Lua da Meia Noite

7 Sangue Bertrant


Notas iniciais
Oie oie :3 Postando na madrugada de sábado porque hoje irei sair e não vou ter tempo de postar de tarde (e provavelmente vou chegar tarde e morte, então nem depois). LOGO, para não furar com vocês, estou aqui, em plena 1:27 am, tendo que acordar seis e meia da manhã, respondendo esses comentários lindos e postando o capitulo ♥ Falando em comentários, obrigada a Rezenae (Duda ♥), RFCT Black, felicitysmok, Lady Allen (Letty ♥), Izzy, Cat (Isa ♥), Laix (Lays ♥), Salayne (Docemargo ♥) e Ed (Amor ♥) pelos comentarios ♥ O cap é pra vocês Até lá embaixo ♥ P.S. Vamos ver que horas que eu vou terminar isso aqui, falo nas notas finais UHSUHA'

Aloys era tudo que sussurravam sobre ele, ao mesmo tempo que me fazia enxergá-lo com olhos completamente novos. É claro que ele as vezes me parecia distante, e o cinza dos seus olhos me dava o mesmo sentimento que Katriane descreveu: de que eu deveria correr. Mas ali, do meu lado, pude ver – ou ao menos começar -, não uma lenda, não o personagem de uma história, não um rumor ou um boato. Alguns pais até diziam a seus filhos que, se não se comportassem, os deixariam na floresta para os gêmeos Blanchard. Não, nada disso. Eu vi um garoto.

Apenas um rapaz, de dezessete anos, que tinha uma irmã e morava com a avó. Ele era educado, sua voz era suave e seu sorriso, apesar de cuidadoso para não exibir os dentes, era verdadeiro. Eu sabia disso pois o violeta de seus olhos reluzia e uma encantadora covinha aparecia na sua bochecha esquerda.

Ele gostava de ler, tão ou mais quanto eu, e ouviu absurdamente interessado quando – primeiro aos sussurros e então incentivada pelos seus olhos e atenção -, comecei a contar os títulos de minha coleção secreta. Ele sorriu ao saber desse meu escondido ato de rebeldia e ouviu cada palavra da minha afobada explicação da minha saga favorita. Disse que poderia me ensinar piano, se quisesse – ou eu poderia pedir a Rowena, se preferisse. Revelou seu fascínio por doces, principalmente chocolate, em troca de eu contar minha fraqueza por carnes. Sua cor favorita era preto, e ele riu quando disse isso, porque era um tanto quanto óbvio. Quando sussurrei que a minha era o vermelho o nó de seus dedos fez um carinho na minha bochecha enquanto ele dizia:

— É muito bom gosto, ele fica maravilhoso em você, Belle – e então se aproximou. – Não sei se é a cor em si ou o ato de a usar, mas ela faz com que você se ilumine. Fica ainda mais bonita.

— Você me acha bonita? – Era uma pergunta boba, eu sabia. Eu me achava bonita. Eu sabia que era atraente. Mas havia algo na resposta dele que me fazia querer debruçar e ouvir. Percebi que uma parte minha queria sua aprovação e isso era ridículo, mas verdade. Fiz um pequeno lembrete a mim mesma de pedir perdão a Katriane por todas as vezes em que a infernizei por suas horas arrumando o cabelo, escolhendo vestidos e passando óleos para a pele, tudo para Lenard. Finalmente entendi o porquê fazia isso, e pagando minha língua aqui estava eu fazendo a mesma coisa.

— Mabelle – sua unha do indicador fez o contorno do meu maxilar. – Eu lhe acho linda. Qualquer um acharia e eu não sou diferente.

— Mas eu sou tão... comum. – Ainda estávamos sentados no banco, e ainda estávamos vinte vezes mais perto do que Eveline acharia apropriado. Logo, eu pude ver bem quando suas sobrancelhas negras se franziram. – Quero dizer... você cresceu com sua avó e sua irmã, e você mesmo... Bom, vocês são tão exóticos...

— Exótico é uma forma bonita de dizer esquisito? – Perguntou arqueando uma sobrancelha, mas seus olhos brilhavam então eu sabia que ele não estava com raiva, apesar de ter sentido minhas bochechas esquentarem. – Não há nada de errado em ser diferente, Belle, assim como não há nada de errado em ser comum. Mas devo dizer que, particularmente, não acho que você tenha coisa alguma de comum.

