Lua Negra
21 Ghosts

Primeiro eu pensei que estava sonhando. Eu estava no meio da floresta e tudo parecia escuro, de alguma forma. Não era como se estivesse de noite, no entanto, essa mais como se a luz do sol fosse mais fraca, sem vida.
Formas sem rosto passavam por mim flutuando sem sequer me notar aqui. Eram tantas e estavam quase transparentes, como fantasmas. A pele delas era um cinza opaco e vazio que me fez ter calafrios. Conforme eu andava, no entanto, notei que aquele lugar era familiar, mesmo apesar da falta de vida.
Eu parei na frente da casa onde estava morando com o meu irmão e suspirei. Foi apenas nesse momento que as figuras ficaram imóveis. Eu recuei um passo instintivamente, mas haviam formas como aquelas por todo lado. Eu estava cercada e sequer tinha notado até então.
Que estupidez.
— Selene — uma voz disse, mas eu não sabia de onde tinha vindo — Chegou a hora? Já é Lua Negra?
— O que... — eu murmurei, mas então senti meu peito queimar. Não, não era o meu peito realmente, era o colar. A chave que a minha avó me entregou.
Eu o tirei de dentro da minha camisa, pegando-o pela corrente fria e observei em choque ele brilhar na minha frente. O metal prateado que o formava parecia se mover ao redor da pedra como serpentes e e ela brilhava num azul vivo e pulsante. Eu podia sentir o poder dele sem sequer tocá-lo e isso tirava meu fôlego.
Quando olhei para a frente novamente, as formas cinzentas estavam formando um enorme círculo ao meu redor. Eu engasguei com a minha própria respiração ao finalmente entender o que eram aquelas coisas. Eram fantasmas, claro, mas mais do que isso, eram fantasmas de Bruxas.
— Você deve ser forte agora — a voz disse novamente, mas eu não podia ver quem falava — Eles precisam de você.
— Quem? — perguntei imediatamente.
Houve um ofego mas nenhuma resposta. As formas cinzentas pareceram estremecer, mas não como um humano faria, e sim como a chama de uma vela. Eu girei sobre os meus pés com uma sensação ruim apenas para notar que a floresta de onde eu tinha vindo não estava mais lá. Era apenas a mais absoluta escuridão.
— Ele vai tentar te impedir, mas você precisa lutar — a voz sussurrou — Eles não vou conseguir expulsá-lo sozinhos...
A voz sumiu totalmente quando um rosnado feroz veio da escuridão a minha frente. Aquilo começou a se aproximar até parar na barreira que o círculo mágico criara, tal como o círculo que havia ao redor da minha casa. Então ele soltou outro som, um rosnado tão alto e furioso que me causou dor fisicamente e eu me vi caindo de joelhos na grama, apenas para acordar bruscamente na minha cama.
Bem, dessa vez eu dormi um pouco, pelo menos.
Eu levantei e foi até a janela automaticamente, mesmo sabendo que não havia mais nada lá. Estava chovendo, mas fora isso tudo parecia normal. Sem sombras ou fantasmas.
Suspirando profundamente, eu desci pensativa, tentando entender o significado daquilo. Eu peguei o meu colar de novo e parei no meio da sala de estar, encarando-o.
Ele parecia absolutamente normal agora, claro.
O fantasma não podia ter simplesmente me dito os passos que eu devia seguir para fazer essa porcaria funcionar??
Frustrada, eu deixei o colar cair sobre a minha camisa e virei para a cozinha, mas parei no lugar quando senti o distúrbio no círculo que havia ao redor da casa, indicando que alguém havia entrado.
Eu caminhei até a porta lentamente, sentindo meu coração martelar dentro do meu peito, temendo ser algo como aquela sombra. No entanto, o que eu ouvi não foi um rosnado mas sim um som muito parecido com um cachorro ganindo de dor, ou algo assim, então abri a porta rapidamente.
Eu reconheci Jacob imediatamente, mesmo ele estando em forma de lobo e ensopado.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, franzindo o cenho para ele — Pelos Deuses, você está todo molhado! Espere aí!
