Lua da Meia Noite
9 Sinos de Casamento
Notas iniciais
Não fazia ideia de quantas horas poderiam ser, e sinceramente, não me importava. O fogo continuou ardendo dentro de mim muito depois do círculo se apagar, sem deixar qualquer cinza ou rastro no chão, como se nunca houvesse existido. Mas eu sabia que existia, eu sabia que a alguns momentos ele estava ali, ardendo a minha volta, pois eu ainda seu calor em minha pele. Vinha da de Aloys, que havia se sentado no chão e me posto em seu colo.
Eu sabia que estava quebrando as regras. Não apenas as de Eveline, mas todas. Nem mesmo meu pai gostaria de saber que eu estava sentada no colo de um rapaz, no meio da madrugada, vestindo apenas uma camisola. Imaginei o que Katriane diria, se ela já havia feito algo assim. Eu perguntaria para ela depois, apesar de querer que esse momento nunca chegasse.
Não queria que o tempo passasse e tivesse que dar adeus a tudo isso, mesmo que não para sempre. Poderia ficar ali para o resto de minha vida, sentindo seus braços fortes a minha volta, seu cheiro profundo nublando minha mente, o calor quase exagerado de sua pele. O tempo poderia parar agora, com sua mão passeando pelas minhas costas, os dedos por vezes se enrolando em meu cabelo, por vezes fazendo com que as unhas me obrigassem a fechar os olhos.
Quando senti seus dedos em minha mão direita, em um primeiro momento, não me dei o trabalho de abrir os olhos. Apenas o fiz quando senti o frio em volta de meu dedo, e o que eu vi me fez piscar para ter certeza de que o sono não estava me pregando uma peça, ou a pouco luz.
Mas não estava.
— Me desculpe ter demorado tanto para te responder, Mabelle – Aloys disse, a boca tão perto do meu ouvido que eu não sabia se estava arrepiando com sua voz ou com seu presente. – Eu já tinha minha resposta logo no primeiro dia, mas tinha que ter isso primeiro. Minha avó e minha irmã me ajudaram a escolher, e devemos ter ido em todos os lugares da cidade duas vezes. Mas acho que valeu a pena.
Acha?
Meu pai era dono de uma joalheria, eu cresci intima das pedras. Não dava muita importância em ganha-las ou esbanjá-las, é verdade. Mas as conhecia. Então poderia dizer que Aloys Blanchard sabia escolher.
A base era de ouro negro, com uma linha de ouro branco. Unindo as bases, pois havia um pequeno pedaço, havia uma pedra solitária de rubi, reluzindo. A ladeando ficava, de cada lado, uma fileira de pedras de âmbar, douradas. Era fina e delicada, o tipo de coisa que um olho treinado chamaria de raridade. De uma beleza reservada, reluzente, chamando atenção apenas por existir.
O anel de noivado era leve em meu dedo como se, a minha vida toda, eu estivesse esperando por ele.
— Vai aprender que no nosso mundo, nada é tão fácil e simples – Aloys voltou a falar, chamando minha atenção para ele. Acho que fiquei tempo demais encarando o anel. – Pedras, por exemplo, preciosas ou não, são muito mais que joias ou decoração. O rubi é como um espelho: reflete e amplifica o que está na frente dele, tanto coisas boas como ruins. Eu escolhi porque além de ter seu lado bom de aumentar qualquer pureza que encontre e ser aconselhada a usar em assuntos do amor em geral, é vermelho, e eu me lembrei da sua fita. Achei uma pequena lembrança da sua façanha. – Sorriu. – E o âmbar é sobre proteção, pois quero saber que está segura. Você gostou?
Eu me sentia incapaz de responder usando palavras. Qualquer “sim, muito obrigada” soaria miserável e inútil na função de expressar minha felicidade. Então mesmo que meu coração tenha ido parar na minha garganta e minhas mãos suassem apesar do frio, juntei os lábios nos dele outra vez.
Eu nunca iria me acostumar em como eram quentes, e não queria. Queria que toda vez que o beijasse sentisse minha nuca se arrepiando e meu rosto esquentando, assim como o gancho em meu estômago, me puxando para ele. Queria que toda vez perdesse o ar quando suas mãos pegassem minha cintura, me puxando para tão perto dele quanto possível, e sentisse a ponta de suas unhas fazendo cócegas através do tecido de minha roupa. Não queria me acostumar. Não queria algum dia perder todas as sensações que tinha agora.
