Lua de Sangue: O Início da Escuridão
1 A Noite em que Tudo Mudou
Notas iniciais
Era fim de tarde em Forks, e o dia morria devagar, como se resistisse a entregar a floresta à noite.
A luz dourada se arrastava entre as árvores altas, filtrando-se por entre os galhos como um último suspiro de calor, mas já não aquecia — apenas iluminava o suficiente para revelar o que viria depois. A cabana dos Winchester permanecia isolada, erguida em madeira escura e resistente, uma construção típica do século XVIII. Por dentro, a lareira crepitava, lançando sombras pelas paredes, enquanto portas e janelas reforçadas com ferro denunciavam uma verdade simples:
Aquela casa não era comum. Era um refúgio, uma fortaleza contra monstros. E, guardando aquele lar… estava Bob.
Bob já não era jovem. Com seus dez anos, carregava no corpo o peso de batalhas que nenhum animal comum suportaria. Um pitbull preto, enorme — quase do tamanho de um pônei — com o peito largo, puro músculo moldado por anos de luta e proteção. Na garganta, uma mancha branca em forma de coração quebrava a escuridão da pelagem. Seus olhos negros, quando tocados pela luz da lua, brilhavam reluzentes, como se refletissem algo mais antigo do que instinto.
Seu corpo era um mapa de guerras vencidas: uma orelha rasgada, faltando um pedaço; a língua marcada, com um fragmento arrancado; cicatrizes espalhadas que contavam histórias que ninguém precisava explicar.
Bob não era apenas um cachorro. Ele era família. Um guardião. E, mais de uma vez, já havia salvado vidas dentro daquela casa. Naquela noite… ele foi o primeiro a sentir. O latido veio forte. Urgente. Errado.
Sara parou no meio do cômodo.
— Alice, para de correr… — disse, mas sua atenção já não estava ali.
John Winchester se levantou. Aos quarenta e dois anos, era a imagem de um homem moldado pela vida dura. Alto, de tórax largo e ombros fortes, seu corpo carregava a força de quem sempre viveu do trabalho braçal. Ferreiro e guerreiro, suas mãos eram ásperas, marcadas pelo ferro e pela luta. Os cabelos castanhos claros caíam de forma levemente desalinhada, a barba rala por fazer contornava o rosto firme, e seus olhos verdes — sempre atentos — agora estavam tensos.
— Cachorro idiota… — murmurou, baixo. Mas não havia irritação em sua voz. Havia pressentimento.
— Pai… não vai — Sara insistiu, o coração apertando sem que ela soubesse explicar o porquê.
John olhou para a filha. Por um instante, pensou em ficar. Pensou em ignorar aquele latido estranho, em fingir que tudo estava bem.
Mas o instinto falou mais alto.
— Tranca tudo. Eu volto rápido.
A porta se abriu. O vento entrou frio. E, com ele… a noite começou a cair.
Do lado de fora, Bob rosnava baixo, o corpo inteiro rígido, como se cada músculo estivesse pronto para atacar ou morrer tentando. Ele sentia antes de todos. Sempre sentia.
John avançou com cautela, os olhos atentos às sombras que pareciam se mover entre as árvores, rápidas demais, erradas demais.
Então—Algo cortou o ar. Um pedaço de tronco, pesado e brutal, foi arremessado com força sobrenatural. O impacto atingiu John em cheio, lançando-o violentamente ao chão. A dor rasgou sua perna, tirando-lhe o ar dos pulmões. Ele tentou se levantar. Falhou. E, mesmo atordoado, entendeu. Aquilo não fora um ataque direto. O sol ainda iluminava a clareira. Vampiros não se expunham assim. Aquilo era estratégia. Alguém estava brincando com ele.
— JOHN!
A voz veio antes da imagem. Annia surgiu correndo, e, naquele instante, tudo dentro dele se apertou. Ela não iria parar. Nunca parava.
— NÃO! VOLTA! — ele gritou, tentando se erguer, a dor rasgando ainda mais fundo.
Mas ela passou por ele. Como sempre fazia. Indo na frente. Protegendo. A espada de prata já firme em suas mãos.
Alta, imponente, quase como uma amazona, Annia carregava a força de uma verdadeira guerreira. Seus longos cabelos ruivos, amarrados em tranças firmes, desciam até o quadril, acompanhando cada movimento com imponência. Vestia um vestido azul simples, mas funcional, preso por um cinto de couro próprio para sustentar sua arma.
Seus olhos eram de um azul límpido, como um céu de verão, contrastando com a tensão do momento. A pele clara, pontilhada de sardas, só aumentava seu encanto. A vida de batalhas moldara seu corpo: forte, ágil, com curvas marcantes, postura firme e decidida.
Para John… ela era a mulher mais linda que já existiu. E, por um único instante — um instante cruel — ele não viu a guerreira. Viu o sorriso dela numa manhã comum. O jeito como ria.
O toque leve de suas mãos. A vida simples que eles quase tiveram. Quase.
— CORRE! — ela ordenou.
E foi ali que a culpa o atingiu. Pesada. Sufocante. Ele deveria estar de pé. Deveria estar na frente. Deveria protegê-la. Mas estava no chão. Impotente. Quebrado. E então…
Ele apareceu. Alto. Esguio. Pálido. Vestido com uma bata negra e um capuz vermelho. Os lábios manchados de sangue. Os olhos azulados, quase brancos. Desmond. O predador.
O sorriso lento se formou em seu rosto.
— Enfim… — disse, como se esperasse por aquele momento há muito tempo. — Eu estava começando a achar que hoje seria entediante.
Seu olhar deslizou de Annia para John caído no chão, e um brilho divertido surgiu.
— Olha só… o grande protetor… incapaz de ficar de pé. Isso deve doer mais do que a perna, não é?
