Lua Negra
17 Possession

— Que lugar é esse? — Jacob perguntou.
Parte do meu cérebro estava ali o suficiente para se questionar como ele tinha vindo comigo ao invés de se tornar apenas um portal, como era para acontecer, mas eu apenas não tinha tempo para pensar nisso, então tampouco o respondi. Me ergui de onde estava sentada e olhei ao redor com olhos entreabertos.
Não havia nada além de branco, como se flutuássemos no meio do nada. Aquilo não era onde devíamos estar.
— Selene? — Jacob chamou, antes de pôr uma mão sobre o meu ombro.
Por algum motivo, ouví-lo falar o meu nome me causou uma sensação esquisita nas costas e arrepiou os meus braços. Me recusei a pensar sobre isso também.
— Tem algo errado — falei, abaixando os olhos para olhar as minhas próprias mãos. Eu tinha dito o encantamento errado?
— Não, não tem — ele disse. Quero dizer, era a voz do Jacob, mas tive a sensação que não era ele de verdade.
Rapidamente, girei para ver quem era mas, subitamente, tudo se tornou escuro, como o centro do universo, só que sem estrelas. Talvez um buraco negro. Para qualquer lado que eu olhava havia apenas escuridão.
Ergui a mão para a frente do meu rosto, mas não pude enxergá-la. Nem mesmo quanto toquei o meu nariz. Era como estar cega, eu suponho.
Devo admitir que meu primeiro instinto foi bancar uma garota estúpida de filme de terror e berrar "olá?" seguido por um "tem alguém aí?", mas engoli essas palavras de volta. Geralmente essa garota estúpida de filme de terror morria e eu me recuso a morrer também.
Okay, eu apenas preciso raciocinar.Devo admitir que a minha principal suspeita foi a minha tia sociopata, mas como ela poderia se infiltrar na matilha sem ter algo deles (ou ter uma conexão, como eu)? No entanto, além dela, quem mais poderia fazer tudo ficar estranho o suficiente para o Alfa parecer derrotado e um membro da matilha ficar completamente violento? Não apenas isso, na verdade, parece que toda essa violência é focada em mim, e isso definitivamente é uma pista.
Se bem que eu não conheço Paul, talvez ele seja assim mesmo.
Troquei o peso de pé, desconfortável, e então congelei. Eu estou pisando sobre algo, certo? Talvez se eu seguir o chão até encontrar uma parede ou alguma coisa...
Não, isso é estúpido. Bruxas não são estúpidas.
Respirei fundo e fechei os olhos, o que não mudou absolutamente nada mas me fez me sentir um pouco melhor. Respirei fundo mais algumas vezes, tentando me concentrar.
Por causa da minha ligação com os elementos, eu sou capaz de sentir os Elementais, mas era como se ali estivesse completamente vazio. Eu não podia sentir presença nenhuma, ouvir nenhum som ou ver absolutamente nada.
Uma estranha ansiedade apertou meu peito e de repente respirar pareceu uma tarefa difícil. Eu nunca tinha estado num lugar completamente vazio dessa forma, simplesmente porque isso não devia existir.
Era como se aquele lugar estivesse morto.
Minhas pernas dobraram, trêmulas e eu caí de joelhos bruscamente. A dor subiu direto pelas minhas coxas e pulsaram até os meus ossos. Eu grunhi e abri os olhos, mas ainda estava tudo escuro.
Então, de repente, eu senti meu peito queimar, como se houvesse ferro em brasa sobre ele. Eu pus as mãos sobre a área, tentando tirar o que quer que fosse o motivo da dor, mas não havia absolutamente nada. Pelo menos não ali.
Instintivamente, eu sabia que era o colar. A chave. Eu só não sabia porquê.
— Selene?
Eu girei rapidamente, procurando a fonte da voz, então tudo ao meu redor mudou bruscamente. Em um segundo eu estava parada no centro do completo e absoluto nada, e no outro eu estava se pé sobre um velho tapete familiar, encarando velhas paredes de madeira ainda mais familiares e sentindo o cheiro de ervas queimando.
Eu estava em casa.
— Selene!
Eu virei e dei de cara com a minha avó irritada, vestindo uma bata de algodão puro e um pentagrama de prata ao redor do pescoço.
— Eu sinto muito, acho que me distrai — murmurei confusa — É hora da aula?
— É sempre hora para aprender alguma coisa, querida — ela sorriu — Venha comigo.
Ela seguiu pelo corredor, mas eu continuei congelada no lugar por alguns segundos, tentando entender por que eu tinha aquela sensação de que estava tudo errado. De que aquilo era errado. Que a minha avó era errada.