Não achava que podia acontecer.
— Vou aceitar isso como um sim. – Aloys sussurrou contra minha pele, os lábios desenhando meu maxilar e descendo para meu pescoço, causando um frio que ia desde a base de minha coluna até a nuca. – Mas, Belle?
— Hm? – Respondi, pois era basicamente o que sabia dizer com ele tão perto, com seus lábios naquela área recém descoberta sensível.
— Evite pular em cima de mim dessa forma, principalmente a noite e de camisola. Eu, sinceramente, tenho instintos que antecedem o bom senso e civilização.
Senti meu rosto esquentar com isso, de tal forma que até mesmo minhas orelhas arderam. Eu era uma tonta por não pensar nisso. Aloys havia sido até agora tão gentil, cortês e até mesmo tímido que não tinha parado para pensar nessa parte, que era tão óbvia que não devia ter nada sobre o que pensar. Ele era um homem, afinal de contas. Eu não era nenhuma criança. E não que Eveline ou meu pai houvessem sentado ao meu lado para me esclarecer dúvidas e questões sobre esse tema, mas eu sabia o óbvio: um casal precisa ir para a cama para consumar o casamento, e os homens eram os mais fáceis de se “convencer” do ato.
— Perdão. – Foi o que consegui dizer, a língua embolando em minha garganta enquanto tentava me afastar. Não que eu quisesse, mas apesar das circunstâncias, ainda possuía um pouco de bom senso e moral. Mas seus braços seguraram meu corpo, me mantendo na mesma posição.
— Agora pode ficar. – Não tinha outra escolha, de qualquer jeito, já que ele me segurava com uma força que eu sabia que poderia quebrar meus ossos. – É apenas um aviso, entenda, está dentro de mim.
— Vai me falar melhor sobre isso? – Perguntei, olhando em seus olhos. Ainda estavam da mesma forma de quando me acordaram, brilhantes e perigosos, o cinza se mesclando com o violeta de forma hipnotizante. Sua mão foi para a minha e ele segurou meus dedos, brincando com eles de forma distraída.
— Quando chegar o momento certo, eu prometo.
— E sobre a magia? Você disse que está dentro de mim? Quer dizer que eu tenho magia? Como?
— Essa conversa também vai chegar no momento certo – ele sorriu, levando minha mão para seus lábios, beijando minha aliança. – Mas vai ser vovó que irá lhe explicar tudo que tem que saber.
— Então é verdade? – Mordi os lábios. – Ela realmente é uma bruxa?
Aloys soltou uma risada baixa. Decidi que amava a risada dele. O jeito como seu sorriso abria e seus dentes apareciam, afiados como pequenas lâminas e os caninos capazes de, provavelmente, partir um osso como um graveto. O jeito que sua covinha também aparecia, lhe dando um charme adorável, e que fazia um contraste digno de uma pintura com seus olhos selvagens e sorriso malicioso. Encostei a ponta dos dedos em seus lábios, apenas para ter certeza de que era real. Isso cortou sua risada aberta, mas o sorriso de canto de quando era dia ainda estava lá, e ele segurou minha mão outra vez, beijando meus dedos.
— Ela não é uma bruxa, Belle. Vovó é a bruxa. Rainha da Corte das Bruxas, Domine Elementis, Oceano Flavesceste e Senhora da Magia. – Contou. Pisquei algumas vezes, minha cabeça rodando.
— Domine o que?
— Ela vai te explicar. – Ele riu e beijou meus dedos de novo. – Tem tanta coisa para você saber, Belle, tanta coisa. Eu estou morrendo de curiosidade de saber qual seu prima elementum.
— Como é? – Apesar de seus olhos brilhantes e do entusiasmo de sua voz me fazer rir, minha cabeça girava com tanta informação. Eu me sentia contagiada com sua empolgação, aumentando a minha, mas também sem fôlego e desorientada.
