Lua de Sangue: O Início da Escuridão
2 Eu me apaixonei pelo meu predador
Notas iniciais
O quarto estava envolto em penumbra.
A luz suave que atravessava a janela desenhava o contorno de Alice como uma pintura viva — delicada, quase etérea…, mas com algo pulsando por dentro.
Stefan a segurava com cuidado. Mas não era apenas carinho. Era uma luta silenciosa, contra o próprio instinto de predador.
E então… eles se beijaram. De forma quase possessiva. Primitiva. Inevitável. Aquele momento já não podia mais ser adiado.
Alice correspondeu sem hesitar. Sem medo. Ela já não podia mais fugir do que sentia. O mundo lá fora deixou de existir. Era só calor. Respiração. Proximidade. Até que o ar faltou. Ela se afastou lentamente, ainda próxima demais, os lábios quase tocando os dele.
— Eu… — a voz saiu baixa, falha — eu estava com saudades. Stefan a observou por um momento. Os olhos heterocromáticos — um azul, um verde — preenchidos de algo antigo… perigoso.
A mão dele subiu até o rosto dela com cuidado.
— Eu também.
— Então por que você sempre para? — Alice perguntou.
— Porque quando eu não paro… eu tenho medo de esquecer o que sou.
— E se eu quiser que você esqueça?
Os olhos dele escureceram. Predadores. Mas ele o conteve. — Você confia em mim demais.
— E você confia em si mesmo de menos. A tensão cresceu, e eles retomaram o beijo apaixonado, profundamente acalorado e carnal.
A porta da casa se abriu com força. A madeira bateu contra a parede com um estrondo seco, uma voz masculina, carregada de ironia, ecoou pelo andar:
— Sério… eu realmente espero não estar interrompendo nada importante… Stefan se afastou na mesma hora, tão rápido que seu rosto se transfigurou por um instante. O ar no quarto mudou. De quente e íntimo… para frio e incômodo.
Alice sentiu o corpo arrepiar antes mesmo de entender.
— Quem é? — ela perguntou, ainda sem fôlego. Stefan não respondeu de imediato. Os olhos fixos na porta. A expressão endurecendo. — Problema. E então… ele apareceu.
Dean. Como se a escuridão tivesse decidido tomar forma. Alto. Imponente.
Cada passo impelido de uma confiança perigosa. Seus cabelos levemente longos, em tom amendoado, caíam com um descuido calculado.
A barba rala desenhava o rosto com um charme cruel, enquanto o maxilar forte e o pequeno sulco no queixo só tornavam sua presença ainda mais marcante.
Mas aqueles olhos...
Verdes profundamente hipnóticos e famintos. Eles passaram por Stefan… E pararam em Alice. Um sorriso torto surgiu em seus lábios. Alice sentiu o estômago revirar. Dean inclinou levemente a cabeça, analisando-a como um predador avalia sua presa.
— Tenho que admitir, irmão… essa aqui tem ganas de viver, e é de uma beleza atemporal, e seu cheiro hummmmm.
O maxilar de Stefan travou. — Não. Falou baixo, mas cheio de ameaça.
Dean deu mais um passo. Sem pressa. Provocando.
— Relaxa… eu não vim estragar nada. Uma pausa. O sorriso dele aumentou. — Ainda. O ar pareceu mais pesado. Mais denso. Mais sufocante.
— O que você quer, Dean? — Stefan perguntou, a voz controlada por um fio.
Dean fingiu pensar. Olhou ao redor. Um pouco entediado.
— Vim só ver se você já tinha perdido o controle. Ninguém ousou respirar. Os olhos de Stefan escureceram. Alice olhou de um para o outro, sem entender — mas sentindo tudo.
— Vai embora — Stefan disse. Dean riu zombeteiro.
— Engraçado… — ele murmurou — você sempre diz isso…, mas nunca é rápido o suficiente pra impedir o que vem depois. As palavras ficaram no ar pesando o clima e deixando algo não dito no ar.
Dean se aproximou mais um passo. Agora perto demais.
O suficiente pra que Alice sentisse o ar gélido que emanava dele.
— Me diz uma coisa… — ele continuou olhando diretamente para Stefan — quanto tempo até você provar de novo?
