Luar Puro
17 Escolhida
Notas iniciais
Ainda não consigo entender direito como aconteceu.
Quando Erin me acompanhou da sala de aula até o refeitório eu apenas continuei andando, como se tivéssemos feito um acordo eu seria a perfeita ouvinte para a sua conversa fiada descontrolada, assentindo constantemente para suas peripécias, que para ser sincera na maioria das vezes consistia em um falatório constante, desconexo e nervoso, uma mistura de situações, sentimentos e pensamentos internos aleatórios. Ela era uma criatura estranha, mas também era doce, levemente irônica e tinha um sorriso tímido que externava toda sua insegurança sobre si mesma.
Escutar suas divagações era um balsamo para a confusão que se tornará a minha vida.
Em casa tudo que eu podia fazer era me esquivar, todos os Cullen pareciam achar alguma forma de questionar minha ligação repentina com um dos Quileutes, a pressão por informação era tão sútil que eu me pegava surpresa em identifica-la, entendia o porquê de eles insistirem no assunto, a preocupação que sentiam só reafirmava o fato de ter me tornado um membro definitivo da família, e como responsabilidade deles o normal era ter a atenção e suporte, ou como melhor descrevia Rosalie em seus momentos mais irônicos: eu era uma adolescente em progresso.
Carlisle vinha trabalhando comigo as circunstâncias do meu crescimento repentino, tentando classificar em partes onde eu terminei minha infância e quando comecei minha adolescência, ainda era difícil entender como eu ainda era uma criança no corpo de uma adolescente superdesenvolvida, tinha tantas lacunas a preencher antes de aceitar o peso das próximas experiências que me aguardavam no presente e futuro. Ele tentava reviver minhas primeiras lembranças, mas era tão doloroso que me forçava a repelir tudo, dificultando nossa pesquisa, no fim concluímos que eu tinha me transformado a cada final de ano.
As crianças híbridas cresciam quatro anos a cada um ano de vida humana, então a cada final de ano eu me transformara, completando mais um ciclo de crescimento, o que explicava minha maturidade alcançada no sexto ano de vida, um ano mais cedo que Renesmee.
Após tanto tempo sedo compelida a me insolar na minha mente, me sentia cansada e sobrecarregada e mais tarde, ao me deitar, vinham os pesadelos, onde a dor invadia meus ossos, roubando a minha infância e forçando-me para a maturidade, me empurrando para a tortura que me aguardava com Alec...
Assim que seu nome vem eu me forço a esquecer, bloqueando qualquer tipo de lembrança que servisse de gatilho, estava ficando difícil, todas aquelas novas situações... é quase impossível refrear todas as lembranças, essas que sempre estariam ali para lembrar que o perigo ainda poderia me encontrar. O aviso sempre rondava por meus pensamentos como uma luz cegante, me fazendo lutar com mais força quando Jasper arremetia em minha direção, me fazendo bloquear todos seus golpes, os devolvendo com uma ferocidade necessária, pois ainda sentia meu corpo cheio daquela sensação que dava ênfase ao meu maior problema do momento:
Seth
Já fazia uma semana desde a última vez que o vi na casa de Sam, ele provavelmente estivera me dando espaço, e eu não lhe pedi isso, não era como se estivesse considerando deixa-lo entrar na minha vida e me fazer ter aquela sensação de invasão que sua presença e a do bando exerciam sobre meus pensamentos. Eu tinha deixado claro para Sam o que eu queria quando ele veio para mais uma de nossas sessões no dia seguinte, tinha sido honesta e lhe pedido com educação que se afastasse por um tempo, ao menos até que conseguisse fazer minha cabeça se acostumar com tudo que tinha acontecido. Fiquei surpresa quando ele concordou cordialmente, então me senti encorajada a pedir a segunda coisa, nervosa eu lhe pedi para passar um recado para Seth, disse que precisava que ele se mante-se longe, pois não suportaria ser forçada tão cedo.
— Você sabe que não posso fazer isso.
Não conseguia olhar para o seu rosto, não agora que ele dizia as palavras novamente, a dor nelas refletindo a de outra pessoa, de um amigo.
— Não quero que você o force... só preciso ficar longe, preciso ter certeza que consigo continuar essa vida sem sentir tanto o impacto... disso.
Eu senti dor, o uso da última palavra foi mais difícil do que eu imaginava que seria.
— Você só precisa entender, eu vou explicar como funciona, vou te ensinar tudo que precisa saber.
Já esperava por isso também, eu sabia como ele era dedicado em me explicar e ensinar sobre o lobo e sua historia, sabia que ele faria qualquer coisa ao seu alcance.
— Eu sinto muito Sam, não posso... não agora.
— Então quando?
— Eu não sei... preciso de espaço, preciso ficar longe, preciso que me deixem...
— Você está desistindo?
Sob meu olhar incerto ele estalou.
— Depois de tudo que passou para chegar até aqui, depois de tudo que fizemos você passar... vai apenas se virar e desistir?
— Não sei o que vocês querem de mim.
— A questão sempre foi o que você queria de nós Ayira, e agora você nos têm, por quê está nos rejeitando?
— Eu nunca faria isso!
Meu ânimo estava alterado, e quase gritei na exclamação violenta.
— Foi tão ruim assim? Estar entre nós?
Sua magoa era evidente, me atingiu como um soco no estômago e me senti despedaçar ao escutar o sentimento cru de suas palavras.
— Você precisa entender Sam, eu fui forçada e torturada desde o momento que fui roubada dos meus pais, e sim eu sei que está vida já se foi, e por algum motivo que nunca serei capaz de entender foi me dada uma nova vida de presente, mal posso expressar minha gratidão... mas... não quero me sentir daquela forma de novo, eu preciso me entender, antes de deixar outros invadirem meus pensamentos dessa forma, e você não pode negar quão doloroso foi... não foi ruim porque eu não queria, foi ruim porque eu estou quebrada e se tivesse continuado, provavelmente quebraria vocês também.
Ele assentiu pensativo, seus olhos perdidos em um ponto distante, como se ele não pudesse olhar para mim.
Eu era um animal machucado. Ninguém olhava para animais machucados.
— Só... peça a ele, para me dar tempo.
— Eu posso fazer isso.
— Obrigada.
— Sabe onde me encontrar... quando estiver pronta.
E foi assim que eu vi nossos momentos se dissolverem, a dor da falta preenchendo os vazios dos meus dias, por causa dessa nova solidão que decidi que deveria dar uma chance a Erin, Julian e até mesmo a Silver que tinha uma forma estranha de demostrar interesse.
Sam cumpriu com sua promessa, ele passou o recado, mas eu sabia que Seth não estava sendo tão fiel assim, porque depois de uma semana, eu comecei a sentir esses pequenos momentos, onde o ar parecia preencher meus pulmões com força, deixando meu corpo pesado de novo, me fazendo sentir a terra sob os meus pés.
Ele estava ao redor.
Comecei a ficar mais alerta, sempre olhando ao redor, procurando por sua silhueta, sua sombra ou seu cheiro...
Nada
O que só podia significar que ele estava em sua forma de lobo, rondando, se escondendo longe o suficiente para não ser encontrado por meu olhar, se misturando na paisagem.
Não me sentia violada como antes, não mesmo. Só que também não podia impedir a ansiedade crescente no meu peito, porque me sentia incerta e medrosa, não sabia qual seria minha reação ao ver ele novamente, ainda mais de surpresa.
— Você escutou alguma coisa do que eu disse nos últimos vinte minutos?
Erin tinha um olhar calculado de irritação enquanto mastigava a ponta de uma vagem, meu corpo ficou tenso e pisquei uma vez, mantendo minha respiração presa.
— Sinto muito.
— Tudo bem, era apenas asneira, enfim, se concentre, tenho algo importante para te dizer.
— Estou escutando.
Minha concentração se atenuou, e pude observar mais uma vez com fascínio a sua beleza etérea, os cílios brancos se deitando sobre a pele enquanto ela baixava seu olhar com timidez, seu coração batendo rápido.
Ela respira fundo, soltando o ar no meio de um pequeno riso de nervoso, expondo seus dentes pequenos e pontudos num meio sorriso.
— Bem, já que você tem encontrado todo tipo de desculpas para não entrar em contanto, não que eu esteja reclamando claro! – seus olhos se estreitam evitando qualquer contato com os meus – pensei numa forma mais apelativa pra te conhecer melhor...
— Você quer me conhecer?
A surpresa em minha voz é tão forte que a faz mudar de assunto instantaneamente.
— Eu não sei se você percebeu, mas eu não tenho muitos amigos, o que é um grande motivo para valorizar meu interesse repentino em alguém, porque bem, veja, nós nos conhecemos através de um dos meus vários hábitos de excluída desastrada, você não deveria estar tão surpresa, é uma pessoa bem chamativa, algo que temos em comum, minha mãe sempre diz “você atrai pessoas com quem compartilha certas características”.
— Você parece ser muito ligada a sua mãe, está sempre a citando.
A dor rasteja em meu coração quando exteriorizo o pensamento, só eu sei quão grande é o vazio de não ter uma mãe, então quando a vejo fazer pequenas observações sobre essa estranha e sábia mulher que a criou me sinto distante.
— Eu faço isso?!
Ela parece perturbada, suas sobrancelhas translúcidas subindo quase até a raiz do cabelo claro demais.
— Sim, às vezes.
Na maioria das vezes em que nos falamos, tem se tornado recorrente escutar os monólogos dela, na última semana eu estive colhendo cada informação que se deslizava por seus lábios, nós tínhamos apenas duas aulas juntas, mas ela não tinha problema em encontrar outras situações para estar perto.
— Eu não imagino o porquê disso, nós não somos próximas, minha mãe é tudo que eu abomino, para falar a verdade, ela é como um forte de gelo.
Isso explicava ainda mais sua precisão em estar sempre citando ela, se sua relação com a mãe era tão distante como ela dizia, empurro o tema para longe.
— O que você queria dizer?
— Oh sim, bem, voltando ao assunto, eu tenho um convite para fazer a você.
Isso era novo.
— Um convite?
— Sim, prometo que não vou chama-la para ir à biblioteca novamente, isso pareceu não chamar sua atenção na primeira vez, não estou dizendo que você não seja interessada em livros e bibliotecas, ignore isso, enfim, meu pai quer fazer uma pequena reunião para comemorar mais um ano da minha vida, incrível, meu pai, sempre tão festivo!
Mais um ano de vida... isso significava...
— Você vai dar uma festa, fantasma?
Silver tinha um timing perfeito, a precisão de um leão, ela sempre surgia no meio de algo relacionado à Erin, que obviamente era sua presa favorita.
Ela se sentou ao meu lado, mas dessa vez tinha apenas uma maçã verde consigo, girando-a na mão enquanto olhava para a albina com presunção.
Cor coloriu toda a tela em branco que era o rosto de Erin, ela sugou uma respiração e desviou os olhos, envergonhada demais pela intromissão da recém-chegada.
— Eu ouvi festa?!
Bom, isso era mais novo ainda.
Um Julian agitado se sentou em nossa mesa, depositando sua bandeja como se fosse à coisa mais normal ele se sentar conosco, seu sorriso brilhante nos saldou, ao contrário de Silver, ele não parecia ter problema em ser amistoso com Erin.
Então era essa a situação em que eu não podia entender.
Depois de passar uma semana me esquivando da felicidade contagiante de Julian nas aulas de natação, ou os olhares penetrantes de Silver no corredor, aqui estávamos todos nós, nosso pequeno grupo estranho e deslocado, reunido num momento de descontração social.
Por que essas pessoas estavam tão atraídas a mim?
Observei cada um, cada individuo sentado na mesa, cada uma dessas estranhas e extraordinárias pessoas que me puxaram para suas existências como imãs, apenas um olhar, um sentimento e estava tão atada a eles quanto eles pareciam a mim. Era muita coincidência, que os únicos seres humanos que chamaram minha atenção estivessem agora juntos, como se não houvesse nada de estranho, já que a quase um mês atrás eles sequer deveriam se cumprimentar.
