Loyalty

13 O Lobo Róseo


Poucas pessoas compareceram ao velório. Luka não queria mais pessoas além das mais próximas a ela e sua avó. Alguns colegas da orquestra, alguns de seus alunos, um ou dois vizinhos. E Lilly, que agora trabalhava na capital, cancelou todos os compromissos para se despedir da avó de sua amiga.

Quando todos se foram, Luka se viu só diante do cadáver rodeado de flores, os olhos fechados, as mãos cruzadas sobre o peito imóvel. Os funcionários do crematório aguardavam enquanto ela fitava a avó silenciosamente.

Sentiu alguém se aproximar dela no salão e voltou-se. Não conseguiu sorrir ao ver Meito, mas o olhar dela pareceu ser o bastante para encoraja-lo a se aproximar.

Ele se postou ao lado da moça, e os dois fitaram a velha senhora em silêncio. Meito não sabia se era algo de sua cabeça, um tipo de mecanismo para se sentir menos culpado; mas o ar da falecida parecia ser de extrema paz.

– Naquele dia,– ela murmurou numa voz grave– você lamentou não ter me ouvido tocar violino antes de ir embora.

– Me lembro disso– ele respondeu.

– Que bom que veio. Essa é a última vez que vou tocar com o instrumento do meu avô.

Meito a viu pegar o estojo. Reconheceu o antigo violino, e também a melodia que Luka tocou. A música intensa e triste, que havia entoado para sua avó numa noite de Natal, muito tempo atrás.

– Adeus– ela disse ao final. Pôs o violino e o arco sobre o corpo da avó, beijou a testa dela suavemente e acenou para os funcionários.

Meito e Luka sentaram-se num banco do lado de fora do crematório, vendo a fumaça subindo da chaminé, em rolos negros que se dispersavam no céu. O homem segurou a mão dela, que encostou a cabeça em seu ombro.

– Soube que um certo sobrinho de minha avó foi visita-la algumas vezes no hospital. Era você, não era?

– Sim... Achei que você já tinha problemas demais, então resolvi não lhe perturbar.

– Não está me perturbando. Obrigada por ir vê-la.

Era a primeira vez em anos que ele a via sorrir. O sorriso triste e cansado de uma mulher que está arrasada por dentro, mas sabe que vai tirar forças de algum lugar para seguir em frente.

E que estava feliz em vê-lo.

– Ela também não me contou nada– Luka disse. –Sempre tentando me proteger de tudo, até o final...

– Fui eu quem pedi pra ela não contar sobre mim.

– Você também não mudou nada.

Ele sorriu calmamente, enquanto ela acariciava os cabelos castanhos que cobriam sua testa.

No final da tarde um funcionário entregou a Luka a urna contendo os restos da avó. Meito indagou se ela montaria um altar em casa, mas a moça respondeu que aquele não era o desejo da senhora.

– Ela queria que eu jogasse as cinzas no oceano– contou. –Queria o espírito e o corpo dela livres pelo mundo, e não aprisionados numa caixinha de madeira.

Meito a levou para a casa dela de carro. Estava chovendo, não era um tempo bom para atirar cinzas no litoral. Quando Luka indagou se ele estava a serviço na cidade, ele respondeu apenas que estava de folga. Ela não pediu mais informações, nem esboçou qualquer reação.

Porém, quando Meito estacionou diante do condomínio, sentiu a mão dela pressionar a sua.

– Tem onde ficar? – indagou, quase num tom de súplica. –Se não tiver, pode passar a noite aqui.

Meito a encarou em dúvida. Luka pareceu adivinhar o que ele pensava.

– Ele está viajando a trabalho– disse. – Ao menos foi o que ele me falou. Só sei que vai ficar fora por várias semanas.

A chuva tinha desabado quando eles entraram no apartamento e deixaram os calçados na soleira da porta. O interior era pequeno e bem arrumado. Luka acendeu as luzes e disse para Meito ficar à vontade. Ela foi até um dos quartos, onde só havia uma cama e um guarda-roupa. Depositou a pequena urna em cima do lençol.

– A última noite que ela vai passar no quarto dela– disse melancólica.

