Lua Vermelha
4 Capítulo 2
Passei uma, duas, três quadras á pé a procura da casa de meu namorado. Estava perdida. Pronto. Tudo o que faltava para completar o meu dia. SEN-SA-CI-O-NAL.
Passei mais uma quadra até que decidi parar e perguntar.
- Oi, com licença. O senhor poderia me informar onde é a casa do Lucas Peixoto? – Perguntei à um senhor, provavelmente dono do bar em que eu havia parado.
- Sei sim, mas você está um pouco longe. Desce a rua até chegar naqueles predinhos ali. – Ele indicou com o dedo um lugar com um monte de casas amarelas e germinadas. – Vire à esquerda e você verá um portão branco. É lá.
- Ah, sim. Obrigada.
- Não tem de que.
Então segui pelas ruas onde me foram indicadas as direções.
Cheguei ao portão branco, respirei fundo, e toquei a campainha. Aquilo sim era um ato de coragem, pois desde que começamos a namorar, a mãe de Lucas me odiava.
Alguns segundos depois ele veio atender.
- Bella? O que está fazendo aqui?
- Está sozinho? Posso entrar?
- Estou sim. Entra...
- Obrigada. – Eu disse, e assim que ele abriu o portão, cai em seus braços, chorando. Eles eram tão reconfortantes!
- Shi... Shi... Calma Bella... Me diz o que aconteceu. Por que está chorando? – Ele perguntou, passando a mão em meu cabelo e conduzindo-me para dentro. Eu confesso que estava chorando muito, de soluçar, então ele me deixou no sofá e foi pegar uma água com açúcar para me acalmar. Eca, eu realmente odeio aquilo. – Toma aqui. Agora se acalma e me conta o que aconteceu. – Ele me entregou aquela coisa nojenta de água com açúcar e sentou na minha frente.
Quando consegui me acalmar um pouco, desabei em seus braços mais uma vez.
- Foi horrível, Lucas. Eles me disseram que vão se divorciar e meu pai vai morar em Los Angeles. Depois eu briguei com a Lorena porque ela já sabia e não me contou... – Eu disse as palavras muito atrapalhadas, uma atropelando a outra. Se ele entendeu ou não, eu não sei, mas me deu um enorme alivio contar aquilo para alguém, principalmente esse alguém sendo o meu namorado lindo e perfeito.
- Nossa Bella... Eu não sei nem o que te dizer, pois nunca passei por essa situação. Mas pensa por esse lado: com o seu pai morando em LA, você pode realizar seu sonho de ir para lá, e ás vezes, quem sabe, até morar lá. Quanto a isso, seria muito legal, né?
- Como assim? Você quer se livrar de mim?
- Amor, lógico que não. Só estou te falando os pontos positivos. Eu te amo, não gostaria que você fosse, mas se isso te faz feliz, eu aceitaria. – Ele fez uma pausa para olhar em meu rosto para ver se eu estava acompanhando seu raciocínio – E outra, agora a coisa mais comum no mundo é pais separados. Lembra-se daquela pesquisa na escola que fizemos sobre isso?
- É fácil para você falar, como você eloquentemente colocou, nunca passaste por isso.
- Credo, você agora falou igualzinho sua irmã. – Eu ri. Ele nos conhecia muito bem, afinal antes de sermos namorados, fomos amigos por nove anos. – Viu? Já está até rindo. Eu acho que você tem que ir lá para sua casa e falar com seus pais. Afinal vocês têm muito para conversar... Se quiser eu te levo. – Eu adorava o modo como ele me fazia ficar ridiculamente boba, apesar de não gostar muito do fato de me sentir tão volúvel assim com um homem... Era bom tê-lo ali, um menino de 18 anos, sem mentalidade de um de 2, maduro o suficiente para mim. Diferente de todos os outros caras idiotas que conhecíamos.
- Posso ficar só mais um pouquinho? – Eu pedi fazendo o meu famoso biquinho. Ele me deu um beijo e fez que sim com a cabeça. – Brigada. – Eu disse, querendo cair no choro de novo. Eu estava irreversivelmente apaixonada por ele. Era bom me sentir assim. Tudo fica mais bonito quando estamos amando e sendo amada. O mundo inteiro se abre em um universo de infinitas oportunidades e opções.