Isso era algo que simplesmente não saia fácil da minha mente, junto com o fato de não acreditar que alguém pudesse querer estar perto da minha escuridão.
— Então, você pretende organizar mais um fiasco de festa?
As unhas de Silver eram longas, pontudas, lixadas com a intenção de ser afiadas, da mesma forma que sua fala, sempre girando, girando até se cravar no ponto desejado. A cor vermelha maçã do amor era apenas mais um afirmação da sua sede de sangue, eu não estava falando de sangue de verdade, nem poderia, os três tinham um cheiro bom demais para eu ficar pensando em comida.
— Do que você está falando?
Meus olhos se desviaram das unhas inquietas de Silver, a voz da albina guinchou na defensiva, seus olhos pareciam selvagens, como se implorassem para que Silver deixasse para lá o que quer que estivesse ameaçando dizer.
— Do desastre que foi sua festa de dez anos, ou você já esqueceu, Erin?!
Eu estava certa. Aquelas duas tinham uma historia, se elas tinham estado uma na vida da outra antes então algo muito ruim tinha acontecido, ruim o suficiente para fazer as duas agirem como completas estranhas... bem, até a minha chegada.
Erin parecia prestes a gritar ou chorar, seu rosto muito vermelho.
— Foi o que pensei – ela desviou seu olhar penetrante na minha direção e sorriu com ironia – Você sabia que eu e Erin nos conhecemos desde a infância?
— Sei agora que você me contou.
Minha intenção era fazer ela se calar, mas o efeito foi o contrário, como se minha implícita advertência só tivesse colocado mais querosene na lenha, alimentando o fogo, a risada desgostosa da garota bonita ressoou pela mesa silenciosa.
— Pois é, uma infelicidade.
A tensão é tão pesada que posso senti-la cortando o espaço entre as duas, o barulho da garrafa de água com gás sendo aberta chama nossa atenção para um Julian sorridente, encosto contra minha cadeira e vejo de escanteio o olhar perdido de Erin, como se ela estivesse envergonhada demais para fazer parte desse circulo de conversa, ao contrário de Silver, que parece irritada com a interrupção do amigo.
— Então, eu estou convidado?
Sua animação verdadeira é como brisa, arrastando a tensão para longe, e logo Erin está desconcertada piscando os olhos sem parar, seu rosto levemente corado, ela parece cautelosa.
— Você quer ir?
Julian tem os olhos risonhos enquanto toma um grande gole de agua, respiro fundo e sinto o cheiro do mar se desprendendo da sua pele, posso quase imaginar ele mergulhando nas aguas profundas de uma das praias da região, apenas pela simples emoção de ter a imensidão da agua ao seu redor.
Ele deve sentir falta de casa...
Ele ri, mostrando seus dentes bem alinhados, provavelmente resultado de anos usando aparelho dentário, seus olhos são carinhosos quando se voltam para a albina, de uma forma estranha e acolhedora sinto afeição pela forma que ele age perto dela.
— Eu só estava brincando Erin, não quis deixar você desconfortável, mas seria legal se você me quisesse lá.
Certo, eu estava mais um pouquinho afeiçoada, esse garoto não podia ser real.
O rosto de Erin relaxa, ela coloca suas mãos juntas sobre a mesa e umedece os lábios.
— Bem... eu tinha apenas algumas pessoas em mente, na verdade, quase nenhuma, você é bem vindo se quiser participar.
— Mesmo?
— Acho que sim.
— Que legal, obrigada Erin – ele sorri brilhantemente para ela, e os lábios finos da albina se retorcem um pouco, mas ela contém a emoção, ele se vira com aquele sorriso em minha direção, seus olhos brilhando – Você quer que eu te dê uma carona?
Sua pergunta faz total sentido, pois ele mora na cidade há mais tempo, conhece Silver e Erin, provavelmente conhece a historia por trás de toda a tensão entre elas, então não seria estranho ele me oferecer uma carona, eu não sabia onde era a casa de Erin mesmo.
Não vejo o motivo da hesitação, então apenas pisco e faço um movimento afirmativo.
— Tudo bem.
Ele imita a minha ação de forma entusiasmada.
— Tudo bem, me passe seu Iphone.
Eu sequer pestanejo, simplesmente deslizo o Iphone pela mesa, dando um leve impulso que o faz deslizar com precisão perfeita e parar do lado da mão de Julian, ele apenas o pega e começa a teclar pela tela.
A sensação de arrepio faz meus olhos se levantarem, sei quando estou sendo observada, e não teria como eu ignorar o peso dos olhares daquelas duas, isso só confirma que eu fiz alguma coisa muito errada, e isso me deixa na defensiva, pois não sei absolutamente o que foi.
Quando o som de notificação soa num aparelho que não é o meu eu finalmente sou iluminada pelo significado da minha ação... eu tinha acabado de passar o meu número para um garoto, não tinha sequer pensado nisso.
Por que isso soava como uma desconsideração para com Erin?
Ah...
Meu rosto cora.
— Que bonitinho... agora vocês dois vão conversar e fazer trancinhas um no outro.
O comentário debochado de Silver só me faz sentir mais envergonhada, procuro os olhos de Erin para pedir desculpas de alguma forma, mas ela está olhando para Julian com uma expressão intrigada, já ele olha com carinho para sua amiga mal humorada, seu sorriso apenas uma linha de lábios espremida.
— Não seja má, você está com inveja porque tenho atitude.
Ela sorri ferina e seus olhos brilharam com o desafio dele.
— Eu poderia fazer isso melhor, veja: Ayira, você me passa seu número?
Isso é tão injusto.
— Eu... acho que sim.
— Tão receptiva...
O sorriso de Silver não foi para mim.
Ela estava totalmente concentrada na albina enquanto pegava um pequeno bloco de notas na bolsa e deslizava ele até o meu lado, tinha até uma caneta fixada, eu procurei me ocupar anotando o número enquanto tentava não me sentir culpada em relação à Erin, porque, bem, não era minha culpa se eu não sabia como agir, ou se Silver e Julian pareciam duas criaturas feitas de persuasão forte o suficiente para confundir meu eu compassivo.
Devolvo o bloco de notas e dessa vez recebo um sorriso, ela parece confiante e satisfeita, quando fala novamente ela sequer se dá o trabalho de olhar para Erin.
— Estaremos lá pelas sete, vai ser na sexta, certo?
— Eu não acho que...
— Você não vai me convidar?
Podia sentir problema rastejando até nossa mesa, será que eu devia fazer algo?
— Você não quer ir de verdade, é só por causa do Julian.
Bem, Erin não precisava de mim para lutar suas batalhas.
— Ou talvez eu esteja tão interessada na novata quanto você.
Há esse tom de insinuação na sua voz, provocando um rubor descontrolado em Erin.
Julian está apenas tão confuso quanto eu, uma cadeira é arrastada com violência, meus ouvidos quase se rasgam com o som repentino, chio por entre os dentes e olho para cima, esperando que alguém vá perguntar o que há de errado comigo.
— Eu tenho que ir, você pode me ligar mais tarde, por favor?
Aliviada que ninguém percebeu meu pequeno descontrole eu suspiro longamente.
— É claro.
A garota vai embora, seus ombros caídos, o seu cheiro borrado com mágoa.
A mesa fica silenciosa por um tempo, e reflito sobre a verdadeira causa da magoa de Erin, se for por minha causa eu tenho todos os argumentos possíveis para reverter isso, nenhum que eu possa falar de verdade, como eu poderia falar para minha nova amiga que eu estive a metade da minha vida presa numa masmorra? Que meu traquejo social era inexistente graças aos vampiros sádicos que estiveram me mantendo em cativeiro?
Ela não podia estar chateada comigo apenas por causa da coisa com o número de celular...
— Bom, conversa produtiva, vejo vocês perdedores na sexta.
Silver vai embora pelo mesmo caminho que a albina, a ideia de que ela está indo atrás de Erin me faz querer levantar e segui-las, pois não acho que a albina aguenta mais provocações por hoje.
— Não se preocupe, Erin sabe se cuidar.
Eu tinha me esquecido que ele ainda estava ali, seus olhos estão analisando minha reação, ele parece mais quieto que o normal, o sorriso apenas uma sombra sob os olhos, sua afirmação não me convence, ainda me sinto protetora em relação à Erin, talvez fosse melhor procurar ela agora ao invés de esperar até a noite para uma ligação.
— Não sabia que você era amigo dela.
— Não sou.
— Como tem tanta certeza então?
Ele tomou mais um gole de sua agua e olhou na direção que as garotas pegaram.
— Eu conheço Silver, sei sobre o histórico delas.
Fico esperando ele continuar, mas não continua, e então se levanta, pega minha mochila e joga sobre um dos ombros enquanto segura a sua própria na outra mão.
— O que está fazendo?
Os gestos de Julian estão cada vez mais confiantes e isso me dá certa desvantagem, pelo fato de ele ser sempre tão agradável principalmente, é como se eu não pudesse ter motivos para repeli-lo.
— Nós temos aula de natação agora, se você quiser saber mais sobre as duas encrenqueiras vai ter que me deixar te ajudar na piscina.
Bom, no final, eu não tinha escapatória tinha?
Ele ia me obrigar a fazer uma coisa que não gostava usando uma que eu gostava: informação.
Eu sou como uma pequena criatura curiosa e sigo-o durante todo o caminho, assistindo ele acenar, sorrir e cumprimentar pessoas aleatórias com gestos secretos, mas ignoro a forma como parecem estupefatos em me ver ao lado dele, porque de uma forma inquietante posso sentir os olhos de cada criança humana sobre mim. Julian é tão feliz em ser ele mesmo que não pode sequer perceber a maneira como os outros me olham e eu fico feliz por ele não perceber, porque se um dia fizer, vai significar que ele também estará olhando da mesma forma.
Quando ele me deixa na porta do vestiário, entrega minha bolsa e dá um daqueles seus sorrisos secretos e brilhantes.
— Não me deixe esperando.
É como se ele quisesse que eu fizesse uma promessa, sua esperança faz meu estômago se retorcer, porque quero manter ele acreditando em mim.
É como ter um pesadelo pela segunda vez, não um pesadelo do tipo ruim, mais daqueles que te colocam numa situação de enorme embaraço, porque sinceramente, eu nunca vou me acostumar em estar tão exposta, a nudez não era minha melhor amiga.
O tecido adere ao meu corpo e deixa todo o ar assaltar a minha pele como um ladrão de pudor, totalmente desconfortável, caminho silenciosamente pela borda da piscina ignorando os olhares das outras garotas, ou o burburinho que elas produzem, encontro o olhar da professora do outro lado da piscina, ela indica com a cabeça o lado que eu devo ficar, o lado raso, seguro.
Eu faço como ela deseja e a observo caminhar até a parte funda onde tem uma rede, alguns alunos já estão divididos em times, jogando vôlei aquático.
Me sentei na borda e deixei minhas pernas se pendurarem até mergulharem na agua, fico lá observando tudo e todos, pensando em como adoraria sentir a pressão da agua, só para esquecer da sensação constante de distância.
— Você não fugiu.
Olho para cima e imediatamente desvio meu olhar quando Julian para ao meu lado vestindo apenas uma sunga, a peça é pequena e adere ao seu corpo, o corpo de um atleta, magro e tonificado. As pontas das minhas orelhas estão quentes, provavelmente tão coradas quanto meu rosto, queria apenas que ele se afastasse, mas para minha mortificação ele se senta ao meu lado, nossas pernas e braços resvalando, tento ignorar o contato de nossas peles, mas ele parece nem perceber enquanto retira a touca, empurrando o cabelo para trás.
— Então, como você quer fazer isso?
Meu rosto se levanta, sinto meus olhos se ampliarem.
— Fazer o quê?
Seus olhos descem até meu rosto e percebo quão perto estamos um do outro, posso até contar as pequenas gotículas de verde em seus olhos.
— A professora disse que não vai deixar você chegar perto da plataforma tão cedo, mas me pediu para testar suas habilidades de nado.
