Lua e constelação
2 Capítulo 1 - As primeiras chamas se acendem
Quarenta graus. Quarenta malditos graus. O suor escorria incessantemente por sua pele, e a malha negra que a vestia grudava e aquecia ainda mais o seu corpo. Os cabelos castanhos estavam presos em um coque, os fios molhados iam de encontro ao seu pescoço. A garrafinha que segurava na mão só continha poucas gotas d’água – em poucos metros, bebera todo o seu conteúdo. Mas não foi o suficiente.
— Quente — murmurava, semicerrando os olhos.
Suas pernas moviam-se sofregamente. Não restavam a Makoto forças para caminhar por conta própria e, por isso, a morena se deixava levar pela corrente de pessoas que seguiam a mesma direção. Todos se movimentavam com a mesma vagarosidade, a maior parte tinha sua energia drenada pelo calor. Sufocante.
Makoto levou a mão à testa, afastando algumas gotas de suor que estavam prestes de cair em seus olhos. A mochila pesada em suas costas retardava ainda mais a sua já lenta velocidade. Pensava com remorso que não deveria ter se esforçado tanto na aula de patinação daquele dia. Mas era perfeccionista. Não queria sair da pista sem ter acertado todos os passos da coreografia. Repetiu as vezes que julgou necessário, tentou ao máximo consertar os seus erros. Havia dado certo, sua apresentação caminhava para o completo sucesso. Porém, estava exausta. Não conseguia nem mesmo se manter de pé.
Voltou os olhos para o céu límpido, parando de andar. O sol brilhante a cegava, mas Makoto insistiu em continuar encarando a vastidão azul acima de sua cabeça. Pensou, com tristeza, nos dias de chuva. Daria de tudo para escutar um trovão, um único trovão. Queria sentir os respingos d’água caírem sobre sua pele, aliviando aquele ardor que dominava seu corpo. Queria que aquela sensação térmica fosse aliviada.
— Quente...
No auge da sua fraqueza, Makoto se percebeu vacilante. Não tinha mais domínio sobre seu corpo exausto e não conseguia nem mesmo ficar em pé. Resolveu parar de lutar contra a fadiga e se deixou ser consumida por ela. Os joelhos fraquejaram e a resistência ruiu. Cerrando os olhos e entrando num estado de semiconsciência, a jovem se permitiu cair. Em sua letargia, porém, não percebeu as duas grandes mãos que a ampararam pelos ombros, impedindo-a de se chocar pesadamente contra o chão.
— Moça? Ei, moça!
A voz suave do desconhecido tentava acordá-la, sem sucesso. Makoto havia desmaiado em cima do jovem que a acudira. Preocupado, o rapaz tomou a morena nos braços e lutou contra a corrente de pessoas que continuava a ir e vir e que pouco se importava com a moça desacordada.
*
Makoto abriu os olhos no momento em que as primeiras gotas d’água gelada tocaram seus lábios e sua língua. Assustada, engasgou-se e começou a tossir compulsivamente.
— Calma, calma. Está tudo bem.
A jovem respirou fundo, tentando recuperar o controle. O acesso de tosse diminuiu a intensidade alguns instantes depois, mas a respiração de Makoto ainda estava acelerada. Ela sentiu uma mão grande em suas costas, confortando-a.
— Você quer mais água?
Ela olhou para o lado, procurando descobrir quem era aquele de voz melodiosa que a ajudava. Deparou-se com um par de olhos verdes que a encarava com preocupação visível.
— Perdão... Eu o conheço?
O rapaz riu. O som da sua risada era absurdamente agradável.
— Não — ele respondeu. — Mas eu também não a conheço, então acho que podemos resolver essa questão. Sou Shiryu.
— Kino Makoto — apresentou-se, com um meneio com a cabeça e meio zonza. — O que aconteceu comigo?
— Você estava desidratada e passou mal na estação de metrô. Acabou desmaiando, mas consegui ampará-la a tempo. Acho que seu destino não seria muito bom se você tivesse caído por lá mesmo.