— Ah, bom, isso eu posso te explicar – ele sorriu. – É fácil. Existem quatro elementos da natureza. Água, terra, fogo e ar, certo? Bruxos podem controla-los, sendo servos da natureza, mas cada bruxo nasce com um prima elementum. É seu elemento primordial, é como um dom ou talento. É o elemento que o bruxo já nasce com grande poder, é o que corre em suas veias, o que segue sua vida. É possível identificar o prima elementum de um bruxo de acordo com sua personalidade, pois há características comuns. Eu aposto que você deve ser água ou terra.
— Ei! – Não resisti ao impulso de bater em seu ombro enquanto a risada me subia pela garganta e escapava pelos lábios. – E posso saber por qual razão eu não seria fogo?
— O fogo rege pessoas impulsivas e expressivas, Belle, além de ser o mais vivo e perigoso dos elementos. Não acho...
— Por acaso está dizendo que eu não sou perigosa, Aloys Blanchard? – Estreitei meus olhos para ele, ganhando uma risada em resposta. Novamente seus lábios estavam em mim, mas agora em meu rosto, dando uma pequena mordida na minha bochecha, tomando cuidado excessivo para não me ferir.
— Muito pelo contrário, bambina. – Sorriu. – Sei bem que você pode ser devastadora. Mas o fogo é imprevisível e traiçoeiro em sua natureza, ele respira, ele está vivo e tem vontade própria. Ele destrói ao menor descuido e descontrole, e sua tendência é exatamente essa: destruir. Afinal, sua natureza é queimar. Você não é assim. Sinto que você tem mais a ver com a vovó. Ela é água, que rege pessoas empáticas, sensíveis e serenas.
— E você é fogo, não é? – Arqueei uma sobrancelha. Aloys tombou a cabeça, o sorriso se abrindo.
— Sim, eu e Aimeé. Como descobriu?
— Intuição.
Ele sorriu e me puxou para um beijo. Dessa vez não resisti ao impulso de levar minhas mãos ao seu cabelo e afundá-las ali, sentindo o quanto eram macios. Sentir isso me deu vontade de puxá-los, e foi o que eu fiz. Isso fez com que Aloys rosnasse, e por apenas alguns segundos me lembrei do que ele havia falado minutos atrás, sobre me conter para o ajudar a se conter. Mas foi apenas por alguns segundos, pois Aloys estava em cima de mim.
Ele era incrivelmente forte. Se erguia acima de mim com uma facilidade admirável, tomando cuidado para não me pressionar muito com o chão. Aliás, esse era um detalhe quase ridículo, pois a única coisa que eu estava pensando era na grama abaixo de mim. Estava mais preocupada em sentir sua mão na minha coxa, forte, firme, a ponta de suas unhas me marcando. Só consegui tremer com esse contato, e juro que achei que tinha feito algo errado quando seus lábios foram para o meu colo, o beijando até onde o decote inexistente permitia, e soltei um barulho estranho, parecido com o que soltava quando batia em alguma coisa.
Achei que tinha errado pois ele parou. Aloys simplesmente parou e tremeu, e eu queria me bater por ter feito qualquer coisa que o tenha parado. Minha respiração era irregular e eu sentia meu rosto mais vermelho do que senti durante toda minha vida enquanto meu coração parecia um tambor de marcha naquele silêncio. Mordi os lábios, envergonhada, pronta para pedir desculpas por seja qual for meu erro, quando ele levantou a cabeça e me encarou.
Naquele momento, realmente senti que era melhor correr em direção a segurança de minha cama. O cinza dos seus olhos estava tão forte que eu podia ver a ameaça gritando dentro deles, me mandando correr o mais depressa que eu pudesse, para que a caçada começasse. Aloys literalmente parecia faminto e pronto para atacar, e eu estava bem na sua frente.
— Você tem muita, muita sorte de não ser lua cheia, Mabelle – ele falou, sua voz soando mais como um rosnado do que com uma fala humana, fazendo com que os cabelos de minha nuca se arrepiassem. – Ou eu juro que não teria coisa no céu ou na terra que me iria impedir de lhe devorar inteira.
