Loyalty
2 II - Vigília e violino
A velha senhora pôs as mãos na boca, aflita.
― Luka-chan, o que fizeram com você?
A garota entrou na sala e abraçou a avó, suspirando aliviada. Agora tinha certeza de que o pesadelo havia acabado.
― Estou bem, baa-chan. Fique tranquila.
Claro que não havia como tranquilizar a avó, depois de ela ver seu rosto inchado e ferido e suas roupas sujas de sangue. Entre um banho quente e os curativos, Luka contava tudo o que havia acontecido, desde o momento em que fora atacada até aquele em que foi salva pelo seu antigo agressor. Resolveu omitir a parte mais agressiva da tentativa de estupro – não precisava deixar sua avó ainda mais horrorizada com os detalhes daquilo. Ela mesma ainda estava, e não sabia quando poderia se recuperar.
― O rapaz não fez nada com você?― a avó indagou apreensiva, enquanto lhe aplicava um bálsamo caseiro sobre o rosto.
― Ele só me levou pra casa dele e limpou meu rosto― Luka murmurou, sentindo-se sonolenta pela ação tranqüilizante do remédio. ― Eu disse que tinha que vir pra cá, e ele me acompanhou até o outro lado da rua. E me devolveu meu sobretudo.
A senhora sorriu.
― Parece ser um bom rapaz.
― Ele matou os dois caras― Luka estremeceu ao lembrar.― Não acho que seja tão bom assim.
― Mas ele foi bom com você, não foi?
― Ele disse que estávamos quites agora.
Ela guardou a caixa de curativos e olhou para a jovem, que estava deitada na cama, envolta nos lençóis grossos.
― Acho melhor você deixar esse emprego, Luka-chan― disse preocupada. ― O que aconteceu hoje foi terrível. Eu não quero que algo assim aconteça de novo.
― Eu também não― ela respondeu.― Mas também não posso deixar o emprego... Vou tentar mudar o horário então, está bem?
Ela acenou a cabeça negativamente.
― Não vai melhorar as coisas― disse.
― Mas eu não posso ficar aqui trancada pra sempre, com medo de sair ― Luka disse aflita, como se tentasse convencer a si mesma.―Preciso trabalhar. Precisamos do dinheiro.
A avó foi até ela e lhe beijou a testa.
― Vamos pensar nisso depois― aconselhou. ―Agora durma um pouco, você passou por coisa demais por hoje.
Depois que ela se foi Luka olhou para o teto, tentando organizar as ideias. Havia sim, vivido muita coisa numa única noite. Definitivamente sim.
Enquanto se dirigiam para a casa dela, os dois pouco falaram. Ela o observava de esguelha, vendo como os olhos dele se moviam rapidamente, vigiando ao redor. Por fim acabou encontrando o olhar dela pousado sobre ele.
― Qual o seu nome? ―ela indagou num impulso.
Ele voltou a olhar para frente.
― Sakine Meito― disse.
― Sou Megurine Luka― ela respondeu sem pensar. Baixou a cabeça, tensa.
― Não devia andar por aí à noite, Megurine Luka-san― Meito disse, impassível.
Ela cruzou os braços, sentindo o calor familiar do seu sobretudo a lhe envolver. Muito embora já não fosse tão familiar, pois podia reconhecer o seu próprio cheiro nele misturado a outro, desconhecido. Não era bom nem ruim, apenas estranho a ela.
― Eu preciso trabalhar― murmurou.
― Ainda assim, não devia sair à noite― ele insistiu. ―Esse lugar é perigoso pra você.
― Sei disso.
Chegaram à rua onde ficava a casa de Luka. Eles pararam e Meito olhou para trás.
― Viu o caminho que fez para chegar até aqui?― indagou ele.
― Sim.
― Venha sempre por ele.
Antes que ela pudesse falar Meito lhe deu as costas, sumindo na escuridão da rua.
A partir de então, Meito passou a vigiar constantemente a volta de Luka para casa. Todas as noites, sem falta, no mesmo horário.