Ficamos ali no sofá, abraçados, sem falar nada. Eu agradeci silenciosamente por ele me entender tão bem. Eu não queria, e acho que nem conseguia, falar nada, e ele entendeu isso.
Mais ou menos trinta minutos depois, meu celular tocou. Fui até a mesa, onde estava minha bolsa, procurei meu celular e, na hora que o achei, vi quem era. Nossa como minha família era previsível. Se bem que a Lorena demorou um tanto bom para me ligar. Quarenta e cinco minutos é muito tempo para eles. E pediram para ela ligar, pois sabem que eu nunca rejeito uma ligação da minha gêmea.
- Atende. – Lucas me disse, fazendo-me pular, pois não havia visto que ele estava atrás de mim. Apertei a tela de meu iphone e coloquei-o em meu ouvido.
- O que você quer? – Eu perguntei rude demais, até mesmo para mim.
- Bells? Onde você está? – Para minha surpresa, a voz que vinha do outro lado da linha não era de minha irmã, e sim de meu pai.
- Não te interessa pai. Eu volto para casa quando eu quiser.
- Não Isabella. Você vai voltar agora. Onde está? – Ele perguntou, começando a ficar bravo.
- Olha pai, você não tem o menor direito de estar bravo comigo, ok? Se quiser saber onde eu estou, manda rastrear a porra da ligação. Eu sei que vossa excelência consegue, afinal, controla nossa vida mais do que tudo, né? Mal para em casa e mesmo assim quer ficar enchendo o saco. Quer saber? Estou começando a gostar da ideia de você em LA. – Eu gritei e desliguei o telefone.
Lucas me abraçou e disse que ia me levar para casa. Seria o melhor.
Eu queria ir para casa, mas sabia o que me esperava. Meu pai ia gritar comigo, minha mãe ficaria nervosa, a Lorena me defenderia (o que eu não tinha certeza que aconteceria, com a raiva que ela deve estar de mim...) e eu ficaria de castigo. Típico.
Desvencilhei-me de seus braços quentes e aconchegantes, olhei para seu rosto perfeito de ator de filme americano, dei um beijo em seus lábios macios e sai pela porta da frente. Ele não tentou impedir-me, pois sabia que não adiantaria.
No caminho para casa passei em uma sorveteria para tomar o melhor milk-shake do mundo. Pedi como chantili extra, duas bolas de sorvete de chocolate, raspas de chocolate branco, cereja e dois canudinhos de bolacha. O cara, provavelmente vendo o péssimo estado em que me encontrava, encheu o milk-shake de chantili. É, estar com uma cara horrível ás vezes tem seu lado bom.
Cheguei em casa e nem dei moral aos meus pais ou à minha gêmea e fui direto para meu quarto tomar um banho bem gelado. Eu tive um dia longo, merecia pelo menos aquele banho. Eram cinco e meia da tarde, ia começar Malhação. Não perco um capítulo se quer. É, meu banho não será nada do que prometeu ser, mas de noite eu vou para a banheira e fico lá atoa por pelo menos uma hora. Nada nem ninguém vai me impedir. Terminei meu banho de cinco minutos, vesti uma camisola e liguei minha TV de plasma com TV a cabo. Como eu amo ser de classe média alta! Quer dizer, a um pouco menos de dois anos mamãe mal tinha dinheiro para pagar uma misera TV de 29’ polegadas. Não tem nada de mal em me gabar um pouco, certo?
Vi toda minha novela preferida sem interrupções, mas como previsto, foi só acabar Malhação para a Lorena vir me atormentar... Perguntas como “o que a gente vai fazer Bella?” ou afirmações como “você não pode ficar emburrada para sempre” foram igual água no mundo: há muita, todo mundo sabe que vai “acabar”, mas nunca acaba. Contraditório, não? Bem vindo a minha família.
Sete horas da noite anunciaram que sairíamos para jantar.
- Boa sorte para vocês FAMIILIA. – Eu fiz questão de gritar e enfatizar a palavra “família” quando pediram para eu ir. Agora sim eles tentavam confraternizar? Faça-me rir. Antes eu realmente achava que família era um grupo de pessoas unidas pelo amor e pela vontade e coragem de viverem juntos. Companheirismo, cumplicidade, honestidade, amor, dedicação... Todas as palavras que me lembravam “família”. Era uma pena que agora essa palavra me parecesse tão vazia e sem sentido.