Sua frase fez meu coração parar algumas batidas. Fiquei em silêncio, observando seu rosto sério e olhos escurecidos. Pela primeira vez, percebi, estava com medo. Vi, olhando em seus olhos, o quanto realmente Aloys poderia me machucar, se quisesse. O quanto estava, literalmente, brincando com o fogo em sua companhia. Isso me fazia querer encolher e buscar abrigo, mesmo que fosse apenas a alguns passos de distancia dele.
Mas olhando em seu rosto, também me lembrei de Aimeé. De suas palavras sussurradas na escadaria da minha casa e de como elas me pareciam um suplício de uma irmã.
Ele lhe dará tudo que tem, de corpo e alma. Não tenha medo disso. Não tenha medo dele.
Era óbvio que ela não estava falando apenas de declarações e beijos, e da magia. Aimeé se referia a outra parte, também. A parte que ainda me seria melhor explicava. A parte que lhes dava cinzas tão selvagens, dentes tão afiados e unhas tão longas. A parte que poderia me matar por necessidade ou prazer, se quisesse, pois não era isso que faziam? Aimeé me pediu para não ter medo sabendo que esse momento chegaria, mais breve do que tarde, o momento em que eu veria o Filho do Lobo.
Me prometa, Mabelle, prometa que não terá medo.
Não terei medo de Eveline, nem das consequências, nem do destino. Naquela noite, usando a fita vermelha com que meu pai havia me presenciado, eu havia feito meu primeiro ato de coragem. Pelos meus amigos, pela minha vida. Alguns dias depois, hoje mesmo, havia feito o segundo, ao enfrentar Eveline como uma igual, uma adulta, uma mulher. Não mais uma criança, não mais sua filha. Como Mabelle Bertrant.
Agora, com o céu como testemunha e a floresta de cúmplice, fiz meu terceiro. Ignorando os instintos e escutando meu coração, minha alma, estendi minhas mãos para seu rosto, o segurando entre os dedos. Olhei em seus olhos, tão violeta, tão cinza, e me inclinei. Quando encostei meus lábios nos seus, não havia nada do momento anterior. Não havia rosto corado ou respiração descompassada. Havia apenas um beijo, tão suave como uma brisa, e, apesar de mesmo isso ter feito meu coração saltar, olhei em seus olhos para ter certeza que iria ouvir todas minhas palavras.
— Duvido que algum dia me faça mal, Aloys, e se fizer – ergui o queixo, deixando que um sorriso aparecesse. – Depois de eu lhe chutar o traseiro e fazer com que engula essa linda aliança, vai ter que lidar com Katriane, que espera sua pele para ganhar botas novas. E Aimeé, que irá apenas usar a chance de lhe bater. E vovó, que não deve ficar nada feliz.
Meu noivo piscou algumas vezes, surpreso demais para falar, mas então riu. Seu cinza ainda estava escuro e perigoso, mas o violeta reluzia e seu sorriso me convidava. Ainda estava por cima de mim, e sua cabeça se inclinou para que juntasse nossos lábios outra vez, mas agora, senti seus dentes me furarem a carne.
— Meus parabéns, mi amore — ele aprovou, seus olhos brilhando. – Está começando a falar como uma Blanchard.
— Não uma Blanchard – discordei, sentindo meus lábios arderem sem ao menos ele encostar em mim, e sabia que não havia nada além de um pouco de sangue no lábio outrora machucado. – Uma Bertrant.
Isso fez os olhos de Aloys brilharem e eu não sabia se era por orgulho ou por desafio. Mas isso não era realmente importante, pois ele estava sorrindo, e seu corpo esquentava o meu, e eu poderia congelar aquele momento por toda eternidade.
Devo ter caído no sono em algum momento, embalada pelas batidas fortes de seu coração e aconchegada pelo calor de seu corpo. Quando acordei, já estava na minha cama e tudo poderia ter sido apenas um sonho se minhas roupas não cheirassem a floresta e algo mais profundo, ao cheiro de Aloys. Isso me fez pular da cama e buscar o espelho. O que vi era o mesmo que havia visto a minha vida inteira.