Sentia que era algo que devia fazer por ela. Luka era uma criatura indefesa, e mesmo assim tinha lhe salvado a vida uma vez. Se alguém a machucasse, seria como se ferissem a dignidade dele próprio. E aquilo ele não ia permitir.
Observava-a das sombras, vendo-a caminhar sozinha e visivelmente amedrontada, pelo caminho que ele tinha lhe indicado. Não sabia se ela havia entendido que ele estaria naquelas ruas, mas não quis se mostrar a Luka no começo. Não queria que ela achasse que ele estava lhe fazendo algum tipo de favor. Era por si mesmo que Meito estava lhe protegendo, por seu próprio orgulho.
E então as rondas começaram a ficar movimentadas em algumas semanas. Outros tentaram se aproximar de Luka, e Meito os impediu. Algumas vezes conseguiu fazê-lo ás escondidas, torcendo o pescoço de um antes que ele aparecesse na rua, esfaqueando outro antes que Luka percebesse a sua presença. Certa noite, porém, teve que perseguir um garoto drogado que se encaminhava erraticamente na direção da garota. Luka virou-se a tempo de ver Meito derrubá-lo com um soco, antes de dobrar a esquina.
― O que está esperando?― ele indagou, vendo-a parada, a olhar para ele.― Vá logo!
Luka olhava para ele, sem nenhum sinal de temor.
― Vai estar aqui todas as noites?―indagou.
Meito largou o garoto no chão e voltou-se para ela, encarando-a nos olhos.
― Sim― disse.
Ela lhe sorriu serenamente.
― Arigatō― disse, indo embora.
E assim, vários meses se passaram.
Luka estudava pela manhã, cuidava da casa e da avó à tarde e ia trabalhar à noite. Não conseguiu mudar seu turno, ou mesmo convencer a avó de que poderia continuar a trabalhar naquele horário sem correr o risco de cair nas mãos de um maníaco novamente. Mas não havia alternativa, e ela sabia. Por maior que fosse seu pavor em voltar a sair à noite, alguém tinha que sustentar aquela casa. E ela não ia deixar nas costas da avó velha e doente uma responsabilidade que, mesmo com todas as dificuldades, Luka ainda podia carregar.
Além do mais, ela não estava sozinha.
Na volta para casa podia sentir a presença de Meito por perto, e a sensação de segurança era reconfortante. Nada parecido com o dia em que o reencontrou havia lhe acontecido novamente. Ele realmente a protegia.
No entanto, quase nunca se revelava na escuridão, e com o passar do tempo, a curiosidade da jovem a respeito de Meito aumentou. De onde ele tinha vindo? Como entrou naquela vida? E qual a razão de continuar a lhe proteger?
Certa noite , enquanto seguia pela rua deserta, ela resolveu arriscar.
― Boa noite― disse num tom normal, que ecoou no silêncio. ―Pode me ouvir?
Ela parou por alguns segundos, esperando uma resposta. Podia sentir que estava sendo vigiada. E reconhecia o seu observador. Só que ele não parecia muito sociável no momento. Ela assentiu em concordância e decidiu seguir caminho.
Alguns passos adiante viu um vulto descer de um muro baixo. Ele pulou na calçada e se pôs a caminhar ao seu lado.
― Posso lhe ouvir― disse.― Boa noite.
Ela sorriu. Talvez ele não fosse tão antissocial assim.
― Você parece... bem melhor do que naquele dia no beco― disse ela.
Meito assentiu, os cabelos revoltos escondendo parcialmente seu rosto.
― Estou melhor― disse. ―Graças a você.
― Por isso está me protegendo?
Ele lhe dirigiu um olhar que a garota não soube decifrar.
― Isso não é a causa. Mas é a consequência. Não quero que ninguém a machuque, por isso estou te protegendo. Não porque te devo alguma coisa, ou você a mim.
― Bom, mesmo que não queira, estou em dívida com você― ela ponderou.― Cuidar da segurança de uma pessoa não é fácil, e é arriscado. E deve tomar pelo menos uns vinte minutos do seu tempo. Eu devia te pagar de alguma maneira. Posso usar meu salário...