— E onde estamos?
— Numa lojinha de conveniência dentro do posto de gasolina. Ainda estamos perto da estação, então não se preocupe.
Makoto só então percebeu que ainda não havia analisado o local onde se encontrava. Seus olhos percorreram rapidamente o lugar, e as várias prateleiras com comida ensacada e as geladeiras das bebidas comprovaram que o desconhecido não mentia.
Olhou para si mesma. Estava sentada no chão, as pernas estiradas no piso frio. Os tênis já não mais calçavam seus pé. A grande mochila com seus pertences estava ao seu lado, encostada em uma das geladeiras e intocada. Encarou, por fim, a garrafinha d’água que o rapaz segurava e percebeu que a boca continuava seca.
— Se incomoda? — perguntou, apontando para a garrafa.
Ele sorriu e entregou-lhe a água.
— Nem um pouco. É para você mesmo.
Makoto bebeu-a com voracidade, quase em uma golada só. Só depois de ter sanado a sua sede, a moça se atreveu a analisar melhor o gentil rapaz que havia a ajudado. Ficou desconcertada, ele era lindo! Tinha a pele morena, longos cabelos negros e lisos, e seus olhos eram de um verde bastante escuro. Quando ela teria uma sorte igual novamente? Sentiu as faces corarem e acabou rindo.
— Está tudo bem? — ele perguntou, igualmente sorridente.
— Desculpa — pediu, com os dedos sobre os lábios. — É só que, de repente, a situação me pareceu engraçada.
— Por ter desmaiado pelo calor?
“Por ter sido encontrada por você”, Makoto pensou, com o rosto vermelho. Ficou calada, porém, e se limitou a beber um pouco mais de água. Não saberia responder àquela pergunta.
O celular dele tocou poucos segundos depois.
— Alô? Ah, olá, Saori!
Saori? Por um momento, a alegria de Makoto se dissipou. O sorriso iluminado que estava em sua face desapareceu. Não tentou nem ao menos acreditar que Shiryu falava com uma amiga, ou mesmo com algum parente. As falas seguintes apenas confirmaram a falta de sorte que a guerreira do trovão tinha para encontrar belos rapazes.
— Também estou com saudades suas, minha querida... Se estou livre hoje? Sim, não tenho nenhum plano para a tarde. Claro que posso me encontrar com você! Na mansão, né?
Mansão! E a garota sortuda ainda era rica! Makoto baixou o olhar, voltando a fitar as pernas alvas vestidas pela legue preta. Curiosamente, sentia-se completamente humilhada.
— Até mais tarde então. Abraços — Shiryu desligou o celular. Em seguida, voltou-se para a moça que havia ajudado. — Você está se sentindo melhor?
— Humrum — Makoto respondeu, forçando um sorriso. Alguma coisa a dizia que sua tentativa fora falha. — Estou pronta para outra.
— Tenho um compromisso daqui a alguns minutos, mas não gostaria de deixá-la sem ter a certeza de que realmente está bem.
— Fique despreocupado, Shiryu-San. Já enfrentei coisas bem piores — o que não deixava de ser uma verdade. Os anos de guerreira de Jupiter trouxeram experiências infinitamente mais desagradáveis.
Shiryu sorriu e se levantou, auxiliando Makoto. Ela ficou surpresa ao constatar que ambos não tinham a altura equivalente – o rapaz era alguns centímetros mais alto.
— Você poderia me dar o seu contato? — ele perguntou, educadamente. Era visível que ainda estava preocupado com Makoto. — Só para eu saber mais tarde se está tudo ok.
— Ah, claro — Makoto ergueu a pesada mochila do chão e vasculhou os bolsos. Encontrou alguns dos seus cartões de gourmet e entregou um a Shiryu. — Aí estão o meu telefone, meu e-mail e meu local de trabalho.
— Agora não tem como você fugir de mim.