O que diabos?
Como Bruxa, sei que não devo ignorar a minha intuição, então deve ter alguma explicação para tudo isso.
Por isso eu fui atrás dela.
A minha avó estava na enorme cozinha da casa, mexendo na sua panela de ferro que eu e Alek dizíamos ser seu caldeirão.
— Sabe, a Lua Negra está próxima — ela disse, assim que passei pela porta — Está com a chave que deixei com você, querida?
Eu a encarei confusa. Chave? A chave da casa? Não, não fazia sentido. Eu abri a boca para perguntar, mas subitamente tudo ficou escuro. Não uma escuridão completa, mas era como se tivesse ficado noite de repente.
A minha avó suspirou e olhou pela janela.
— Acho que já está na hora de começarmos — ela disse — Os Deuses costumam ser impacientes.
Ela virou para mim e a minha respiração ficou presa na garganta. Ela não tinha os olhos, eram apenas dois buracos escuros me encarando de volta. Quanto mais eu a observava, mais sua pele parecia escurecer, como se tivesse sendo queimada, bem ali na minha frente.
Eu gritei e tentei alcança-la, mas cada passo que eu dava, a cozinha parecia ficar mais e mais longa e escura. A minha avó estendeu a mão na minha direção, como se pedisse ajuda, mas eu simplesmente não era capaz de alcança-la.
Todo um novo nível de desespero e impotência estavam afogando o meu peito enquanto eu corria. Eu gritava e a chamava, mas isso não fazia diferença. Eu não conseguia alcançá-la. Não conseguia salvá-la.
Então uma mão agarrou meu braço com força suficiente para machucar e me puxou para trás bruscamente. Num mísero piscar de olhos, tudo desapareceu e eu estava novamente num lugar completamente branco, onde tudo aquilo havia começado.
Eu virei para a pessoa e mal computei que era Jacob antes de abraça-lo. Lágrimas corriam sem permissão pelo meu rosto e pingavam nele, mas não me dei ao luxo de me importar com isso.
Eu só queria esquecer o que tinha acabado de ver.
— Vai ficar tudo bem — ele disse, me apertando contra si. Uma das mãos dele foram para o meu cabelo e correram através dos fios, tentando me acalmar, mas não foi fácil.
Eu sentia a histeria dentro de mim, borbulhando, querendo nada além de estourar as minhas estruturas até eu ficar louca ao algo assim. Eu queria gritar até aquilo sumir, mas eu precisava descobrir que porra estava acontecendo e dar o fora daquele lugar o mais rápido possível antes que isso acontecesse.
Eu dei um passo para trás e olhei para ele.
— Me dê as suas mãos.
Ele estendeu deu sem hesitar e, quando nos tocamos, tudo ao nosso redor começou a brilhar, o que me deixou confusa. Havia magia correndo entre nós, através das nossas mãos, mas porque isso influenciaria esse lugar?
Num estalo, eu entendi onde estávamos e suspirei. Não haviam estrelas e constelações que formavam a alcateia aqui por que, de alguma forma, estávamos dentro dessa ligação. Eu não sabia que isso era possível e preferia ter ficado sem saber.
Isso era perigoso, se alguém entrasse podia controlar a ligação. Talvez eu devesse fazer uns feitiços de proteção para eles depois.
Um flash da minha avó sem olhos chicoteou meu cerebro e eu entendi que, provavelmente, alguém já estava tirando vantagem dessa conexão. E esse alguém não gostava nada de mim.
Hora de cair fora.
Fechei os olhos e me concentrei em encontrar uma saída através do Jacob. Eu não consegui ver, mas senti os fios de energia que o ligavam a outros membros da Alcatéia e foi o que usei para nos puxar de volta para a realidade.
Não foi um volta suave e agradável. Foi como se tivéssemos sido sugados para fora abruptamente por um furacão.
Quando abri os olhos novamente, eu estava deitada na grama e haviam vampiros, lobos e uma humana me encarando.
— Caiam fora — resmunguei, forçando meu corpo a levantar.
Eles se afastaram, mas apenas um pouco. Bella me ajudou a levantar.
— O que aconteceu? — ela perguntou.
Eu a ignorei. Assim que fiquei sobre meus pés, virei para onde Alek e Paul lutavam e, invocando a minha ligação com o ar, fiz com que uma barreira violenta de vento os empurrassem cada um para um lado. Okay, a parte "violenta" não foi proposital, mas eu ainda estava tonta sobre ter voltado de dentro de um pesadelo bizarro, então me deem um desconto.
— Eles estão sendo influenciados por alguém poderoso que me odeia pra valer — eu respondi para o olhar interrogador de Alek.