Pelo menos agora eu teria sossego. Ou não. A campainha havia tocado, desci para ver o que me aguardava dessa vez.
Atendi e, para a minha surpresa, era o Lucas.
- Estava passando por aqui quando vi seus pais saindo e decidi dar uma passadinha para ver como a senhorita está. – Ele me disse, me olhando com uma cara de quem estava morrendo de dó. Odeio quando alguém, qualquer um, me olha com essa cara. Mas principalmente o meu namorado. Ninguém merece.
- É, eu estou bem. Mas para de me olhar com essa cara de quem está morrendo de pena, isso me irrita profundamente, e você sabe bem disso. – Eu disse um pouco rude demais.
- Desculpa... Er... Posso entrar? – Ele disse apontando para dentro da casa.
- Ah, claro. Desculpa. – Eu disse, abrindo a porta para ele passar.
Sentamos no sofá, onde permanecemos calados, eu deitada, literalmente, em cima dele. Era bom estar em braços tão quentes e fortes.
- Vamos lá para cima? Aqui está desconfortável. – Ele me disse, apontando para o andar de cima.
- Uhum, só não repara a bagunça que meu quarto está. Tudo culpa da Lorena! – Eu me apressei em dizer. Ele me olhou atravessado, pois sabe o quão bagunceira eu sou. Mas o pior é que dessa vez era realmente culpa da gêmea. Ela saiu e deixou tudo fora do lugar.
- Bella, você e sua irmã são mais organizadas que tudo, duvido que tenha alguma coisa fora do lugar. Quer dizer, você pode até ser ligeiramente bagunceira, mas quando a coisa aperta, você dá logo um jeito de se livrar da bagunça. Taurina. – Eu revirei os olhos. Ele era tão perfeitamente irritante, tão perfeitamente perfeito, que ás vezes eu me perguntava se realmente o merecia. – Então – Ele falou interrompendo o meu blábláblá mental. – Será que está passando alguma coisa que preste na televisão? – Ele ligou a TV e me puxou de volta para seu colo, sentando na cama.
Conversamos um pouco, sobre coisas banais tipo colégio, que chegaria daqui a poucos dias, até rolou uma conversa sobre o clima. Pois é. Tenso. Até que realmente rolou um clima entre a gente.
Ele começou a me beijar. Passou pela orelha, pelo queixo, pelo canto da boca e até que chegou a meus lábios. A cada beijo que ele me dava os meus pelos se eriçavam, os seus lábios eram gentis em minha pele, em minha boca. Ele me deitou devagar na cama e tirou a camiseta, quando ouvimos o barulho da porta da sala abrindo. Meus pais e minha irmã haviam chegado, e se nos pegassem ali me matariam! Sai da cama com um ligeiro golpe que eu havia aprendido no caraté à alguns meses e mandei o Lu entrar no banheiro e ficar lá até segunda ordem. Arrumei meu cabelo, ajeitei minhas roupas e sentei na cama, com uma cara de tédio total que só eu sabia fazer.
- Bella? Ainda esta acordada? – Lorena abriu devagar a porta, olhando para dentro para ver se havia algo de errado.
- Entra logo, tonta. – Eu respondi, para variar, grossa demais.
- Cadê o Lu? – Ela entrou olhando para os lados para ver se o encontrava, ignorando minha ignorância. Irônico, não?
- Ãn? Como assim “cadê o Lu?”. – Eu perguntei como quem não sabe de nada.
- O carro dele está estacionado do outro lado da rua, tonta. – Ela retrucou numa imitação barata e fraca do meu modo de falar. — Cadê ele?
- Ai cassetada! – Eu disse, mais parecendo uma caipirona do que eu mesma. – Eu havia me esquecido disso. Então, já que você já sabe me ajuda a tirá-lo daqui antes que os pais notem.
- Ah, lindinha, agora você quer minha ajuda? Pra que isso? Há três segundos eu não era a tonta? – Disse ela com um tom de sarcasmo evidente em suas palavras. Eu ri. Era verdade, estava sendo interesseira. Mas irmãs servem para isso, certo?