Makoto prendeu a respiração. Ele não tinha falado aquilo, certo? Contudo, o rapaz pareceu perceber o quão inadequada sua fala foi: seu sorriso prontamente esmoreceu.
— Até logo, Makoto-San — despediu-se formalmente.
— Até.
A morena ainda passou alguns minutos na lojinha de conveniências, enquanto calçava seus tênis. Quando acabou, pisou firmemente e saiu, evitando pensar no gentil rapaz que havia acabado de conhecer.
***
Ele já caminhava há dias. Não sentia sede, não sentia fome, seu corpo não enfraquecia... porém, sua lucidez se perdia no meio do caos que reinava ao seu redor.
Não tinha o direito sequer de desejar a morte. Não no local onde estava, não sendo o Cavaleiro de Fênix. A maldição de renascer das cinzas nunca lhe parecera tão amarga. De que adiantaria sentia a paz reconfortante de não mais existir quando esse momento seria tão efêmero? Voltaria, eventualmente, para aquele lugar.
Já deveria estar acostumado, afinal, crescera naquele inferno. E também deveria aceitar todo sofrimento que estava vivendo ali, uma vez que escolhera voltar. E até hoje se perguntara o que o tinha levado a fazer aquilo, quando conhecera a bondade, a amizade e o respeito de seus companheiros. Tivera, pela primeira vez, uma família. Mas abandonara a todos, e principalmente Saori, que poderia precisar de sua proteção agora que Seiya estava em uma cadeira de rodas.
Mas fora exatamente esse um dos motivos que o fizera partir. Apesar de ser o mais velho, mais forte fisicamente e que julgava ter os sentimentos menos aflorados, Ikki não sabia lidar com a dor. Sangrar, cortar-se, tomar golpes e ser ferido fisicamente era fácil, ele suportava com facilidade, mas sofrer, perder, amar e lembrar eram coisas que ele ainda precisava aprender.
E a dor era grande... muito grande. Ver seu grande amigo, o cavaleiro mais poderoso que já conhecera, se tornar um inválido, fora um martírio. Poderia dizer o mesmo da perda que sofreu com a morte de seus amigos, os cavaleiros de ouro, e de todas as provações pelas quais passaram durante a luta contra Hades.
Voltar foi a melhor opção.
Ou talvez não.
Ikki foi recebido pela a eterna morbidez da Ilha da Rainha da Morte e por...
...Esmeralda.
Bem, a verdade é que já não sabia mais a diferença entre realidade e ilusão; o que não deixava de ser irônico para um cavaleiro que brincava com a mente de seus inimigos. Mas havia alguém controlando seus pensamentos, e que o fazia ver a única mulher que amara perambulando por aquele lugar medonho, onde ela jamais deveria ter pisado com seus pés delicados e angelicais.
Ele fugia dela. Todas as vezes que tomava consciência de que se tratava apenas de uma miragem, de uma projeção fabricada por um ser muito poderoso que ele ainda desconhecia, tentava permanecer lúcido. O que estava se tornando cada vez mais raro. Ikki sabia que sua única salvação era sair daquela Ilha, voltar para perto de seus amigos, mas não conseguia. Todas as vezes que estava prestes a escapar, ele ouvia a voz dela; a doce voz que cantava seu nome como se fosse uma melodia, uma canção de ninar, e perdia completamente o controle, esquecendo-se do que deveria fazer. Ele passava dias e dias correndo atrás de um fantasma, até que novamente recuperava a sanidade e chegava a conclusão de quem era e de sua missão. Era uma punição cíclica. Sobreviveria desta forma até encontrar uma saída. Se é que havia alguma.
Sabia que estava sendo mantido prisioneiro. Alguém queria que ele permanecesse ali. Contudo, não fazia ideia de quantas vezes chegara àquela mesma conclusão e esquecera-se novamente. Era apenas uma questão de tempo para que a voz de sua amada o chamasse novamente em sua mente e o desligasse para qualquer realidade.