Eu não devia ficar tão feliz assim. Não era certo ficar tão feliz pelos elogios de um único garoto. Mas eu estava. Porque esse garoto era Aloys Blanchard e eu suspirava por ele desde que tive idade o suficiente para raciocinar logicamente. Então de uma forma fútil e tola, eu me senti feliz. E que felicidade agradável era, me fazia sentir como se fosse a garota mais linda do mundo. Eu poderia facilmente acreditar nisso se ele continuasse me olhando assim, ou ao menos falando essas coisas.

— Com licença, pombinhos – Aimeé estava escorada no batente da porta, e eu não saberia dizer a quanto tempo ela estava ali já que não ouvi um único ruído. Os olhos faiscando e o sorriso afiado, agora estavam concentrados no irmão. Mesmo tendo passado tanto tempo ao seu lado sem qualquer incômodo – muito pelo contrário -, o fato de ter alguém nos observando me fez buscar uma forma de me afastar, como uma criança pega no flagra. Seu irmão, por outro lado, não mexeu um músculo além do pescoço para olhá-la, e a mão que levou ao um toque sutil no meu joelho. Não se mexa. — Vovó quer que eu vá ao mercado fazer compras para o almoço.

— E o motivo de você ter vindo aqui é...? – Aloys levantou uma sobrancelha, o claro desagrado de ser interrompido. Tanto quanto Aimeé deixava claro o prazer de interromper.

— Porque se ela diz eu ela quer dizer nós.

— Não necessariamente.

— Mas agora, sim – ela deu de ombros de uma forma despreocupada, os olhos ainda focados no irmão. Pude observar a transformação enquanto meu noivo começava a sorrir, com tanta perversidade quanto a irmã, e a própria mantinha os olhos desafiadores. Aloys a olhava como um predador que encurralou a presa, e Aimeé como alguém que iria cair lutando.

— Você não sabe onde fica o mercado, não é?

— E eu deveria saber onde fica qualquer coisa desse lugar? – A voz dela era desdenhosa, mas tive a pequena impressão de que suas bochechas ficaram coradas.

— Se eu sei, porque você não? – A frase soou como uma faca lançada em direção a ela, que retribuiu com o sorriso afiado.

— Porque você tem que servir para alguma coisa.

— E você, serve para que?

— Para iluminar seu dia, querido irmão, sabemos que você morreria sem mim.

— Querida irmã, não se engane, você não passa de um tremendo erro de cálculo.

— Continue repetindo isso até se convencer – Aimeé lhe mandou um beijo estalado que o fez revirar os olhos. Eu não pude deixar de sorrir ao ver sua pequena discussão e o modo que rebatiam um ao outro. Eu tinha um irmão, mas nem de longe discutíamos assim. Imaginei se com Katriane ou Fantina era diferente, uma vez que tinham muitos irmãos. Mas meu sorriso caiu um pouco quando vi olhos violeta-cinza selvagens concentrados em mim. – E quanto a você, Bebelle. – Aimeé forçou a voz como se falasse com uma criança. – Você pode ir ajudar a vovó.

Aloys se levantou do banco e estendeu a mão para me ajudar. Me senti estupidamente baixa perto deles, e realmente uma criança perto de Aimeé. Ela era apenas dois anos mais velha e mais mulher do que eu sonharia em ser. Mesmo assim não pude ignorar a pontada de raiva ao ouvir o apelido ridículo. Podia ser mais nova, mas não tinha cinco anos.

— Vou e volto, Belle – a irritação pela provocação de Aimeé passou quando olhei nos olhos dele. Aloys sorria para mim, a covinha aparecia, e eu sentia uma súbita vontade de passar os braços em seu pescoço e o ter mais perto de mim, só mais um pouco, apenas o bastante para seu calor me aquecer no frio do outono. Quando ele me beijou a testa, foi o bastante para sentir que iria derreter. Mas ele se afastou rápido demais e então eu estava vendo apenas suas costas se afastando e ouvindo a voz debochada de Aimeé: vou e volto, Belle? Belle? Já está assim? Que decepção.

Com prazer, ouvi meu noivo mandar a irmã praticar atos pecaminosos.