Stefan não respondeu. Mas seus olhos negros e as pequenas veias negras da espessura do fio de cabelo… responderam por ele. O sorriso de Dean se alargou. Satisfeito. — Foi o que eu pensei.
Ele deu um passo para trás. Afinal, já conseguira o que queria. — Aproveita… enquanto dá.
E então— Ele desapareceu. Um borrão. Um sopro de escuridão. O vazio que ficou…Era pior. Muito pior. Stefan permaneceu imóvel. O maxilar travado. A respiração pesada. Por um instante, parecia que o tempo havia parado.
Ele fechou os olhos. Meio que tentando se agarrar ao presente. Mas já era tarde.
Quando Stefan abriu os olhos novamente… Ele não estava mais ali.
Não naquele quarto. Não naquele momento. O presente havia desaparecido. E, em seu lugar— Veio o passado. Como um golpe.
Brutal e inevitável.
Dois anos antes…
O salão da família Salvatore brilhava sob a luz de dezenas de candelabros.
A música ecoava suave. Valsa. Elegância. E Alice… brilhava.
Ao lado dela estava Sean Donovan. Seu prometido. E era impossível não notá-lo.
Sean não possuía a beleza arrebatadora dos homens que roubavam o ar à primeira vista… nem o magnetismo perigoso daqueles feitos de sombras.
O que ele tinha… era mais raro. Mais verdadeiro. Presença. Alto, de postura naturalmente nobre, carregava em si a elegância de quem foi criado sob disciplina e honra. Seu corpo era firme e bem definido — mas pela rotina de alguém acostumado ao dever, ao trabalho, à proteção.
Os ombros largos sustentavam uma postura segura, enquanto suas mãos — agora firmes na cintura de Alice — conduziam a dança com precisão e cuidado, assim cada movimento dela importava.
Seus cabelos castanho-claros caíam levemente desalinhados sobre a testa, num contraste perfeito entre o homem correto que era… e a juventude que ainda carregava. O rosto de traços bem marcados — maxilar firme, nariz reto — ganhava suavidade no sorriso. Um sorriso fácil. Sincero.
Daqueles que não seduzem… acolhem.
Porém eram os olhos… Que realmente o definiam. De um tom quente e penetrante, eles carregavam algo raro naquele mundo: Bondade. Não ingenuidade.
Não fraqueza. Mas uma bondade consciente. Escolhida. Sean era o tipo de homem que conhecia o peso do mundo… e ainda assim escolhia ser luz dentro dele.
E isso se via na forma como ele olhava para Alice. Como alguém não apenas bela. Mas preciosa. algo que ele protegeria… se fosse preciso. Havia amor ali. Amor claro, forte e sincero de ambas as partes, e havia também… contenção. Porque Sean a amava. Mas a respeitava ainda mais. Ele não queria apenas tê-la.
Queria merecê-la. E naquela noite— Enquanto a conduzia pela dança— Ele a olhava como quem já havia feito sua escolha: Ela seria sua esposa.
Mas no tempo certo. Da forma certa. Mesmo que isso lhe custasse… cada segundo de espera.
A música os envolvia como um sussurro. A valsa os guiava.
E, por alguns instantes… o mundo parecia perfeito.
Sean conduzia cada passo com precisão, mas sem rigidez — havia leveza em seus movimentos, como se dançar com ela fosse mais natural do que respirar.
Alice girou sob o comando dele, o vestido acompanhando o movimento como um sopro de seda.
Ao retornar para perto, aproximou-se o suficiente para que suas palavras fossem apenas um segredo entre os dois.
— Confesso, senhor Donovan… — murmurou, contendo um sorriso — que há nesta distinta assembleia uniões… no mínimo curiosas.
Sean arqueou levemente a sobrancelha, divertindo-se. — Curiosas, dizeis?
Ela inclinou discretamente o rosto, indicando com o olhar.
— Aquele cavalheiro ali… — sussurrou — aparenta já ter cumprido três gerações… e ainda assim dança com uma jovem que mal deixou a infância. Esse era seu jogo mostrar a Sean as discrepâncias entre os casais para tentar influencia-lo quanto ao próprio casamento.
Sean acompanhou o olhar por um breve instante. Um sorriso discreto surgiu em seus lábios. — Um feito notável… ainda que questionável.
Alice segurou o riso.
