Lua Nova: Outros Caminhos
1 16. Romeu
Notas iniciais
Ele soltou seu riso rouco em meu ouvido.
E foi sua risada, tão familiar e estranhamente calorosa, que me tirou do torpor em que estava afundada até então, e me fez voltar a mim. Em um estalo, as palavras e os acontecimentos dos dias e horas anteriores ganharam sentido na minha mente, golpeando‑me com força no peito e tomando meu ar.
A picape estava cheia de uma expectativa eletrizante, que eu não tinha notado. E não sabia se era por ter quase morrido ao saltar daquela montanha há algumas horas, ou se era essa proximidade estranha agora com Jacob. Mas algo definitivamente mudou.
Ele já havia confessado que eu era importante demais para ele muitas vezes antes, mas ouvir ele dizer “sei que você não sente o que eu sinto” me causou uma sensação estranha. Eu realmente não sentia nada além de “amizade” por ele? Se eu tinha certeza disso antes, agora já não sabia mais.
Mas o que eu sabia, era que, se virasse o meu rosto e pressionasse meus lábios em seu ombro nu, algo aconteceria. E mudaria para sempre nossa relação. Seria realmente muito fácil, e não teria que haver explicações essa noite. Mas eu estava realmente pronta para isso?
Eu me sinto fraca e quebrada, clamando por um amor que não julgo merecer ou ser capaz de retribuir. Eu realmente poderia fazer isso com alguém que eu estimava tanto?
As perguntas berravam e se amontoavam na minha cabeça, tentando me fazer em pedaços novamente. Mas a que mais se destacava era se eu seria realmente capaz de desistir de alguém que nunca desistiu de mim. Abrir mão de tudo era algo muito fácil de se pensar até algumas horas atrás, e foi o que me levou ao fundo daquela água gelada. “Era com certeza um deus…”, pensei. Mas eu sabia que nunca seria capaz de realmente me despedir de Jacob, seria doloroso demais, iria destruí-lo como eu fui.
Jake havia sido meu sol por todas essas semanas, aquecendo aquilo que foi deixado frio, e substituindo o que me foi roubado. E eu não poderia fazer jus ao amor que ele estava disposto a me dar, mas eu precisava ficar inteira de novo também, e ele era o único que estava conseguindo me fazer sentir assim.
Julieta nunca trocaria Romeu por Páris, mas e se Romeu ainda não tivesse entrado em cena? Ou se Páris realmente amasse Julieta, e fosse uma boa opção agora que Romeu a deixou para sempre? Ela poderia aprender a amá-lo? A peça continuava avançando e eu podia sentir a expectativa da plateia sobre mim. Estava na hora de finalmente tomar uma decisão, e eu faria algo extremamente egoísta se eu pensasse direito.
Então não pensei.
Foi realmente muito fácil quando pressionei levemente meus lábios em sua pele cobre escaldante. — Jake... — sussurrei. Estava com frio novamente, e clamava pelo calor voltar a me inundar, como quando ele me carregou para fora da água na praia.
Meu sussurro levou ao seu suspiro baixinho, e tudo mais aconteceu com uma estranha naturalidade. Ele beijou o topo da minha cabeça, e depois ofegou ao levantar meu queixo com ternura. Nossas respirações se encontrando, a dele quente como seu corpo, em contraste com a minha, fria como a noite.
Um segundo se passou, talvez menos, e fui eu a primeira a me mover, para pressionar nossos lábios juntos.
Não tinha espaço para o erro ou culpa enquanto ele colocava a mão atrás da minha cabeça, e me segurava próxima a ele. Mas não havia outro lugar que eu realmente quisesse estar neste momento.
Então fizemos o momento se estender o quanto pudéssemos.
O ar começou a me faltar depois de alguns minutos, e eu senti minhas bochechas ficando vermelhas conforme nos afastávamos. E foi com uma mistura de vergonha e confusão que notei que Jacob estava ofegante também.
— Desculpe — murmurei, sem jeito.
— Não se desculpe por isso. — Ele se aproximou e deu mais um beijo rápido, mas intenso, em meus lábios. — Por favor... — sussurrou, enquanto encostava sua testa na minha. Jake fechou os olhos, tentando controlar sua respiração pesada.
Ficamos mais alguns minutos nessa posição, ele com a mão em meu rosto, e eu segurando sua cintura. Como se um apoiasse o outro, impedindo de nos desmontar em dúvidas nesse momento. Mas Jake se enrijeceu em seu assento quando viu o carro de Charlie virar a esquina. — É melhor eu ir andando — disse um tanto melancólico.