― Aquele que você ganha se arriscando fora de casa todas as noites?― ele disse bruscamente.― Não, obrigado. Eu não ia me sentir bem com isso.
― Desculpe, mas você acha que eu me sinto bem? Está me prestando um serviço, não importa como veja a situação. Posso não saber me defender, mas tenho meus princípios.
― E pelos seus princípios, você me deve alguma coisa.
― Sim.
― Seus princípios são idiotas― ele murmurou solenemente.
Luka não conteve um sorriso.
― Escute, não estou brincando― insistiu.― Se houver alguma coisa, qualquer coisa que eu...
― Certo― ele assentiu.―Vou pensar no assunto.
Quando se aproximavam da rua de Luka ela parou de andar, encarando Meito. Ele lhe observou de volta, os olhos escuros estreitando-se curiosos na direção dela.
― É daquele jeito que você ganha a vida?― indagou ela em voz baixa.― Como... um...
― Criminoso?― ele completou. ― Sim. Mato e roubo para viver.
A calma fria com que ele dissera tais palavras fez um arrepio congelar a espinha dela. Luka engoliu em seco.
― Entendo― disse.
Meito ergueu uma sobrancelha.
―Entende?
― É a sua vida, é assim que você vive― ela explicou. ― Não sou eu quem leva a sua vida, então não posso te julgar.
O rapaz a fitou, sem compreender.
― Mas de qualquer modo, é uma vida perigosa― Luka disse por fim.― Então, tome cuidado.
Meito ficou em silêncio alguns segundos, e então riu.
― Você é estranha― disse. ―Ninguém nunca me falou pra ter cuidado, em toda minha vida.
― O que é uma pena. Acho que teria feito alguma diferença, se tivesse ouvido isso algumas vezes.
Ele sorriu amargo.
― Acho que não. Oyasumi, Megurine-san.
― Oyasumi, Sakine-san― ela acenou para o rapaz e atravessou a rua.
Oculto nas sombras, Meito ficou a contemplar a casa por alguns segundos, antes de ir embora.
“Garota esquisita.”
__v__
Os exames do fim do ano letivo se aproximavam. Luka logo se viu cheia de trabalhos e revisões para fazer. Tinha os dias dominados pelos estudos e as noites pelo trabalho. Às vezes tinha a impresso de que desmaiava ao invés de dormir.
Mas achava que as coisas estavam indo bem. Seu salário havia equilibrado as contas de casa, de modo que havia dinheiro o bastante até para pagar os exames de sua avó. A velha senhora também vinha bem de saúde, embora se preocupasse muito com o esforço que a neta fazia, sem falar no perigo que passava todas as noites ao voltar para casa.
Quanto a isso, porém, Luka estava absolutamente tranquila.
E sabia muito bem a quem devia agradecer.
Aquele ano também parecia estar prestes a fechar para Meito com saldo positivo.
Para quem o tinha iniciado trancafiado num reformatório superlotado, quase perdido uma perna durante a fuga, caminhado uma distância de duas cidades a pé, passado fome, sede e frio e quase morrido de pancada ao chegar ali, o rapazinho achava que estava mais do que bem. Vivia num condomínio arruinado e ocupado por família de traficantes, já era conhecido de boa parte do crime organizado na cidade. Era constantemente requisitado para serviços que envolviam roubo e assassinato; sua habilidade e discrição eram muito apreciadas pelos criminosos locais. As quantias recebidas por tarefa eram altas, o bastante para permitir que parasse de se arriscar em rinhas humanas e assaltos à lojas.
Chefes de facções diferentes já o tinham em alta conta, e seu respeito se estendia às classes mais baixas da hierarquia criminosa. Não demorou para que os batedores de carteira e assaltantes comuns se afastassem de uma certa rua no subúrbio, a um certo horário da noite. Sabiam que àquela hora, a protegida de Meito passaria em sua volta para casa por ali. E se não queriam problemas com o jovem e talentoso assassino, deviam ficar bem longe
Mesmo assim, todas as noites, o rapaz voltava àquela rua disciplinadamente, e escondia-se nas sombras para vigiar enquanto Luka passava, até se certificar que ela havia chegado em casa sã e salva. Era seu dever de honra, e ele o cumpria sem faltas.
