Lua Negra
14 14 | pain

Eu lembro vagamente de ter acordado em algum momento distante, talvez comido alguma coisa, talvez tomado um banho. Eu lembro de estar em casa e que Alek estava perto de mim, mas fora isso, eu sentia como se estivesse no fundo de um poço, cercada por nada além de uma escuridão fria e solitária.
Eu não tenho ideia de quanto tempo passou, só sei que quando acordei novamente, não estava casa, mas sim num hospital, com Bella de um lado, Alek no outro e Carlisle na frente da cama, falando com eles.
O que diabos estava acontecendo?
— Você tem certeza disso? — perguntou Carlisle — Jacob disse que...
— Eu quero que todos eles vão para o inferno — disse Alek, furioso — Foram eles que fizeram isso com a minha irmã e não irei permitir que cheguem perto dela novamente.
— Jake não estava lá — Bella disse baixinho, se encolhendo um pouco — Ele não...
— Eu não me importo — Alek disse, quase num rosnado.
— O que... — eu disse, sentindo a minha garganta muito seca — O que aconteceu?
Bella quase se desfez de alívio do meu lado, segurando a minha mão. Alek se abaixou um pouco para me olhar atentamente.
— Como está se sentindo? — ele perguntou
— Um pedaço de lixo — eu respondi sinceramente, e então tossi. Caslisle ocupou o lugar da Bella, com um copo com canudo para me ajudar a beber água. Eu podia muito bem chorar de felicidade sentindo o líquido frio correr pela minha garganta.
— Eu não consegui te acordar — Alek disse, dor em cada palavra — Eu quase não consegui sentir você, porra! Parecia que você estava morrendo! Eu não entendo porque, mas...
Alek descansou a testa contra o meu braço e respirou fundo. Eu queria poder abraça-lo, mas não pude fazer nada além de colocar minha outra mão sobre sua cabeça. Assim como ele, eu não tinha ideia do que havia acontecido comigo. Ela como se eu tivesse sido empurrada para muito longe, num lugar escuro muito distante.
— O importante é que ela está bem agora — disse Bella, claramente tentando melhorar um pouco os ânimos.
— Como fez para o seu namorado psicótico deixar você entrar aqui sozinha? — perguntei, tentando melhorar um pouco as coisas também.
— Ele está lá fora — ela admitiu, com as bochechas coradas.
— Edward não será um problema — Carlisle assegurou — E nem Jacob, ou Seth e Leah.
Eu olhei para ele por um momento, plenamente consciente de que Carlisle me disse propositalmente que eles estavam lá fora. Eu gostava do Seth e provavelmente gostaria de Leah em um momento diferente, mas não contrariaria o meu irmão nisso. Ele disse para os Lobos manterem distância e o apoiarei nessa decisão.
Eu não poderia mantê-los como amigos por muito tempo, de qualquer forma. Talvez seja melhor acabar com tudo por agora e me poupar de mais drama.
— Eu não quero vê-los — eu disse, olhando diretamente para Carlisle — Seu filho leitor de mentes pode contar isso à eles.
Lentamente, Carlisle assentiu.
— Compreendo. Você precisa de alguma coisa? Está com fome?
— Eu preciso ir no banheiro, na verdade... — murmurei
— Eu te ajudo — disse Bella, imediatamente
Caslisle se retirou educadamente do quarto e Alek me ajudou a entrar no banheiro antes de sair, me deixando apenas com a humana. Eu fiz o que precisava sem me importar que ela estava ali, mas estava me incomodando de verdade que ela estava claramente querendo perguntar alguma coisa porém hesitava toda vez.
— O que??? — perguntei impaciente.
Bella me olhou culpada e disse:
— Sinto muito, eu... Jake estava muito mal lá fora.
— Eu estou muito mal aqui dentro — resmunguei.
— Sim, mas... — ela hesitou — Eu acho que ele, Leah e Seth brigaram com os outros.
Eu tentei, de verdade, não me interessar por isso. Queria muito dizer "foda-se" agora e seguir em frente.
Mas eu sou muito curiosa.
— Como assim?
— Ele não fala sobre esse tipo de coisa comigo — ela encolheu os ombros — Mas eu acho... Acho que a alcateia vai se separar.
Eu arregalei os olhos para ela. Eu não sabia que aquilo era sequer possível!