Uma menina de cabelos castanhos claros e olhos castanhos vivos. Era a mesma imagem que eu havia visto no dia anterior, mas era diferente. Juro que havia mais em mim do que o de sempre. Havia algo nos olhos, algo no rosto, algo em volta. A aliança de noivado que Aloys havia colocado em meu dedo reluzia, me fazendo querer rir e girar, louca para mostra-la a Katriane e Therese. Ansiosa, também me perguntei quando veria meu noivo outra vez, e Aimeé, e vovó. Juntando todas as peças, não chegava a ser nove horas quando sai do quarto, já inteiramente vestida, quase desesperada para iniciar o dia.
O café ainda estava na mesa apesar de meu pai já ter ido ao trabalho. Com mais vontade de sair de casa do que com fome, peguei apenas um pedaço de pão, terminando em duas mordidas, e indo para a rua. A manhã estava fria, como era de se esperar do outono em outubro, mas o chalé nos meus ombros me esquentava e, se não ele, a lembrança do anel em meu dedo. Rezei para que Katriane estivesse na fonte para ser fácil de a encontrar. Porém, como na maioria das vezes, foi ela quem me encontrou.
— Belle, eu não acredito! Fiquei sabendo agora, é verdade? Seu pai mandou sua mãe de volta para a casa dos Foucher? Belle, não me diga, ele vai se divorciar dela?! – Como sempre, Kat falava demais e isso me fazia rir. Sinceramente, qualquer coisa me faria rir hoje, mas as bochechas coradas e olhos brilhantes de Katriane eram especiais.
— Bom dia para você, Kat – respondi, fazendo ela colocar as mãos na boca e rindo um pouco.
— Bom dia, Belle, mas vamos, me responda, ah, não, quero que conte tudo! – Frisou. – Não, espere, temos que achar Therese. Assim poderá explicar para nós duas!
— Posso saber como vocês já sabem? – Perguntei já sendo arrastada pela aldeia, de braços dados com minha amiga, enquanto seus olhos castanhos esquadrinhavam cada canto do lugar, procurando uma garota de olhos perdidos e cabelos cacheados.
— Fui logo pela manhã ao boticário pegar algumas coisas para papai, e então ouvi Mr. Guillot comentado com Mrs. Guillot. Ao que parece, Mr. Guillot foi a casa dos Foucher fazer uma entrega a Mrs. Foucher pois sua filha mais nova, Harriet, não é, sua prima? Enfim, parece que a bebê pegou um resfriado, coitadinha. De qualquer forma, ele viu sua mãe ali, sentada à mesa do café, e todos sabem que ela vai para lá logo cedo, mas não tão cedo, então perguntou qual era a ocasião. Acredite no que digo, Belle, são palavras de Mr. Guillot, sua mãe quase lhe enviou a faca da geleia goela abaixo. Quando Mrs. Foucher conseguiu fazer com que se retirasse, Mr. Foucher explicou o que havia acontecido.
Acabamos achando Therese saindo do boticário de sua família, os olhos pesados se concentrando em nós nos poucos segundos que teve antes que Katriane a pegasse pelo braço também, soltando uma frase rápida parecida com “você não vai acreditar, Therry, a bruxa foi para a lama” e a puxando em direção a sua própria casa.
A casa dos Giraud era parecida com a do resto da aldeia, e dentro dela havia quase tantas crianças quanto na casa dos Foucher. Quando Katriane entrou, avisando em um grito para sua mãe que estava em casa, consegui ouvir o choro mal-humorado de um bebê, provavelmente de Alaine, sua irmã mais nova de três anos, enquanto Fabien e Nolace, seu irmão mais novo, de quatro anos, brincavam entre eles na sala.
Fomos levadas para o quarto de Katriane, onde teríamos privacidade para dizer quantas maldades nossas línguas jovens tinham a soltar. Imediatamente quando entramos, Therese se sentou na cadeira da penteadeira de minha amiga, enquanto eu me jogava em sua cama e ela se sentava ao meu lado, sorrindo e batendo palmas.
— Vamos logo, Belle, conte tudo! Ficamos completamente perdidas ontem!
— É Belle – Therese me olhou, os cotovelos apoiados nos joelhos, e ela sorria, se concentrando em mim de modo admirável. Cobri minha boca com as mãos para minha risada não sair tão alta, sentindo meu estômago embrulhar de excitação enquanto me senti obrigada a me mexer, então me sentei. – Tudo que sabemos que é de repente os gêmeos Blanchard saíram da sua casa, e depois voltaram. E então vocês três saíram.