Ah sim, o combinado. Olho para a professora do outro lado, ela está nos observando sem esconder seu olhar avaliador, minhas bochechas formigam e tento esconder o sorriso olhando para baixo, para a agua, onde meus pés fazem movimentos preguiçosos.
— Pensei que ficaria de fora.
— Você não pode, as atividades são avaliativas, você ganha uma nota, você só passa na matéria se seu desempenho for regular.
Oh, eu estava vendo aonde ele queria chegar, aquela pequena insistência não era apenas algo de sua iniciativa, tinha um motivo afinal. Pensar assim me deixa um pouco decepcionada, talvez esteja mal acostumada com a persistência de Erin, e por isso sempre espero que Julian e Silver façam da mesma forma.
— Você não precisa me ajudar.
Soou mais arrogante do que eu esperava, e não foi nenhuma surpresa escutar a risada dele.
— Tá senhorita modéstia, já vi como vai ser...
Ele desliza da borda até estar dentro da agua que bate em sua cintura, seu corpo se vira e fica muito perto, estava tão ocupada tentando desviar meus olhos do seu corpo que nem me dei conta da ação até ele pegar minhas mãos e me puxar para dentro da piscina sem qualquer esforço.
Tonta pelo contato físico eu cambaleio para mais perto dele, a agua fria cobrindo meu corpo até o peito, encaro desnorteada nossas mãos debaixo da agua e então o coração agitado de Julian me faz erguer o rosto e olhar para ele.
Seus olhos estão semicerrados, e mais escuros do que o normal, ele não estava sorrindo, definitivamente não estava sorrindo.
Pigarreio nervosa soltando suas mãos cuidadosamente, me afastando alguns passos dele.
— O que você vai me ensinar?
Ele pisca, seus olhos se estreitando e então limpa a garganta, o que não ajuda muito, pois sua voz sai rouca.
— Hum, que tal você mostrar o que sabe?
— Como assim?
— Você sabia o que estava fazendo naquele dia, seu salto foi como o de um profissional, eu sou bom, mas não naquele nível.
— Eu não sei...
— Olha, eu não entendo o porquê de você não querer falar disso, mas respeito, não vou falar disso se você ao menos mostrar que pode nadar.
Era um bom acordo, fazia sentido, e o fato de ele falar daquele jeito, como se importasse de verdade que eu não quisesse falar, só me fazia confiar cada vez mais, independente do momento estranho que tínhamos acabado de ter.
Eu olhei quieta para ele um tempo e então afundei, deixei meu corpo pesar até estar submersa, meus olhos foram para longe das suas pernas e me inclinei para frente, usando minhas pernas e braços para me movimentar, me afastando de Julian fui em direção à parte funda no meio da piscina e fiquei nadando ao redor, ondulando na agua, deixando a sensação me envolver, afastando o que eu não queria sentir.
Senti a aproximação dele quando comecei a voltar, ele nadava para perto, mais lento do que eu, então tentei fazer o mesmo, meus olhos analisando a forma como ele se esforçava, sabia que a qualquer momento ele poderia submergir em busca de ar, então parei e fiquei lá me movimentando ao redor para manter meu corpo submerso. Ele chegou até onde eu estava e ficou nadando ao redor, sua força se fazendo presente quando a pressão da água ondulava ao meu redor.
Assim debaixo da agua seu cabelo ficava quase totalmente loiro, com fios mais dourados do que castanhos, os olhos mais verdes que nunca. Julian debaixo da agua era sério, sua expressão concentrada e observadora.
Vê-lo assim me fez sorrir, pois ele nunca parecia sério de verdade, então quando senti a risada borbulhar fiz esforço para prender a respiração enquanto nadava para a superfície.
A risada súbita parou quando ele submergiu balançando a cabeça como um cachorro, seu cabelo grudava no rosto e ele tentava focar seu olhar no meu rosto, um sorriso de confusão brilhando em seus olhos.
— Por que você está rindo?
— Nada.
Eu tinha parado de rir, envergonhada pela ação involuntária, ele franziu as sobrancelhas e bufou.
— Isso não foi nada, você estava rindo, estava rindo de mim.
— Eu não... eu não estava rindo de você.
Ele soltou uma gargalhada irônica e atacou, minha boca se abriu em um “O” e segurei a respiração quando ele me pegou pela cintura e fez impulso para me levantar no ar, me jogando em seguida, afundei na agua com os olhos arregalados, um sentimento borbulhante crescendo dentro de mim.
Agitei meus braços pegando impulso e segurei um de seus pés e fiz força para baixo, trazendo ele para o fundo, sua expressão surpresa me deixou satisfeita e lhe dei um sorriso quando ele olhou em minha direção, as bochechas infladas para segurar a respiração, antes que ele pudesse fazer algo eu nadei para longe, submergindo num nado borboleta até a borda onde me ergui e sentei, agua escorrendo em cascata do meu corpo.
Minha respiração estava agitada, mas não era de esforço, era por causa da risada que retorcia em meus lábios, a risada que eu não ia libertar. Eu tinha acabado de brincar na piscina com Julian, tinha nadado com ele e feito algo divertido.
Fiquei observando quando ele veio a tona, seus braços se erguendo para afastar o cabelo, a boca entreaberta puxando ar enquanto o peito subia e descia rápido, ele tinha se cansado, e eu não estava surpresa, afinal, ele era humano.
— Você é uma incógnita Ayira Hale.
Ele estava divertido de novo, mas sua voz era séria, e apesar da frase expressar sua confusão eu sorri, apenas os lábios, um pequeno sorriso.
— Obrigada... eu acho.
Então ele para, e fica apenas lá, respirando difícil e olhando, seus olhos para sempre perdidos nos meus, e tem... essa emoção crescente em todo ele, exalando dos seus poros, envolvendo seu cheiro em algo mais, acentuando ele.
O que é isso?
É algo que eu nunca experimentei antes, algo que não sei traduzir, algo que não sei dar forma ou cheiro, ou cor ou imagem.
Como se fosse...
Então isso se quebra, a professora está chamando Julian e seu olhar se desconecta do meu, ele estreita os olhos e se vira, sem se despedir ele começa a nadar rapidamente em direção à outra borda, se afastando de mim.
Deixando para trás o que acabou de acontecer.
Não vejo motivo para continuar na piscina depois que todos se juntam para assistir o salto do garoto de ouro, a professora está concentrada demais para me ver deslizando para fora da agua, para longe dali, mas Julian percebe, seu rosto quieto daquela forma, observando eu fugir.
Eu não desvio o olhar, não até já estar dentro do vestiário, onde eu tiro o cloro da minha pele com a agua quente, visto minhas roupas e vou para a minha próxima aula, que sequer começou.
Eu assisto o resto das aulas e quando tudo termina entro no meu carro, quase aliviada em poder voltar para casa, voltar para o normal, para os Cullen.
Durante a curta viagem até em casa eu deixo o som ligado e me pego sendo acalmada por uma voz humana em dueto, uma musica... é bom poder escutar musica, é bom ver e escutar Edward tocar por horas, porque é simplesmente magico saber que algo tão bonito pode sair de apenas um toque ligeiro e preciso.
É quase como matar, diferente do que o mundo humano ensina, para nós, matar é como uma dança, como uma musica, como um gesto de carinho.
É elegante, rápido e amoroso.
Sinto o fundo da minha garganta seca, a sensação fantasma do sangue quente descendo por ele me faz ter vontade de parar o carro, descer e rasgar as roupas fora do meu corpo, apenas para explodir no ar e sentir a terra, o vento cantando na minha audição, o cheiro inundando meus pulmões.
Sinto falta de caçar...
Desde que tinha cancelado meus compromissos com Sam não tinha me transformado ou corrido pela floresta, simplesmente abandonei minha forma, estava presa entre a parte humana e a vampira, num meio termo que assegurava minha segurança.
Entrei em casa e fiquei parada no meio da sala ao encontrar Emmett sentado no sofá assistindo a uma partida de jogo qualquer, como se ele realmente estivesse concentrado. Não estava é claro, meus ouvidos atentos captaram apenas a agitação de Esme na cozinha, o que indicava que Bella e Edward estavam na sua casa, e os outros provavelmente caçando, bem, era o que eu achava.
— Eu fui convidada para uma festa.
Anunciei assim mesmo, em alto e bom som, para ele, que estava ali como se a espera de um grande acontecimento, não que isso fosse algo grande, mas bem, era uma distração, melhor do que aquele jogo que ele não estava assistindo. Segurei minha respiração e fiquei esperando Emmett ter uma reação, ele não me decepcionou, se levantou parecendo uma montanha e se virou.
Seus olhos me analisaram dos pés a cabeça, num olhar crítico, como todos os olhares dele eram.
— Parabéns?!
Não era exatamente isso que eu queria ouvir. Pra minha sorte eu tinha uma mãe adotiva entusiasta, então assim que ela estivesse em casa, eu teria o seu auxilio, bem como os conselhos da minha não tão carinhosa tia Rosalie.
Deixei Emmett ficar entretido com seu jogo e fui para a cozinha onde Esme cozinhava alguma coisa deliciosa com carne.
Sentei-me na mesa e comecei a fazer o dever de casa enquanto ela terminava o jantar, ela sabia que eu estava ali, mas só se virou e sorriu quando já tinha terminado tudo no fogão, seu sorriso luminoso me fez parar de responder o dever.
— Como foi seu dia querida?
Meu sorriso foi mínimo, mas mais sincero do que qualquer coisa, porque Esme simplesmente fazia a gente querer sorrir para ela o tempo todo.
— Foi interessante, acho que tenho um grupo de amigos.
— Oh, isso é uma coisa boa não é?
— Suponho que sim, Rosalie vai ficar feliz, dois deles são populares.
— Eu espero que você não esteja fazendo isso por causa dela.
— Ela me deu uma direção, mas essas pessoas... elas me fizeram querer conhece-las, ainda estou tentando.
— Me conte sobre eles.
— A primeira foi Erin, na verdade ela quem veio até mim...
— Ela é uma das populares?
— Ao contrário, ela é a que menos chama a atenção para si mesma, o que é irrelevante, pois falta pigmentação em sua fisionomia.
— Isso é código para o quê? Perdedora?
Emmett se materializou do lado de Esme, ele pega a colher e mexe dentro da panela, levando o conteúdo até a boca e experimentando um caldo grosso e marrom, a cozinheira pega uma espátula avulsa e lhe dá uma palmada de advertência. Eu poderia ter rido quando Emmett chiou de falsa dor e olhou com inocência armada para Esme, mas não deu tempo, estava processando o que ele tinha dito.
— Erin não é uma perdedora.
— O que ela é então?
Ele parecia estar me desafiando, mexendo aquelas sobrancelhas de forma cômica, pressionei meus lábios com força antes de soltar o ar.
— Insegura... é como se ela tivesse medo de confiar nas pessoas, apesar de isso não ter impedido ela de vir atrás de mim.
— Uma perseguidora então.
Uma pontada de irritação me fez olhar para seu rosto, eu tinha razão em reconhecer toda a atitude de Silver, Emmett e Rosalie poderiam muito bem serem os autores de um ser humano tão controverso quanto ela. Era quase como se ela fosse fruto dessas duas pessoas que não sabiam se me amavam ou me odiavam.
— Você fala como Silver.
— Silver?
Esme parece interessada, quando ela pergunta fico feliz em sair do joguinho de Emmett.
— Ela é popular, provavelmente a garota mais bonita de toda a escola, todos sempre estão ao seu redor, sua aparência é tão impecável quanto seu sarcasmo.
— Ela gosta de você?
Olhei para um ponto qualquer e pensei na forma como ela pediu meu número.
— Eu não sei... na maioria das vezes ela me desafia, ou me obriga a dizer coisas que eu normalmente não diria.
— Ela não é a garota mais bonita da escola, o trono foi usurpado.
Parei de bater o lápis contra o caderno e encarei ele.
— O que você quer dizer?
Seus olhos se reviram com força, se ele fosse humano teria resultado em uma tremenda dor de cabeça.