— Você ouviu isso?
— Edward leu isso na mente dele — ela respondeu tímida — Ele leu que Jake está pensando em sair e leu que Seth e Leah estão pensando nisso também. Eles não concordam com o que aconteceu, Sel...
Eu me concentrei em lavar as mãos, sem encará-la. O cansaço dominou o meu corpo por alguns segundos e eu decidi que não estava com paciência, ou energia, para pensar sobre aquilo naquele momento. Soltando um suspiro, me virei para Bella novamente, prestes a dizer para voltarmos para o quarto, quando notei as faixas de tecido bege ao redor da mão dela. Franzi o cenho.
— O que é isso?
Ela olhou para mim confusa, sem entender imediatamente a mudança brusca de assunto, e então seguiu a direção do meu olhar e ficou toda vermelha quase imediatamente.
— Ah, eu... Eu dei um soco no Jake.
Eu encarei a humana por um momento, em completo e absoluto choque, e então comecei a rir. Rir mesmo, meus olhos até encheram de lágrimas com a imagem mental que formei sobre essa garota socando alguém. Principalmente essa garota socando um lobo.
Eu daria tudo para ter visto isso.
Ou não, na verdade, porque ela deve ter ficado com muita raiva para chegar a isso.
— Isso não tem graça! — ela reclamou constrangida.
— Ah, mas tem sim — eu respondi, ainda rindo, e limpei os rastros molhados das minhas bochechas — Porque você fez isso?
Ela hesitou e olhou para baixo antes de murmurar:
— Ele me beijou.
Arqueei uma sobrancelha para isso.
— Você socou ele porque ele te beijou?
— Ele me beijou sem eu querer! — ela exclamou, parte irritada e parte constrangida — Quero dizer, eu tenho namorado e... Mesmo se eu não tivesse, ele não deveria... Eu...
— Se acalme, Bella — eu ri do seu constrangimento, o que, provavelmente, faz de mim uma péssima pessoa, mas eu não me importei nem um pouco — Você está certa, ele não deveria te beijar contra a sua vontade... Mas por favor, da próxima vez, bata nele com um pedaço de madeira ou algo assim.
— Não vai ter próxima vez! — ela exclamou com os olhos arregalados.
— Ele está apaixonado por você e é estúpido o suficiente para te beijar à força, Bella — respondi — Eu andaria com um taco de basebal.
— Ele teve um imprinting com você, não teve? — ela perguntou e foi a minha vez de olhar para baixo.
Eu estava tentando evitar pensar sobre isso mas, desde o incidente com a alcateia, tenho a sensação de que a minha ligação com Jacob está enfraquecida. Eu estava tentando pensar nisso como uma coisa boa, porque se isso enfraquecer o suficiente, talvez se quebre sozinho, mas, de alguma forma, aquilo parecia errado. Ruim.
— Sim, ele teve... — murmurei — Mas não temos nada, não somos nem amigos.
— Você não parece feliz com isso — ela observou
Ergui os olhos para encará-la imediatamente.
— O que? Não, eu não me importo com isso, na verdade.
Por algum motivo, ela pareceu desapontada com aquilo, mas quando abriu a boca para verbalizar dua opinião, alguém bateu na porta.
— Bella? Selene? Está tudo bem por aí? — perguntou alguém. Era a voz de Carlisle.
A humana suspirou e sorriu para mim antes de me ajudar a sair do banheiro. No quarto, estavam o vampiro, meu irmão e, surpreendentemente, Charlie Swan.
— Boa tarde — o xerife sorriu para o nosso olhar chocado — Eu não sabia que se conheciam...
— É, eu... — gaguejou Bella — N-nos conhecemos na noite de fogueira na Reserva...
— É ótimo vê-lo novamente, Xerife — eu disse, me sentando na cama. Eu estava tentando o meu melhor para parecer calma, mas estava um pouco nervosa sobre o motivo por trás dessa visita — No que posso ajudá-lo?
— Uma das enfermeiras ligou para a Delegacia — ele disse. Charlie estava sério, mas claramente tentando ser gentil comigo. Interessante — Eu gostaria de saber o que aconteceu com você.
Eu pisquei, confusa, e olhei para Alek, que passou a mão pelo pescoço discretamente, fazendo a minha ficha cair na mesma hora. Meu irmão me trouxe desmaiada para o hospital com hematomas ao redor do pescoço.
