro, talvez ela não se sentisse tão hostil quanto eu pensava. Seu parceiro sempre estava ao redor, principalmente nos treinos, suas piadas eram como pedras sendo atiradas toda vez que eu caia depois de um golpe cego, me sentia derrotada ao escutar sua risada divertida, e extremamente miserável em perceber seu olhar convencido, ele não me odiava o suficiente para perder minha surra diária.

De qualquer forma, duas semanas se passaram, eu sentia minha mente cheia e certeira, como se estivesse engolindo tudo de uma vez, no meu corpo músculos se elevavam e meus ossos pareciam mais duros, os hematomas ainda estavam sumindo, mas, meu corpo parecia mais rápido, até meus reflexos já conseguiam repelir os ataques de Jasper.

Junto com as melhorias eu podia sentir-me encaixando ao redor dos Cullen, assim como eles pareciam querer se adequar ao meu redor.

O medo não ia embora é claro, duas semanas de silêncio, era preocupante, não sabia o que definir como o pior, não saber quando seríamos atacados ou não saber nada sobre o paradeiro de Renesmee e Jacob, as visões de Alice ainda eram um borrão, como se minha presença ofuscasse o destino deles, isso era o que me deixava mais ansiosa, podia ver isso se refletindo em Edward e Bella.

No décimo quarto dia, eu acordei sem o peso de sempre sobre meu corpo, cheguei à cozinha antes de Esme terminar o café da manhã e tivemos uma agradável conversa sobre música, ela parecia encantada com a ideia de me ensinar a tocar um instrumento, sua felicidade fazia meu coração se encher de carinho. Quando me dirigi a saída para o treino Alice me acompanhou aos pulos, Jasper e Emmett estavam à minha espera, ambos em posições de soldados prestes a entrar na guerra, quando começamos o aquecimento parecia tudo normal, o mesmo de sempre, no entanto, algo estava fora do lugar, eu sentia isso.

Eu estava mais leve, o frio era constante é claro, mas a calmaria o apaziguava de uma forma equilibrada.

Jasper avançou de surpresa e automaticamente girei meu corpo e desviei de seus braços, assim que fiz o movimento senti que ele voltava, usando seu braço estendido eu me impulsionei e fiquei de cabeça para baixo por um segundo antes de pesar para trás e leva-lo ao chão, como sempre ele não parou, pois assim que me desvencilhei ele já estava tocando minha perna novamente e me imobilizando.

— Seus reflexos estão melhores, assim como a força, mas ainda hesita.

— Desculpa...

— Não se desculpe, faça melhor.

A repreenda me faz encolher, mas me ponho de pé e tomo a iniciativa com o movimento seguinte, nem sequer percebi meu erro quando ele me submeteu em seus braços que se enrolaram como cobras ao redor do meu pescoço.

— Nunca ataque de primeira!

Seu tom é de bronca, quase com raiva, meus olhos queimam com vergonha, eu sabia que não devia ter sido tão rápida, não pensei quando ataquei, só fiz.

— Se fizer algo assim quando estiver lutando contra o inimigo ou tentando proteger alguém, pode ter certeza que vai morrer, assim como que estiver protegendo.

A vergonha estava borbulhando e transformando em impotência, a verdade em suas palavras machucou, quando me soltou para longe sem cuidado cambaleei em meus pés e olhei para Alice que tinha uma expressão franzida de preocupação.

— De novo.

Eu não queria fazer de novo, mas obedeci, quando viramos de frente um para o outro ele fez o movimento, me poupando de cometer outro erro novamente, tentei desviar suas tentativas de me alcançar com os braços, mas ele pescou o tecido do moletom num punhado em sua mão e me jogou para longe, eu caí rolando e perdi o fôlego por um momento antes de me erguer nos braços e respirar freneticamente.

Meus olhos se levantaram e vi a forma como ele me olhava, como se eu estivesse fadada a perder, ele caminhou ao meu redor e me observou de forma analítica, minha fraqueza repentina trouxe um lapso de memória perdida, de uma garota jogada ao chão enquanto sangrava, de uma mulher com olhos frios e parados, fechei meus olhos com força e fiz a lembrança sumir.

— Pense nos seus pais...

— Não.

Tremi quando ele insistiu, seus olhos me maltratando.

— Pense na forma como se sentia fraca e impotente enquanto eles lutavam.

Queria implorar que parasse, queria que não estivesse invocando todas essas lembranças ruins, que me deixasse fechar os olhos para esquecer, meus dedos se curvaram no chão e na terra, meus olhos queimando.

— Eu não...

— Pense em como fracassou em protegê-los, em como sua condição não lhe serviu para fazer algo, como pareceu inútil.

Lágrimas transbordaram quando levantei o rosto para encará-lo, sua expressão fria e impassível não demonstrava nada, ele era apenas pedra fria enquanto me circulava, como se estivesse brincando com a comida.