Enquanto caminhava, contava cada passo que dava para não deixar sua mente vagar por abismos desconhecidos. Queria controlar seus pensamentos ao máximo, e aquela tarefa mecânica o deixava focado.
Mas não durou muito tempo. Logo seu nome foi chamado. A princípio tentou não dar atenção, pois sabia que estava sozinho e que seria mais uma alucinação. Talvez, com sorte, conseguisse se livrar daquele pesadelo daquela vez.
Contudo, a voz era diferente daquela vez. Era uma mulher, falando de forma suave e imperativa... como uma rainha. Ou uma deusa.
Athena! Era Athena que o chamava, que tentava se comunicar telepaticamente com ele! Por mais que a estivesse ouvindo em seus neurônios, daquela vez era real.
— Ikki... — insistia ela.
Ouvir sua voz era o mesmo que voltar para casa. Quase podia imaginá-la sentada em seu trono, cercada pelos outros, precisando dele para alguma batalha. Pensar em sair daquele inferno e entrar em uma luta por uma causa justa lhe atiçava os instintos. Era exatamente o que precisava para voltar a ser o Ikki de antes. O Cavaleiro de Fênix. Era o que precisava para renascer das cinzas dentro de seu próprio espírito.
— Saori... — ele balbuciou, tanto com seus lábios quanto com sua mente.
A voz saiu gutural, irreconhecível. Já devia fazer meses desde a última vez que falara qualquer coisa. Ao menos ainda se lembrava de como se pronunciavam as palavras. Ainda não tinha se tornado um verdadeiro selvagem.
— Ikki, graças a Deus está vivo. Faz tempo que não sinto seu cosmo... — ela iniciou. — Preciso de você, meu querido cavaleiro. Estamos com um...
Como uma conexão telefônica, a mensagem foi cortada no meio. Tudo que conseguira ouvir foi que Saori precisava dele. Athena o estava convocando para uma nova batalha, mas não teve tempo de lhe explicar nada sobre ela; nem o motivo, nem o inimigo, nem o local.
No lugar da voz cálida e confortante de Saori, outra surgiu. A voz de Esmeralda. A voz de seu maior tormento.
— Ikki, meu amor... volte para mim...
Era o que ela sempre pedia, suplicante. E ele sempre a buscava, no nada. Sempre procurava por sua alma, pois sabia que se ela surgisse para ele, mesmo em espírito, ele a seguiria.
Por um momento pensou ter ouvido a voz de Saori novamente, mas Esmeralda outra vez a sobrepôs, como um grito, o crescendo de uma ópera de horrores.
E Ikki ouviu mais um som, enquanto sua mente buscava Esmeralda... o som da chave de sua prisão invisível se fechando novamente. Já não tinha mais controle de si.
Seus dedos remexiam uma pequena moeda de ouro. Apollo adorava o ouro. Gostava da forma como ele reluzia tal qual o sol que ele comandava. Aquela pequena peça valiosa que dançava em sua mão fazia com que se lembrasse do homem atormentado 'a sua frente. A cor era a mesma também de sua armadura, mas a alma não valia nem um quarto do que tinha nas mãos. Tal qual aquela moeda, Apollo possuía Saga de Gêmeos em suas mãos.
Fora ele que o salvara na batalha contra Hades, quando estupidamente todos os cavaleiros de ouro deram suas vidas por uma causa vazia. Por uma humanidade que não lhe oferecia nada em troca, a não ser sofrimento, guerras, vergonha... Mas Apollo sabia que cada cavaleiro de Athena possuía sua importância; contudo, Saga era especial.
Havia uma dualidade em sua alma, uma inquietude que o tornava a presa perfeita para um plano maligno. Ele nunca sabia para qual lado sua mente pendia mais, se para o bem ou para o mal. Até mesmo naquele momento, quando pensava que já tinha feito uma escolha, o homem ainda duvidava.
