Lua Cheia
3 Terceira Noite de Lua Cheia
A tempestade caiu com a força que prometia, postes foram derrubados,a estrada na montanha, que leva até a casa de Tsukino está intransitável, as ruas cobertas de neve, alguns moradores começam a limpar o telhado e jogar sal nas calçadas
De todos na vila uma pessoa foi mais afetada, o dono das ovelhas não acredita quando vê o cativeiro aberto, ele corre para o centro e tropeça em alguma coisa, caindo no chão. Seus olhos se arregalam, um pedaço do focinho de uma ovelha está saindo da neve.Dando um grito o homem começa a cavar com as mãos, descobrindo o cadáver do animal.Na casa Tsukino se espreguiça, ela varou a noite trabalhando.— Ahhhhh! Agora só falta a cena final, eu termino mais tarde.Ela se levanta da cadeira, sentindo dor no pescoço, decide tomar banho, nada melhor que uma banheira para aliviar a dor muscular..Nua e dentro da água a moça testa o celular, ainda sem sinal de Wi-Fi e sem linha telefônica ela consegue sinal oscilante, o suficiente para descobrir uma mensagem de voz de seu editor, já sabendo o que vai ouvir e sem clima para broncas ela decide ignorar por ora e acessa a internet.No Google ela pesquisa sobre Hokkaido e mortes, logo abre a página do noticiário local “Polícia emite alerta de urso”, interessada ela segue lendo.“Na noite de ontem algumas ovelhas foram mortas perto da vila, esse é o segundo ataque consecutivo, para preocupação dos moradores as ovelhas foram mortas perto da vila, enquanto que o primeiro ataque ocorreu ao pé da montanha”.Tsukino solta um suspiro aliviada e coloca o celular de lado “ele está mais próximo da vila, seja como for um urso não vai invadir uma casa”.Do lado de fora da casa a neve soterrou a ovelha morta, seguindo quinhentos metros a velha cabana está de pé, alguém acendeu a lareira.As horas passam, a polícia local procura por rastros de ursos, mas a tempestade da noite anterior apagou qualquer pegada que pudesse ser encontrada.Tsukino sai da casa, ela anda até a cabaninha do gerador, ela desliga o aparelho,abre uma lata de querosene e começa a encher o tanque do gerador, ainda falta muito para as doze horas terminarem, mas ela não que ficar no escuro a noite.Ao terminar a autora para na frente da casa, com muito frio ela se abraça e olha em volta, nada além de neve, caminhando mais um pouco ela vai até seu carro, igualmente coberto pela alvura e estende o olhar para a estrada.Pela primeira vez Tsukino se dá conta do quanto está isolada, é impossível descer a pé ou de carro.— Deveria ter comprado sal, uns cinco quilos de sal.Tentando rir, ela volta para dentro de casa, fecha a porta e a tranca por dentro, é aí que ouve o rádio de ondas curtas.— 338, aqui é a polícia câmbio! 338 aqui é a polícia câmbio.Tsukino reconhece a voz e corre até o rádio, o atendendo tal qual uma adolescente atende o telefone.— Oi Kobayashi, aqui é Tsukino, câmbio.— Senhorita Tsukino, estou ligando para saber se está tudo bem. CâmbioEla fala consigo mesma: "é um policial em serviço, lógico que vai ser formal".— Parece que temos um urso, câmbio.— Parece que sim, como está o acesso a sua casa, câmbio.— Obstruído pela neve, câmbio.— A polícia possui um trenó de neve, se precisar de nós chame, câmbio.— Muito obrigada, Kobayashi, tenho uma dúvida, câmbio.— Pode falar, câmbio.— Ursos não hibernam no inverno, câmbio— …— Kobayashi? — Sim… os ursos costumam hibernar no inverno, acredita-se que esse pode ser uma exceção. Câmbio.— Ou seja, um urso rebelde, devo procurar um animal de jaqueta de couro andando em uma moto. Câmbio.Os dois começam a rir.— Eu não me preocuparia com ursos, a tempestade da noite passada o caminho montanha acima ficou mais difícil, o animal deve ir na direção do bosque ou dar a volta na montanha, para região verde de onde saiu, câmbio.— Acho que vou ficar isolada mais uns dias, não vou conseguir sair nem se eu quiser. Tudo bem se chamá-lo uma vez por dia, para conversar? Câmbio.— Será um prazer conversar com minha autora preferida. Câmbio.— Sua autora preferida precisa terminar o mangá, câmbio desligo.— Estou ansioso para o final, câmbio desligo.Tsukino tira o grosso casaco de inverno e sobe as escadas, indo ao seu escritório.A lua começa a nascer, de dentro da velha cabana um homem grita de dor, completamente nu ele rola pelo chão, ouve seus ossos estralarem, suas mãos e pés crescem,tornando-se paras. seus joelhos viram para trás, assumindo a anatomia de um quadrúpede, sua coluna estica e cresce, arqueando a criatura, que se cobre de pêlos cinza. Um focinho cresce no que antes era um nariz e uma boca.O lobisomem sai calmamente da cabana e uiva para a lua.Tsukino está no meio do último capítulo quando ouve o uivo, sua coluna gela ao perceber o quão perto está da criatura, a garota olha pela janela, tentando ver alguma coisa, quando ouve um segundo uivo, dessa vez mais perto.Ela sai do escritório correndo, o segundo andar de sua casa é composto pelo quarto, o escritório e um banheiro, no andar de baixo a sala, cozinha e um lavabo.