— Escutem bem, então, curiosas – ri. – Estávamos eu e meu pai tomando café e, sinceramente, eu estava péssima. Sabem que já estava esperando a resposta dele a dias e parte de mim estava se consolando, dizendo que ele não iria aceitar. Então, quando bateram na porta, ninguém achou que era importante. Deus, vocês não são capazes de entender o que senti quando Rowena apareceu na nossa sala! Veio dizer que Aloys aceitava a proposta e então me matou do coração quando disse, simplesmente disse, que ele estava vindo me ver!
Katriane gritou. Várias vezes. Gritou quando disse como Aloys havia sido cortês, e gentil. Gritou quando disse como Eveline havia chegado, no fim do almoço, e eu como eu lhe mandei embora. Nessa hora, Therese foi sensível o bastante para me segurar a mão, enquanto Kat se deliciava com a humilhação. Quando contei sobre o encontro com Aloys no meio da floresta, jurei que ela iria cair dura na cama, mas meu anel impediu isso, pois ela estava ocupada demais segurando minha mão e disparando elogios, enchendo meu noivo dos mais sinceros mimos e prometendo lhe dar um beijo quando o visse.
Até mesmo Therese me deu os parabéns, os olhos brilhando e o sorriso preguiço, me garantindo que a aldeia nunca havia visto uma aliança assim, tão bonita. Foi nessa hora em que Katriane rebateu, dizendo que ainda era apenas a aliança de noivado, e começou a especular sobre qual seria a do casamento. Provavelmente uma surpresa, eu respondi. Mas para minha cara amiga Katriane eu não tinha nenhuma imaginação, então ela começou a especular sobre como seria.
O dia passou rápido, ou era apenas minha cabeça que estava em qualquer lugar que não fosse em Aloys e em tudo que havia me dito ontem. Cada pequeno momento e cada palavra se atropelavam na minha mente, todas brigando por atenção total e nenhuma conseguindo direito. Elas giravam na minha cabeça, me fazendo rir e perder o ar. Quando ele havia me buscado no quarto, seu sorriso de dentes pontudos e perigoso, seu cinza selvagem e brutal, seu beijo firme e suas mãos quentes. Tudo isso se juntava com a magia e a agora permanente sensação de formigamento que tomava meu corpo sempre que parava para pensar no assunto. Eu estava desesperada para saber mais, para aprender mais.
Para ter mais de Aloys.
Pedi para a lua, escondida na sua escuridão, se preparando para um novo ciclo, que eu pudesse vê-lo outra vez, que eu pudesse ter mais de seus olhos violeta-cinza e de seus lábios. Com meu pedido, ganhei um sono profundo, afundava em uma floresta escura com apenas olhos brilhantes para me guiar. Mas de novo o sonho não demorou por muito tempo, já que acordei com uma batida forte perto de mim.
Quando abri os olhos, a pessoa que mexia no guarda-roupas com um olhar desinteressado tinha cabelos negros e olhos violeta-cinza, mas não era exatamente quem eu queria ver.
— Você dorme demais, sabia?
— Aimeé? – Perguntei, piscando os olhos para me acostumar com a claridade. Já era dia e a irmã de meu noivo olhou para mim, a as mãos segurando as portas, uma sobrancelha arqueada.
— Oh, eu lhe acordei? – Ela piscou seus cílios negros para mim, o sorriso afiado se mostrando de modo verdadeira, com dentes afiados se revelando enquanto ela fechava as portas outra vez, com um grande baque. – Mil perdões, não foi a intenção.
— O que está fazendo aqui? – Murmurei, me sentando na cama. Já era dia, podia ver, mas ainda devia ser de manhã. Mas Aimeé estava tão acordada como eu pessoalmente consideraria um pecado. O cabelo, pela primeira vez, estava preso em uma trança que caia pelo ombro e usava um vestido preto, parecido com o de ontem, tirando por esse me parecer desfiado e rasgado em alguns pontos da saia.