Antes que ele pudesse responder de alguma forma, eu virei as costas e corri para o andar de cima novamente. Eu peguei rapidamente uma toalha e roupas do meu irmão antes de correr de volta para baixo antes que o lobo congelasse até a morte.
— Olha, vai funcionar assim — eu disse — Você vai se destransformar, entrar e se secar, eu vou virar de costas, okay?
Ele confirmou com a cabeça e eu virei rapidamente. Eu ouvi os barulhos que ele estava fazendo, mas tentei não pensar no fato de ter um garoto pelado na entrada da minha casa, ao invés disso voltei a pensar no que tinha acontecido.
Eu sabia que não tinha sido um sonho, ao contrário do que tinha pensado no começo. Eu tinha tido paz durante a ultima semana, depois da luta contra aquelas vampiros recém criados e diria que foi até bastante tempo antes de acontecer mais alguma coisa estranha.
Aquelas formas eram Bruxas, eu sabia disso quase instintivamente. Eu não sabia exatamente quem eram elas, mas se são fantasmas e estão aqui, significa que muito provavelmente morreram aqui, na floresta. Talvez nessa casa.
Agora, considerando que não houveram Bruxas vivendo por aqui desde que a minha família saiu...
Eu girei sobre os meus pés imediatamente, esquecendo por um momento que o garoto estava pelado, mas felizmente (ou infelizmente, não tenho certeza) ele estava com a toalha presa ao redor da cintura.
Eu sou a primeira a admitir que, apesar dele ser um pirralho, ele tinha um corpo e tanto. Eu quero dizer, parte dele estava escondida pela toalha, mas seu peito estava completamente amostra e, bem... Uau.
— Ér... — ele disse. De alguma forma, ele estava com o rosto corado e com um sorrisinho metido no rosto ao mesmo tempo — Vê algo que gosta?
— Não — menti, me forçando a parar de encarar os gominhos para olhá-lo nos olhos. Porque eu virei para ele mesmo? Ah sim... — O que aconteceu com as Brux... As Mulheres Sábias da aldeia?
— Bem... — ele murmurou, franzindo a testa ao tentar lembrar — Elas foram embora...
— Quem disse que elas foram embora? — eu perguntei.
— O chefe da aldeia — ele disse, olhando confuso para mim — Porque você está perguntando isso?
— Uh, longa história — dei de ombros — Se vista, eu vou fazer café.
Ele abriu a boca para dizer alguma gracinha, mas eu já estava no meu caminho para a cozinha.
Eu já estava fazendo torradas quando Jacob entrou na cozinha. Ele tinha vestido a calça de moletom, mas não a camisa, então eu evitei olhar para não ficar encarando estupidamente de novo.
— Isso é muito quente — ele reclamou, ajeitando a calça.
— Você ficou bem com ela — comentei — Porque você veio aqui no meio da chuva?
Ele estava corado antes, mas então todo o seu rosto fechou, como se ele estivesse com dor. Eu o observei enquanto Jacob suspirou e apoiou as costas na parede antes de dizer:
— Bella e Edward vão se casar.
O primeiro pensamento que me ocorreu era que aquela era provavelmente a primeira vez que eu ouvia o Jacob dizer "Edward". Depois meu bom senso chutou o meu traseiro e eu lembrei que aquele pirralho era apaixonado pela Bella. Então suspirei.
— Não vou dizer que estou surpresa — murmurei — Como você está?
Ele riu seco e seus olhos se encheram de lágrimas. Eu podia ver dor e tristeza no seu olhar e isso fez meu coração doer por ele.
Coração partido deve ser uma merda.
Antes que eu raciocinasse, eu já estava andando até ele e o abraçando com força. Eu não era o tipo de pessoa que era fã de contato físico, mas aquilo apenas pareceu apropriado naquele momento acho.
Okay, talvez eu tenha ficado com pena dele. Talvez.
Seus braços estavam ao redor da minha cintura imediatamente e então eu estava envolvida por calor. A pele dele era tão quente que eu podia literalmente usá-lo como cobertor e, morando em Forks, aquilo era tentador.