— E aquela dama? — ele retrucou, entrando no jogo — parece ter escolhido o par por seus cofres… e não por seus traços.
Alice levou a mão aos lábios, fingindo escândalo. — Senhor! Que observação mais cruel!
— Apenas honesta. — Então concordais que há… certas injustiças neste salão?
Sean a puxou suavemente para mais perto durante o giro. — Inúmeras.
Seus olhos encontraram os dela. — Como homens indignos ao lado de damas deslumbrantes. Alice inclinou o rosto, provocativa.
— Ou jovens cavalheiros encantadores… presos a infantas impacientes? O canto da boca dele se ergueu.
— Talvez. Ela tentou manter a pose, mas, falhou miseravelmente, E então— Eles riram. Juntos. Leves. Livres. O mundo lá fora não existia mais.
E naquele instante— Alice teve certeza. Ela o amava. Não como uma fantasia. Não como um sonho. Mas como escolha. Como destino.
Ela se aproximou um pouco mais, a voz agora mais suave. Mais verdadeira.
— Senhor Sean…
Ele a olhou com atenção imediata.
— Dizei-me… como hei de fazer para que me vejais como mulher… e não mais como uma infanta?
A pergunta não carregava mais brincadeira. Apenas sentimento. Ele a observou por alguns segundos. Medindo cada palavra antes de dizê-la.
— Porque assim sois… — respondeu, por fim, com gentileza — uma infanta que ainda floresce… e que, em seu devido tempo, será a mais bela dama desta corte.
O sorriso dela vacilou.
— Sois minha prometida — ele continuou — e não há honra maior para mim do que vos desposar.
Os olhos dele suavizaram. — Mas não vos tomarei antes do tempo que vos é devido… nem vos roubarei aquilo que merece ser vivido com plenitude.
Aquilo a atingiu.
— Como ousais falar assim de vossa prometida? — ela disse, tentando esconder a dor sob firmeza
— Porque vos respeito. Simples. Direto. Irrefutável. — E porque vos amo. O ar entre eles mudou.
Alice ficou imóvel por um segundo. O mundo havia parado. — Então por que esperar? — sua voz falhou, agora sem máscaras — eu vos amo agora… não no futuro… não depois… agora. As palavras saíram com o peso de tudo que ela sentia.
Sean fechou os olhos por um breve instante. Aquilo o afetava mais do que deixava transparecer. Quando os abriu novamente— Havia dor ali. E escolha. — E é exatamente por isso… — ele disse, mais baixo — que esperarei.
Ela recuou, sentiu como um tapa em sua face.
— Então provarei que não sou mais uma criança
— Alice (gritou Sean) — Alice… espere. A voz dele não saiu alta. Mas saiu urgente.
Ela parou. De costas para ele. As mãos levemente fechadas ao lado do corpo, reunindo forças para não desabar.
Sean se aproximou. Mais lento agora. Sem a postura impecável de antes. Sem a segurança. Apenas… um homem.
— Não partais assim… — disse, mais baixo — não quando sabeis que não há verdade maior em mim do que aquilo que sinto por vós.
Ela não se virou. Mas o corpo vacilou.
Ele parou a poucos passos. Respeitando até a dor dela.
— Sois o amor da minha vida, Alice. As palavras vieram firmes. Sem hesitação. Sem ornamentos. — Não por promessa… não por dever…, mas por escolha.
— Sois aquela que hei de desposar — continuou — não porque me foi imposto…, mas porque, entre todas as possibilidades deste mundo… fostes vós quem meu coração reconheceu. Os olhos dele suavizaram. Havia dor ali. Mas também verdade. — Eu vos amo. Simples. Direto. Irrevogável.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Alice. — Então por que me negais agora? — ela sussurrou, a voz quebrando — por que me fazes esperar quando meu coração já vos pertence?
Ele fechou os olhos por um instante. aquela pergunta o atravessando. Mas Sean não podia contar. Havia uma promessa… e ele a cumpriria, custasse o que custasse.
— Porque amar-vos… não me dá o direito de vos tomar antes do tempo. Ele deu mais um passo. Mas não a tocou. — Eu vos quero como esposa… não como impulso. A respiração dele pesou.
— Quero olhar para vós, no dia em que fordes minha… e saber que nada vos foi roubado. — Nem mesmo por mim. Aquilo quebrou algo dentro dela.