- Por favor! – Eu implorei – Me ajuda agora que, quando você estiver namorando, eu encubro vocês pro que for preciso.
- Espera um instantinho ai, vocês dois não...? – Ela disse, começando a falar sobre como eu era nova e mais um monte de coisas chatas do século passado. Tapei a boca dela e comecei – Não, nós não TRANSAMOS. E para de tratar isso como se fosse um crime. E você não vai morrer se falar a palavra sexo. Quer que eu soletre? S-E-X-O. – Eu falei bem pausadamente no mesmo tom de sarcasmo que ela havia usado comigo há alguns segundos atrás. — Pronto. Viu? Eu não morri.
- RÁ RÁ RÁ. Realmente muito engraçado, senhorita Isabella.
- Whatever. Mas e ai, vai me ajudar ou não?
- Vou, vou. Fala, onde ele tá? A não! Não vai me falar que ele está de baixo da NOSSA cama, irmãzinha. – Eu dei uma gargalhada tão alta que até me assustei. Primeiro que “nossa” cama mal tinha espaço de baixo, e segundo que um menino de dezoito anos com um metro e oitenta de altura não caberia lá em baixo. E tinham que ter visto a cara que ela fez. Foi hilário.
- Ele esta no banheiro. Lu, sai dai. – Eu “gritei baixo”. Quando ele saiu, choquei. Ele estava com uma cara de assustado, parecendo com medo e com os olhos muito arregalados. – O que aconteceu, amor? Que cara é essa? – Eu perguntei indo junto a ele.
- Eu... Eu... Ali... O que aconteceu ali? – Ele disse, depois de gaguejar muito.
- Por quê? O que você viu? – Eu comecei a ir ao banheiro, para ver o que havia acontecido quando a mão gelada de meu namorado agarrou o meu antebraço, me parando de repente.
- Não entra lá Bellinha. Tirem-me daqui rápido, amanhã eu volto para ver como estão.
- Não, espera ai. O que aconteceu? – Eu falei me soltando de sua mão e indo em direção ao meu banheiro. Ele entrou na minha frente, me parando de novo. – Sai da minha frente, Lucas. – E, empurrando ele eu entrei. Não aguentei e dei um grito que até eu me assustei. O chão do banheiro estava cheio de sangue, com um cheiro horrível de ferro com maresia. Desmaiei. Não tenho a mínima ideia do que houve lá, naquela hora, e quando tento me lembrar, sinto uma dor de cabeça insuportável. Como se houvesse algo estivesse bloqueando minha mente.
Acordei no outro dia, mais ou menos cinco e meia da manhã. Era segunda-feira, dia 9 de março. Levantei com o barulho do despertador da minha irmã, tomei um rápido banho, troquei de roupa e desci para tomar café da manhã.
- Bom dia Bellinha! – Minha mãe falou, vindo me abraçar, quando entrei na cozinha.
- Bom dia? – Perguntei a ela, me esquivando de seu abraço. – Por que “bom dia”? O que tem de tão bom nessa merda desse dia? – Eu terminei, fechando a cara e revirando os olhos quando a Lorena entrou dizendo que eu devia ser mais carinhosa e menos agressiva com meus pais. Foda-se a certinha.
- E ai, animadas para a volta as aulas? Rever os amigos... – Mamãe disse.
- Rá. Essa foi boa. – Zombei – É lógico que estou muito empolgada para acabar com a minha vida. Er, de novo. Pelo amor de Deus, deixem-me faltar aula!
- Não Isabella. Não é não, e ponto final. Nem mais um piu sobre isso, ouviu? – Mamãe quase gritou, se levantando da mesa e tacando o pão que ela estava nas mãos na bandeja – Perdi até a fome. – Disse ela enquanto subia as escadas.
- Pegou pesado, maninha. Você acha que não está sendo super duro para ela enfrentar tudo isso sozinha?
- “Tudo” o que, exatamente? A separação? Que mais?
- Bella, você não está sendo exatamente a pessoa mais compreensiva do mundo.
- E você não está sendo exatamente a melhor irmã do mundo. – Eu falei sarcasticamente – E, espera ai, você tá falando que eu sou um problema na vida da mãe? Ai, quer saber? Foda-se vocês duas. – Eu disse, me levantando e atirando o copo de vidro que estava em minhas mãos no chão.
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