Meito se ofereceu para preparar um café enquanto ela foi tomar banho. Podia sentir o perfume dela por toda a casa. Aquele aroma lhe trazia à tona todas as recordações que sempre guardava consigo, mais vívidas e brilhantes.

Ele se perguntava como foi capaz de passar tanto tempo longe dela.

Passou pela sala, vendo os retratos em cima da estante. Quase todos eram dela e a avó. Pôde ver através deles Luka crescendo e se tornando uma mulher deslumbrante, que aparecia sorrindo espontaneamente ao lado da avó. Num canto da estante, porém, o sorriso dela era mais sutil. Alguém a abraçava na foto, um rapaz moreno e sério.

– No que ele trabalha? –indagou quando Luka voltou do quarto envolvida num roupão, enxugando os cabelos.

– Fotógrafo– respondeu. –Viaja bastante por causa disso.

Ela aceitou a xicara que ele lhe ofereceu e sentou-se diante dele na poltrona.

– E você? – indagou tranquilamente. –Saindo com alguém?

Meito a observou intrigado. Não imaginava que ela fosse fazer aquele tipo de pergunta logo na primeira vez que se reencontravam, ainda mais depois de um dia triste como aquele.

Oh, talvez fosse aquilo. Ela precisava afastar os pensamentos ruins da cabeça.

– Sabe que não posso manter esse tipo de relação– ele anuiu, dando de ombros. – Seria perigoso, especialmente pra quem estiver comigo.

– Ah, não estou falando de um relacionamento sério– Luka disse. – Falo de encontros casuais. Não necessariamente com a mesma pessoa.

Meito olhou de relance para a foto do casal na estante.

– Sua relação com ele é desse tipo?

– Não sei explicar – ela deu um risinho despreocupado. – Ele é um cara legal, mas tá sempre viajando a trabalho. Mora aqui comigo porque não pode pagar o aluguel sozinho. Ele deixa as coisas dele aqui, nos encontramos de tempos em tempos, e então ele vai embora.

– Hum. – Meito tomou um gole do café fumegante. – Ele viaja tanto a trabalho, mas não consegue dinheiro pra pagar o próprio aluguel?

– Digamos que não é um cara muito esforçado. Ele viaja mais pelo prazer de viajar do que pelo dinheiro.

– E nunca levou você numa dessas viagens?

– Não poderia, mesmo que quisesse. Tenho minha vida aqui. Meus alunos, o pessoal da orquestra... A minha avó.

Fez uma pausa, bebendo o café lentamente.

– Não parece a melhor pessoa pra estar ao meu lado, não é? – ela sorriu, fitando a xícara. – Penso nisso muitas vezes. Talvez ele pense também. Ele é um freelance, eu sou uma professora e membro de uma orquestra. Tenho responsabilidades. Tenho minha própria vida... Foi você quem me disse que eu tinha que construir minha vida, não?

Os olhos azuis, embora cansados, tinham a pureza e determinação de sempre. Meito assentiu em aprovação.

– Acho que você ficaria muito decepcionada consigo mesma, se não conseguisse.

Ela sorriu-lhe, num gesto de gratidão.

Após um banho e um jantar rápido, Meito procurou Luka pela casa. A moça estava encolhida debaixo de uma pesada colcha de lã escura, vendo as gotas escorrendo pela vidraça da janela.

O homem sentou ao lado dela e acariciou seu ombro de leve. Luka moveu-se, mechas longas e rosadas espalhando-se pelo travesseiro. Estendeu a mão a Meito, que se debruçou sobre ela, depositando um beijo em seus lábios. Então deitou ao seu lado e a abraçou, as costas delgadas dela contra seu peito, o braço apoiado na curva sinuosa da cintura. Entrelaçou seus dedos nos dela e beijou seu pescoço, e Luka aconchegou-se mais junto a ele.

– Estou muito cansada– confessou num sussurro. –Muito triste. Ter minha avó comigo me fazia sentir que não estava sozinha no mundo. Agora... Agora sei que estou por conta própria. Isso é assustador.

Meito afastou os fios rosados de sua têmpora, acariciando–a com os lábios. – Você vai conseguir. Você é muito forte. É a pessoa mais forte que já conheci.

Ela deu um risinho de descrença e se acomodou melhor nos braços dele.