— Por quê está dizendo isso?

Por que ele estaria fazendo isso comigo, depois de toda a dor que lhes mostrei, depois de mostrar quão ferida estava.

— Pense no que os Volturi vão fazer conosco quando você falhar.

Não...

Senti meu sangue retumbar nos ouvidos, uma presença chamou minha atenção, assim que vi os olhos de Edward senti o empurrão forte e certeiro de sua mente penetrando na minha, invadindo e violando meus pensamentos mais dolorosos, aqueles dos quais o proibi de ver.

Estão me testando... me usando...

À semelhança do momento me atingi como um tapa.

Eu não... sou uma experiência...não sou uma coisa...

O som estoura do meu peito como algo infinito e forte demais para ser controlado, a noção de que eles estiveram me provocando o tempo todo, planejado isso, fez todo o meu sangue esquentar, queimar, o desespero queimava em meu sangue, o medo gritava em meus ouvidos, raiva se derramando em meus ossos como pedras.

E então todo o meu corpo explode em uma nuvem prata, se expandido e crescendo, a visão ficando mais aguda, manchada de sangue, os gritos ecoando em um uivo dolorido.

Assim que o animal surge sinto o peso diferente, o chão parece mais longe da minha visão, o pêlo mais denso nas minhas costas, sinto a força correndo pelo meu sangue que ainda ferve de raiva, meu temperamento prestes a explodir.

Minhas orelhas tremem a cada pequeno movimento e som, inclino meu focinho e o ergo, meus olhos procurando por Edward, o encaro de forma contrariada e fico incomodada com sua expressão leve e satisfeita, ele inclina a cabeça para o lado, me escutando.

Eu não me sinto no controle.

Ele assente, mas então sorri.

— Está o suficiente, confiamos em você.

Meus flancos tremem quando me movimento cautelosa para me virar na direção de Alice e Jasper, eu procuro por ele, sem medo ou vergonha eu procuro por sua justificativa para fazer o que fez, ele mantém o rosto levemente inclinado para baixo, seus olhos não se desviam, ao contrário, eles procuram pelos meus, pedindo desculpas, desculpa verdadeiras, e isso faz meus sentimentos se acalmarem.

— Foi necessário, prometo nunca mais força-la dessa forma.

Eu o encaro por apenas um segundo, mas apenas nesse espaço de tempo consigo fazer com que sua promessa fique marcada, que se torne um vínculo tão forte e inquebrável, deixando claro para ele através do meu olhar que se ele quebrar essa promessa, também estará quebrando meu coração e confiança. Ele não vacila e pela primeira vez deixa uma fagulha de emoção brilhar em seus olhos o suficiente para me garantir que é pra valer, com isso eu assinto uma vez e finalmente mudo minha atenção para Alice, ela tem uma expressão encantadora e animada em seu rosto, seus olhos muito grandes e brilhantes.

— É tão linda.

A palavra aquece o meu coração, sinto a hesitação de Alice e então tomo a iniciativa, trotando até ela, minha aproximação fica mais lenta, fico na sua frente e curvo minha cabeça, meus olhos erguidos para seu rosto, dando permissão, ela sorri tímida quando sua pequena mão se estende na direção do meu focinho, ele toca com cuidado, um toque de pena que sobe até entre minhas orelhas, onde ela faz cócegas nas pontas felpudas.

— É como a neve...

Suas palavras somem quando em fungo no ar, o cheiro me bate com tudo, me afasto instantaneamente, um rosnado feroz borbulhando do peito para fora, o cheiro não é estranho, mas quando o reconheço sinto a ameaça que esteve rondando finalmente penetrar a barreira.

Me coloco à frente dos Cullen e rosno em aviso quando o lobo grande e negro desce através da floresta em nossa direção.

Ele é tão grande, como uma sombra negra infinita, e toda aquele poder que antes esteve enclausurado em sua forma humana e não pode me subjugar finalmente se faz presente, posso sentir a onda de poder lutando para cair sobre a minha forma lupina, com força, exigindo que me curve.

Eu sei mais… pois o frio do meu coração, dá forças ao lobo, eu não vou me curvar, minha vontade permanece, sempre vai permanecer. O frio que permanece no meu coração e do lobo não vai se curvar, porque minha vontade permanece, o meu eu sempre vai permanecer.

Deixo minha mente mais fluida, derrubando as barreiras mais resistentes, quando sinto meu instinto protetor se desvanecer o suficiente o deixo deslizar para minha cabeça.

Diga a ele.

A voz de Edward ressoa entre nós, uma centelha de diversão soando no final.

— A loba foi revelada, agora você vê.

Notas finais
O que estão achando até aqui? Acho que já dá pra perceber que muita coisa vai começar a acontecer pra Ayira. Beijos L.