Era fato que a criminalidade vinha crescendo naquela cidade a taxas alarmantes. A polícia parecia tão intimidada e impotente quanto os próprios cidadãos.
Sob a luz do dia nebuloso Luka seguia para casa depois da aula, temerosa de que algo pudesse lhe acontecer. Já havia sido abordada na rua algumas vezes por desconhecidos de aparência perigosa, mas eles sempre se afastavam ao observá-la de perto. Ela não sabia o motivo, mas o medo de que algo como a noite em que quase fora violentada lhe acometia sempre nesses momentos. Meito não estaria ao seu lado sempre. E do jeito que as coisas andavam na cidade, todo cuidado era pouco.
Agarrada aos livros, a ponta do cachecol flutuando de dentro do sobretudo, ela caminhava a passos ágeis. Havia muito o que fazer quando chegasse em casa. Além de uma longa lista de exercícios de química, tinha trabalhos de outras colegas para fazer, pelos quais ela recebia um dinheiro que já entrava no orçamento da casa. Andava tão ocupada que vinha deixando de freqüentar as aulas de violino no conservatório, algo que lamentava bastante. Ela gostava muito de música.
Quando terminou de atravessar a rua viu dois homens de roupas gastas e olhar injetado, que a encararam fixamente. Quis passar para a outra calçada, mas já era tarde. Eles vinham na sua direção. Nervosa, agarrou com força os livros. Não havia muita gente por perto, e os poucos que circulavam por ali não estavam dispostos a ajudá-la se ela fosse assaltada ou algo do tipo.
Felizmente os homens apenas passaram por ela e seguiram em frente. Enquanto se afastavam ela pôde ouvi-los resmungar entre si.
― É a garota do Meito, não encosta nela.
― Aquele pivete de merda...
Luka ficou parada alguns segundos, até que sentiu o sangue voltar a correr nas veias.
― Pode me ouvir?
Nada além do barulho cortante do vento nas árvores nuas, o rumor distante do centro da cidade, um ruído que lembrava disparos a esmo em algum lugar longe dali. Luka se viu sozinha na rua por um momento, e quando olhou para o lado, Meito estava ali de pé, as mãos nos bolsos do sobretudo, fitando o céu escuro e sem estrelas.
Se não confiasse tanto nele, teria gritado. Aquele jeito sorrateiro dele era capaz de matar alguém do coração.
― Konbawa― ela murmurou, lívida.
― Konbawa― Meito acenou com a cabeça, impassível.
― Continua vigiando esse caminho?
― Sim. Algum problema?
Os olhos voltaram-se na sua direção, estranhamente claros na rua mal iluminada.
― Nenhum― Luka disse rápido, e voltou a caminhar.― Algumas pessoas já perceberam que você vem aqui todas as noites.
― Mesmo?― indagou Meito enquanto a acompanhava. ―Encontrou com essas pessoas?
― Sim.
― Elas te fizeram mal?
O tom da voz dele estava baixo e ameaçador. Luka estremeceu e assentiu negativamente.
― Sabiam que você me protegia, de alguma forma. Acho que eles têm medo de você.
Meito torceu o rosto num esgar de desprezo.
― Covardes― resmungou.
Eram tão valentões diante de um moleque maltrapilho e esfomeado, mas agora tremiam de medo só de olhar para aquela garota e saber quem a protegia. Matar um a um era algo que lhe dava nojo, por ter que sujar suas mãos com criaturas tão sem valor.
― Eles estão se espalhando pela cidade, não é― Luka comentou distraída.― Nunca vi tantos bandidos andando soltos, e à luz do dia ainda mais. Acho que nem a polícia está dando conta deles.
― Vocês não tem polícia aqui― Meito disse. ―Tem um bando de imbecis de farda. Os que não se corromperam são completos inúteis.
― Mesmo...? Isso é terrível... Será que vai ser sempre assim?