— Isso não devia doer tanto, devia? — ele perguntou, seu rosto enfiado no meu pescoço me fez ter calafrios — Eu quero dizer, tem o imprinting e...
— Jacob — interrompi. Eu me afastei apenas o suficiente para segurar seu rosto entre as minhas mãos e forçá-lo a olhar para mim — Você é apaixonado pela Bella, é normal que você sinta isso.
— Mas...
— Não tem "mas" — eu sorri para ele — Você quer café?
Ele me observou por um momento em silêncio, o que era um pouco embaraçoso, porque nós estávamos MUITO próximos um do outro. Então, lentamente, ele assentiu e me soltou.
Meu coração estava martelando no meu peito e eu me xingando por isso enquanto andava até a pia novamente. Oh, vamos lá, é o Jacob. Ele tem, tipo quinze anos. É um pirralho autêntico.
Repetindo o pensamento como um mantra, eu coloquei café nos copos e empilhei torradas num prato antes de levá-lo para cima comigo. Não havia muito o que fazer e, sinceramente, eu ainda estava exausta e só queria dormir mais um pouco.
Nos sentamos no meu colchonete e eu comecei a comer uma torrada imediatamente. Ele perguntou:
— Você vai me contar sobre a longa história?
Eu o encarei vagamente por um momento, mas meu cérebro reencontrou o assunto rapidamente. Eu engoli o que estava na minha boca e disse:
— Eu sonhei com elas.
Ele me encarou confuso por um momento, o qual eu aproveitei para tirar outra mordida da minha torrada.
— Espera, você sonhou com as Mulheres Sábias da tribo? As suas antepassadas?
Eu assenti com a cabeça antes de engolir, então expliquei:
— Bom, com os fantasmas dela, na verdade.
— Ah... — ele murmurou, me olhando chocado — Então fantasmas...?
— Sim, existem, mas geralmente moram onde foram mortos — expliquei — Quero dizer, precisa haver raiva ou algum tipo de feitiço para manter os fantasmas presos aqui ao invés de seguir para o próximo plano e eu vi elas aqui, bem no meu quintal.
O rosto dele empalideceu.
— Você acha que elas tentaram te matar?
— Não — neguei imediatamente — Elas me protegeram. Ele, o cara que quer me matar, ele também estava lá. Quero dizer, havia apenas escuridão, mas eu sei que era ele. As Bruxas o mantiveram longe de mim com Magia, no entanto e...
Eu hesitei e peguei o meu colar entre as mãos, pensativa.
— Eu acho que elas estavam tentando me ajudar de alguma forma...
— Bem, elas estavam te protegendo, né? — ele perguntou, antes de beber um gole de café.
— Sim, mas era algo mais — eu insisti — Elas disseram coisas e também tentaram abrir o meu colar.
— Abrir...? — ele perguntou confuso.
— Ah, verdade, você não sabe — eu disse — Bem, resumindo, meu colar é algum tipo de chave para o Livro das Sombras da minha família — ele continuou me encarando com o rosto em branco, então eu acrescentei — Livro das Sombras é onde as Bruxas escrevem suas experiências, coisas que aprenderam e seus feitiços, mas isso aqui é mais, é como... É como uma chave para o poder da minha família, a Magia das minhas ancestrais — eu fiz uma pausa e ri amargamente — Esse é o motivo pelo qual eu e meu irmão viemos para essa cidade. A minha tia nos atacou para pegar esse colar.
Ele continuou me encarando chocado, então aproveitei enquanto ele processava aquela informação para comer o resto da minha torrada.
— Certo... — ele murmurou, engolindo a seco — Você acha que é a sua tia quem...
— Não, não, é outra pessoa — eu disse.
— Você tinha dito que era alguém ligado à alcateia, ou algo assim, não é?
— Sim — concordei — O ataque vem através da nossa ligação, então é alguém ligado á você.
Ele se mexeu desconfortável de repente, evitando me olhar. Suspirei de novo.
— Isso não é culpa sua, Jacob. Dificilmente você mandou esse cara psicótico me matar.
— É, mas se a ligação não existisse você não estaria em perigo, não é? — ele perguntou.
