Lua Vermelha

2 Capítulo 1 - Parte I


Notas iniciais
Essa é a primeira parte do primeiro capítulo. Espero que gostem e boa leitura! Não se esqueçam de comentar!

Sentei-me na cama da Lo, depois deitei a cabeça no colo dela.

- Está chorando, Bella? – Lorena perguntou, repreendendo-me de novo, pois não havia percebido que estava chorando.

- É, né?! Acho que sim. – Respondi em um tom sarcástico.

- Vai dar tudo certo maninha. Vai dar tudo certo... – Lorena falou, só que parecia que estava repetindo mais para si mesma do que realmente para me acalmar. Mas funcionou.

Acabamos dormindo na mesma cama, eu deitada no colo da gêmea e ela deitada para trás com a televisão ligada.

Acordei cedo no outro dia, pois a janela ficou aberta, coberta apenas pela persiana rosa choque que havia. Levantei, vendo-me totalmente vestida com o meu Jeans surrado, minha blusa roxa da DOLCE&GABBANA e o meu salto da Melissa preto (que, aliás, eu amo de paixão), e fui para o banheiro tomar um belo banho. Olhei-me no espelho e não consegui evitar o meu gritinho histérico, que logo tratei de silenciar, pois a Lorena ainda estava dormindo. Era sábado, e ninguém merece acordar antes das onze. Minha maquiagem preta e roxa estava toda borrada, dando a impressão de que eram olheiras.

Escovei os dentes e então entrei para o banho. Olhei para o meu relógio de pulso rosa, para variar: 8:10 da manhã. Não tinha dormido o suficiente ontem, pois fomos dormir ás duas horas da madrugada e estou morta de cansaço, apesar de estarmos de férias (que infelizmente acaba nessa segunda), não paramos em casa um segundo se quer!

Sentada no banco que mantínhamos no banheiro para quando fazemos hidratação nas madeixas e, agradecida pela minha mãe ter nos dado uma suíte, comecei a refletir sobre tudo o que estava acontecendo. Ali sentada no banco, com a água morna caindo sobre meus longos cabelos loiros era mais fácil assimilar as coisas. Afinal, por que mamãe e papai estavam brigando tão frequentemente? Será que nunca seriamos uma família feliz, normal e estruturada?

- Ai! – Falei ao sentir que alguma coisa tinha estalado em minha testa, algo como vidro me cortando. Mas não liguei. Afinal, estava no banho, o que poderia me atingir? Ignorando aquilo, continuei a filosofar. Ai, estou parecendo a Lorena. Eca.

Parece que as coisas sempre dão erradas nos momentos mais felizes da minha vida. Eu estava me dando bem na escola (quer dizer, ano passado, no nono ano, eu passei em tudo sem precisar de recuperação, o que é um milagre, já que a matemática existe...), estava mais popular do que de costume (caramba, mesmo com um monte de gente viajando, eu consegui ir a mais de dez festas em menos de um mês. É milagre ou não?), com um namorado que era tudo de bom (bonito, educado, lindo, fofo, gostoso, inteligente e lindo. Preciso de mais alguma coisa?), estava me dando bem com as minhas amigas e com a minha irmã. Daí vem os meus pais e começam a brigar feitos dois retardados e estragam a minha vida. Papai nunca foi a pessoa mais ligada na gente, então por que a mamãe estava tão grilada com ele por não saber que eu estou namorando? Eu não consigo entender esses casais...

Quarenta e cinco minutos depois, minha irmã acorda e bate na porta do banheiro.

- Beeeeeeeella. – Ela me chamou.

- Oi. – Respondi, engasgada no meio daquela água toda.

- Está destrancada? Posso entrar?

- Uhum, entra ai.

Quando ela entrou, senti os olhos de minha irmã assustada em cima de mim, e me perguntei o porquê deles estarem tão arregalados.

- Be... Bella... – Ela gaguejou – Por que tem sangue na sua testa?

Foi quando eu olhei para baixo, voltando à dura e cruel realidade, e vi a água com uma cor avermelhada. Passando a mão em minha testa, senti a dor do corte. Olhei para a minha mão que havia acabado de passar sobre a testa e vi o vermelho vivo que estava. Tratei de desligar o chuveiro e, ao levantar do banquinho, senti-me tonta e cambaleei para trás. Ao ver essa cena, Lorena entrou no box e tentou ajudar-me a sair e sentar na privada. Vendo que não conseguiria sozinha, gritou à nossa mãe, que entrou desesperada no quarto e quase escorregou no banheiro (e que nós duas tivemos de segurar para não rir).

- Como você fez isso, Bella? – Perguntou-me mamãe.