— Eu vos amo agora… — ela disse, quase implorando — agora, Sean… não depois… não quando o mundo decidir… agora.
Ele abriu os olhos. E havia ali uma batalha. Mas também… decisão.
— E é por vos amar agora… — respondeu, firme — que escolho esperar.
A última barreira caiu. Ela se virou. Os olhos marejados. — Então provarei que não sou mais uma criança.
Ele tentou falar— Alice— Mas ela já estava se afastando. E dessa vez… Ele não conseguiu impedi-la.
Ele se voltou ao cocheiro. — Leve-a em segurança. A voz firme.
— Não saia da estrada. Não pare por nada. — Sim, senhor.
A carruagem avançava pela estrada estreita, enquanto os cavalos mantinham um ritmo constante e pesado. O som das rodas rangendo na madeira se misturava ao trotar firme dos cascos contra o chão de terra batida.
O céu escurecia muito rápido. O laranja suave do entardecer já havia sido engolido por um azul escuro, quase negro, que se espalhava como uma mancha inevitável sobre a floresta.
Alice apertou as mãos contra o tecido do vestido. Algo estava errado.
Então — Um tranco violento sacudiu a carruagem inteira, fazendo a estrutura ranger alto e jogando Alice para o lado com força.
— O que houve?!
Lá fora, o som seco de madeira se partindo ecoou por todo lugar.
— A roda… — respondeu o cocheiro, com a voz trêmula — a roda quebrou, senhorita…, mas o tom dele não transmitia segurança. Transmitia medo.
Alice abriu a porta e desceu. Assim que seus pés tocaram o chão, o ar da floresta a envolveu por completo. Tão congelante e denso que lhe doía os ossos e sua respiração se tornava pesada.
— Posso ajudá-lo? — perguntou, tentando manter a calma.
O cocheiro, um senhor de baixa estatura e semblante bondoso, mal conseguia segurar as ferramentas. Suas mãos tremiam visivelmente, e o suor escorria pela testa apesar do gelo da noite — N-não… está tudo sob controle…, mas não estava. Ao redor deles, a atmosfera era perturbadora. Não havia som de insetos. Não havia vento balançando as folhas. Não havia qualquer sinal de vida.
Do nada um som cortou aquele vazio. Um movimento entre as árvores fez com que os galhos secos se agitassem lentamente, como algo grande que estivesse se deslocando na escuridão.
Alice virou o rosto, o coração acelerando. — O que foi isso…?
O cocheiro demorou a responder. Seus olhos estavam fixos na floresta, atentos, assustados. — Nada… — disse por fim, depressa — pegue aquela roda ali… precisamos sair daqui…
Antes que ela pudesse se mover, um estalo alto ecoou entre as árvores, algo pesado pisou com força sobre um galho seco. Dessa vez, estava mais perto. Muito mais perto.
As ferramentas caíram das mãos do cocheiro, fazendo um som metálico estridente ao bater no chão.
E então veio. Um assovio. Baixo. Arrastado. Desafinadamente lento. Uma melodia distorcida, quase infantil…, porém carregada de algo profundamente errado.
O sangue de Alice gelou. Seu coração disparou tão forte que parecia querer escapar do peito.
— CORRA! — o cocheiro gritou, com a voz tomada pelo pavor — CORRA, MENINA, CORRA! Antes que ela pudesse reagir—
Algo o puxou. Rápido demais para ser visto. Um borrão atravessou a escuridão. O grito dele foi interrompido abruptamente. E então… nada.
Alice não pensou. Ela correu desesperada e sem direção. Sem ar. Os galhos das árvores batiam contra seu corpo, arranhando sua pele e rasgando o tecido do vestido. Espinhos prendiam-se em seus braços e cabelos, enquanto pedras irregulares faziam seus pés vacilarem.
Ela tropeçou. Caiu com força, sentindo a dor explodir no tornozelo, mas, se levantou mesmo sem fôlego, mesmo com medo e continuou correndo. Até que— Colidiu contra algo sólido.
O impacto foi tão forte que a lançou para trás, fazendo seu corpo rolar pelo chão coberto de folhas secas. Ela tentou respirar. Mas o ar não vinha.