Eu vou arrancar a cabeça do Edward. E do Paul.
Como diabos eu vou arrumar uma explicação plausível para esses hematomas???
— Não foi nada demais — eu disse — Eu só... Eu... — encolhi os ombros quando uma ideia apareceu na minha cabeça — Isso é embaraçoso, mas eu dormi usando uma echarpe e isso acabou apertando demais — olhei para baixo tentando parecer envergonhada — Eu só vim acabar no hospital por causa de uma queda de pressão, é vergonhoso que acabaram te chamando, eu sinto muito.
Charlie veio imediatamente me dar uns tapinhas no ombro.
— Está tudo bem, não se preocupe, Bells já passou por algo assim e...
— Ei! — Bella exclamou ultrajada e eu me esforcei muito para não rir.
Uma batida na porta do quarto cortou o momento constrangedor e atraiu a nossa atenção para ver Edward entrando com um carrinho de comida. Não pude parar a careta que se formou no meu rosto.
— Com licença — ele disse, caminhando graciosamente até estar em frente a cama — Eu me ofereci para trazer o almoço da paciente...
Ele olhou para mim e eu não desfiz a minha careta. Era culpa desse idiota que a enfermeira chamou a polícia! Eu só não conto para o Charlie porque ele nunca mais deixaria que o topetudo chegasse perto da Bella e, claramente, toda a violência que vem da parte dele é para proteger ela, então não era perigoso e não havia motivo para estragar o relacionamento. Quero dizer, não era mais perigoso do que já é sendo um vampiro sugador de sangue (mesmo que se alimente apenas de animais não-humanos).
— Ah, sim — Charlie disse, virando novamente para mim — Espero que se recupere logo, Selene. Alek.
Ele acenou com a cabeça para nós e saiu. Mal ele fechou a porta, olhei novamente para Edward e disse:
— É melhor você cair fora desta sala ou vou te atirar pela janela dessa vez.
Alek olhou para mim confuso.
— Conhece ele? O que aconteceu?
Eu encolhi um pouco os ombros, me lembrando que não havia contado sobre isso para Alek. Droga.
— Houve um... Mal entendido... — disse Carlisle, mas foi cortado pelo filho.
— Eu não posso expressar o quanto eu estou arrependido pela minha conduta contigo no nosso ultimo encontro. Eu...
— Você é um imbecil, tanto quanto os lobos Quileute— retruquei
— Eu... — ele começou, mas mudou o peso de pé, claramente envergonhado — Eu sinto muito, de verdade. Eu só... Eu vi o que Alice tinha visto e...
— E agiu como um idiota impulsivo — retruquei, mas então suspirei — Olha, eu estou cansada demais para brigar agora. Você pode me deixar em paz, por favor?
— Isso significa que aceita as minhas desculpas?
— É claro que não, por sua culpa tive que mentir para o Charlie!
— Mas... — disse Alek, connfuso — Não foi ele quem causou os hematomas, não é...?
— Bem, na verdade foi sim — eu disse — Antes do ritual eu fui na casa da Bella e me ofereci para ver se ela possui algum dom. Longa história. Edward pensou que eu ia machucá-la e me atacou.
Alek ficou num silêncio chocado por alguns segundos mas foi visível em cada centímetro do seu rosto quando o ódio tomou conta de si.
— Qual a porra do problema dessa cidade?? — ele perguntou para ninguém em específico.
— Também queria saber — eu resmunguei
Edward se encolheu um pouco e Bella parecia querer sumir. Carlisle pigarreou.
— Eu garanto a vocês que nada desse tipo irá voltar a acontecer — ele disse num tom apaziguador. Aposto que estava xingando por ser Edward a estar ali e não Jasper. Tenho certeza de que seria mais útil — Edward tende a ser impulsivo quando o assunto é Bella, mas...
— Eu não me importo — Alek retrucou — Você tem noção de que duas pessoas atacaram a minha irmã no mesmo dia, sem ela ter feito nada??
— Eu entendo — disse Carlisle — Se alguém da minha família sofresse algo assim, eu também encontraria dificuldades em confiar, mas eu te prometo que não é da nossa intensão ferir Selene.