— Estava morrendo de saudades de você, pirralha, então resolvi vir lhe acordar em plena manhã, pois não tenho nada melhor para fazer. – Ela revirou os olhos enquanto colocava as mãos na cintura. – Eu não sei se você se lembra, Bebelle, mas está noiva. E o próximo passo do noivado é o casamento, e casamentos apenas acontecem quando são planejados.
— Aloys está aqui? – Perguntei para ela, o sono me deixando enquanto imaginava meu noivo tão próximo de mim. A cara que Aimeé fez foi entre o tédio e o nojo.
— Vocês são irritantes. — Bufou. – Sim, garota apaixonada, ele está aqui. Lá na sala, junto com vovó e seu pai. Ele já estava de saída para o trabalho, mas resolver ficar mais um pouco quando viu vovó. Sinceramente, vocês Bertrant...
Ela não terminou a frase e não precisava. Ri imaginando papai na sala, os olhos focados em Rowena, enquanto Etienne exigia sua atenção, se ainda não houvesse ido para casa dos Foucher. Me levantei da cama, jogando as cobertas para o lado e me virei para ela, franzindo as sobrancelhas.
— Poderia me dar licença?
— O que? Porque? – Ela arqueou uma sobrancelha. – Em breve seremos uma família, não tem necessidade. Além do mais – ela tombou a cabeça, o sorriso malicioso dizendo que sabia que eu e seu irmão já tínhamos mais contato do que meu pai sabia. – Tenho que contar cada detalhe para meu irmão.
— Aimeé! – Ri, pegando a primeira coisa perto de mim (apenas uma camisola suja) e lançando em sua direção. Ela riu de volta, desviando com facilidade enquanto ia para fora do quarto. A última coisa que ouvi ela dizer antes de fechar a porta foi gritar escada abaixo “Aloys, essa sua noiva é muito recatada, temos que dar um jeito nisso”.
Imaginei que meu pai teve uma pequena falta de ar nesse momento.
Me arrumei o melhor que pude com a pressa que estava de descer as escadas. Penteei meu cabelo, deixei minha fita amarrada nele como tiara, tomei um bom banho e escolhi um vestido amarelo claro, da cor das folhas penduradas por pouco nos galhos das árvores. Ele era simples, mas conseguia realçar meu cabelo e meus olhos, e me fez sentir bonita o suficiente para estar na frente de Aloys.
Quando desci as escadas já era possível ouvir a voz de Etienne e isso fez meu coração se aquecer e se partir ao mesmo tempo. Como eu fui tão tola em nunca perceber? Assim como eu, meu irmão sempre havia vivido dentro de uma prisão. Quando eu o tinha ouvido falar tão alto, ou rir tão livremente? Não me lembrava. Talvez, assim como eu, longe dos olhos desdenhosos e dos lábios frisados de mamãe, na companhia de seus amigos. Por isso era simplesmente delicioso me deparar com uma cena como esta, com ele sentado à mesa, o sorriso aberto e olhos brilhando enquanto Rowena se concentrava em alguma história que contava. Meu pai estava ao seu lado, os olhos brilhando para seu filho e para a mulher que amava.
Mas apesar de ser uma bela cena para se ver, a paixão era algo egoísta. E a minha falava mais forte, buscando a pessoa que realmente havia me feito sair da cama e descer as escadas tão animada.
— Bom dia, Belle – Aloys olhava para mim, sentado à mesa, ao lado da irmã. – Espero que Aimeé não tenha sido muito má quando lhe acordou.
— Eu? Má? Que blasfêmia, irmão – Aimeé se defendeu, colocando um pedaço de pão na boca e mastigando antes de estreitar os olhos para mim, sorrindo. Agora, na presença de meu pai e meu irmão, tanto seu sorriso tanto de seu irmão havia voltado a esconder seus dentes, mas era incapaz de esconder seus olhos. – Eu nunca sou má. Eu e Bebelle tivemos bons momentos enquanto eu a acordava de forma suave e gentil, não é mesmo?
— Não – respondi, aceitando a mão estendida de Aloys. Pensei que ele me puxaria para uma cadeira, mas me puxou para seu colo. Meus olhos foram em direção ao meu pai, que olhou a cena com as sobrancelhas erguidas. Corei, mas preferi voltar a falar com os gêmeos. – Brigue com ela, Aloys, sua irmã me acordou de forma muito rude, batendo as portas de meu guarda-roupa. Eu poderia já começar o dia com uma enxaqueca.
