Luar
1 Capítulo único
Notas iniciais
O manto de tecido escondia o brilho perolado da lua, tão travesso e insistente em esgueirar-se no balançar de cortinas e banhar o que quer que seu clarão tocasse. Vez ou outra, quando a brisa da noite estava a seu favor, conseguia roçar um rosto adormecido, indo e voltando feito pêndulo; no ápice, quando ou lua ou vento extrapolaram em mais uma de suas brincadeiras, aquele semblante sereno se desfez lentamente em um levantar de pálpebras, mostrando olhos arredondados e pouco despertos.
Quando se acostumou à escuridão do quarto, agora ausente do luar – como se o pequeno corpo celeste se fora com suas traquinagens em um pedido de desculpas –, a mulher ergueu o casulo de cobertores e olhou o braço apoiado desleixadamente em sua cintura, sentindo uma respiração tranquila perto de sua nuca. Sorrindo, afagou aquela mão e tirou-a de cima de si.
Levantou-se e foi até a janela, moldura do céu entardecido. A aragem alcançou sua pele, revestida em partes por uma camisola, e se eriçou. Devagar, fechou as folhas de vidro e ajustou as cortinas, redimindo-se com a lua.
Pés desnudos tocaram o tapete macio uma segunda vez e, com vagareza, deslizou sob os cobertores. Encolheu-se para perto da figura bem acomodada à sua frente, espiando lábios corados levemente partidos. Seu olhar percorreu a feição deslumbrante do homem adormecido, e então, timidamente, dedos pequeninos se aproximaram do rosto que tanto amava tocar. Sentiu a quentura daquela pele de alabastro por debaixo da frieza de sua mão e tateou uma bochecha rosada, e os cantos de sua boca se curvaram em um sorriso.
— Durma bem, querido – murmurou e, afagando os cabelos negros do homem, tocou-o pela última vez naquela noite.
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