— É verdade — Edward disse, olhando diretamente para Alek, mas ainda um pouco encolhido, o que era compreencível. Os olhos de Alek brilhavam num tom sinistro de verde quando estava furioso e isso estava tudo na sua direção — Eu prometo que ninguém da minha família vai fazer nenhum mal a vocês.
Alek parecia puto, frustrado e prestes a atirar vampiros pela janela, o que era muito mais a minha cara do que a dele, para ser sincera.
— Se não se importam, eu estou faminta — eu disse, lançando um olhar pela janela tentando descobrir que horas deviam ser — Que horas são, alias? Quando tempo eu fiquei apagada?
— Dois dias — Alek respondeu, entredentes — Você ficou apagada por dois dias, Selene.
Eu suspirei e olhei para ele.
— Eu sinto m...
— Era suposto ficarmos quietos e escondidos — ele cortou a minha frase, focando sua raiva em mim — Como você acabou se envolvendo em problemas com cada criatura dessa maldita cidade??
— Ei, a culpa não foi minha! — eu exclamei — Eu estava tentando ajudar a B...
— Caramba Selene, você ainda lembra porque estamos aqui? — ele perguntou frustrado — Estamos fugindo pra manter o legado da nossa família, você é a Guardiã! Não pode sair por aí se metendo no problema dos outros!
Olhei para ele, incrédula num primeiro momento, antes da raiva subir à minha cabeça.
— Você realmente vai jogar em mim a culpa por ter sido atacada? Sério Alek??
Alek abriu a boca, provavelmente para dizer mais alguma besteira, mas então, de repente, Carlisle estava ao seu lado, com uma mão no ombro esquerdo do meu irmão.
— Talvez seja melhor você vir comigo por um momento, para se acalmar.
Alek parecia inclinado a mandá-lo para o inferno, mas, por algum motivo, decidiu ouvir o conselho e saiu praticamente batendo os pés, irritado. Um silêncio constrangido tomou o quarto, mas me recusei a olhar para algum deles, apenas me joguei de volta na cama, completamente sem fome, de repente.
Eu devo ter apagado quase imediatamente, por que não lembro de nada. Pareceu que eu tinha apenas piscado e então era noite e Alek dormir na poltrona do canto. Suspirei e peguei o copo de água que estava au lado da cama, bebendo um gole em seguida. Passou-se apenas alguns segundos até Alice entrar silenciosamente no quarto, sorrindo para mim. Atrás dela, é claro, estava Jasper.
— Boa noite! — ela disse num tom de voz baixo — Quer ir comer alguma coisa?
Eu olhei para o rosto deles apenas por um momento antes de assentir, pressentindo que ela queria falar alguma coisa comigo — sem acordar o meu irmão. Ela me ajudou a ficar de pé e a caminhar pelo corredor sem cambalear. Assim que estavamos numa distancia segura do quarto, eu perguntei:
— Porque está aqui?
Ela não respondeu imediatamente, mas apesar do sorriso no seu rosto não ter sumido, havia uma sombra estranha nos seus olhos que eu não sabia exatamente como interpretar.
— Você sabe como o meu dom funciona? — ela perguntou, ao invés de me responder. Seu tom era alegre, mas seus olhos ainda estavam estranhos — Eu vejo o resultado futuro de decisões tomadas no presente, é claro, mas eu também posso focar uma pessoa e ver o futuro dela... — por algum motivo, um arrepio correu a minha coluna e eu não gostei nada disso.
Alice não disse nada por um momento, justamente quando chegamos ao pequeno restaurante do hospital. Ela me ajudou a sentar e cuidou de pedir a minha comida antes de se sentar na minha frente (Jasper à minha direita), antes de prosseguir:
— Visões sobre você e seu irmão praticamente saltam para mim, mesmo quando não estou procurando... Carlisle suspeita que seja por você ser o que você é, a... Magia em você deve servir como um catalisador, ou algo assim — ela deu de ombros — No geral, são tantas imagens que eu não consigo distingui-las apropriadamente, mas... — ela fez uma pausa e trocou olhares com o companheiro, que apertou sua mão sobre a mesa, num sinal de apoio, antes que ela voltasse a olhar para mim — Eu vi uma mulher, ela tem cabelos negros e pele dourada, ela... — Alice franziu o cenho, seus olhos distantes, como se visse a cena na sua cabeça — Ela estava parada em frente a uma senhora, que tinha os pulsos atados por correntes e... A mulher estava perguntando sobre uma chave, mas a senhora não dizia nada, então...