- Não sei mãe. Lembro-me de ter sentido algo cortar minha testa, mas não dei moral. E estava tão imersa em meus pensamentos que não me liguei no sangue escorrendo. – Eu respondi.

- Ok, vamos te enxugar, colocar uma roupa e levá-la ao hospital. Me ajuda aqui Lorena. – Mamãe disse, com um ar de muito mais velha do que seus 32 anos. Sim, ela nos teve quando tinha apenas 17 anos. Rodrigo, quer dizer, meu pai, tem 39 e mente de dois, já tem cabelos levemente grisalhos, porém nem é tão gordo quanto os seus amigos costumam ser. Mamãe é loira, de 1,56 m, de olhos azuis cor de piscina e magérrima (chega a ser feio. Ela quase não come e fica puta quando nós não queremos comer. Adultos, nunca vou entendê-los). Eu e minha irmã puxamos á ela, pois também somos loiras, de olhos azuis (não tão quanto os de nossa mãe, mas são bem claros) e temos mais ou menos 1,60 metros de altura.

Quando me colocaram de pé, olhei-me no meu espelho com borda cor-de-rosa. Sim, eu sou total e completamente apaixonada em rosa, roxo, preto e suas respectivas variações.

- UOOOOOOOOOOOOOOOOOOU! – Eu disse, fazendo uma cara de espanto e me sentindo levemente tonta novamente. Mamãe tratou de tirar-me de perto do espelho, pois minha cara estava branca, quase parecendo um fantasma, o que não é nenhuma novidade, porque além de eu ser branca feito um... Sei lá o que, tenho anemia, o que frequentemente me deixa com os lábios e os olhos brancos, enrolou-me rapidamente em minha toalha cor-de-rosa, que continha meu nome escrito nele em letra cursiva, que minha falecida vó fez para mim (e fez uma para minha irmã também) quando nós ainda éramos bebes, e me levou para a cama, deitando-me nela para vestir-me.

- Gente, eu consigo me vestir sozinha. Só peguem a roupa que eu me visto. – Disse, virando os olhos (coisa que faço diariamente, pelo menos quatro vezes ao dia).

Minha mãe escolheu uma blusinha rosa bebê meio colada, com uma calça jeans e um cinto preto, pois eu havia emagrecido, logo minhas calças estavam todas largas, com uma rasteirinha vermelha. Revirei mais uma vez os olhos para o mal gosto de minha amada mãe. Vesti-me e levantei, sentindo-me meio enjoada e com uma toalha na cabeça para evitar escorrer sangue em meu rosto. Eu imaginei o quanto de sangue já havia perdido.

Entramos no carro (eu, Lorena e minha mãe, pois meu pai já tinha ido para o trabalho. Ele é jornalista) e fomos direto ao melhor hospital local, que graças a Deus era perto de casa.

No hospital, a primeira pergunta que fizeram foi “a onde você cortou?”, e depois foi tudo meio monótono. Tive que levar três pontos na testa, e gritei muito quando os deram. Quando voltamos para casa, percebi que o carro do meu pai estava estacionado do lado de fora da garagem, e tinha um caminhão de mudança estacionado atrás dele. Olhei para a Lo com uma cara de desentendida e ela estava com uma cara de limão azedo.

Fomos direto para o quarto por ordem da minha mãe.

- O que esta acontecendo Lo? – Perguntei nada satisfeita com o fato de estarem escondendo coisas de mim.

- Nada maninha, a mamãe disse que depois te conta... – Lorena respondeu, tentando ver se eu tinha sacado que minha própria irmã já sabia. Eu tenho minhas manhas para descobrir quando uma pessoa está mentindo, além do que conheço minha irmã muito bem, e definitivamente ela estava mentindo.

- Ãn? Quer dizer que você já sabe? – Perguntei.

- Não gêmea. É que eu ouvi a mamãe e o papai conversando e... É eu sei.

- Então me fala, né coisa?!

- Não posso, é que a mãe disse...

- Meninas, venham aqui. – Minha mãe chamou, interrompendo a Lorena. A raiva que estava se formando dentro de mim era inexplicável, era uma raiva cumulativa, e parecia que a qualquer momento poderia romper algum órgão dentro de mim. Rodrigo, meu pai (acostumem-se comigo o chamando de Rodrigo. Não que eu tenha algo contra ele, mas também não tenho nada a favor. Só não o considero meu pai de verdade), nunca foi um cara presente, e agora queria que fossemos sempre do jeitinho que ele desejava. A casa 'é dele', logo ele achava que as regras que deveriam ser seguidas eram as dele. Ridículo. Ele nunca fica em casa, a favoritinha dele é a Lo, vive me comparando a ela... “Ah, se você fosse mais como a sua irmã...”, é uma frase que eu ouço muito.