Saga andava de um lado para o outro, murmurando palavra para si mesmo, como se Kanon, seu irmão gêmeo, ainda o controlasse, como acontecera na guerra das doze casas, quando Saori foi atingida por uma flecha letal. Contudo, Apollo sabia que se Kanon estivesse ali, perturbando a sanidade de seu irmão, a resposta já teria sido dada, afinal, ele não tinha lá muitos escrúpulos.
— Não tenho a manhã inteira, Saga... Além disso, se continuar andando em círculos desta forma, vai estragar o chão do meu palácio! — sentado em seu trono, parecendo ainda mais imponente, Apollo falou.
— O que me pede não é nada fácil de decidir. Eu já traí Athena vezes demais... Se falhar mais uma vez jamais serei perdoado.
— E quem precisa do perdão de uma deusa morta? — vociferou, levantando-se e empertigando-se como o deus que era.
— Pretende matá-la? Mas me disse que iria convencê-la a acompanhá-lo... — Saga sentia-se confuso.
— Bem, convencer Athena de um Apocalipse é quase impossível. Eu disse que iria tentar, mas não poderia jamais prometer. E é bem verdade que não lhe devo promessas. Se há alguém em débito aqui, é você, cavaleiro de ouro. Eu salvei sua vida.
Saga estava prestes a dizer qualquer coisa. Tencionava enfrentá-lo e afirmar que preferia estar morto a ter que novamente ser o vilão da história, mas foram interrompidos pela porta da bela sala de reuniões do palácio de Apollo, que se abria.
Desta três pessoas surgiram. Dois homens enormes, carecas, usando óculos escuros e terno preto, e uma linda moça, de longos cabelos verde escuros, que parecia estar sendo trazida à força, pela forma como se debatia.
— Me larguem, infelizes! — gritava a jovem, erguida pelos homens. Seus braços eram fortemente apertados por aqueles que a carregavam — Em nome de Serenity, me soltem!
— Ora, ora, mas veja quem está aqui? Seja bem-vinda, Sailor Plutão... espero que esteja gostando de sua estadia... — ironizou Apollo
A moça parou de se debater por alguns instantes, olhando fixamente para o seu "anfitrião". Com a respiração acelerada, falou:
— Está na hora de trocar sua vassalagem, deus Apollo. — ela sorriu, em sarcasmo. — Ah, mas espere... Quem ainda quer servir um deus caído, não é mesmo?.
Furioso, Apollo se aproximou da moça e ele mesmo agarrou seu braço, jogando-a no chão com força, fazendo-a se ajoelhar à sua frente.
— Insolente. Não é assim que se fala com um Deus!
Saga, contudo, aproximou-se da moça e ajudou-a a se levantar.
— É apenas uma garota, Apollo! Não lhe faça mal!
— Eu sei me cuidar, cavaleiro de Gêmeos — ressaltou Setsuna, afastando-se de Saga. Ela repudiava qualquer pessoa presente naquele salão.
— Saga, esta belíssima jovem à sua frente chama-se Setsuna Meiou, a Guerreira de Plutão.
— Uma sailor? — Saga perguntou assustado. Pensava que aquelas mulheres faziam parte de uma lenda, mas se estava mesmo de frente para uma delas, com certeza era muito poderosa. E Apollo queria alguma coisa dela, é claro.
— Sim, meu amigo. E com um poder muito peculiar. Ela pode voltar no tempo. Não é mesmo, minha cara?
— Vejo que está bem desatualizado, "Todo Poderoso" — Setsuna afrontou. — Eu não mexo mais com o tempo, se é de seu interesse saber.
Apollo aproximou-se ainda mais da jovem mulher, colando seus lábios em seu ouvido, pronto para sussurrar-lhe algo. — Certas coisas nunca são esquecidas, querida Setsuna. E tenho certeza que sendo persuadida da forma correta, irá se recordar de seu poder rapidamente.