— Se a ligação não existisse você não se importaria com o fato de estarem querendo me matar, não é? — perguntei de volta, revirando os olhos — Além disso, esse drama não resolve o problema.
Ele abaixou a cabeça e ficou olhando para as próprias mãos por um momento.
— Isso começou quando... Você foi na Reserva? — ele perguntou de repente.
— Não, acho que não — respondi — Eu tenho a impressão que apesar do Paul não gostar de mim, ele não quis me ver morta até a Lua Cheia.
— Então... Será que o feitiço não começou alguma coisa? Sabe, tipo, uma reação alérgica ou...
— Isso é impossível, o feitiço... — eu comecei, mas fiz uma pausa pensando — Foi quando eu toquei a ligação. Foi quando eu senti... Puta merda!
Eu levantei num salto, me sentindo animada e ansiosa demais para ficar parada, então comecei a andar de um canto a outro do quarto enquanto raciocinava.
— O que? O que houve? — Jacob perguntou, totalmente confuso.
— Reação alérgica — expliquei.
— Eu não estava falando sério... — ele disse.
— Mas você pode estar certo! Quero dizer, mais ou menos... — eu balancei a cabeça e parei na frente dele — Olha, reações alérgicas são como um sistema de defesa, certo? É quando o corpo confunde uma substância qualquer com algo que pode causar danos e então reage em defesa. E se foi isso que aconteceu?
— Uma... Reação alérgica? — ele perguntou confuso.
— Não, Jacob, isso é uma metáfora! Eu quero dizer que algo na ligação pode ter me entendido como algo que quis ferir vocês e então me atacou de volta! — eu fiz uma pausa e voltei a andar de um canto a outro — Se bem que a reação foi puro ódio e no meu sonho a pessoa parecia me odiar de verdade, ou pelo menos odiar o que eu sou... — eu fiz outra pausa e então virei para ele — Precisamos descobrir o que realmente aconteceu com as Bruxas que viviam nessa aldeia.
— Podemos falar com o meu pai — ele ofereceu .
— Sim! — eu exclamei e girei na direção da porta, mas então de repente ele estava no meu lado segurando o meu braço — O que?
— Está chovendo muito e está absolutamente gelado lá fora — ele disse — Falar com o meu velho pode esperar um pouco.
Eu abri a boca para protestar, mas na verdade ele estava certo. Quero dizer, morrer de hipotermia definitivamente não é mais agradável do que ser assassinada pelo sistema imunológico da alcateia.
Ele me puxou de volta para a colchonete e sentamos novamente.
— Certo... — murmurei, olhando pela janela por um momento antes de virar para ele — Nós não temos TV ainda, nem nada assim, e eu realmente quero dormir um pouco, então...
— Você acabou de beber café — ele comentou.
— Bem — dei de ombros.
— Você quer que eu saia? — ele perguntou.
— Nah, pode ficar. Além disso você é quente, pode servir de cobertor.
— Fico feliz que você me acha quente — ele sorriu e eu revirei os olhos para a falta de maturidade.
— Cala a boca e deita logo!
— Sem nem um jantar? — ele soltou, ainda com aquele sorrisinho no rosto.
— Eu juro que te jogo para fora dessa casa se você não calar a boca! — exclamei, frustrada.
Ele soltou uma risadinha e colocou os copos e o prato ao lado, deitando-se confortavelmente no meu colchonete. Eu engoli a seco e quase o expulsei de lá e o mandei dormir no do meu irmão, ao invés de comigo, mas estava mesmo muito frio e ele era mesmo quente. Em ambos os sentidos.
Então eu deitei ao lado dele, nos cobrindo, e não reclamei quando ele me abraçou contra o seu peito. A minha respiração ficou presa na garganta no entanto, ali estava quente e eu simplesmente não conseguia relaxar e dormir.
Jacob aproveitou que a minha cabeça estava praticamente sobre o seu peito e começou a acariciar o meu cabelo. Eu não sei se isso é coisa de imprinting, mas eu relaxei contra ele rapidamente e dormi confortavelmente nos braços do lobo.
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