— Às vezes você é bem lenta, não é como se não se visse no espelho todos os dias.
Congelei.
Emmett realmente não me conhecia, ou não se importava em reparar.
Eu não me olhava no espelho, ás vezes em que me postei a frente de um espelho foram estritamente necessárias, nada mais que olhares ligeiros, porque se eu fizesse isso, as lembranças viriam.
Você me lembra da branca de neve...
Empurrei a memória para a escuridão e continuei a encarar Emmett, descrença dando lugar às sombras.
— Você acabou de me elogiar?
Essa era uma coisa estranha e fora da realidade, porque era Emmett, que sempre estava prestes a me atacar ou insultar, não tinha como ele ter acabado de dizer que eu era bonita, talvez eu tivesse caído, batido a cabeça e entrado em um universo alternativo.
— Por favor!
Não foi um pedido, ele estava usando uma expressão comum entre os adolescentes, algo como “me poupe”, quando ele agia dessa forma era meio apavorante, porque sua aparência era de um adolescente entrando na vida adulta, mas na realidade ele possuía algo perto dos cem anos.
Rosalie apareceu no meio da cozinha e analisou o ambiente.
— Qual o motivo da gritaria?
Não havia ninguém gritando obviamente, enquanto Esme deixava um prato a minha frente senti o cheiro de Alice entrar e então ela estava atrás me dando um beijo estalado na bochecha, Jasper estava sentado ao meu lado, seus olhos me saldando com seu silencio reconfortante.
Rosalie deu um beijo absolutamente constrangedor em seu parceiro, o que fez meu rosto pegar fogo, desviei meus olhos e comecei a comer, como se estivesse concentrada na ação em si.
— A modéstia de Ayira decidiu fazer-se presente.
Não ousei responder ao seu sarcasmo, pois minha boca estava cheia e argumentar contra ele era desnecessário, Emmett não ia me deixar em paz tão cedo, sua maior diversão era me atormentar.
— Como foi seu dia querida?
Eu teria respondido se não estivesse ocupada em engolir, então quando olhei para Esme pedindo por ajuda ela sorriu satisfeita em poder ajudar iniciando uma conversa casual e agradável.
— Ayira fez amigos, e foi convidada para uma festa.
Os olhos dourados de Jasper pareceram se acentuar, minhas sobrancelhas se curvaram e saboreei um pedaço de carne.
— Que tipo de festa?
Seu olhar estava totalmente em desacordo com o tom de voz indiferente.
— Não me diga que você vai dar uma de pai rigoroso agora!
Jasper ignorou o comentário ácido de Emmett e continuou me encarando.
— É um aniversario... o aniversário de Erin.
— Oh, a albina.
Sorri.
Não podia controlar, pois seu tom não era nada se não um reconhecimento agradável, ele era a primeira pessoa para quem contei sobre a garota que parecia sempre estar por perto, a que tinha tentado ser minha amiga desde o começo.
— Albina?
Alice parecia verdadeiramente intrigada, baixei o garfo e franzi o cenho.
— É uma longa historia.
Seu sorriso foi tão convencido, como se ela já soubesse através do meu olhar que contaria sobre isso para ela mais tarde, quando tivéssemos um “momento de menina”.
— Eu vejo, então, você vai não é?
E lá estava, o entusiasmo de Alice.
— Nós não deveríamos conversar sobre isso?
Jasper nunca deixava passar as entrelinhas, mas isso me deixou intrigada.
— O que conversaríamos?
— Bem, ela é uma adolescente, sob nossa responsabilidade, tenho certeza que existem regras e parâmetros para este tipo de procedimento social.
Rosalie bufou de forma elegante, se é que isso era possível, seu caminhar foi lento e calculista enquanto vinha até nós.
— Que tédio, você soa como um manual de instrução Jasper, é apenas uma festa, o pior que pode acontecer é eles ficarem bêbados, se envolverem numa orgia ou serem presos...
Seu monólogo empolgado foi interrompido pelo som horrível de engasgo saindo de mim.
Fiquei um bom tempo tentando desobstruir minha garganta, a pancadinha de mármore que Jasper deu em minhas costas não ajudou muito visto que eu estava com a guarda baixo, foram precisos alguns momentos de paciência e um copo cheio de agua, cortesia de Esme, para eu finalmente voltar a respirar, meus olhos lacrimejavam, a garganta ardia e meu cérebro gritava para eu correr.
Eu não ia falar sobre todas aquelas coisas, de jeito nenhum.
— Eu não me referia a tudo isso, mas você se fez clara Rosalie, aposto que Ayira está devidamente advertida sobre as consequências de qualquer ato inconsequente.
— Por favor... não.
Minha voz arranhou com súplica.
— Apenas ignore isso querida, Rosalie só está mexendo com sua cabeça. Não se preocupe, Jasper e eu confiamos em você, temos certeza que nada disso aconteceria.
— Obrigada.
Eu agradeci pela confiança, não pela advertência sobre Rosalie.
— Vocês são tão conservadores.
— Idem.
Rosalie sorriu como um leão prestes a atacar, Alice apenas continuou ao meu lado, acariciando meu cabelo.
— Então, me diga garota, você fez uma boa coleta?
Ah, ela ainda estava com aquele sistema na cabeça, como se fossem gado para separar.
— Eles são pessoas.
— Me diga algo que eu não sei.
Comi mais um pouco, tentando ganhar tempo, mas ela continuava lá parada, me encarando, como se quisesse me deixar desconfortável o suficiente para lhe dar o que queria.
Suspirei cansada e deixei o garfo no prato.
— Eu escolhi eles, os seus preferidos... na verdade, acho que eles me escolheram, eu só segui a corrente.
Rosalie soltou um gritinho feminino e bateu palma para si mesma, fiquei lá assistindo seu pequeno show, Emmett sorria como se a felicidade dela já o fizesse feliz o suficiente.
— Como eles são?
— Persistentes.
Baixei o rosto e deixei ela com seus próprios pensamentos, voltei a comer e fiquei feliz com o silencio que seguiu enquanto terminava minha refeição no meu tempo. Quando termino com o copo de agua me levanto e levo o prato para a pia, Esme se coloca ao meu lado na nossa rotina de “eu lavo e você seca”. Sorrimos uma para a outra.
— Tenho certeza que eles são pessoas agradáveis, são muito sortudos em ter você.
— Ou eu sou por conhecer eles.
— Ambas as alternativas são maravilhosas.
— Oh, nós precisamos comprar um presente!
— Eu me lembro da última vez que decidimos dar presentes a uma humana.
Era para ser uma piada, isso estava em seu rosto, mas no momento em que Alice se contraiu e dirigiu os olhos para seu companheiro eu soube que o tiro saiu pela culatra, pela forma que Jasper ficou quieto eu nem cogitei perguntar o que aquilo significava.
— Eu não tinha pensado nisso.
Minha vontade é de pegar a tensão e joga-la pela janela.
— Bom, é uma festa de aniversario, você não pode simplesmente chegar de mãos abanando.
Rosalie poderia estar sendo indelicada, mas sua indelicadeza se tornou uma distração bem vinda, que distraiu todos da tentativa falha de humor de Emmett.
— Nós precisamos fazer compras!
Oh não.
— Alice tem razão, vocês vão precisar comprar um presente, por que não comprar algo especial para você também?
Esme estava atrás de mim. Seus braços rodearam meus ombros, e relaxei.
— Nós vamos a Seattle, já sei onde podemos comprar o presente.
Ela já está saltitando pela cozinha, não ouso nem cogitar estragar sua animação.
— Eu preciso de um novo par de botas, vou com vocês.
Isso... foi uma indireta.
— Tem mais uma coisa...
— O que foi?
— Um deles vem me buscar no dia, uma carona, de Julian.
Emmett e Jasper de repente me olham de uma forma mais estranha que o normal dos estranhos.
— Eu acho que o lobo vai ter um pouco de competição.
Meu corpo congela sob os braços de Esme, ela sente e se afasta gentilmente, o silencio parece engolir qualquer luz de conversa casual e confortável que houvera, antes que eu possa perceber estou deixando a sala, subindo para o meu quarto, fugindo de qualquer coisa que envolva ele.
Faço minhas coisas no piloto automático, não vejo Bella, Edward ou Carlisle, durmo e acordo no dia seguinte me sentindo alheia a qualquer coisa que me faça pensar no meu mal estar constante, tomo café da manhã, combino um ponto de encontro com Rosalie e Alice e vou para a aula.
O dia é repleto de trabalhos e novos fatos sobre a civilização humana, matemática e os seres escondidos no mar, de uma forma inquietante me vejo procurando por Erin, mas ela não está em nenhum lugar, então lembro que prometi ligar para ela, a sensação de magoa por ter esquecido isso me atinge, e penso que ela está certa em ficar chateada e me evitar. Percebo no final que esquecer da ligação não foi o motivo que fez ela faltar, quando sento no refeitório Silver não está lá, e Julian apenas entra rapidamente, pega uma agua e sai novamente, ele me vê e com um sorriso apressado acena.
Termino meu horário de aula e sinto alivio em poder dirigir para longe, paro na estrada e desço para deixar uma Rosalie controladora assumir a direção, Alice fica no banco do passageiro e eu atrás, fico encarando a tela do meu celular por um tempo, então decido que não há nada a perder.
Não pude ligar, minha família me manteve ocupada pela noite, me desculpe, você está bem?
Respiro fundo, meus dedos inquietos segurando o aparelho, espero qualquer sinal que me indique uma noticia boa.
Tudo bem, eu estivesse com o celular desligado, não teria atendido de qualquer forma. Estou legal, meu pai precisou de ajuda com uma coisa.
Ela não parece estar com raiva, e percebo que seu falatório só se aplica pessoalmente, Erin por mensagem é breve e objetiva, sinto uma pequena pontada de decepção, pois toda aquela falação é tão familiar que parece errado não ser assim o tempo todo. Assim que chegamos em Seattle Alice e Rosalie decidem que vamos comprar o presente primeiro, pois assim sobra tempo para as roupas.
Fico aliviada quando minha mãe adotiva toma essa responsabilidade para si, com minha indecisão e falta de conhecimento sobre as preferencias de Erin fica difícil saber o que comprar, eu a vejo escolher uma maquina fotográfica instantânea de aparência cara, quase me sinto necessidade de protestar ao ver ela passar seu cartão de crédito preto e lustroso na maquininha.
A riqueza dos Cullen é desconcertante, ainda me pego murchando toda vez que dinheiro precisava ser gasto comigo.
— Ela vai adorar, sei que os adolescentes dessa época nasceram digitais, mas não tem quem não resista a uma foto espontânea!
Alice está completamente imersa no papel de mãe, fico olhando para ela em seu comportado corte de cabelo, o vestido liso e elegante e os saltos, tão diferente do seu habitual estilo de elfa. Rosalie perambula de um lado para o outro, ela parece estar procurando alguma coisa, seja o que for, deve ser caro e chamativo.
Depois de cumprido o objetivo principal é que começa a verdadeira tortura.
Nós ficamos empacadas por quase uma hora vendo Rosalie se esbaldar em botas de todos os tipos, couro, camurça, pele de cobra e então altas, baixas, curtas... quando percebo que ela está apenas desfilando e dando ênfase a sua beleza paro de prestar atenção e olho ao redor, porque, mesmo que haja um padrão de semelhança em seus olhos, as pessoas, os seres humanos, parecem perceber que as duas mulheres são impossivelmente bonitas, de uma forma distinta.
Acabo pegando uma das vendedoras me encarando abertamente, quando percebe que eu a vi ela cora profundamente e se vira fingindo arrumar as estantes.
Rosalie acaba comprando dez pares de botas, e ainda me convence a levar dois, segurei as duas sacolas com um sentimento de culpa enquanto via Alice saltitar para dentro de outras lojas, quando estamos na quinta eu respiro fundo e me rendo ao prazer delas, afinal, quanto mais resistência, mais compelidas a persistir elas se sentiam.