Os dois riram, enquanto Aimeé se largava na cadeira e meu noivo apertava minha cintura.
— Viu, irmã? Eu disse que não conseguiria amedrontara-la por muito tempo.
— Estou vendo irmão, e estou gostando – Aimeé ergueu o queixo, sorrindo de forma afiada para mim. – Continue assim, Bebelle, tenho grandes expectativas para você.
— Belle – meu pai começou, obviamente sem saber muito bem como falar ou o que fazer. – Não acha que deveria se sentar em uma cadeira?
— Não seja rude, Patrick – Rowena o interrompeu. – Olhe como fazem um casal bonito.
— Sim, mas... – Meu pai começou a dizer, mas vovó o interrompeu com um gesto de mão.
— Além do mais, Mabelle está em casa e na companhia de sua família. Que mal há ficar junto ao seu futuro marido? – Ela arqueou uma sobrancelha para meu pai, o desafiando a rebater, mas aparentemente ele desistiu quando olhos dourados o encararam por muito tempo.
— Tem razão. – Bufou. – É só que, bem, Belle é minha garotinha. É um pouco difícil vê-la assim.
— Se é difícil para você vê-la assim, imagine para ela ouvi-la chamando de garotinha, diabos, Patrick – Aimeé apoiou o rosto nas mãos enquanto minha face esquentava. Mesmo assim, os braços de Aloys não chegaram sequer a se afrouxarem. Rowena soltou uma risada enquanto pegava uma xicara de café, tomando um pequeno gole.
— Mas, veja bem, Patrick – ela puxou a atenção de papai para ela. – Se tiver acabado de restringir sua filha, podemos conversar sobre seu casamento? Normalmente, é a mãe da noiva que cuida dos detalhes, mas imagino que neste caso será diferente.
— Imaginou certo. – Meu pai respondeu, sorrindo para ela. – Eveline não quer tomar partido de nada, e mesmo que quisesse, eu não deixaria. Ela já arruinou coisas demais dos meus filhos, não deixarei que arruíne o casamento de minha filha.
— Então quero que se prepare – ela sorriu de volta, os olhos brilhando. – Porque o casamento de meu neto também vai ser algo a se lembrar. Sou bastante exigente e não vou aceitar que nada seja menos que perfeito, então acabaremos passando bastante tempo juntos. Espero que não se importe.
— De forma alguma. – Meu pai sorriu, e talvez eu estivesse passando tempo demais com os gêmeos Blanchard, mas aquilo em seus olhos só podia ser um malícia e segundas intenções. Decidi não pensar sobre o assunto, assim como meu pai preferiu ignorar eu estar sentada no colo de um rapaz.
Há certas coisas que precisam ser ignoradas.
Mesmo que os olhos estreitos de Aloys e o sorriso de Aimeé tornassem minha vergonha quase impossível de esconder, junto com a súbita vontade de rir. Como um estimulo para não fazer uma coisa nem outra, peguei um copo de suco e o tomei, ainda aconchegada ao colo de Aloys.
Com minhas bochechas coradas e um sorriso travado, conseguia ouvir as batidas de meu coração, correndo tão depressa como eu queria que o tempo o fizesse. Eu estava noiva, havia um anel em meu dedo e uma data a minha espera. Todos os mil detalhes que havia discutido com Katriane e Therese estavam à minha frente, prontos para serem decididos. Eu teria a ajuda de Rowena para isso, e meu pai. E Aimeé, não posso esquecer. No outono frio, eu me sentia incrivelmente quente. Meu casamento estava próximo, e pela primeira vez na vida me senti feliz com essa perspectiva. De ter Aloys. De morar com os Blanchard. De aprender mais o que e quem eu era.
Com os olhos dourados de Rowena em mim, mesmo que por dois segundos, ela piscou um olho como se tivesse ouvido meus pensamentos, o sorriso secreto nos lábios antes que voltasse os olhos para meu pai. Sorri para mim mesma, fechando os olhos.
Se me concentrasse bem, já poderia ouvir os sinos da Igreja.
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