Setsuna inspirou profundamente, encarando os olhos claros do deus. Ajeitou a postura, mostrando que não deixaria ser vencida por pouco. Não iria servir aos desígnios de Apollo nem que, para isso, precisasse padecer mais uma vez.
— E sabe o que é mais excitante, meu caro Saga de Gêmeos? Que eu proporcionei esse incrível encontro entre você e Setsuna para que possa me ajudar a convencê-la a se unir a nós. — Você quer que eu hipnotize a garota? — Saga indagou horrorizado, arrependido de ter entrado naquela loucura.
— Saga, convença-a. Não tenho tempo a perder!
— Não! Ela não tem nada a ver com isso! O que vai fazer com a moça? — preocupado com aquela garota que tinha acabado de conhecer, ele tentava adiar o inevitável. Sozinho até poderia fugir dali, usando seus poderes, apesar de estar lidando com um deus, mas não teria coragem de deixar a guerreira ali, à mercê da ira de Apollo. Se fugisse, teria de levá-la junto.
— Preciso dela para impedir a morte de um grande amigo. Deve se lembrar dele, Sailor Plutão... chama-se Diamond. Príncipe Diamond...
— Não irei alterar o tempo, Apollo — disse, a voz trêmula. Amargas lembranças da batalha com o Clã Black Moon voltaram à sua cabeça. — Muito menos para trazer os mortos de volta à vida.
Neste momento, totalmente tomado pela ira, Apollo agarra Sailor Plutão, segurando seu pescoço com uma mão, apertando-o com força, começando a deixá-la sem ar.
— Já vi que está cheio de piedade, Saga... então terei que coagi-lo de outra forma. Ou usa sua hipnose com ela, ou eu a mato.
E Saga se viu sem escolha. Por mais que a moça mantivesse uma expressão calma, ele sabia que era apenas uma questão de tempo para que perdesse os sentidos.
— Tudo bem, mas solte-a. — ele pediu, vendo-se vencido.
Assim que Apollo largou Setsuna, jogando-a no chão, um pouco desorientada, Saga a ergueu em seus braços, começando a carregá-la, sem mencionar para onde.
— Para onde irá levá-la? — Apollo indagou sem paciência.
— Vou colocá-la em uma cadeira, com o pingo de dignidade que uma mulher merece. — falou com decisão, colocando a moça sentada, com todo cuidado, tentando não reparar o quanto ela cabia perfeitamente em seus braços ou o quanto parecia bonita quando ele a olhou nos olhos, frente a frente.
Setsuna o encarou. Eximiu-se das palavras, pois sabia que o cavaleiro entenderia perfeitamente o que seus olhos falavam. Em silêncio, dizia que Saga não era obrigado a fazer aquilo e que não havia problema em deixá-la morrer. Seu dever como guerreira era servir unicamente à sua rainha. Deixar Setsuna virar uma mera marionete de Apollo era um castigo pior que a morte, e o cavaleio de Gêmeos sabia disso.
— Perdoe-me, Setsuna... eu... eu... — mas Saga não encontrava explicação para o que estava fazendo. Estava falhando novamente como cavaleiro, como defensor de Athena. Contudo, não podia voltar atrás. Por mais que soubesse que como uma guerreira ela preferiria a morte, ele não poderia suportar testemunhar sua morte.
Portanto, apesar do aperto que sentia no peito por saber que não estava fazendo a coisa certa, especialmente por ter que aplicar um golpe que ele reservava a cavaleiros em uma mulher indefesa e debilitada, foi inevitável:
— SATÃ IMPERIAL!
A partir deste momento, Saga era o mestre da mente de Setsuna. Ela se tornaria sua escrava, se assim ele quisesse. Ou melhor, escrava de Apollo, que era quem comandava tudo. E, de certa forma, enquanto estivessem presos ali, Saga também passava a ser controlado por Apolo. Aquela jovem tornara-se seu ponto fraco dentro daquele palácio, pois precisava protegê-la. Só não sabia como.
Fale com o autor