Saí da sala de música no mínimo sete vezes mais leve do que entrei. Era impressão minha ou a parede de casa sempre teve essa cor bonita? E o frio do outono não era mais do que um carinho no meu rosto? Até mesmo a decoração da sala parecia mais viva, as cores mais alegres, enquanto meus pés flutuavam em direção a... Cozinha?

Por incrível que pareça, não havia empregadas na cozinha. Elas não estavam em lugar nenhum. Quem estava ali era Rowena, se movimentando de um lado para o outro, organizando e preparando o que devia ser o almoço. Desde que Eveline decidiu que eu já tinha idade o suficiente para começar o treinamento intensivo de “ser uma dama” (em torno dos meus doze anos), a cozinha havia sido um lugar proibido para mim. De acordo com ela, eu não era nenhuma empregada para fazer comida ou limpar vasilhas.

Pelo visto Mrs. Blanchard não partilhava da mesma opinião.

Seu vestido escuro contrastava com a cozinha clara, e seu cabelo havia sido preso em um coque na cabeça, frouxo, apenas o bastante para impedir que algum fio caísse na comida. Os olhos dourados folheavam um antigo livro de receitas que eu nem sabia que existia e seus pés se movimentavam como se conhecesse a cozinha a sua vida inteira e soubesse onde tudo estava. Quando me viu, abriu um sorriso que imediatamente me deu confiança para me aproximar de sua figura alta e impotente.

— Belle, querida – ela estendeu a mão para tocar meu rosto quando eu estava na sua frente. Era incrível como cada pequeno gesto e detalhe de Rowena invocava algo mais profundo do que se via, algo mais... mágico. Isso vinha desde sua postura elegante e majestosa, até sua beleza absurda e sorriso discreto, sempre acompanhado da voz suave e o mistério que a envolvia, lhe dando um ar sombrio. Até o simples toque da ponta de seus dedos finos e de unhas bem-feitas e longas (nem de longe tão longas quanto as de seus netos) era o bastante para fazer meu sangue correr mais rápido e ter uma sensação instintiva de que algo iria acontecer. – Como foi? O que achou dele?

Eu devia? Me odiei por hesitar. Odiei por pensar em me conter. O que as regras de minha mãe valiam? O que seus preconceitos repetidos para mim serviam? Eu os odiava, e a odiava. Eu não precisava segui-los para viver bem, nem para ser aceita, e muito menos feliz.

Homens não gostam de mulheres que leem, de mulheres que pensam, mulher boa é mulher submissa.

Isso estava errado. Para mim, era ridículo. Como amante da leitura, um dos principais motivos de não querer me casar era que, estupidamente, eu via como isso era refletido. Até mesmo Lenard não gostava que Katriane lesse, e ela mesma não via importância em o fazer. Eu só me casaria com alguém que não fosse tão boçal a esse ponto. E Aloys não era. Queria rir na cara de Eveline. Ele adorou minha paixão, pois tinha a mesma. A incentivou e ouviu. Ele entendia.

Fique quieta, Mabelle, o que lhe deu para falar? Uma boa mulher mantém a boca fechada a não ser que seu marido lhe permita o contrário.

Aloys me respondeu de forma bastante firme e direta quando tentei, por reflexo, seguir isso. No momento em que me perguntou se eu gostaria de aprender piano e eu sequer tentei dar uma resposta mais frívola, ele me devolveu com uma correção certeira. Ele não queria meias respostas, ou falsa modéstia, nem mesmo algo vago. Ele queria uma conversa, com todas as letras e entonações. E não aceitaria menos que isso. Como qualquer pessoa normal.

Rowena Blanchard, uma bruxa, isso sim! Meretriz do Diabo, é isso que é! Olhos dourados, aqueles nojentos olhos dourados! E o cabelo negro, é tão escuro quanto a magia que pratica!

Não era. Deus, nada dentro de mim acreditava nisso. A única pessoa de alma negra que eu conhecia era Eveline, Rowena... Rowena brilhava. Ela resplendecia, era incapaz de não chamar atenção mesmo que fosse seu objetivo. Tinha o sorriso mais gentil que eu me lembrava e se era bruxa ou não, não era importante. Me lembrei da festa e como ela curou meu braço com a água e senti novamente algo dentro de mim se aquecer em sua presença, confirmando o que eu sentia. Não importava, pois eu sabia que se tinha algo que ela não praticava era magia negra. E eu gostava dela, sempre gostei.