– Esteve sozinho por muito tempo, não foi, Meito?

– Bastante tempo.

– É muito difícil?

– Não era no começo. Eu não me apegava a ninguém, não queria ficar perto de ninguém. Até te conhecer.

Luka engoliu em seco, suas mãos apertando os braços dele.

– Sentir sua falta... Isso é a verdadeira solidão pra mim. Não ter você comigo. Não importa com quantas pessoas eu conviva... Sem você do meu lado, sempre vou estar só.

Ela voltou–se para o rapaz, os olhos claros fitando-o calmamente.

– Lamentar uma vida que não se teve... Vamos fazer isso, só essa noite?

– Como assim?

– Imagine o prédio onde eu morava com minha avó... Imagine que você vivia com alguns parentes no prédio vizinho.

– Ah, é mesmo– Meito sorriu, entrando no jogo. – Eu devia ter o quê, uns sete anos?

– Sim. Nossa, você era uma peste. O pior garoto da minha sala.

– E adorava mexer com aquela menina de cabelo esquisito.

– Sempre me perturbando, escondendo meus cadernos, bagunçando meu cabelo... Qual era seu problema afinal?

– Sei lá, talvez eu já fosse a fim de você naquela época e não sabia.

– Ah tá, por isso você pichou “Megurine Gostosa!” no muro da escola?

– Isso foi no ginásio. Além do mais eu tive que apagar a pichação. Mas chamei sua atenção, não foi?

– Não da melhor forma.

– Você me notou, foi o mais importante.

– E você me pediu desculpas. E elogiou meu concerto de violino.

– Nossa, você tava linda demais naquele dia...

– E então crescemos...

– E entendemos o que estava acontecendo.

– Nossa primeira noite foi incrível, hein?

– Sei lá, foram tantas depois daquela... Legal mesmo foi minha vó me levando até o altar. Me entregando a você.

Ela reprimiu um soluço, enquanto ele engolia em seco. Abraçaram-se com mais força, e então se encararam.

– Nada disso aconteceu– Luka lamentou.

– Em uma próxima vida, quem sabe– Meito tentou anima-la, sem muita convicção.

– Não queria ter que esperar tanto.

Seu corpo quente e suave levantou e se apoiou sobre a estrutura forte de Meito, que arrepiou-se vertiginosamente. O contato da pele dela era macio e sedoso como ele imaginava em sonhos, os seios fartos pressionavam a camisa.

O beijo foi caloroso e sedento, a ânsia de estar cada vez mais perto um do outro, de suas peles se fundirem até se tornarem uma.

O temporal batia com força na vidraça, abafando os gemidos dela, os sussurros dele. Podiam ouvir–se perfeitamente. Sabiam o que queriam. Queriam um ao outro, um dentro do outro, um nos braços do outro. Luka abraçava-o entre as coxas, empurrando os quadris dele mais fundo, ansiosa por manter ali o homem que amava.

Ele se esforçava mais e mais, tentando conter a própria fome, mas os sons que escapavam dos lábios dela o faziam perder o juízo. Sentiu-se crescer dentro dela ao ir e voltar, inchando, o sangue pulsando contra paredes apertadas e quentes. Acelerou mais ao sentir a pélvis dela chocando-se contra a sua, o corpo dela arqueando-se, as pernas estremecendo. Estocou mais uma vez e sentiu o membro preenchido pelo líquido quente, jorrando dentro dela.

Não sabia se era seguro, mas pelo modo como as pernas dela o enlaçavam, achou que não houvesse problema. Então sentiu o corpo voltar das portas do paraíso, relaxando e pousando de volta aos braços de Luka. Contemplou o rosto belo, afogueado de prazer, fios róseos colados no rosto pelo suor. Meito os afastou e beijou cada centímetro de suas faces.

– Obrigada... –ela sussurrou cansada. –Por me fazer esquecer a morte... A solidão.

Ele beijou-a e lhe puxou para seu peito, abraçando-a ternamente.

– Obrigado por me fazer sentir vivo.

Notas finais
[Dando uma parada por enquanto, assim que puder volto.
A você que leu, muito obrigada e, se possível, diga o que está achando da fic.
Té maisinho :*]
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.