Lua Negra

10 10 | Anxiety


Um estranho sentimento inquietante pairava sobre o ar aquela madrugada e eu simplesmente não conseguia dormir. Meu peito estava apertado, sufocado por uma ansiedade avassaladora.

Fechei os olhos e respirei fundo, tentando me acalmar. A Lua Cheia sempre me deixava agitada, mas aquilo era completamente novo. Talvez fosse a Magia dessa floresta, talvez fosse a ligação esquisita com um lobo. Talvez fosse tudo isso e mais alguma coisa que eu não conseguia descobrir ainda.

Era frustrante não poder perguntar para a minha avó.

Movida pelo simples pensamento, a minha mão se ergueu até o pesado colar pendurado ao redor do meu pescoço. Eu ainda não tinha conseguido descobrir como usá-lo para conseguir o Livro das Sombras e isso, sinceramente, me enchia de vontade de sair batendo em alguma coisa, apenas para extravasar a frustração.

Uma parte cínica na minha mente tentava me fazer pensar que talvez, apenas talvez, eu não fosse realmente uma Guardiã. Que eu não fosse capaz de usar o Livro. Mas eu me recusava a acreditar nisso.

A minha avó podia ser chamada de muitas coisas, mas tola não é uma delas.

Eu tirei o colar para poder encará-lo. O medalhão era circular, com uma pedra azul brilhante dentro com metal prateado entrelaçado, como se o prendesse lá dentro. Parecia algo que era capaz de abrir para guardar fotos de parentes, mas a linha ao redor, onde devia ter uma abertura, era como metal trançado, com pequenos espinhos brilhantes. Era bonito. E irritante.

Segurei ele entre as mãos e fechei os olhos, me concentrando para tentar sentir qualquer Magia vinda daquele objeto, mas não havia nada.

Absolutamente nada.

Suspirando, encostei a testa no vidro da janela.

Eu queria saber o que devia fazer em seguida. Provavelmente a minha avó diria para me esconder e manter o colar a salvo, porém na prática, viver escondida é um saco. Eu devia arrumar um emprego, como Alek? Talvez fazer uma faculdade? Viver como uma humana? Nada nisso vai garantir que Annora não nos encontre.

Se eu tivesse mais poder e aliados, eu contra-atacaria. Não é justo eu ter que viver uma vida escondida enquanto Annora, minha tia traidora, pode viver livremente. Ela é a errada, não eu, então porque parece então que somos eu e meu irmão sendo punidos???

De repente, uma pedra acertou a janela bem onde o meu rosto estava encostado e eu pulei com o susto. Se Alek não tivesse dormindo há poucos metros, eu teria gritado alguns palavrões também.

No lado de fora, depois da barreira, estava um dos lobos a quem não fui apresentada. Pelo menos ele estava sorrindo, então presumo que, diferente de Paul, este não me deteste totalmente.

Eu agarrei a minha coberta e desci silenciosamente, enrolando-a ao meu redor. O que raios um lobo queria no meio da madrugada?

— Ei! — ele cumprimentou assim que passei pela porta — Seu nome é Selene, não é?

O encarei em silêncio por um momento, avaliando se devia ser agradável ou expulsá-lo. Decidi que não tinha energia para ser antipática, mas franzi o cenho.

— Sim.

— Eu sou Quill, o meu velho contou histórias junto com o Billy na outra noite.

— Ah — murmurei incerta — O que está fazendo aqui?

— Ah, eu estava patrulhando e então te vi — ele sorriu meio tímido — E... Você é uma de nós, certo? Acho que devíamos ser amigos, pelo menos...

Certeza que o Seth tem dedo nisso.

— Patrulhando? — perguntei, invés de questionar a parte constrangedora do que ele disse.

— Sim, para garantir que os sangue-sugas não entrem no nosso território — ele sorriu, demonstrando que isso era moleza. Arqueei uma sobrancelha em resposta.

— Outros vampiros além dos Cullen costumam vir aqui?

— Os Cullen não vem aqui, na verdade — ele riu — Somos como vizinhos, eles não podem entrar no nosso território também.

— Porque? — perguntei.

— Bem... Nós e os sangue-sugas não nos damos bem, então isso é o melhor para manter a paz, eu acho — ele deu de ombros e eu revirei os olhos.

Caminhei até ele e sentei sobre folhas secas, Quill logo sentou na minha frente.

— Eu acho que isso é estúpido — resmunguei — Porque vocês não podem ser amigos?

— Eles comem pessoas para viver, cara — Quill soltou uma risada tensa

— Nós dois sabemos que os Cullen não fazem isso — retruquei — Além disso, você e seus amigos se transformam em lobos enormes. Tenho certeza que poderiam matar pessoas se quisessem.

— Mas nós não comeríamos elas — ele respondeu dando de ombros

Eu revirei os olhos de novo e deixei esse assunto passar. Se eles querem continuar com essa besteira de preconceito, o problema não é meu.