Gostaria que Mrs. Blanchard fosse minha mãe.

— Ele é... Aloys é... Ele... eu... – acabei soltando uma risada que nem sabia que estava presa dentro de mim. – Ele é real?

Rowena riu e isso apenas me fez rir mais ainda, rodando em mim mesma e observando seus olhos. Estavam quentes enquanto ela me arrumava o cabelo de forma distraída, sem realmente arrumar.

— Oh, meu anjo, não sabe o quanto estou feliz por isso! Eu sabia que os dois se dariam bem, sempre soube!

— O que você está fazendo? – Perguntei através da alegria compartilhada por mim e por ela. Era bom ter alguém tão feliz com os acontecimentos quanto eu. Era excelente, na verdade.

— Ah, bem, o almoço – ela encolheu os ombros, voltando a se endireitar, pondo as mãos no quadril. – Dispensei as empregadas, elas não iriam deixar eu fazer nada! – Bufou. – Me perdoe, Belle, mas não aguento ficar parada. E me pareceu uma boa ideia cozinhar, já que é algo que gosto de fazer. Aimeé foi buscar algumas coisas para mim no mercado, e levou Aloys, percebi, ela não sabe onde fica – soltou uma risadinha. – Gostaria de me ajudar?

— Mas, Rowena... – senti minhas bochechas esquentarem. – Eu não sei cozinhar.

Ela sorriu para mim e se inclinou, fazendo o rosto ficar na minha altura. Rowena era alta, então teve praticamente que se curvar inteira para isso, mas conseguiu o fazer sem parecer muito esforço. De repente, estava de cara com o dourado brilhante de seus olhos e seu sorriso amável. Ela levou o dedo indicador ao meu nariz e deu um leve tapa.

— Não seja por isso, querida, eu lhe ensino. E me chame de vovó.

Rowena pretendia fazer crepes. Eu não me lembrava da última vez que havia comido algo assim. Talvez por levar trigo, não importa se for doce ou salgada, e Eveline era alérgica. Provavelmente, havia sido isso que mandou Aimeé buscar no mercado. Mas enquanto o principal ingrediente não chegava, ela se ocupava preparando o recheio. Achando as carnes e os queijos, ela logo se ocupou em temperar o primeiro e me separar o segundo, me entregando uma faca. Após me mostrar como se fazia e me observar por algum tempo, se concentrou na sua parte.

Isso até eu ser atingida por um pequeno osso.

Virei meu rosto para vovó, que sorria para mim, a mão armada com mais dois. Eram os ossos das carnes que ela estava tirando cuidadosamente e colocando em uma pilha. Não perdi a chance para pegar uns para mim e mirar nela. Logo, havia virado uma pequena guerra de ossos enquanto sua figura rápida se escondia atrás da bancada e me lançava certeiros ossinhos na cabeça. Eu não conseguia acertar a maioria, mas estava rindo demais para me importar.

— Não acredito, eu saio por uns instantes e me deparo com uma cena como essa! É um absurdo! – Virei o rosto para ver Aimeé na entrada da cozinha, segurando uma sacola de mantimentos. Aloys estava logo atrás, olhando curioso para a cena e sorrindo para mim. Sua irmã apenas parecia incrivelmente desgostosa. – Vovó, o que significa isso?

— Acho bom você se acostumar, irmãzinha – meu noivo passou pela irmã e veio até mim, me beijando a testa depois de deixar três pesados sacos de trigo na mesa. – Belle é da família, é natural que faça tudo que a família faz, inclusive guerras de comida.

— Vocês fazem muito isso? – Perguntei o olhando, não conseguindo evitar de sorrir. Ele ainda estava ao meu lado, a mão tinha ido para minha cintura e ele me segurava ali, bem ao lado dele.

— Apenas as terças, querida – Rowena respondeu e eu sabia que era uma ironia, então ri. Ela olhou a neta e foi até ela, beijando-lhe os cabelos. – Mas seu irmão está certo, meu bem. Belle é da família agora, é natural que aja como tal.

Por alguns momentos minha cunhada pareceu extremamente contrariada, mas por fim seus olhos perderam o mal humor e voltaram a rotineira malícia junto ao sorriso afiado.