Eu não queria que ele fosse, mas não tínhamos escolha. Charlie precisaria de um tempo a sós com sua tristeza, após o que aconteceu com Harry Clearwater, e eu com as minhas dúvidas.
— Te vejo amanhã, certo? — A resolução repentina de que ele poderia também desaparecer cresceu dentro mim, fazendo meu peito pesar com os diversos sentimentos conflitantes que agora gritavam dentro de mim.
— Claro, Bells, nos veremos logo cedo — me acalmou, dando um sorriso discreto, mas iluminado. — Prometo — completou, quando abriu a porta do carro.
Jake deu mais um beijo rápido nos meus lábios e desapareceu silenciosamente pela floresta escura.
Charlie chegou logo depois, e após um momento para me recompor, saltei para a noite fria. Agora não era o momento para a minha tristeza, eu tinha que estar lá para apoiá-lo. — Pai — chamei, enquanto andava para encontrá-lo.
Ele demorou um segundo para me notar. — Oi, filha... — respondeu, e eu pude ver em seu rosto o quanto ele estava arrasado.
— Jacob me contou. — O abracei por instinto, e após um segundo de surpresa, ele retribuiu o gesto. — Eu sinto muito… — Perder um grande amigo como Harry o abalou de tal modo, que a ideia de que ele jamais superasse essa perda gerou um reconhecimento amargo. O que me fez estremecer por dentro. E talvez foi exatamente isso que ele sentiu por mim, quando Edward foi embora.
A menção ao nome dele me fez parar, esperando pela dor que viria a seguir. Mas ela não veio.
Entramos silenciosamente na casa, ela parecia mais escura que o normal, e por um momento eu tive medo que algo estivesse lá dentro, esperando por mim nas sombras. Mas não havia. Charlie e eu subimos lentamente as escadas, o lugar inundado com um ar terrível por diversos motivos. E como uma criança assustada, eu me joguei na cama e cobri minha cabeça com a coberta, para tentar me esconder dos pensamentos que eu sabia que espreitavam.
Culpa, traição, ansiedade, satisfação, tudo isso misturado com as borboletas no meu estômago, que surgiam cada vez que eu relembrava do momento que tive dentro do carro. “Onde eu estava com a cabeça?”, e não consegui me impedir de corar quando lembrei do calor dele tocando meus lábios. Jacob não era o mesmo garoto que há alguns dias eu desejava que fosse meu irmão? E enquanto a Edward? “Que me deixou e foi em busca de sua felicidade”. As lembranças com ele na floresta me causaram um efeito completamente diferente, me fazendo me comprimir em uma bola, para aguentar a dor que agora surgia em solavancos.
Mas será que eu estava pronta para “superar”? Como se fosse realmente possível superar alguém como Edward.
As perguntas que se agitavam dentro da minha cabeça me faziam querer gritar, gritar para que tudo se acalmasse, mas Charlie não merecia isso. Então segurei firme e mordi meu travesseiro enquanto o quarto parecia girar, me provocando náuseas.
E muitas horas se passaram até que eu conseguisse pensar de maneira coerente, e regularizasse minha respiração. Primeiro: Edward de fato me deixou, e não voltará. Isso era óbvio, então será que eu merecia me entregar a esse novo sentimento, mesmo que ele só servisse para me manter inteira por mais alguns dias?
Essa era a questão principal me rondando neste momento, o que me leva ao próximo problema. É justo eu tomar posse do amor de Jake, mesmo sabendo que não há como eu retribuir o que ele está disposto a me dar? O que, pelo jeito, é algo extraordinário. “Mesmo sabendo que eu estou… que Edward me deixou tão esburacada?”.
Mas eu queria tentar. Tentar por mim, por Jacob, e até por Edward.
“Seja feliz”, essas palavras ecoaram na minha cabeça em diversos ângulos e vozes, até eu desmaiar de cansaço.
No meu sonho, eu vagava pela floresta, mas essa era diferente, muito mais clara e com um tom especial de verde. Depois de ter andado um pouco, eu encontrei a pequena casa de Emily, mas tinha algo errado, uma luz ofuscante explodia pela janela me fazendo cobrir os olhos. Eu continuava andando lentamente até alcançar a porta, sentindo frio e a resistência de uma ventania macabra, só para abri-la e ser cegada totalmente por um clarão branco e quente.
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