Descemos as escadas correndo e fomos ao encontro de meus supostos pais alienígenas, que estavam sentados em diferentes poltronas na sala. A cara deles eram sérias, lembrando-me de quando eles avisaram-nos que minha avó havia falecido á um ano de câncer.

- Temos uma coisa para falar com vocês – Disse-nos Rodrigo, com uma voz que nós nunca havíamos escutado antes. Ele estava com uma camisa preta que a vovó havia dado para ele há alguns anos, calça jeans surrada e tênis. Minha mãe estava de saia jeans (?), uma blusa rosinha, um sinto branco e um salto branco também, onde já se viu combinar o salto com o cinto? Só minha mãe pra fazer isso mesmo. Ambos estavam de óculos escuros e a cara inchada.

– Nós vamos nos divorciar. – Nos disseram, interrompendo meus pensamentos.

- O QUE? Como assim se divorciar? – Explodi. E até me esforcei para manter a calma, afinal nenhum dos dois iria sair da cidade, iriam apenas parar de morar na mesma casa, certo? Mas não consegui. Aquela raiva devia ser liberada de algum jeito. E esse jeito foi na forma agressiva em que agi. Não me importava que Rodrigo saísse de casa, iria dar no mesmo. Mas ver minha mãe naquele estado, com a cara inchado foi o cúmulo.

- É minha princesa. Vocês sabem que estávamos brigando muito e fomos a uma psicóloga de casais e ela nos aconselhou a fazer isso. Nós queremos o melhor para vocês duas e seu pai está se mudando.

- OK, mas para onde você vai se mudar pai? – Perguntei, me controlando para não cair no choro, nem soltar nenhum palavrão.

- Vou morar nos Estados Unidos, vou para Los Angeles. – Respondeu, tentando calcular a minha reação.

- É, vocês querem me matar. – Eu disse, agora realmente estourando, em meio às lágrimas que escorriam em meu rosto. – Isso supostamente não deveria ser assim, droga! Cadê o casal apaixonado de antes? Eu quero os meus pais de volta! – Conclui e saindo correndo em direção ao meu quarto. Tudo bem, eu me importava um pouco com Rodrigo, afinal eu não podia mudar o que ele era, o que se tornara. O tipo de pai que nunca esta presente, que nunca está conosco, que nunca liga para saber se estamos bem, mas que quando chega temos que trata-lo como se fosse o paizão. Mas mesmo assim ele era meu pai, e eu não poderia fazer nada em relação a isso.

Mas eu ainda sim me perguntava como eles conseguem fazer isso com a gente.Tá, eu sabia que um dia isso ia acontecer, afinal a divergência de ideias entre os dois era muito grande, mas mudar para LA? O que ele vai fazer lá? Trabalhar de entregador de pizza? Meu primo já fez isso e, acredite, não deu muito certo. Não consegui chegar a um consenso comigo mesma. Aquilo tudo era muito contraditório, tudo muito estranho.

- Bella, você está bem? – a Lo perguntou ao entrar no quarto. – O pai e a mãe estão preocupados contigo, que tal esfriar a cabeça e descer para falar com eles? – Propôs.

- Não mesmo. Eu não quero falar com eles, e nem com você. Por que não me contou? Pensei que fossemos parceiras, poxa!

- A não, Bella. Você não pode ficar com raiva de mim só porque obedeci à ordem dada pela NOSSA mãe. – Ela fez questão de enfatizar a palavra “nossa”, e que, em minha opinião, soou mais ridícula do que nunca.

- Olha aqui, Lorena, quantas mil vezes você já não desobedeceu às ordens dos nossos pais, e me contou o que havia acontecido? Se liga, você pisou feio na bola comigo.

- Olha aqui você, Isabella. A única pessoa que está “pisando na bola” aqui é você. A única coisa que eu fiz foi adiar por o que? Uns três segundos a informação, e você vem me culpar por sei-lá-o-que? Não mesmo. Aliás, por que e pra que essa raiva toda, menina?

- Ah, quer saber de uma coisa? – Explodi de vez, agora ninguém ia me segurar, empurrei a minha irmã e, batendo a porta com a maior força que consegui, sai do quarto, gritando um “foda-se” o mais alto que consegui. É óbvio que ela esta mentindo. Ela sabia a muito mais tempo do que dizia. Tosca, mesquinha, egoísta. Ela ainda vai se ver comigo.

Desci correndo as escadas e, sem falar nada com ninguém, peguei minha bolsa no sofá e sai. Senti o olhar de meus pais divorciados nas minhas costas, mas fiz questão de não olhar na cara deles. Eles não mereciam.