Desfilei em vestidos longos e curtos, usei casacos, saltos e joias absurdamente caras, minha expressão sempre franzida, nada em comparação a avaliadora de Rosalie ou as palmas e sorrisos de Alice, mas não posso negar que não é bom, eu me tornei a boneca de Rosalie e ela não parava de escolher coisas que dizia combinar com minha pele, com meus olhos ou cabelo, ajeitando aqui e ali, prendendo colares ao redor do meu pescoço, ou me fazendo girar. Acabei aprendendo que ao ceder não estaria massacrando a minha teimosia e sim me abrindo para um momento especial para dividir com aquelas duas mulheres magnificas.
Depois de mais montes de compras, quando já havíamos decidido que era o suficiente, me peguei parando em frente a uma vitrine de uma loja simples e modesta, algo tinha chamado a minha atenção, algo simples, bonito e... eu.
Não sabia explicar, eu não sou ligada a roupas ou moda, mas alguma coisa sobre aquele vestido, naquele manequim, tinha alguma coisa sobre ele que aquiesceu meu coração. Quando dei por mim já estava sendo empurrada por Alice para dentro da loja, ela fez a dona pegar o vestido para que eu experimentasse.
Eu o vesti com cuidado, com medo de rasga-lo ou descosturar os bonitos bordados.
Era vermelho, rodado, feito de um tecido liso e macio, suas mangas eram um pouco bufantes e o decote reto, eu devia ter adquirido as manias daquelas duas, pois estava pensando como elas quando se tratava de moda, era assustador.
Quando sai do provador parei tímida e deixei elas me olharem, vi o rosto de Alice e fiquei insegura.
— Não gostou?
Ela fez que não com a cabeça e então sorriu, percebi surpresa que sua expressão era algo emocionado, se vampiros chorassem então Alice estaria aos prantos.
— Você está tão linda!
Sorri abertamente e aceitei o elogio sem protestos, dei um pequeno giro experimental e mirei Rosalie com meus olhos, esperando por seu aval, ele tinha seus olhos presos ao vestido, à boca cinzelada e seria.
— Esse vestido está me deixando com fome.
Minha risada saiu sem querer, e coloquei a mão sobre a boca, a loira franziu o cenho e se levantou, recolhendo suas sacolas, Alice estava sorrindo de volta para mim.
Rosalie tinha gostado.
A sexta finalmente chegou e eu vou para a escola com a sensação de ansiedade cada vez mais crescente, quando volto fico agradecida em encontrar Rosalie e Alice no meu quarto, elas me empurram para o banheiro onde eu tomo um banho longo e quente, lavando o cabelo como desculpa só para ficar mais um tempo sozinha com minhas emoções conflituosas. Quando saio Rosalie me põe em uma cadeira e começa a secar meu cabelo com o secador, logo após ela trança metade do meu cabelo em uma tiara que rodeia a cabeça, o restante do cabelo ela modela em ondas com um babyliss, fico tempo demais distraída pensando no nome do aparelho e não percebo que ela acabou maquiando meu rosto.
Sinto o peso da maquiagem e decido que não é algo agradável de todo.
Alice trás meu vestido vermelho com um sorriso enorme, e eu sorrio de volta, pois não me canso de admira-lo, visto ele e então calço os saltos que Rosalie escolheu, eles são fechados na parte da frente e atrás, com apenas uma tira para amarrar no tornozelo, cobertos de camurça preta, Rosalie diz que são chamados de mary jane.
Ela parece satisfeita consigo mesma, mas acabada acrescentando um colar de rubi em gota, que me faz franzir, mesmo assim ela me ignora e desdenha do meu protesto. Fico pronta e relutantemente vou até o espelho, pois Alice tem essa expressão esperançosa, depois de tudo não posso simplesmente negar isso a ela, então paro em frente a ele e corro meus olhos por meu reflexo.
Rosalie fez um trabalho incrível, meu rosto não é nada se não simples, apenas com um pouco de brilho sobre as pálpebras, os cílios se destacando com o rímel, as bochechas coloridas com rosa e a boca delineada com um vermelho leve e sútil.
Eu pareço eu... só que bonita.
Bonita...
— Vamos, todos querem ver você.
Nós descemos e encontramos o resto dos Cullen reunidos no sofá assistindo ao jornal, fico concentrada em Jasper que esteve me observando enquanto descíamos pela escada, seus olhos me avaliando quietamente, antes que qualquer um dos outros possa dizer algo ele está me levando para fora.
— Precisamos conversar.
Ele fez aquela coisa de correr rápido, então me sinto meio desestabilizada com a velocidade quando ficamos parados no deck, não tenho sequer tempo de pensar na conversa que está prestes a acontecer.
— Tenha cuidado ao redor dos humanos, eu sei que você não tem se alimentado com sangue faz algumas semanas, então há qualquer sinal de algo errado, ou se algum deles machuca-la, você me liga e estarei indo te buscar.
Não era isso que eu esperava, mas foi muito mais bem vindo do que o outro assunto, apesar de que agora eu tinha me sentido preocupada em relação ao que ele tinha advertido, mesmo eu tentando esconder com afinco. Ele tinha razão, eu não andava caçando, não desde que interrompera minhas caçadas com Sam, não conseguia fazer isso sem ele, não depois de magoa-lo.
— Estou bem.
Ele apenas me olha mais um pouco, abaixo minha cabeça e brinco com a barra do vestido até escutar a aproximação de um carro estranho: Julian.
— Eu deveria ter tido a verdadeira grande conversa.
Meu rosto cora com essa revelação, mas Alice me salva ao sair da casa com uma linda caixa lilás brilhante com um laço violeta bem feito, ela fica ao lado do companheiro e me entrega a caixa.
— Esme pediu para dizer que você está linda, e Emmett... bem, você sabe, fez a coisa dele!
Eu sorrio agradecida enquanto pego a caixa.
— Obrigada, está lindo.
Eu fico tensa quando a porta do carro bate e passos soam em nossa direção, quando olho Julian está subindo os degraus, ele parece um pouco inseguro, seu sorriso é mais contido e quando me vê ele para por um segundo e sobe mais devagar até chegar até mim.
Aquela expressão inquietante está lá novamente.
Antes que eu possa pensar muito ele se aproxima e me beija no rosto, a ação me pega desprevenida e apenas espero enquanto ele se demora e então se afasta, os olhos nunca se afastando dos meus.
— Você está linda.
— Obrigada.
Fico olhando para ele, sem saber como interpretar seu comportamento, minha mente correndo em busca de algo para dizer quando o silencio se instala, como uma pessoa educada e otimista Julian age primeiro, se virando para Alice e Jasper, um sorriso amistoso contagiando seu rosto.
— Oh, é um prazer conhece-los, eu sou Julian Rodriguez.
Ele estende sua mão e Jasper a pega, assisto chocada a expressão de Julian se franzir, e eu prendo a respiração achando que ele vai perceber a diferença de temperatura do meu pai adotivo, o aperto de mãos dura pouco, a mandíbula de Jasper fica dura e ele projeta o queixo.
— É um prazer, Jasper Hale, está é minha esposa, Alice.
— É bom finalmente dar um rosto a um nome, estávamos ansiosos para conhecer um dos amigos da querida Ayira.
As sobrancelhas de Julian sobem e ele sorri, a expressão de Jasper é quieta demais e sei que ele está analisando Julian, testando suas emoções e as influenciando, provavelmente para distrai-lo do breve momento de estranheza anterior.
— Oh, fico feliz em finalmente me apresentar.
Sugo uma respiração para acalmar meus nervos e me arrependo, todo o cheiro de Julian me invade, mar inundando meus pulmões, Jasper percebe isso e quase como que por instinto faz o mesmo, seus olhos se esgueirando ligeiramente, esse simples sinal me faz ficar alerta, pois sei que ainda é difícil para ele controlar seus instintos, mesmo que estivesse controlando o apetite por sangue humano há tanto tempo.
— Vamos?
— Claro, foi bom conhece-los, prometo trazer Ayira cedo.
— Não se preocupe com isso querido, divirtam-se!
Alice coloca minha bolsa de lado em meu ombro e me afasto com um ultimo olhar de desculpas, deixo Julian abrir a porta para eu entrar, quando ele mesmo entra finalmente respiro novamente, ignorando a explosão familiar do garoto em todo o carro, cada cheiro característico que faz a essência dele está impregnado no ar ao redor.
Olho para fora e vejo Alice acenando euforicamente quando o carro começa a se afastar, aceno de volta e franzo ao ver Jasper ainda mais quieto do que nunca, preocupado.
Durante o caminho deixo meus olhos observarem Julian, ignorando a veia em seu pescoço que parece inquieta e convidativa, engulo em seco e prendo a respiração, evitando respirar fundo demais. Ele parece mais limpo, claro e relaxado, nada do agitado e feliz garoto que vejo todos os dias na escola, apesar de que não para de falar sobre como seu pai anda pegando no pé dele sobre se concentrar mais na sua técnica, ou que eles provavelmente deveriam voltar para a Austrália, e diz que sua mãe é totalmente contra isso, pois acha que o que Julian precisa de verdade é de uma experiência comum como estudante e não uma carreira profissional como nadador.
Ele parece tão a vontade expondo sua rotina familiar, contando tudo abertamente, como se eu não fosse uma pessoa que ele conheceu a menos de um mês.
— Seus pais parecem ser legais, tipo, de verdade, não daquela forma forçada que visa apenas agradar.
— Eles são ótimos.
— É...
Eu percebo o “mas” em suas palavras e observo o olhar perdido dele.
— O que foi?
Julian sorri sem graça e me olha uma vez, como se pedisse permissão.
— Apenas diga.
— Eu não quero te aborrecer nem nada, e só que eu nunca levei essa historia a sério... até hoje, porque veja, cidades pequena são cheias de boatos e fofocas– ele hesita e suas mãos apertam o volante, batucando de leve – É que... não esperava que eles fossem tão jovens.
— Oh.
Então ele tinha escutado as histórias, o que não deveria me surpreender tanto, a família de Julian até podia ser nova em Forks, mas aqui ainda era uma cidade pequena, os Cullen eram reconhecidos ali, principalmente Carlisle que atuou tanto tempo no hospital local, Rosalie tinha comentado uma vez que as pessoas costumavam pensar nele como um médico lindo e jovem com aptidão para adoção. Eu tinha me negado a levar em conta os boatos, mas quando se cresce com o vampirismo ao redor, você tende a achar que a juventude é apenas parte, que não é incomum. Então quando comecei a frequentar a escola finalmente compreendi, porque os humanos nasciam já envelhecendo, morrendo aos poucos a cada dia, até sinais atenuantes como a pele ficar flácida ou os fios grisalhos surgirem.
— Carlisle construiu uma família incrível, acolhendo pessoas que um dia foram rechaçadas pela sociedade, ou estavam perdidas demais para se encontrar, eles serem tão inteligentes e sucedidos foi apenas algo que veio com o tempo, com... eu não sei explicar, eles simplesmente fizeram sua família e cresceram juntos. Entendo os boatos, mas não podem me atingir de qualquer forma, essas coisas deixam de importar quando tudo o que vale a pena é ser acolhido, entre milhares de outras pessoas sofrendo no mundo, o fato de alguém enxergar você...
Eu paro, pois a emoção que toma conta do meu coração é tenra e grandiosa demais, e de repente tudo que eu queria era estar em casa, com os Cullen e poder abraçar cada um deles, sorrir, rir e até mesmo escutar os insultos de Emmett, ou as criticas de Rosalie, mas além de tudo, poder correr com Sam pela floresta, deixar que a minha confiança nele seja a ponte entre mim e o bando.
— Me desculpe, eu não queria fazer nenhuma crítica, ou desacreditar sua família.
Ele está realmente decepcionado consigo mesmo, e eu tento faze-lo parar de pensar nisso, pois não é culpa dele não saber, se eu conseguisse me abrir mais, provavelmente haveria menos dúvidas.
— Você não o fez, eu entendo sua curiosidade.