Foi aí que ela ouviu
— Ora… ora… ora… A voz surgiu atrás dela. Calma e com um tom zombeteiro. — O que temos aqui…?
Alice ergueu os olhos lentamente. E o viu. Dean.
Parado diante dela como se sempre tivesse estado ali. Alto. Imponente. Seu corpo era forte, coberto por músculos que se moviam com facilidade sob as roupas. Os ombros largos sustentavam uma presença dominante, quase esmagadora.
O maxilar quadrado lhe dava um ar selvagem. E o pequeno furinho no queixo tornava tudo ainda mais… perturbadoramente atraente.
Mas eram seus olhos— completamente tomados por algo pior que desejo. Fome que a faziam tremer.
— Um coelhinho perdido? — ele disse, inclinando a cabeça com um sorriso torto.
Antes que Alice pudesse reagir— A mão dele se fechou ao redor do braço dela. Forte. Gelada. Inescapável. Alice prendeu a respiração com a dor.
Dean a puxou para perto, os dedos cravando na pele dela enquanto inclinava o rosto, analisando cada traço com um interesse perturbador. Então ele sorriu. Lento. Cheio de algo muito mais sombrio que fome.
A voz dele saiu baixa, quase divertida — é por você que ele não perde o controle… Alice tentou se soltar, mas o aperto só aumentou. — Solte-me… Dean ignorou. Se aproximou ainda mais, o rosto a centímetros do dela.
— Sabe… — murmurou, contando um segredo — eu não vim aqui só pra me alimentar. Os olhos verdes escureceram. A voz ganhou peso.
— Eu vim ver até onde ele iria por você. Ele inclinou a cabeça, observando a reação dela. — Porque… — um sorriso torto surgiu — faz muito tempo que eu espero por isso. Alice tentou puxar o braço novamente. Inútil.
— Do que você está falando?
Dean riu baixo. Sem humor.
— De uma dívida. Muito antiga. Ele aproximou os lábios do ouvido dela. — Seu querido Stefan… — sussurrou — me tirou tudo.
As palavras saíram carregadas de rancor. Antigo. Vivo. — Então eu pensei… — ele continuou, quase satisfeito — nada mais justo do que tirar dele a única coisa que ainda faz aquele coração morto bater. Os olhos dele voltaram para os dela. Brilhando.
— Você. Alice congelou. O medo finalmente tomando forma. Dean passou o polegar pelo lábio dela. Devagar. Quase íntimo. Quase cruel.
— Fique tranquila… — disse, com um sorriso perverso — eu vou aproveitar cada segundo disso.
Sem avisar— Ele a puxou de vez para si. — Espero que seja tão doce quanto parece…
E ele a beijou, um beijo que deixou Alice enojada. Um beijo que não pedia permissão. Que tomava. Os dentes dele pressionaram o lábio inferior dela até rasgar a pele. O gosto de sangue se espalhou.
Dean fechou os olhos por um instante, absorvendo aquele sabor.
— Hm… isso vai ser bom… O rosto dele se transformou. As veias escureceram sob a pele. As pupilas se dilataram. E suas presas surgiram, finas e afiadas. Ele afundou os dentes no pescoço dela.
Alice gritou. A voz carregada de desespero, que ecoou pela floresta. Dean bebeu. Sem pressa saboreando cada gota. Sem culpa.
O som da sucção era abafado, úmido, perturbador. Cada gole parecia arrancar a vida dela. Seu corpo enfraquecia rapidamente. A visão começava a escurecer nas bordas. Os dedos já não respondiam.
Até que— Um impacto brutal arrancou Dean de cima dela. O corpo dele foi lançado contra uma árvore com tanta força que o tronco se partiu ao meio, fazendo um estalo alto e seco. Folhas caíram ao redor.
Por um segundo nada. E de repente Stefan estava ali. Entre ela… e o monstro. O peito subindo e descendo com violência. Os olhos tomados por algo selvagem.
— FICA LONGE DELA!
Dean riu enquanto se levantava, limpando a boca com o dorso da mão. — Desculpa, irmão… achei que conseguiria parar.
Stefan caiu de joelhos ao lado de Alice. — Alice… olha pra mim… fica comigo.