— Eu estava curioso sobre uma coisa — ele disse de repente, sem olhar para mim — Você e o Jake... Digo... — ele soltou uma risada esquisita — Ninguém ignorou um imprinting dessa forma até hoje. Como é possível...

— Jacob não é apaixonado por aquela garota, Bella? — perguntei, dando de ombros — De repente é por isso que...

— Não — Quill balançou a cabeça — Sam e Leah eram apaixonados antes dele ter um imprinting com a Emily. Ele não conseguiu resistir.

— Talvez ele não tenha tentado o suficiente? — perguntei, confusa, mas quando Quill balançou a cabeça negativamente, eu suspirei — Olha, eu não faço ideia como tudo isso funciona, okay? Eu só sei que é uma espécie de ligação mágica. Se o meu irmão estiver certo e conseguirmos quebrá-la, então talvez...

— O que? — ele arregalou tanto os olhos que pareciam prestes a saltar — Você não pode fazer isso!

Eu franzi o cenho, confusa a respeito do tom desesperado e chocado na voz dele.

— Por que não? Seria o melhor, certo? Digo...

— Não! — ele exclamou, segurando os meus ombros de repente — Você não pode fazer isso!

— Por que?? — perguntei exasperada

— Nós só temos um imprinting na vida — ele disse, subitamente muito sério — Esse tipo de coisa é muito importante, você não pode desistir assim!

Eu não compreendia exatamente o motivo do tom de urgência na voz dele, então argumentei:

— Você não entende, não é seguro! Uma ligação dessas faz com que um de nós possa ser usado para ferir o outro!

— Você pode pelo menos falar com o Billy antes? — ele pediu. Eu me senti inclinada a retrucar, porque o ancião deles não tem nava a ver com as minha vida, mas os olhos de cachorro abandonado dele me fizeram xingar e assentir irritada. Malditos lobos.

— Certo, okay, tanto faz!

Ele sorriu e me soltou, bem quando Alek apareceu na porta, alarmado.

— Sel! O que...

— Está tudo bem — eu disse e levantei do chão, me espreguiçando. Finalmente o sono voltou — Este é Quill, ele veio me encher o saco.

— Não estou ofendido — ele disse, levantando-se com um sorriso no rosto

— E não poderiam conversar num horário melhor? — perguntou Alek — São cinco da manhã...

— Já?? — perguntei surpresa. Eu perdi a noite inteira! — Acho que devia me vestir para ir correr...

— Eu posso ir junto? — Quill perguntou — O meu horário já acabou, então não tenho mais nada para fazer...

O encarei.

— Você não tem escola?

Ele ficou com as bochechas vermelhas e eu quase ri.

— Eu... É à tarde...

— Tudo bem então, eu já volto.

Eu entrei e subi com Alek.

— Seus amigos metamorfos vão te visitar com frequência agora? — ele perguntou assim que entramos no quarto.

— Eu não sei — dei de ombros e peguei minha calça de yoga que estava pendurada no banheiro, felizmente já estava seca da lavagem que fiz ontem — Mas definitivamente é um exagero chamá-los de amigos.

Ele suspirou pesadamente, soando inquieto, então o encarei atentamente.

— O que foi? — perguntei, notando sua palidez incomum — Você está ficando doente?

Ele abriu a boca para responder, mas parou e correu os dedos pela mão, parecendo cansado e frustrado. Talvez fosse o trabalho. Eu devia mesmo arrumar um emprego.

— Eu estou bem — ele respondeu finalmente.

O encarei por mais um momento, mas preferi não insistir. Ele já parecia abatido o suficiente.

— Vou preparar torradas — falei, largando a minha calça sobre o colchonete — Quer chá ou café?

— Café — ele respondeu, sem olhar para mim. Não me importei, ao invés disso desci e fui preparar o café da manhã. Todo mundo tem dias ruins, afinal de contas.

Menos de meia hora depois, nós dois estávamos de banho tomado e comemos nossas torradas e café. Alek pegou sua bolsa para sair e eu fui com ele, levando um copo de plástico com café e três torradas para o lobo sentado lá fora. Uma área maldosa da minha mente (o que, provavelmente é a mente inteira) comentou que era como se eu tivesse deixado o cachorro no quintal.

Credo.

— Ei — chamei. Quill saltou sobre seus pés e olhou surpreso para o que eu havia levado — Como você prefere o café?

— Eu... — ele murmurou surpreso, balançando a cabeça para clarear a mente — Como você tiver posto está bem para mim.

Eu assenti e, sem dizer nada, entreguei o copo e o prato antes de voltar para dentro e escovar os dentes, prender meu cabelo num rabo de cavalo e pegar meu celular. Quando eu saí, ele já tinha comido tudo e estava acabando com o café.

Lobos...

Eu peguei o copo, o prato, larguei na pia e fechei a casa antes de deixar o círculo de proteção para me juntar ao Quill.