Tsukino desce as escadas correndo, vai para cozinha, onde verifica se a porta está trancada, é uma porta antiga, de madeira maciça, idêntica a porta da sala, que ela corre para conferir.A autora olha pela janela perto da porta, avista seu carro coberto de gelo e mais nada, na janela lateral, perto de um sofá ela pode ver algumas árvores ao longe, muita neve em um caminho irregular, a luz da lua cheia ilumina parcialmente a noite.Alguma coisa está errada, ela não sabe o que é, não enxerga nada de diferente, mas alguma coisa está estranha, é aí que ela nota, alguma coisa cinza, parada perto de uma árvore. O lobisomem sente o cheiro do medo, ele urra e investe contra a casa.Tsukino ouve o uivo da besta, seu sangue gela, suas pernas congelam, fica incapaz de se mover quando a criatura investe contra a janela.O vidro da janela estoura com o peso da criatura, que tenta escalar a parede, paralisada de medo Tsukino consegue gritar, a adrenalina invade seus músculos e a garota fica de pé, a tempo de ver o lobisomem tentando passar pela janela.Felizmente Tsukino escolheu uma casa antiga, construída com material de primeira qualidade, as várias hastes de ferro, que ornamentam a janela impedem o lobisomem de entrar, a criatura força o corpo, entortando o ferro, não o suficiente para quebrar. O animal se afasta.Tsukino corre para o rádio de ondas curtas— 338 chamando a polícia! 338 chamando a polícia! CâmbioEla ouve um estrondo, o Lobisomem investe contra a porta da frente.— 338 chamando a polícia, Câmbio— Polícia falando, câmbio — era uma voz diferente, parecia ser de um jovem.— Kobayashi!— O sargento Kobayashi está na casa dele,isso é uma emergência? câmbio. O lobisomem uiva antes de investir novamente contra a porta, fazendo o primeiro rombo.O jovem policial ouve o uivo da criatura, seguido pelo grito apavorado da garota “Socorro! Estou na casa da montanha”.— Senhora! Está aí! Câmbio!O rádio transmite apenas um uivo, dessa vez muito alto..O jovem policial dá o alerta, veste seu casaco, se arma com um rifle e corre até o trator de neve, rumo a casa na montanha.Tsukino sobe as escadas, ela se tranca no quarto, arrasta sua cama para perto da porta.No andar de baixo o lobisomem termina de destruir a porta, entrando de quatro, como um animal caçado ele fareja o chão e uiva, ao sentir o cheiro de sua presa.Tsukino arranca o colchão de sua cama, junta sua força e levanta o estrado, o colocando contra a porta.O lobisomem caminha até a escada, ele cheira o primeiro degrau, experimenta uma pata e tira, ainda inseguro tenta mais uma vez, até ganhar confiança.Sentindo todos os músculos do seu corpo doer, Tsukino arrasta uma cômoda de madeira contra a porta e cai sentada, inteira coberta de suor.O lobisomem sobe as escadas desengonçado, seu olfato o leva até o quarto, mais um uivo e ele investe contra a porta.Tsukino grita,ela não acredita no que está acontecendo, juntando forças procura no armário alguma coisa para se defender, só encontra sapatos de neve e cabides.O lobisomem investe mais uma vez, a cômoda treme com o peso da criatura, que arranha a madeira com suas patas, arrancando pedaços da madeira.Dentro do armário Tsukino encontra um velho trenó de neve, sem maiores esperanças o quebra e arranca uma das hastes que o faz deslizar no gelo.A criatura abre um rombo na porta, seu corpo termina de destruir a madeira ao redor, o estrado da cama se rompe como se fosse isopor.O peso do monstro é suficiente para destruir a cômoda, que se esparrama pelo chão.Tsukino tira uma foto com flash da criatura, que fica cega por um segundo, o suficiente para dar sua primeira e possivelmente última investida contra a criatura. Se jogando contra o monstro ela perfura o olho do lobisomem com a haste do trenó de neve, o lobisomem solta um grunhido e recua ele nunca fora ferido assim, Tsukino tem tempo suficiente para se trancar no armário.O lobisomem cambaleia assustado no hall superior, o pedaço de madeira ainda está em seu olho, as tentativas de tirá-lo com a pata só o machucam mais, ele urra num misto de raiva e dor, chacoalhando a cabeça, o pedaço de madeira começa a se desalojar da cavidade ocular.Assustado o monstro exita, quando ouve um barulho do lado de fora.O policial estaciona o trator de neve perto da entrada, ao ver a porta destruída ele desce do trenó engatilhando o rifle.— Aqui é a polícia, quem estiver aí dentro se apresente.Tsukino escuta o policial e grita desesperada.O jovem policial corre até a casa, quando o lobisomem salta pela porta sobre ele, o devorando, com o impacto ele solta a arma, a munição cai pela neve, o lobisomem o devora vivo.Tsukino chora desesperada dentro do armário.O Lobisomem se afasta, satisfeito, mas ferido, naquela noite ele perdeu mais do que ganhou, seu instinto diz para se afastar.
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