Ela não continuou, mas não precisava, eu sabia do que se tratava. Era exatamente o que eu e Alek estávamos evitando pensar: que Annora estava torturando a minha avó para saber onde estávamos. Onde a chave estava.
Eu lutei contra o reflexo de levar a mão até o meu colar para ter certeza de que ele estava ao redor do meu pescoço. Eu sabia que estava.
— Você não pode ir atrás da mulher — disse Alice, de repente, segurando as minhas mãos sobre a mesa rapidamente — Ela virá atrás de você, mas você não pode ir atrás dela. Eu vejo a morte com ela, você...
Alice se calou bruscamente quando uma mulher veio trazer a minha comida, mas ainda tinha os olhos arregalados. Eu assenti para a mulher, agradecendo silenciosamente, e ela saiu, mas nenhum de nós disse absolutamente nada por vários minutos. Na minha mente, eu tentava pensar através de várias rotas diferentes. Eu devia salvar a minha avó? Eu devia me esconder? Eu devia matar Annora? Devia sair de Forks para outro lugar, talvez um mais distante?
Cada célula no meu corpo queria voltar para a minha casa, onde estavam as minhas coisas e as minhas memórias. Eu podia pegar livros de Magia e armas. Éramos bons com espadas, mas tivemos treinamento com bestas também. Podíamos invadir a fortaleza da família nova da minha tia, podíamos entrar e matar todos que estavam lá. Salvaríamos a nossa avó, talvez tudo pudesse voltar a ser como era antes.
A memória da minha avó me dizendo para manter a chave segura saltou na frente dos meus pensamentos frenéticos. Eu tinha uma responsabilidade, um dever. Fomos treinados para cumprir com o nosso dever, proteger o legado da nossa família. Porque se um de nós morrer, precisaríamos garantir que o nosso legado continue.
Para haver alguma esperança.
A realidade amarga era que eu e Alek sozinhos não seríamos capazes de sequer entrarmos na nossa antiga casa. Provavelmente ela sequer existia mais, mas mesmo se ainda estivesse lá, era bastante provável que estivesse sendo observada. Saberiam que voltássemos e nos matariam para pegar a chave. Para ter o nosso poder. O poder da nossa família.
Uma mão fria no meu ombro me arrancou do turbilhão em que a minha mente estava. Ao meu lado, Jasper tentava me tranquilizar, mas mesmo seu dom parecia ser inútil para sensação de desespero que me apertava pela garganta.
— Você não pode ir — repetiu Alice, me olhando muito séria.
— Você me viu indo — eu disse, a encarando de volta. Eu não precisava de uma resposta, havia ficado muito claro pela forma como ela estava agindo, mas, ainda assim, Alice assentiu.
— Você vai morrer se for — ela disse — Vocês dois vão.
Eu não respondi e Jasper apertou um pouco o meu ombro, tentando me confortar um pouco, mas eu me sentir num poço fundo e claustrofóbico naquele momento. Eu me levantei rapidamente e me afastei alguns passos, me apoiando na cadeira da outra mesa para me manter firme. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando afastar aquela sensação.
— Eu vi vocês morrerem de diversas formas diferentes lá — Alice disse, muito séria — Não importa o quão diferente for o plano...
— Eu entendi — cortei, começando a me irritar, mesmo compreendendo, inconsciente, porque ela estava enfatizando aquilo. Ela queria que eu entendesse que não haviam opções que a minha avó saísse viva, não havia como salvarmos ela. Morreríamos tentando.
— Não, você não! — de repente, ela estava na minha frente, com as mãos nos meus ombros — As visões mudam quando as decisões mudam, mas eu continuo vendo...
— Ela é minha avó — eu disse, sem olhá-la nos olhos — A senhora sendo torturada. Ela ficou para que eu e Alek pudéssemos fugir.
Eu podia sentir as lágrimas queimarem os meus olhos, mas não foi até que ela me abraçou, que eu senti-as correrem pelo meu rosto.
Quando eu pensava sobre a minha avó estar morta antes, eu não pensava isso com toda a seriedade que devia. Parecia irreal a ideia disso acontecer.
Bem, não parecia mais tão irreal.
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