— Annora? — ele perguntou, ainda em posição de ataque caso Paul o atacasse novamente.
— Acho que não, ela já teria usado a ligação que tenho com Jacob para entrar na minha cabeça — respondi pensativa. Não tinha pensado sobre isso até dizer em voz alta.
— O que...? — eu virei ao ouvir a voz do Jacob, bem a tempo de ver ele acordando assustado.
Bella se agachou ao lado dele para ajuda-lo a se sentar, então virei-me novamente para os outros. Paul estava alerta, mas não estava atacando, e os outros membros da matilha estavam quietos, como se não tivessem ouvido o que eu disse, ou não se importassem. Franzi o cenho para Sam.
— Ei, você ouviu? — berrei — Tem alguém controlando vocês!
Ele apenas rosnou na minha direção e foi embora, seguido pelos outros, com exceção dos meus amigos. Bufei.
— Idiota.
Um focinho gelado esfregou na minha mão e eu olhei para o lado, vendo um lobo com olhos assustados.
— Seth? — perguntei e ele balançou a cabeça — Olha, não se preocupe, seja lá quem estiver mexendo com seus amigos não quer machuca-los, está apenas os usando para me matar.
Ele grunhiu e Jacob soltou uma risada seca.
— Essa foi a sua tentativa de tranquilizar ele?
— Bem, eu disse que os amigos dele estão seguros — dei de ombros e virei para o meu irmão — Temos que ir.
— Eu levo vocês — anunciou Edward — Preciso levar Bella para casa também.
Eu dei de ombros e mal dei um passo na direção dos carros antes de um certo alguém agarrar meu braço.
— Espere! — pediu Jacob, se movendo para ficar na minha frente — O que está acontecendo? Quem está tentando matar você? Quem é Annora?
— Essas são perguntas bem profundas e eu não vejo como elas dizem respeito a você — respondi.
Eu dei um passo para o lado, a fim de fazer meu caminho ao redor dele, mas Jacob parou na minha frente novamente.
— Selene, por favor, eu quero ajudar.
Normalmente, eu teria o ignorado e passado direto, mas ele fez um olhar de cachorro abandonado que me fez tanto querer dar o que ele queria quanto soca-lo até seu rosto ficar desfigurado e não poder mais fazer essa expressão.
E porque diabos quando ele diz meu nome, arrepios sobem pelas minhas costas?? Que irritante.
— Eu não acho que você possa me ajudar — respondi.
Dois lobos se juntaram a ele na tarefa de me encarar e eu grunhi ao invés de ceder a vontade de jogar todos eles longe.
— Olha, eu acabei de passar por uma situação que provavelmente vai me fazer ter pesadelos por um bom tempo então simplesmente não tenho energia para lidar com vocês agora. No entanto, podem passar lá em casa amanhã, talvez eu esteja com algum ânimo e não enterre os três numa cova no meio da floresta!
Eu passei por eles e andei rápido até Alek e o casal problemático sem olhar para trás. Vai que eles se juntem e façam olhares pidões sincronizados!
Não, Leah não faria isso. Ela apenas me morderia até que eu fizesse o que ela quer.
Eu e Alek sentamos atrás enquanto Bella sentou na frente com o namorado. Edward dirigia tão rápido quanto Alice, mas eu sequer prestei atenção o suficiente para ficar preocupada. Meus olhos se fixaram na janela enquanto a minha mente corria sobre tudo o que havia acontecido durante aquilo que era para ser um simples treinamento estúpido qualquer.
Eu simplesmente não conseguia parar de pensar sobre aquelas coisas e a memória da minha avó parecia assombrar a minha mente. Eu precisava, de fato, pensar sobre isso e tentar entender o que estava acontecendo, mas naquele momento eu estava cansada, derrotada e com o corpo pulsando de dor e eu estou apenas listando o que eu sentia fisicamente.
A minha cabeça estava ferrada.
Eu não conseguiria entender nada daquela forma.
— Devia ter pedido para Jasper te ajudar antes de sairmos — disse Edward, me lembrando que não havia recolocado a barreira que protegia a minha mente — Ou Carlisle.
Eu apoiei a cabeça na janela e fechei os olhos, com preguiça de responder em voz alta, então apenas pensei.
"Não adiantaria. Vou fazer um chá quando chegar em casa".
Ao meu lado, meu irmão suspirou mas não disse nada. Eu não tinha certeza se ele havia entrado na minha mente também ou ele só estava cansado da luta contra Paul e, sinceramente, eu não pude juntar energia o suficiente para me importar.
Eu só queria ia para casa.
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