— Isso é ótimo, na verdade – ela lançou o sorriso para mim. – Sempre quis ter uma irmãzinha, Bebelle.

— Não ligue para ela, Belle – Aloys devolveu o mesmo sorriso cortante para a irmã. – Ela só está com ciúme.

— Não sei do que – Aimeé retrucou, os olhos estreitos para o irmão, uma sobrancelha arqueada de deboche. – Se a vovó quer outra criança, que seja. Eu sou uma mulher, de qualquer jeito.

— Oh, é mesmo, senhorita adulta? – Rowena estreitou os olhos, levando uma mão até a orelha da neta, beliscando-a de modo que ela se contorceu. – Tem certeza de que já não é mais criança?

— Ai! Vovó! Foi brincadeira, eu só tenho dezessete! – Aimeé se contorcia, e quanto mais ela fazia, mais eu sentia Aloys tremer. Pelo visto alguém estava se segurando muito para não rolar de rir.

— E é bom que não se esqueça disso. – Com um último olhar entre os cílios, vovó soltou a orelha de Aimeé, que levou a mão imediatamente até lá, resmungando e a esfregando. Aloys olhava a irmã como se tivesse vencido alguma coisa e pela cara que fez, ela provavelmente teria avançado em cima dele se Rowena não voltasse a falar. – Agora, se quiserem fazer alguma coisa além de ficarem parados: Aloys, arrume essa bagunça, Aimeé, me ajude com a massa e Belle, continue cortando.

— Sim senhora – o som da voz dos gêmeos juntas me fez dar um leve pulo que fez Aloys sorrir e me beijar o rosto antes de ir procurar uma vassoura. Aimeé não estava prestando atenção na cena graças a estar bastante ocupada com a avó, o que foi um alivio, pois não tinha certeza se aguentaria mais um ataque em menos de cinco minutos.

Levei um tempo para observá-los enquanto terminava a minha parte, e não podia estar mais maravilhada. Os Blanchard funcionavam perfeitamente um com o outro. Depois de absorver a surpresa de Aloys limpando o chão de maneira tão natural – pois ele era o um homem e, bom, isso não era algo que se via todo dia -, olhei o modo que ele foi para a esquerda de sua avó, enquanto Aimeé estava na direita. Tirando o modo assustador que os gêmeos se moviam (se prestasse atenção, poderia observar que seus movimentos eram perfeitamente sincronizados), a relação com a avó era natural e fluida.

Quando Rowena pôs o recheio na panela para esquentar, e os gêmeos já haviam terminado a massa, os três se sentaram na mesa da cozinha, e vovó mandou que eu também viesse. Logo, eu estava ao lado de Aloys, que estava ao lado de Aimeé, que estava de frente para a avó, que me olhava.

— Quando for morar conosco, Mabelle – Rowena começou enquanto soltava o cabelo, finalmente. Ele caiu de modo suave pelas suas costas, voltando a emoldurar seu rosto, apesar de não fazer diferença. Suas maçãs do rosto marcadas eram notáveis e admiráveis com ou sem a cascata negra as contornando. – Vai ver que temos uma vida bastante diferente da que está acostumada. Para começar, não temos empregados, e tudo fica distribuído entre nós três. E todos fazem um pouco de tudo. Não existe essa besteira de que homens não fazem comida nem limpam a casa. Um dia verá Aloys tirando o pó e Aimeé cortando madeira, e no seguinte, o contrário. Eu cuido da casa, em geral, e ficarei feliz de contar com sua ajuda.

— Claro – concordei sorrindo. Provavelmente por sentir a mão de Aloys na minha, invés da ideia de ter que arrumar a casa, mas isso era um detalhe. – Eu não sei fazer nada, já que Eveline nunca me deixou aprender. Mas vai ser ótimo tentar.

— E com o tempo você pega o jeito, não se preocupe – vovó sorriu. – O trabalho manual fica para os dois, é claro. – Ela gesticulou para os netos. – Cuidar dos animais, cortar madeira, buscar comida, fazer reparos... eu e você ficaremos com a casa, como fazer comida, lavar a louça, limpar.

— Porque eles que ficam com o trabalho pesado?

— Porque ela é uma preguiçosa – eles responderam, o que fez Rowena dar um sorriso bastante parecido com o que deu para Eveline quando lhe impediu de me bater.