Sua cabeça encostou e ele me deu um olhar rápido, seus olhos mais claros que o normal.
— Eu não costumo julgar as pessoas por boatos, não sei o que deu em mim.
— Eles são realmente jovens Julian, mas carregam um peso enorme de experiência sobre as costas, esse fato não muda quem eles são.
Ele suspira, e eu me vejo fazendo o mesmo, percebendo que o seu cheiro não está mais me incomodando, encontro seu olhar e aprecio esse novo sorriso em sues lábios.
— Eu sei... você os ama mesmo.
É como abrir os olhos, dar o primeiro passo, tocar na agua, sentir a terra debaixo dos pés, só é.
Simples assim.
— Sim, amo.
As palavras deslizam como uma oração, fazendo todo o meu ser deslizar numa calmaria bem vinda, um sentimento de estar no lugar certo, de realização, aceitação.
Eu tenho uma família, finalmente tenho pelo que lutar.
— Posso fazer uma pergunta?
— Sim.
Sua risada invade o momento novamente, os cantos dos olhos franzindo.
— Bem, isso foi fácil, eu achei que teria que calar a boca e não falar novamente depois de praticamente insultar sua família.
— Não pense dessa forma, não fez nada disso. Apenas pergunte.
Seu aceno foi mais para si mesmo.
— Como foi que eles te adotaram?
Eu havia permitido a pergunta, então não tinha como contornar isso e evitar contar a pequena historia inventada, se eu ia me abrir para ele não queria que fosse daquela forma, mas de que outra forma seria?
— Eu fiquei órfã muito cedo.
Meus pais foram mortos...
— Sinto muito Ayira.
— Estive passando de casa em casa desde sempre.
Fiquei presa em uma masmorra por metade da minha vida...
— Isso é horrível.
— Tinha desistido de tudo, estava cansada.
Eu quis morrer...
— E então eles surgiram, como uma luz no fim do túnel, uma esperança em meio à escuridão.
Eu os encontrei e eles me escolheram...
Eu me sentia um pouco culpada em mentir para Julian, mas não havia forma de eu contar a verdade e não colocar ele em perigo, e talvez, com um pouco de sorte aquilo um dia não voltasse e fizesse nossa amizade desmoronar, porque não tinha como eu construir esse relacionamento a base de mentiras e não perde-lo em algum momento.
Eu esperava mesmo que isso não acontecesse.
Ele pega minha mão e dá um aperto carinhoso, seu sorriso é triste, mas uma tristeza cheia de felicidade contida.
— Fico feliz que eles escolheram você, se isso não tivesse acontecido então eles teriam perdido a oportunidade de ter uma pessoa maravilhosa em suas vidas.
— Você acha?
— Sim, na verdade eu mesmo me sinto extremamente sortudo em ter me mudado pra cá.
— Não sente falta de casa?
— Sinto, às vezes até demais, mas casa é onde estão às pessoas que amamos, eu tenho meus pais, meu esporte, tenho Silver...
Ele não termina a frase, mas seus olhos estão em sua mão, ainda segurando a minha, ele sorri e seu rosto cora, ele solta minha mão e coça a nuca.
— Fico feliz em poder te conhecer Ayira.
— Eu também.
Em momento algum ele fala em ir buscar Silver, então quando estacionamos em frente a uma casa Vitoriana, fico surpresa em ver uma garota bonita e arrumada parada na calçada, olhando para a casa com um olhar penetrante.
Ela devia morar perto e chegado até ali de pé, não havia nenhum carro estacionado além do de Julian.
Silver está linda, vestida com um bonito vestido roxo de camurça, usando meias lisas até os joelhos e calçando coturnos, um casaco pesado de pelos brancos falsos protege seus ombros do tempo úmido, ela tem um monte de colares intricados ao redor do pescoço, com penas, miçangas e pedras naturais. Seu cabelo solto em grandes e esparsos cachos, mas o rosto, bem, há apenas uma pequena linha preta delineando seus olhos e o gloss labial cor de cereja.
Fico parada com a porta do carro aberta, não sei o que pensar, pois essa garota é o totalo oposto da que eu conheço, a sempre impecável e elegante e rígida Silver da escola, nada comparado a essa boemia criatura destemida.
Eu me afasto do carro e fecho a porta, o barulho traz a atenção dela para minha direção, fico parada esperando seu ataque, e não é um olhar ou um insulto que me paralisa, não, é este sorriso intruso e impertinente que invade o rosto dela, um sorriso que diz “eu gosto do que vejo”.
— Você fica bem de vermelho Hale.
Ela era mesmo uma junção de Rosalie e Emmett. E acabou de me dar seu primeiro sorriso de verdade, um que não tem implicação nenhuma por trás.
Julian aparece ao seu lado e levanta ela em um abraço de urso, o sorriso de Silver se abre ainda mais, encantamento iluminando seus olhos, ela fingi ser malvada com o amigo e tenta sufocar ele com seu casaco felpudo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Quando ele a coloca de volta no chão ela arma seu mau humor habitual e começa a caminhar para a porta, vou atrás deles, mas Julian dá uma guinada e volta correndo para o carro, abre a porta de trás e pega um embrulho com estampa de unicórnios, olho para as mãos de Silver e percebo que ela está segurando uma sacola cor de rosa.
— Pacote grande.
É algo sarcástico, como se ela estivesse zombando por eu ter o maior presente entre eles, encolho meus ombros.
— Minha mãe adotiva é uma perfeccionista.
— Violeta é minha cor favorita.
Ela diz isso enquanto toca o laço elaborado, amenizando o seu comentário anterior, fico emocionada com o pequeno detalhe sobre si mesma que ela acabou de revelar para mim.
— Pronto, vamos entrar!
Julian volta interrompendo o momento, seu cabelo cai sobre a testa quando ele para de correr e Silver estende a mão para penteá-lo com os dedos, observo o gesto carinhoso e me pergunto mais uma vez se há mais entre eles do que os olhos podem ver.
Não há qualquer decoração do lado de fora da casa, Silver toca a campainha quase com hesitação, e quando a porta é aberta um homem surge, cabelos e olhos escuros, rosto limpo e cheio de rugas de expressão, pois há um sorriso gentil se abrindo em seus lábios, não há muito traços semelhantes aos de Erin, e penso que talvez ela seja mais parecida com a mãe.
— Oh, olá, vocês devem ser os convidados... Silver?!
Ele vacila em sua recepção acolhedora, seu rosto murchando e então desabrochando em uma expressão emocionada, seus olhos ficam lacrimejantes e ele sorri especialmente para ela.
— Silver meu bem, quanto tempo!
Ele abre os braços e a recebe, o abraço é demorado, Silver parece tensa, mas cede aos poucos, sua voz é um pouco trêmula.
— Faz um tempinho Sr. Donavan.
— Ah, por favor, querida, nós somos família, me chame de Franky, você não tinha problema com isso quando criança.
— Ok.
Eles se afastam e ele ainda segura sua mão, olhando para toda ela.
— Deus... você está tão crescida... e linda!
— Obrigada, Franky.
Ele sorri, beija a mão dela com um carinho fraterno e então nos vê.
— Oh, você deve ser a bela Ayira.
Ele apenas vem e me abraça, fico como pedra, mas o gesto é tão rápido que ele sequer deve ter percebido, pois no momento seguinte está abraçando Julian, que parece bem feliz em devolver o abraço.
— E você deve ser Julian, o garoto de ouro.
— Acho que sou sim, um prazer conhece-lo Sr. Donavan.
— Franky, filho, me chame de Franky, venham, entrem!
Somos levados para dentro, e paramos os três surpresos ao entrar na sala grande e bem arrumada em padrões de azul e rosa em tons pastel, a mesa é enorme, e está cheia de comida, um bolo de três camadas cheio de pequenas velas brancas, cupcakes organizados no formato de um coração e um monte de outros doces bem decorados.
As fitas estavam penduradas entre os vários balões amarrados em todos os cantos, eles cintilavam em rosa e azul bebê, flutuando ao redor, deixando o ambiente agradável e festivo.
Eu adorei, simplesmente achei perfeito.
No entanto, felicidade é passageira e a sensação logo murcha e sinto-me triste quando percebo que talvez sejamos os primeiros convidados a chegar e provavelmente os únicos, o pai de Erin começa a ajeitar uma coisa ali e outra aqui, falando animado sobre como teve um trabalho enorme em achar os artigos nas cores perfeitas, quase como se aquilo fosse comum ele pede para Silver ir chamar Erin no quarto, está parece relutante, mas sorri educada e levanta, o que não é preciso, pois Erin está ao pé da escada.
— Estou aqui papai.
Levanto-me quando a vejo, Erin está completamente perfeita, linda, ela veste um vestido branco com decote coração e uma saia bufante de um tecido mágico e armado, seu cabelo preso em uma trança intricada, o rosto iluminado com tons rosa que fazem seus olhos mais azuis que violeta, ela parece insegura, tímida e insuportavelmente envergonhada e talvez por isso me permito sorrir, porque quero que ela se sinta bem, que perceba que deve se sentir linda, me deixo soltar aquela pequena manifestação de felicidade.
E isso é tudo, porque no momento seguinte um sorriso calmo e lento se abre no rosto de Erin.
O momento está intacto novamente.
Julian invade o momento como uma bola de energia e corre até Erin, pegando ela nos braços e girando no ar, o que eu tenho certeza que não é comum, mas a felicidade dele é o suficiente para os dois e ela está rindo com ele.
— Feliz aniversario Erin!
Silver fica parada apenas observando, então dou um passo hesitante à frente e também a felicito, entregando o presente.
— Parabéns.
Ela sorri olhando em meus olhos e pega a caixa.
— Você veio.
Eu sei apenas por essa frase que estamos bem, que ela não está chateada por eu não ter ligado e que eu estar aqui é tudo que importa agora.
— Sim.
— E nós também, como penetras, mas viemos!
Julian pegou a sacola de Silver e entregou o seu presente junto.
— Vocês querem que eu abra os presentes agora?
Ela pesou as coisas em suas mãos e deu um olhar questionador para o pai, como uma criança que pede permissão para comer a sobremesa antes do jantar.
— É uma quebra de tradição... – o pai de Erin tinha uma expressão séria, que explodiu em um sorriso – Eu gosto desse garoto!
Erin dá de ombros e vai em direção à mesa, colocando os presentes sobre ela.
Faça-a abrir o seu primeiro, assim vai poder usa-lo imediatamente!
Alice tinha razão, documentar esse dia para Erin era importante, respirei fundo e fiquei ao lado dela, seus olhos procuraram meu rosto imediatamente, o cenho franzido.
— Ahn... abra o meu primeiro.
— Por quê?
— Alice... minha mãe adotiva, é um pouco mandona.
— Tudo bem.
Erin parecia intrigada, enquanto desfaz o laço há uma expressão infantil em seu rosto, ela abre a caixa e encontra a câmera, assim como os outros, ela parece esbabacada, tocando o objeto com cuidado.
Essa é a reação prevista claro, por que eu mesma estivera insegura em relação à escolha de Alice, o carro já era uma demonstração gigantesca da condição financeira dos Cullen, minha condição, não deveria me incomodar ter segurança monetária, essas eram palavras de Carlisle. Eu conhecia a riqueza desde sempre, mas ela sempre foi algo insignificante comparado à maioria dos meus problemas, mas... no mundo humano, isso continuava a ser uma grande coisa.
— Me desculpe, minha família é...
— Extravagante, podre de rica, abastada...
Silver não perdia uma, me encolho ainda mais, tenho vontade de desaparecer.
— Tá bom Silver, você já ressaltou a nossa pobreza.
Seu olhar afiado contradizia o sorriso cortês que ela deu ao melhor amigo.
— Você fala como se fizesse parte dessa classe garoto de ouro.
— HÁ HÁ HÁ, muito engraçado primadona.
Julian estava revirando os olhos, mas o sorriso mostrava sua diversão.
— Tinha me esquecido desse humor negro tão querido.