Ele deu um passo à frente, tranquilo, como se não houvesse pressa.
— Fique aí… — acrescentou, com desdém. — Assista. Prometo que vai ser… educativo.
E então atacou.
Mas Annia reagiu. Desviou com precisão. Girou o corpo. E contra-atacou. A lâmina de prata cortou o ar, rasgando parte do manto de Desmond. Por um breve segundo…
John acreditou. Acreditou que ela conseguiria.
Mas Desmond apenas parou. Observou o tecido cortado. Passou os dedos lentamente pelo rasgo. E então sorriu. Um sorriso mais amplo. Mais perigoso.
— Interessante… — murmurou. — Você luta bem. Coragem de verdade é tão rara hoje em dia…
Ele ergueu o olhar para ela novamente. — Talvez eu devesse agradecer antes de te matar.
E então riu. Uma gargalhada fria, vazia, que parecia arrancar o calor do mundo.
O som ecoou pela floresta. Sara, da janela, arrepiou-se inteira. Alice, no interior da casa, começou a chorar sem entender.
E John… sentiu o medo crescer de forma diferente. Mais profunda. Porque ele sabia. Aquilo não era luta. Era execução.
Desmond deu mais um passo, lento, quase apreciando o momento.
— Sabe o que eu mais gosto em vocês? — disse, inclinando levemente a cabeça. — Essa esperança inútil… sempre acham que vão conseguir.
E então sumiu. No instante seguinte, surgiu atrás dela. Rápido demais. Impossível de acompanhar. Imobilizou Annia. John tentou se mover. Tentou gritar. Mas o corpo não respondia. O mundo dele estava ali… escapando.
Antes de atacar, Desmond aproximou os lábios do ouvido dela. — Vamos ver quanto tempo sua coragem dura… — sussurrou, com prazer sombrio. — Antes de você implorar.
As presas rasgaram a garganta dela. O grito veio. Curto. Cru. E então o silêncio começou a tomar conta. — NÃÃÃÃO!!! — John gritou, finalmente. Mas já era tarde. Desmond fechou os olhos por um instante, como se apreciasse o som. Quando terminou, aproximou-se novamente do ouvido dela. — Sobremesa… ou reunião de família? Um som baixo, satisfeito: — Reunião de família… E antes de desaparecer, seus olhos encontraram os de John. O sorriso mudou. Ficou mais frio. Mais cruel. — Isso aqui… — disse, lançando um breve olhar para Annia — é só o começo. E sumiu.
Annia ainda respirava. Por pouco. Muito pouco. E, com as últimas forças… fez sua escolha. Lançou-se no rio. Para impedir que John fosse atrás. Para salvá-lo… mais uma vez.
Dentro da cabana, o mundo ainda não tinha parado. Sara tremia. Mas não podia. Não mais.
— Alice, pro porão. Agora! — ordenou, firme. Alice correu, chorando.
Sara respirou fundo, o peito apertado, as mãos trêmulas enquanto pegava a garrafa de água benta e o crucifixo. E saiu.
A noite já dominava tudo. Quando encontrou o pai, algo dentro dela se quebrou.
Ele estava no chão. Ferido. Menor. Vazio.
— Pai… levanta… por favor… — sua voz falhou.
Mas o que a destruiu não foi o ferimento. Foi o olhar dele. E, naquele instante, ela soube.
A mãe. O beijo de boa noite. As histórias. O calor de casa. Tudo… podia ter acabado. Uma lágrima escorreu.
— Eu não vou te perder também… — disse, chorando.
John a puxou para si. Mesmo ferido. Mesmo quebrado.
— A gente vai sair daqui.
Pegou o crucifixo. A levantou nos braços.
— Segura firme.
E correu. Bob correu junto. Sempre junto.
A porta se fechou com força. As travas de ferro deslizaram uma a uma. As janelas foram seladas John misturou sal com água benta em um recipiente de madeira, as mãos tremendo, mas os movimentos firmes — automáticos. Ele percorreu a casa, espalhando a mistura nas frestas das portas, nas janelas, nas bordas, formando uma barreira invisível contra aquilo que rondava lá fora. Proteção. Desespero. Esperança.
— Agora ninguém entra… — murmurou. Eles desceram. No porão, Alice chorava, encolhida.
Quando viu Sara, correu.
— Cadê a mamãe? Ela vai voltar, né?
Sara segurou o rosto dela, limpando suas lágrimas. Mesmo tremendo. Mesmo destruída.
— Ei… olha pra mim… não chora… por favor… — Eu tô com medo…
Sara respirou fundo. E então falou. Não como criança. Mas como proteção.
— Você ainda tem a mim… e o pai. Eu tô aqui. Eu não vou deixar nada acontecer com você.
— Promete…?
Sara engoliu o choro.
— Eu prometo… em nome da mamãe… eu nunca vou deixar nada te machucar.
Alice a abraçou forte. E naquele instante… Sara deixou de ser apenas filha.
E se tornou abrigo.
— A mamãe…? — Alice perguntou de novo.
O silêncio veio primeiro. John respondeu, com a voz quebrada:
— A mamãe não vai voltar…
As palavras pesaram. — Ela caiu no rio… tentando salvar o Bob… A dor virou grito.
— ESSE CACHORRO IDIOTA!
Mas não era raiva. Era culpa. Era perda. Era amor despedaçado. O choro tomou conta do porão. Da casa. Daquela família. E, ainda assim… naquela mesma noite… enquanto a escuridão cobria a floresta… e o rio seguia seu curso silencioso… algo não havia terminado. Porque, nas águas frias… onde a luz não alcança… o destino ainda respirava.
E a morte…
talvez não tivesse sido o fim.
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