— Devo lembrar aos dois que os criei completamente sozinha e que, antes de vocês terem força para fazer qualquer coisa, eu lavava, limpava, cozinhava, cuidava dos animais, do jardim, da casa e de vocês?

As bochechas dos dois esquentaram e eles encolheram os ombros, dando sorrisos fracos antes de falarem.

— Não, desculpe, vovó.

— De qualquer maneira – ela arrastou o olhar dos netos para mim e esticou a mão sobre a mesa para pegar a minha livre. – Espero que aconteça logo. Não há motivos para o casamento demorar, certo, Aloys?

— Absolutamente – ele respondeu antes de virar o rosto para me olhar, a covinha aparecendo. – Certo, Belle?

— Nenhum – foi o que consegui responder, com o coração disparado. Aimeé abriu a boca para soltar algum celebre comentário, mas a porta da frente foi aberta e eu reconheci as passadas pesadas. Papai apareceu na porta da cozinha: primeiro, confuso. Depois, se derretendo por vovó. E então, feliz em me ver.

— Meu anjo, o que...?

— Cozinha, pessoas nela, cheiro de comida, não seja burro – Aimeé respondeu por mim, recebendo os olhos estreitos da avó. Então ela olhou para meu pai e deu um sorriso que era reconhecível como uma tentativa do de Rowena. – Perdão, Mr. Bertrant, eu quis dizer que estamos esperando o almoço ficar pronto, simplesmente.

— Sim, papai – me levantei indo em direção a ele, sorrindo ao lhe beijar o rosto. – Vovó fez crepes.

— Estou sentindo o cheiro – papai sorriu e eu juro que ouvi a barriga dele roncar. – Fiz muito bem em vir almoçar em casa.

— Já é a hora do almoço? – Perguntei procurando o relógio, mas não precisei.

— Sim, querida – Rowena se levantou como se estivesse dançando e sorriu para eu e meu pai. – Porque não leva seu pai para a sala? Nós iremos arrumar tudo, tenho certeza que ele também está curioso sobre como passou a manhã.

— Muitíssimo – meu pai respondeu, o que me fez corar um pouco e olhar para Aloys, que piscou para mim, piorando um pouco a situação. – Mas, Rowena, você não quer ajuda...?

— Saia agora da cozinha e vá dar atenção para sua filha, Patrick – os olhos estreitos de vovó contrastavam com sua risada baixa, e o sorriso que meu pai deu para ela só poderia se denominar apaixonado. Provavelmente nem ouviu o que disse antes de murmurar um “sim, senhora” e se deixar ser levado por mim para dentro da sala.

Me sentei com ele na mesa e encarei seus olhos castanhos. Eram os mesmos que os meus, fortes e brilhantes, e ainda estavam concentrados no caminho que havia feito. Talvez achasse que se olhasse tempo o suficiente iria conseguir ver através da parede e observar Rowena, tão graciosa como um pássaro, rodando pela cozinha. Gentilmente, coloquei a mão na dele e enfim ganhei sua atenção. Papai tinha os olhos ainda brilhando como ficavam toda vez que a via, e sua barba rala me fez cosquinhas quando me beijou o rosto.

— Como foi, meu anjo? Ele lhe tratou bem? – Perguntou, me fazendo sorrir. A lembrança da manhã que passei com Aloys voltou ao cenário principal da minha mente, me fazendo sentir as pernas tremerem.

— Papai, ele foi incrível, ele é incrível! – Respondi cobrindo a boca com as mãos, tentando parecer menos tola. Mas meus olhos me denunciavam. Deviam estar tão brilhantes quanto os dele. – Estou feliz, papai, feliz! Ele é inteligente e gosta de ler, e gosta que eu goste de ler! Se ofereceu para ensinar-me piano e é fascinado com doces. Ele me ouve, papai! E quer me escutar! Juro por Deus, ele é tudo que sempre quis!

— Não sabe como me deixa feliz com isso, minha filha, tudo que quero é que seja feliz, e espero que esse garoto tenha sucesso nisso, ou vai se ver comigo. – A ideia de meu pai e Aloys brigando me fez rir. Era absurda. Isso nunca aconteceria pois eu tinha absoluta certeza de que seria imensamente feliz. Sabia disso.