— Pronto? — eu perguntei

Ele assentiu, parecendo animado. Fizemos alguns alongamentos antes, o que ele reclamou um pouco mas acabou fazendo também, e então fomos correr. Por um longo tempo, corremos em silêncio, por motivos óbvios (tente correr e falar ao mesmo tempo e descubra o motivo). Já estávamos correndo há vinte minutos quando decidi fazer um pausa para beber água e dividi a minha garrafinha com ele.

— Então... — ele murmurou, ainda ofegante — O que vocês Bruxas sabem fazer? Tipo... Você pode transformar alguém em sapo?

O encarei incrédula.

— Porque diabos eu transformaria alguém em sapo?

— Sei lá — ele deu de ombros, mas depois olhou para mim com os olhos arregalados — Espera, isso significa que você poderia fazer isso se quisesse?

— Acho que não — respondi e mordi o lábio enquanto pensava sobre isso. Nunca havia estudado feitiços de transfiguração, nem tinha certeza se existiam — Eu não sei se é possível.

— Hmm... — ele murmurou, me encarando com os olhos estreitos — Você pode fazer o que, então?

— Porque está tão curioso? — perguntei de volta

— Nunca conheci uma Bruxa — ele deu de ombros — Os velhos contam as histórias, mas meio que... São histórias contadas pelo nosso povo. Não há nada contado pelas Bruxas.

Eu fiquei surpresa com o fato dele notar e se preocupar com esse tipo de coisa. A maior parte das pessoas se contentavam com um lado da história.

— Eu não conhecia o passado do meu povo que se interliga com o seu — respondi pensativa — Mas quando estudei na infância, a história contada era sobre os que fugiram da Europa, a qual, claramente, não é sobre os meus descendentes diretos.

— Existe algo como Hogwarts? — os olhos dele brilharam e eu ri

— Não, quem dera... É mais como um colégio interno para crianças com poderes que não tem nenhuma noção de como usá-los e precisam ser controlados para não fazerem besteiras por aí.

— Ou seja, Hogwarts!

— Talvez — cedi, dando uma risada — Mas sem férias, comida mágica e um diretor legal. É como se Hogwarts fosse comandado pela Umbridge desde sempre.

Ele estremeceu, como se tivesse calafrios, e eu ri dele.

As lembranças a respeito do colégio não são boas, exceto por todo o conhecimento que obtive de lá, apesar que que isso não parece ter sido o suficiente agora. Eu amava passar todo o tempo possível na biblioteca, chegava a dormir umas quatro horas por noite, para poder ler. Isso me fez sair de lá com notas altas em todas as matérias, principalmente as teóricas, mas tudo que posso pensar neste momento é o quanto isso tudo parece ter sido inútil agora.

Agora, quando a minha tia atacou a minha casa no meio da noite e tentou matar a mim e ao meu irmão.

— O que houve? — perguntou Quill, me arrancando abruptamente do meu devaneio — Eu disse alguma coisa ruim? Você parece chateada...

— Não, eu... — suspirei e forcei um sorriso — Sinto muito, eu só... Estava pensando sobre o colégio.

— Você parece o tipo de garota popular — ele comentou, me observando por um momento — Mas eu não vejo porque isso te deixaria chateada.

— Porque eu nunca fui popular — eu ri — Eu sempre fui nerd, com muito prazer.

— Você está mentindo! — ele acusou, apontando o dedo para mim — Você não parece ser uma nerd!

— Ah é? — perguntei arqueando uma sobrancelha — Como exatamente nerds deviam parecer?

Ele ficou vermelho e gaguejou, tentando encontrar palavras não ofensivas para explicar, e então dois lobos pularam do meio da floresta, do nada, e eu pulei de susto.

Malditos lobos do inferno!

— Hey! — Quill pigarreou envergonhado, olhando para os amigos que praticamente o cercaram. Talvez estivessem questionando o motivo dele estar falando com o inimigo.

Tive que morder o interior da bochecha para não sorrir para esse pensamento.

— Acho que eles vieram te buscar — comentei calmamente, atraindo a atenção dos três. Mantive meus olhos no Quill, sem olhar para os lobos, mas tinha absoluta certeza de que o marrom era Jacob.

De alguma forma, eu apenas sabia que era ele.

— Você vai voltar para casa ou vai continuar até a cidade? — ele perguntou, também ignorando os amigos.

Eu pensei sobre isso por um momento. Eu precisava dormir e fazer algumas coisas antes da Lua ficar completamente cheia à noite, mas eu não queria ir fazer essas coisas agora. Mordi o lábio, tentando decidir o que fazer, mas logo voltei o olhar para Quill, decidida.

— Vou até a cidade, tenho que ver algumas pessoas ainda. Pode ir com eles.

Quill me lançou um olhar culpado e assentiu, se afastando alguns passos.

— Até a próxima, Selene.

— Boa aula, Quill

Ele ficou vermelho, o que era exatamente o que eu queria, então sorri, virei as costas e segui para a cidade. Eu queria conversar com Bella Swan.