O comentário do Sr. Donavan produz um silêncio cortante entre Erin e Silver, ele não parece perceber que a tensão entre as duas, e então chama todos nós para se sentar e comer enquanto busca alguns refrescos, Erin se senta na ponta da mesa, onde seu bolo está, eu fico a sua direita e Silver a esquerda, não que ela demostre estar feliz estando tão perto, já Julian se acomoda ao meu lado e fico apenas esperando que Silver vá me dar um olhar maldoso. Sem cerimônia Julian começa a cortar um pedaço de torta doce, ele se inclina pela mesa e serve cada uma de nós, quando finalmente coloca um pedaço em seu próprio prato ele quebra o silêncio.
— Conheci os pais de Ayira.
Erin que estava levando o garfo à boca parou no meio do gesto e encarou o garoto com olhos arregalados, ao contrário de Silver, que não tem problema algum em continuar comendo, tédio inundando seu rosto.
— Como eles são?
A curiosidade de Erin se faz presente na sua voz animada, ele deixou a torta de lado e tem toda sua atenção concentrada em Julian, ele me dá um olhar engraçado e então sorri para a albina.
— Acho que o pai dela não foi com minha cara.
Erin fez uma exclamação tão afobada de surpresa que parecia que ia pular da cadeira.
— Como você pode ter certeza?
Julian deu de ombros e eu continuei em silencio, apenas esperando tensa que ele fosse dizer a verdade, sobre o frio, a força... oh não. Mordi meu lábio inferior com força.
— Ele quase quebrou minha mão, o aperto dele é como o de...
Não diga, por favor, não diga...
— Um pai superprotetor que está vendo sua filha sair com um cara estranho.
Libertei meu pobre lábio inferior com um suspiro entrecortado e senti o gosto do meu próprio sangue na língua, meus olhos se prenderam com os de Silver, agradecendo silenciosamente por sua interferência, ela devolveu o olhar e deu de ombros.
— Eu não sou um estranho!
Julian parecia ter problemas, seu rosto estava profundamente corado, ele parece prestes a pular da própria pele.
— Você não pode culpar ele por estar preocupado com sua garotinha perto de um garoto grande e cheio de tesão.
Erin pigarreou forte no meio do silencio constrangido de Julian, ela parecia incomodada com o rumo do assunto, e eu estava aqui o tempo todo apenas escutando o embate entre Silver e Julian, minha tentativa de esconder os segredos enterrados junto com minha voz.
— Vou fingir que você não acabou de dizer isso.
Ele disse isso sem olhar para a amiga, muito ocupado em cortar mais um pedaço de torta, procurei por seus olhos, mas ele desviou o olhar, seu rosto bronzeado estava extremamente corado, como se tivesse pegado sol demais enquanto nadava.
O que estava acontecendo de verdade?
— Feri seus sentimentos?
— Você sabe muito bem o que fez.
— Não sou eu que estou interessada...
— Silver!
Ela levantou as mãos em rendição, mas seu sorriso era de um gato que tinha acabado de pegar o rato.
Cada um ficou em seu próprio silencio e começaram a comer, ficamos assim por um tempo, mas tudo parecia tenso, até eu ver de escanteio um Julian travesso pegar uma colher cheia de glacê de um doce e jogar em Silver, atingindo ela no meio do rosto, rosa se espalhando em seu nariz, chocada ela escancara sua boca.
O barulho de click me faz olhar para Erin que segura à câmera no alto, um sorriso divertido em seus lábios cor de rosa, sorriso que é roubado por um cupcake que atingi o lado direito do seu rosto em cheio sujando-a de azul, fico paralisada, esperando que uma bomba exploda, quando as duas garotas sujas caem na gargalhada me permito sorrir, maravilhada com o momento. O Sr. Donavan volta para a sala com os refrescos e para boquiaberto, sua reprimenda faz as duas pararem e começarem a se limpar.
Eles continuam comendo em silencio, mas posso ver o sorriso secreto do Sr. Donavan enquanto ele alterna o olhar de sua filha para Silver, as duas estão quietas, mas olham de esguelha uma para a outra, como se estivessem prometendo uma revanche.
Ao meu lado Julian está bem feliz consigo mesmo, seus olhos brilhando, olho para seu rosto limpo e sinto um ímpeto repentino.
— Julian...
Meu tom de voz é armado, um tom profundo como se fosse dizer uma coisa muito importante, seu rosto se vira, uma centelha brilhante em seus olhos.
— Oi?
— Tem algo em seu rosto.
Ele toca o próprio rosto e eu balanço a cabeça, um sorriso se abre em meus lábios, ele fica olhando com uma expressão profunda.
— Aqui, deixe-me.
Então deslizo minha mão cheia de cobertura em sua bochecha como que fazendo um breve carinho, ele parece perdido, Silver ri deliciada e então me afasto, os olhos de Julian se arregalam e ele toca o próprio rosto, olhando para os dedos cheios de cobertura de cupcake.
— Traidora...
Erin tira mais fotos, os quadrados deslizando da maquina um atrás do outro, as risadas de todos invadindo cada canto silencioso da grande casa, o Sr. Donavan se levanta e coloca algo para tocar, assim que começa ele faz uma dancinha e vejo a expressão sofrida de Erin.
— Ah não papai, não faça isso, por favor...
Ele ignora a filha e continua, o rosto todo de Erin é uma bandeira vermelha, ela parece extremamente envergonhada.
— Venha querida, é Fleetwood Mac, venha anjinho!
— De jeito nenhum.
Ela cruza os braços emburrada e faz um bico, retorcendo os lábios quando o pai começa a fazer uma dança estranha.
Uma cadeira é arrastada e então uma garota está mexendo os pés e fazendo movimentos com as mãos.
Silver se junta ao Sr. Donavan, sua expressão altiva, como se ela fosse uma rainha dançando em um baile, girando e mexendo os braços, seus olhos desafiando qualquer um a se juntar, ela e o pai de Erin estão fazendo uma coreografia sincronizada, cheia de movimentos engraçados e interpretativos, Julian está rindo, mas se levanta para perto batendo palmas no ritmo, para minha surpresa Erin desliza até o lado do pai e começa a fazer asas no ar.
Julian olha em minha direção e levanta as sobrancelhas num convite claro, fico olhando os outros três com um sentimento de insegurança, a cena é algo incomum, mas há familiaridade, como se eles já tivessem feito aquilo um milhão de vezes.
Ver o sorriso daquelas garotas me fez aceitar a mão estendida de Julian e deixar ele me girar num movimento rápido, quando parei elegante ele sorriu satisfeito.
E eu me lembro...
Você precisa confiar no seu corpo, mas acima de tudo, confiar no seu parceiro...
— Você dança bem!
Eu quase choramingo no meio do próximo giro, pois por um segundo posso sentir as mãos dele sobre mim.
Mas a voz, o toque e a alegria de Julian me puxam de volta e eu bloqueio a lembrança dolorosa, deixo que meu amigo me conduza e gire em círculos, que balance meus braços e pule ao meu redor, deixo o cheiro do cabelo de Silver flutuar ao meu redor, os olhos violeta de Erin sorrirem para mim.
E é aqui, dançando entre eles que eu me sinto mais humana do que jamais senti.
Bem, até o momento em que escuto a porta se abrir, minha audição aprimorada fazendo-me ser a única ciente da mulher que para na sala e observa a cena com uma expressão fria. O rosto é o de Erin, traços delicados e olhos inteligentes, mas o estilo, a forma que veste as cores calmas e cremosas, os saltos, sua postura, é tudo Silver, é assim que percebo, que entendo o porquê de Silver estar vestida diferente. A mulher vai até o aparelho de som e desliga a música, fazendo todos pararem de dançar, Erin murcha, Silver endurece, Julian fica confuso, e eu apenas observo.
O pai de Erin parece não se alterar, mas a luz em seus olhos escurece, ele tenta chegar à esposa e ser receptivo, mas está se afasta num movimento esquivo, seus olhos frios fitam Erin, e então ela diz.
— Eu vou subir, pois preciso de um banho para tirar da minha pele toda a exaustão desse dia, quando eu descer novamente, quero tudo isso limpo... e quero ela fora da minha casa.
A dor e a raiva em sua voz são palpáveis, violentas demais para um rosto que foi feito para ser gentil e amoroso, os sentimentos contraditórios rasgando tudo que é bom.
Tanta dor...
Ela... é Silver.
Quando olho para a garota percebo que sua expressão está tão fria quanto à da mulher, mas nos olhos há um brilho de dor e lágrimas não derramadas, a mulher de gelo se vira e começa a subir as escadas e o Sr. Donavan vai atrás imediatamente, ao mesmo tempo em que Silver sai da casa como um furacão, Julian corre logo atrás. Posso escutar uma conversa chorosa e irritada lá fora, a voz carinhosa e calma de Julian tentando acalma-la e então um carro sendo ligado, se afastando cada vez mais da casa.
Percebo que acabei de presenciar o drama que permeia ao redor da inimizade entre as duas garotas que me chamaram a atenção, as únicas que eu sentia vontade de estar perto, de ser amiga.
Não sei o que fazer, nunca lidei com algo tão mundano e dramático como uma briga familiar.
Quando decido virar para ver Erin percebo a lágrima solitária deslizando por sua bochecha, toda a alegria se foi, ela limpa o rosto rapidamente e começa a recolher as coisas em silencio. Não olha em momento algum para mim. Então acompanho seu silencio, arrumando as coisas, guardando o necessário, limpando o glacê que suja as cadeiras e pratos, e os artigos de festa não usados são guardados num armário.
Erin recolhe seus presentes, eu seguro os balões e fitas e então acompanho ela subindo silenciosamente pela escada.
Nós subimos para o seu quarto, ele é o reflexo das cores tema da festa de aniversário, azul e rosa, com uma estante cheia de livros, a cama transbordando de tantos ursos de pelúcia, e pôsteres de filmes de ficção cientifica o que quebrava a temática de princesa do quarto, porque essa é Erin, uma nerd que vivia no mundo de contos de fadas.
Ela se senta na cama e fica segurando a câmera, então com cuidado a coloca de volt ana caixa e pega o embrulho de Julian, ela o abre de forma desajeitada, quase raivosa, e quando a capa se revela, vejo que é um livro, apesar de não conseguir ler o titulo, pois ela o deixa de lado e encara a sacola rosa de Silver.
Seus olhos perdidos, o peito subindo e descendo depressa, e eu como uma invasora, prendo a respiração, minha ânsia curiosa mantendo meu corpo firme ao chão, esperando e esperando.
Ela pega a sacola, suas mãos se apertando forte e amassando as bordas, ela enfia a mão dentro e pega uma pequena caixa dourada, seu aspecto envelhecido, borrado nas beiradas, desenhos intricados e elaborados serpenteando como cobras, o rosto de Erin se fecha como um punho, os lábios tremem, e como o mar ela se choca contra a arrebentação, o riso se derramando, inundando, afogando tudo pelo caminho.
Ela abre a caixinha, o riso balançando seu corpo, e quando a música toca, as lágrimas caem, a bailarina gira e gira ao som da canção de ninar, e a albina está rindo e chorando.
— Há essa história, sobre dois bebês, praticamente nascidos no mesmo dia, no mesmo lugar, duas crianças, mas uma é forte, brilhante e cheia de cores, enquanto a outra é fraca, silenciosa e... para uma viver, a outra precisou ser colocada ao seu lado... as crianças cresceram juntas, como metade uma da outra, como sangue igual... elas se tornaram melhores amigas... mas... ás vezes, os adultos fazem escolhas ruins, e escolhas ruins podem manchar a inocência.
Sua voz some e volta entre respirações curtas e rápidas, ás lágrimas escorrem em seu rosto como pequenas partículas brilhantes, os lábios tremem assim como as mãos que seguram a pequena e preciosa caixinha de música. Ela a segura como se fosse á coisa mais importante, como se segurasse o próprio coração, e eu finalmente encontro minha voz, pois sei que devo falar.
— O que aconteceu Erin?