Nos restou observar os Blanchard nos servirem o almoço. Não demorou muito e a comida estava na mesa, os pratos postos e os talhares entregues. O cheiro era delicioso e eu mesma, que não era muito de comer, senti minha boca salivar. Mas de nem de longe chegava no mesmo nível que os gêmeos, que se atropelavam, um do lado do outro, os olhos fixos na comida e os corpos tensos como se esperassem o sinal de largada em uma corrida. Rowena havia se sentado na direita de meu pai, o cabelo solto, o vestido chamando atenção.

Não sabia se ele conseguiria se concentrar na comida.

— Espero que gostem – vovó sorriu e olhou para os netos. – Vocês dois: educação.

— Certo. – Não acho que eles ouviram. Puseram a comida tão rápido no prato e em tal quantidade que eu engasguei. Havia me perguntado a razão de fazer tanta comida para cinco pessoas. Agora entendia o motivo. Se houvesse feito uma quantidade “normal”, os gêmeos teriam comido tudo eles mesmos. De cara, desfalcaram juntos boa parte da travessa antes que a liberassem. Então Rowena serviu a mim, e então a meu pai – que lhe deu um sorriso entre agradecimento e perdido em um mundo dourado – e por fim, para si mesma.

Quando pus a primeira garfada na boca eu entendi o porquê Aimeé mal levantava a cabeça e a razão de Aloys nem se importar com o copo de água que estava ao seu lado.

— Meu Deus, Rowena – meu pai arfou, olhando-a com a mão no coração. Ela apenas arrastou os olhos de forma preguiçosa para ele. – Esse é o melhor crepe que já comi na minha vida!

— É claro que é – Aimeé encontrou tempo entre uma garfada e outra para responder, os olhos com o brilho malicioso, mas o sorriso havia sumido. Ela também tinha uma covinha? No lado oposto do irmão, na bochecha direita.

— Não tem comida melhor que a da vovó. – Aloys completou, finalmente se dando o trabalho de beber alguma coisa.

— O segredo é a prática – Rowena respondeu sorrindo. Ela mesma não havia colocado muito e piscou os longos cílios para meu pai. – Agradeço, Patrick. Vamos, coma mais.

Ele comeu. Todos comemos. Os gêmeos principalmente. Mas fomos interrompidos quando a porta da frente se abriu e Etienne entrou como sempre entrava quando chegava da casa dos Foucher: bagunçado e faminto. E de mão dada com Eveline.

Ela usava um vestido cinza pesado, com um xale jogado sobre os ombros. Os olhos se arregalaram com horror quando encontrou a cena de Rowena e os gêmeos Blanchard na mesa de sua casa, almoçando como se fosse a deles. Então, veio a raiva e eu podia ouvir a tempestade se formando.

— Patrick – o nome do meu pai soou como uma maldição na boca dela. – O que significa isso?

— Um almoço, burra – Aimeé devolveu. Dessa vez Rowena não fez nada para indicar que a neta se redimisse.

— A moça está certa – meu pai respondeu, olhando para Eveline com notável desagrado. – Pensei que soubesse reconhecer uma refeição.

— Para o inferno com sua ironia! – Ela rosnou. – O que essa gente está fazendo na minha casa?!

— Que péssimo exemplo de compostura você dá para seu filho, Eveline – Rowena rebateu, a voz calma, mas os olhos duros. – Veja, o menino está pálido como um morto, vá saber quantos descontroles já teve que presenciar. – Ela balançou a cabeça de forma pesada, sem nunca desviar os olhos de minha mãe. – E creio que essa é a casa dos Bertrant, cujo líder é Patrick Bertrant, e não você, que nasceu uma Foucher. Logo, acredito que quem tem poder de convidar ou não as pessoas para dentro da casa é ele, em sua maioria.

— Não me diga como cuidar do meu filho, bruxa! – Ladrou, dando um passo para frente. Rowena nem se mexeu, mas os gêmeos se levantaram no mesmo segundo. Nunca vi os olhos de Aimeé tão mortais e nem os de Aloys, que finalmente haviam revelado a selvageria e desejo por sangue camuflados por baixo. Isso fez Eveline parar, o rosto lívido, o olhar aterrorizado.