Mas quando seus olhos encontraram o ferimento no pescoço dela— Ele parou. Congelou. O sangue escorria…, mas não era só isso. As veias ao redor da mordida começavam a escurecer lentamente. Se espalhando. Como veneno. Como morte. O ar faltou nos pulmões dele.
— Não… não… não A voz saiu quebrada. Com cuidado urgente. Ele levou as mãos até o rosto dela, tremendo. — Não… ele te envenenou… Alice, não… O olhar dele subiu. Encontrou Dean. E pela primeira vez— Não havia raiva. Só desespero.
— Por favor… — a voz falhou — por favor, Dean… humilhando-se ainda mais. — Eu estou pedindo… — lágrimas de sangue começaram a escorrer — sugue o veneno dela… por favor…
Dean inclinou a cabeça, observando como quem assiste um espetáculo. — Interessante…
Stefan se aproximou um pouco mais, quase rastejando.
Orgulho? Não existia mais. — Eu faço qualquer coisa… — a voz dele se quebrou completamente — qualquer coisa, ouviu? Só… salva ela…
Dean sorriu. Com uma lentidão quase cruel. — Engraçado… — ele disse, dando um passo à frente — porque eu já implorei assim também. Dean emanava rancor em sua voz. Os olhos de Stefan vacilaram. — E você não parou. Cada palavra era carregada de rancor. De dor antiga. — Você nunca para.
Stefan fechou os olhos por um segundo, aquilo o atingindo quase que fisicamente. Mas voltou em desespero. — EU SINTO MUITO (gritando), por favor (sua voz agora era apenas um sopro) acredite em mim, só me ajuda!
Dean riu. Baixo. Sem humor algum. — Não.
— Eu te dei uma escolha, irmão. Ele olhou para Alice. Quase sem vida. — Ou você salva… ou você mata.
O olhar dele caiu em Alice. No sangue. Na vida escoando lentamente. um toque— A mão fraca dela tocou o rosto dele. — Eu… acredito em você… — Alice sussurrou, quase sem forças. sua voz falhando aqui e ali.
E aquilo foi suficiente. Stefan abriu a boca. As presas surgiram. E ele mordeu. Dessa vez, sem escolha. O corpo dele tremeu ao sentir o sangue dela quente. Doce. Viciante.
Ele começou devagar, tentando controlar…, mas não conseguiu. A sucção aumentou. Mais forte, mais urgente, mais perigosa. Alice estremeceu. Sua mão caiu. Sem força. Os lábios entreabertos.
— P-por favor… pare… quase inaudível. Mas suficiente. Memórias invadiram a mente dele. O sorriso dela. sua gentileza.
Sua bondade. E ele parou. Bruscamente. Se afastando.
— Eu consegui… — ele sussurrou, mais para si do que para ela — eu parei… Os olhos dele percorriam o rosto dela com pressa, para ter certeza de que ela ainda estava ali. Viva.
A lâmina. Cravada no abdômen de Alice. Silêncio. Então o sangue veio, quente, escuro, manchando o vestido já rasgado. A respiração dela falhou. Os olhos, antes suaves, se arregalaram em dor.
Foi aí que Stefan ergueu o olhar. Devagar. Descrente. Dean estava alguns passos atrás. Observando. Sorrindo. Como que assistindo a uma peça.
— Droga… — ele disse, entediado — estava tudo tão bonito…
Stefan não respondeu. Não conseguia. Seu mundo tinha acabado de ruir — de novo, ele sabia que a culpa era dele. Dean inclinou levemente a cabeça, analisando a cena com prazer quase doentio.
— Odeio finais felizes. Seu tom era de puro prazer em assistir a dor alheia — Agora, maninho… — continuou, com um sorriso torto — ou você termina o serviço… ou a deixa morrer de vez.
As palavras caíram como veneno. — Boa sorte. Ele desapareceu. Como um pesadelo que simplesmente… some.
— Não… não… não… olha pra mim… fica comigo… A voz dele quebrou.
Alice tentou falar algo, mas não conseguiu, Ele engoliu em seco, aproximando o rosto do dela, com urgência.
— Não fala… guarda sua força… eu vou te tirar daqui… você vai ficar bem… Mentira. Ele sabia. Mas precisava dizer. Precisava acreditar. Sem perder mais tempo, ele a ergueu nos braços. Com cuidado, com medo de ela partir a qualquer momento.