Seus olhos não se erguem e ela continua encarando o objeto em suas mãos, a música soa triste e feliz, uma lembrança antiga e uma visão futura, um sinal do que se pode ganhar e do que se pode perder.
— Você deve se lembrar do que ela disse sobre meu aniversário aquele dia na mesa... sabe qual foi a última vez que Silver esteve aqui?
Eu permaneço em silêncio, paciente, esperando o tempo de uma respiração longa e trêmula.
— No meu aniversário de dez anos... tudo com que nós nos preocupávamos era se algum dia iriamos crescer... mas então, chegou a hora dos parabéns, e não encontrávamos nossos pais... nossa caça acabou se tornando uma brincadeira de pega-pega, e nós corremos, rindo, tentando alcançar, até cair uma por cima da outra e abrir a porta do quarto... aquela porta...
De repente tenho medo, medo desse tipo de intimidade, de saber os segredos de Erin quando eu sequer posso ceder os meus, e percebo com o coração apertado que vai ser sempre assim, eles se entregando e eu sempre me escondendo.
— Você não precisa...
— Não, eu preciso, eu preciso sim, porque não posso mais aguentar, não posso mais segurar esse peso, estou cansada... tão cansada... eles estavam abraçados, estavam abraçados como se não conseguissem chegar perto o suficiente um do outro... e não era um abraço de amigos, era um abraço íntimo... – ela para no meio de um sorriso, uma risada amargurada e então um suspiro a procura de força. – eles estavam se beijando, na boca, e eu pensei que estivesse delirando ou tendo um sonho ruim... mas era real e eu não conseguia falar, não conseguia... foi Silver quem gritou, foi como se ela entrasse em choque e o som era tão alto e horrível, ela gritou e gritou e gritou...
Sua voz era apenas um fiapo de dor, e a imagem de uma criança pequena e magra, com um mar revolto de cachos castanhos surgiu na minha mente, seus olhos amedrontados e a boca aberta em um grito mudo para sempre...
Oh não, Silver...
— Eu sinto muito, sinto muito Erin.
— Sabe qual foi a pior parte? Não foi saber que meu pai era gay, ou o dela, não, o pior foi ver minha mãe definhar, ver ela..., fingir que nada disso tinha acontecido, ver ela continuar a vida..., enquanto a família de Silver desmoronava... ela me fez passar por um inferno, humilhou a própria amiga e me proibiu de ver Silver... e sabe o que aconteceu?
Dor...
— Sim.
Eu podia ver, uma mulher alegre se tornando fria e rigorosa, podia ver Silver sendo deixada sozinha, pensando que todos que amava tinham a abandonado, podia ver Erin chorando tendo que viver numa casa de mentira, numa família de mentira, numa vida de mentira.
Eu estive tanto tempo mergulhada na minha própria dor, que agora era difícil entender que outros também podiam sofrer, que os humanos podiam se machucar internamente e não só fisicamente. Talvez fosse esse o verdadeiro motivo para eu ter sido atraída para Erin e Silver, porque elas tinham tantos machucados quanto eu, o que me faz pensar, que toda aquela alegria pura em Julian era real, como uma corda de esperança entre nós quatro.
Eu tinha mais certeza do que nunca, que não ia desistir dessas pessoas e não seriam minhas mentiras ou segredos que me fariam deixar de protegê-los a todo custo.
Estive segurando os balões o tempo todo, e quando minha quebrada amiga finalmente me olhou, um sorriso cansado e divertido surgiu em seu rosto, iluminando, como o céu se abrindo após uma tempestade, era uma coisa engraçada é claro, uma garota perdida cheia de escuridão parada num quarto de princesa, vestida de sangue, segurando um monte de balões azuis e rosas.
Meu riso saiu limpo e claro, como se acalmasse todo meu interior, e eu soltei os balões, os deixando flutuar até tocar o teto, fitas prateadas caindo ao meu redor, meu rosto estava erguido, os olhos perdidos na beleza simples e mundana daquela pequena pintura.
Encantador...
Um click, e eu sei que Erin acabou de capturar esse momento para sempre, ela congelou a caçadora e seu sorriso para sempre, e isso não me incomodou, por que parecia certo.
A campainha lá fora toca, alguém atende, há um burburinho de vozes e então uma pessoa sobe pela escada e bate na porta do quarto.
— Entre.
Erin limpa seu rosto rapidamente e a cabeça do seu pai aparece pela brecha da porta aberta.
— Hey garotas, vejo que trouxeram a festa para cima.
Ele abriu mais a porta e olhou para o teto, seu sorriso não era aberto e tão brilhante quanto antes, este sorriso é contido, como se ele estivesse com medo de sorrir demais, então ele olha para sua filha e fica triste, ele pode ver o caminho que as lágrimas fizeram antes, e ele é pai, sabe quando sua filha está triste.
Erin sorri seu sorriso de menina curiosa expulsando qualquer sinal de tristeza, como se quisesse que seu pai acreditasse que nada de ruim aconteceu de verdade, que não é culpa dele.
— Obrigada por tudo papai, eu adorei.
— Queria ter feito durado mais...
— Foi perfeito.
— Você me dá muito crédito meu anjo.
Ele vai até ela e lhe dá um beijo carinhoso na tez, meus olhos se desviam e fico dolorosamente ciente das coisas que nunca poderia ter, como isso.
— É porque você é o melhor.
— A carruagem da cinderela chegou.
Quando o silencio persiste percebo que ele falou comigo, os dois me olham engraçado e percebo pela primeira vez quão parecidos são.
— Desculpe, o quê?
O Sr. Donavan sorri e faz um sinal indicando a rua lá fora.
— Sua carona voltou para te buscar, ele parece bem envergonhado.
A noção de que eu estava sem carro me bate, e percebo que estivera alheia a minha falta de locomoção desde o momento que ouvirá Julian ir atrás de Silver, sequer tinha passado pela minha cabeça que talvez Julian tivesse me abandonado aqui.
— Oh, sim, muito obrigada por me receber em sua casa Sr. Donavan.
— Me chame de Franky querida.
— Certo, Franky, foi muito bom conhece-lo.
— O prazer foi meu minha querida, espero vê-la mais vezes.
— Ah pai, agora ela não tem desculpas, já sabe o caminho da minha casa e tudo!
Bom, ela não tinha esquecido minha falha de comunicação afinal, lhe dou um olhar de desculpas e ela dá de ombros, seu sorriso se abrindo, os olhos menos tristes.
— Te vejo na escola?
— Sim, vê sim.
Antes que eu feche a porta ela me chama novamente.
— Ayira?
— Sim?
Olho mais uma vez para ela, para toda ela, e mesmo com a maquiagem borrada, os olhos vermelhos e o ar cansado, ela continua linda, como se fosse uma fada.
— Obrigada... por vir, significou muito.
Eu assinto e olho em seus olhos, como se pudesse transmitir o presente que ela me deu ao me convidar, ao persistir, ao não desistir de mim tão facilmente.
— Você está linda Erin, feliz aniversário.
Eu me viro, porque algo iluminou o rosto de Erin, algo profundo e inexplicável, uma coisa que me confundiu, uma coisa que eu já tinha visto no rosto de Julian mais cedo naquela semana e dessa vez não é confusão que sinto, mas sim o medo de uma descoberta que eu não quero pensar sobre tão cedo.
Encontro um envergonhado e cansado garoto me esperando encostado no carro, seu cabelo parece bagunçado, como se ele tivesse passado a mão por ele várias vezes, paro a uma distância segura e fico olhando para ele, esperando que ele possa tirar do peito o que estava provocando aquela expressão, uma expressão que não combinava com Julian.
— Me desculpe, sou um completo idiota.
— Não.
— Sou sim, te larguei aqui e nem...
— Você precisava ir, precisava.
Ele assente com a cabeça baixa e olha tímido, então um sorriso floresce devagar em seus lábios, ele caminha até onde estou e para muito perto, seu dedo escorrega por baixo do meu queixo e lá está àquela expressão inquietante, fico tensa com a possibilidade de estar acontecendo algo, e fico assustada com a possibilidade de ter que machuca-lo para evitar, mas quando ele traz o dedo para frente do meu rosto e mostra o glacê na ponta eu franzo enquanto ele ri brevemente.
— Vem, vou te levar para casa.
Ficamos em silêncio o caminho todo, apenas apreciando a noite, quando ele estaciona na frente da minha casa sinto que preciso fazer perguntas, assim como ele parece querer dar as respostas, mas não prolongo isso e só falo quando finalmente posso olhar para ele de novo.
— Ela está bem?
Ele não se vira, parece desossado, quando eu finalmente faço a pergunta ele respira fundo e então solta sua respiração, os ombros desabando sem inibição.
— Year, está, só... ainda doí...
Não preciso saber mais, assim como ele parece não querer contar agora, afinal, não era um segredo seu para contar.
— Eu sei o suficiente, Erin me disse.
Outro suspiro, dessa vez é alivio e ele me dá um rápido olhar quando se ajeita no banco, ficando reto novamente.
— Bom... isso é bom, me poupa de ter que negar contar um segredo que não é meu.
Quase sorrio quando ele repete meus pensamentos, mas franzo o cenho e falo com sinceridade.
— Eu nunca forçaria você a dizer.
Ele ri.
— Eu sei, você não é disso.
É como se aqueles três já conhecessem muito de mim, quando eu mesma não o fazia, de certa forma, era um alivio.
Então timidamente, eu pergunto, com medo, mas precisando ter certeza de que não há mais para me preocupar.
— Silver... ela gosta de mim?
Sei no momento em que me olha que ele não entendeu o real significado da pergunta e fico feliz por isso, pois a covardia que há dentro de mim grita para que eu pare.
— Acredite, ela gosta, mesmo. Se você acha que essa hostilidade habitual ao seu redor é ruim não imagina como ela é com quem não gosta de verdade.
— Confuso.
Era algo que eu poderia descobrir apenas sozinha, e não estava nem um pouco animada.
— Eu sei, demorei para sacar quando a conheci... é tudo por causa dessa história, ela só..., tem muito medo de amar as pessoas, e então...
— Ser rejeitada.
Fico sem ar, e mais uma vez nessa noite estranha e fantasiosa eu tenho uma realização, só que essa... essa é poderosa e vem do funda da minha alma, do meu coração.
— Sim.
As palavras de Sam, a angústia que tenho sentido e ignorado, o que Seth deve estar sentindo, tendo que espreitar para saber se estou bem, me sinto sufocada por um segundo e percebo que preciso fazer algo, que finalmente posso fazer isso.
Eu tenho que.
— Obrigada por me trazer Julian.
— Espero que seus pais não fiquem com raiva por te trazer tarde.
— Não se preocupe com isso.
— Eles parecem realmente legais, são sortudos por ter encontrado você.
— Eu também.
Me despeço dele e desço do carro, ele acena enquanto se afasta, sumindo na escuridão.
Olho uma vez para a casa silenciosa, uma fachada, por que cada indivíduo lá dentro está ciente do que acontece ao redor o tempo todo.
Pego meu Iphone e mando uma mensagem para Silver.
Gosto de ter você por perto
Não tenho expectativa de resposta, só preciso faze-la saber, então no momento seguinte eu deixo minhas coisas perto da escada, tiro os sapatos, as joias, solto meu cabelo, passo a mão pela boca para tirar o batom e começo a andar em direção a floresta.
Quando chego no limite das terras, deixo aquela força quente e acolhedora deslizar pelo meu ser, como se estivesse expandindo para fora, calor queimando por meu sangue, aquecendo minha pele e gritando...
Livre, livre, livre, livre...
Respiro fundo e deixo todos os cheiros invadirem, até identificar o dele, ele está longe, mas perto o suficiente.
— Seth...
Um nome. Um significado. Um sentimento. Um.
O vento canta em meus ouvidos, uma música de aceitação e um chamado para casa, as árvores parecem dançar, toda a terra vibrando com vida abaixo de meus pés, a água rugindo da mesma forma que meu coração.
E quando ele finalmente aparece, saindo por entre as arvores, eu posso respirar novamente.
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