— Nosso filho, Eveline – agora, meu pai havia levantado, e isso me fez encolher. Era sempre assustador quando ele fazia isso. Sua figura dobrava de tamanho e seus olhos brilhavam tanto que pareciam claros. – E, devo dar razão, antes de sua, essa é a minha casa e eu convido para ela quem eu quiser. Principalmente o noivo de minha filha e sua família.

— Noivo?! – Pela primeira vez, Eveline olhou para mim. E eu achei que já tinha visto seu olhar de nojo, de raiva, de arrependimento, de vergonha, de desgosto antes. Mas não havia. Eu o via agora. Poderia me sentir um verme, e teria me sentido, se Aloys não houvesse soltado um, Deus, rosnado. Ele olhava com tanto ódio e sede para Eveline que eu poderia jurar que ele iria arrancar a cabeça dela, aqui e agora. A única coisa que o prendeu no lugar foi Rowena, que olhou para o neto por tempo o bastante para ele se firmar onde estava.

Eu precisava fazer alguma coisa antes que isso virasse um banho de sangue.

— Sim, noivo. – Me peguei falando. Antes que perdesse a coragem, me levantei e virei, encarando minha mãe. Eu tinha minha fita. Eu tinha Aloys. Eu tinha Rowena. Meu pai. Até mesmo Aimeé.

Me prometa, Mabelle, prometa que não terá medo.

E eu tinha a mim.

— Meu noivo, Eveline, quero que saiba exatamente quem é – ergui o queixo, fiz questão de erguer, do jeito que havia aprendido. — Aloys Blanchard, é com quem vou me casar. Filho do Lobo, neto de uma bruxa, quem sabe? Não me importa, assim como não me importa o que você acha! – Sibilei. – Não vou perder meu tempo tentando fazer com que entenda, não vou gastar minha vida esperando que compartilhe da minha felicidade. Você é incapaz de ser feliz, Eveline, mas graças a Deus, eu não sou! E ser feliz é o que pretendo ser, e muito, quando me casar! Na verdade, é o que já estou sendo, ou estava, antes de você aparecer. Então faça o que prometeu, e faça um favor para nós duas: não conviva comigo pelo resto de tempo que ainda tenho nessa casa. Volte para casa do meu tio, seu irmão, e fique lá. Ele, infelizmente, tem a eterna obrigação de lhe aturar. Pois eu garanto que meu noivo e sua família são e serão muito bem-vindos aqui, aparecendo quando e quantas vezes quiserem. Ao contrário de você, já que ninguém lhe quer aqui.

Houve silêncio. Eveline me encarou, os lábios trêmulos, os olhos atônitos. Reparei que não estava triste. Estava raivosa. Estava com o orgulho destruído. Estava humilhada. Ela levantou a mão e por um momento achei que me bateria, mas tudo que fez foi apertar os dedos com força e a abaixar de novo.

— Etienne... – Sua voz tremeu quando se lembrou de meu irmão, mas ele não estava mais ao seu lado. Havia corrido para meu pai, e era ele que olhava para ela.

— Meu filho irá ficar comigo, se não se importa – ele cortou. – Irei mandar suas coisas para casa de seu irmão o mais breve possível. Até lá, estávamos no meio de uma refeição.

Eveline não disse mais nada. Apenas olhou com todo o ódio do mundo em direção a Rowena, que não se dignou nem mesmo a olha-la. Ela estava ocupada demais pegando um Etienne trêmulo nos braços, tentando o reconfortar.

Eu continuei parada onde estava até sentir mãos firmes e febris me abraçando pela cintura, e meu rosto sendo enterrado em seu corpo quente. O cheiro de Aloys era parecido com sua avó: floresta, algo mais profundo, e casa. Ele era minha casa agora. Ele, que havia se mostrado tudo que eu imaginava e nada do que esperavam. Vovó, que desde o primeiro momento havia me recebido em sua família, com seus sorrisos amáveis e gestos calorosos. Até mesmo Aimeé, com seu sorriso afiado e olhos faiscantes, não era tão ruim quanto parecia. Ao menos eu esperava. Era mágica a forma que tudo havia acontecido. Magia.

No fundo, desejei que ela existisse.

No fundo, sabia que existia.

Notas finais
Então amores? Gostaram? Espero que sim :3 Bjs da tia! P.S. São 2:45 am