E ele correu, num borrão impossível de acompanhar. O mundo ao redor se transformou em borrões de sombra e vento, enquanto ele atravessava a floresta como uma criatura fugindo do próprio inferno.
— Fica comigo… — ele repetia, a voz baixa, urgente — fica comigo… por favor…
Quando finalmente parou, já estava diante da casa de Charlie. A porta se abriu antes mesmo que ele pudesse bater. Charlie apareceu. E ao ver Alice— Seu rosto perdeu toda a cor.
Charlie Não era tão alta quanto Annia, mas havia nela uma presença que não precisava de tamanho para impor respeito. Seu corpo era mais delicado, quase esguio, mas cada detalhe parecia calculado — como se sua fragilidade fosse uma escolha, não uma limitação.
Seus cabelos caíam em uma cascata escura que ultrapassava facilmente o quadril, ondulando com suavidade quase hipnótica. As mechas acompanhavam cada pequeno movimento, criando a impressão de que havia algo vivo ali… algo que não pertencia completamente ao mundo comum.
Mas seus olhos prendiam. Azuis. Quase cinza. Claros demais. Gelados demais. Olhos de quem via além. De quem sabia. De quem julgava. E naquele instante— Eles caíram sobre Alice.
E tudo nela mudou. O rosto perdeu a firmeza. O ar faltou. — Minha menina… — a voz saiu baixa, carregada de algo entre dor e fúria — o que fizeram com você?
O olhar então subiu lentamente. Parou em Stefan. E endureceu. A temperatura do ar pareceu cair.
— Entre… agora.
Stefan não se moveu. — Eu preciso ser convidado. Os olhos dela se estreitaram. E por um segundo— Algo antigo, poderoso… perigoso… passou por eles. — Se ousar tentar qualquer coisa contra essa família… — a voz dela saiu firme, cortante — que Deus tenha piedade de você, garoto, porque eu não terei.
— Pode entrar.
Charlie levantou o olhar lentamente. E então viu. Viu o sangue. As presas. O desespero. E algo dentro dela endureceu.
— Quem fez isso com ela? — Ela já sabia. Tinha visto. Sentido. E sabia que era verdade.
— Eu não... — Stefan respondeu sem pensar — foi o... sua voz fraquejou, mas ao olhar para Alice naquele estado, sua coragem retornou, ele não se importava mais com o que Charlie faria com Dean… foi o meu irmão… eu tentei—
— Tentou? — ela o interrompeu, com desprezo evidente — tentou o quê? Não matá-la? As palavras cortaram. Profundas. Cruéis. Mas merecidas. Stefan engoliu a dor.
— Por favor… — a voz dele caiu — ela vai morrer…
Charlie pensou por um segundo. O olhar preso em Alice.
Pálida. Sangrando. Quebrada. Então voltou para ele. Fria.
— Coloque-a ali.
Stefan colocou Alice na mesa, deitando-a com cuidado, mas sem conseguir esconder o desespero em cada movimento.
— Ajude-a… — ele suplicou, a voz quebrando — ela é tudo que eu tenho… se ela morrer… Ele parou. Engolindo a própria dor. — Eu morro junto.
Charlie já se movia, pegando ervas, panos, instrumentos. Mas o olhar que lançava a ele era puro desprezo. — Afaste-se.
Stefan não se moveu. — Eu disse para se afastar. Havia autoridade ali. Poder. Ele deu um passo para trás. Contra a própria vontade. Contra tudo dentro dele.
A porta se abriu com força. Sarah entrou. A respiração pesada. Os olhos procurando. — Onde está Alice—?! Ela parou.
O tempo falhou. Seus olhos encontraram Stefan. Depois desceram. Para o corpo de Alice. Coberto de sangue. A mão dela foi imediatamente para a espada. — O que você fez com ela?! Mas antes que pudesse avançar— A voz fraca de Alice a deteve.
— N-não… irmã… (quase um sopro.) Sarah travou.
— Ele me salvou. Ninguém ousou falar.
Tudo o que importava já estava ali… sem precisar de palavras.
Stefan ficou imóvel. Coberto pelo próprio erro. Enquanto Charlie lutava para salvar a única pessoa que ainda o fazia… querer ser melhor. E do lado de fora— Escondido na escuridão— Dean observava seu semblante uma incógnita.
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