― Não, acho que não. Vai piorar se o comando da polícia resolver se mexer. Vai ser como cutucar um vespeiro; mesmo que consigam diminuir o número de bandidos soltos, a população vai sofrer também. Não que as coisas estejam melhores do jeito que estão, eu acho...
Luka o ouvia em silêncio, os olhos fixos nele. Meito percebeu a expressão concentrada dela e a encarou de volta interrogativamente.
― Desculpe― ela explicou hesitante― é que... É estranho ouvir essas coisas de... Outro criminoso.
Ele franziu o olhar e sacudiu a cabeça, dando um risinho anasalado.
― Idiota― murmurou.
Luka sorriu e os dois ficaram em silêncio por um momento.
― Por favor― ele disse. ―Assim que puder, saia desse lugar. Leve sua avó e vão viver longe daqui.
A garota lhe fitou temerosa.
― Acha mesmo que as coisas vão piorar daqui pra frente?
― Acho.
Ela puxou a alça do estojo às costas, preocupada. Meito provavelmente sabia do que estava falando. O caso era que ela não tinha ideia de para onde poderiam ir, se a violência naquela cidade aumentasse. Não tinham família em outro lugar. Ao menos, ninguém a quem pudesse recorrer.
― O que é isso?― Meito indagou, fazendo-a despertar de seus pensamentos. Luka percebeu que ele apontava para seu estojo.
― Um violino― ela respondeu.― Não tenho muito tempo pra praticar, então faço isso no intervalo do trabalho.
― Você toca?
― Claro, por que mais eu andaria com ele nas costas?
Ao ver a expressão curiosa no rosto do rapaz, ela entendeu o motivo da pergunta.
― Nunca viu alguém tocar violino?
― De perto não― ele admitiu.
Naquela noite, sentada na mesa da cozinha e revisando os trabalhos da escola, Luka relembrou a conversa que tivera com o rapaz mais cedo. Pensou no modo como olhou para o estojo. Havia ansiedade naquele olhar, a ansiedade de um ladrão olhando para seu objeto de desejo. Mas de algum modo, ela sabia que a intenção de Meito não era roubar o instrumento.
― Vai trabalhar na véspera de Natal?― sua avó lhe perguntou.
― Não― ela respondeu enquanto passava uma redação a limpo. ―O gerente disse que a gente não vai precisar...
Ela parou de repente, e um sorriso incrédulo surgiu em seu rosto. Era uma ideia maluca, e Meito provavelmente não aceitaria.
Mas não custava tentar.
― Como é?
Ele reagiu exatamente como Luka imaginou – como se tivesse ouvido um absurdo sem tamanho. Mas ela não desanimou.
― Amanhã à noite, depois das dez― insistiu.― Eu e minha avó cozinhamos bem. Teremos boa música. E provavelmente não teremos visitas. Quer dizer, nenhuma se você não for.
― A sua avó ao menos sabe quem eu sou?― ele perguntou.
― Claro. E ela quer lhe conhecer.
― Você é completamente idiota. Tenho certeza disso.
Luka cruzou os braços diante dele, as sobrancelhas erguidas, esperando uma resposta. Meito passou os dedos entre os cabelos, aborrecido.
― Não― disse por fim. ―Não posso fazer isso, Megurine-san.
― Mesmo?― ela indagou irônica.― Tem alguma lei entre os criminosos que te impede de fazer isso?― Seus olhos azuis cresceram, e ela o fitou desconcertada. ―Espere... Amanhã você vai estar... Ocupado, é isso?
Meito sorriu de lado, satisfeito com o ligeiro temor da menina. Ora, ele quase tinha acabado com a raça dela meses atrás. Que direito ela tinha de vir lhe pedir aquilo? Quem tinha dado aquela intimidade a ela?
― É, vou estar ocupado― disse ameaçador. ―Ou você acha que assassinos se reúnem pra cear no Natal?
Luka soltou os braços, encarando-o com um repentino ar de desafio. Sua expressão subitamente se desfez; ela sorriu levemente, o sorriso cresceu e ela começou a rir.
― Qual o seu problema?― ele resmungou irritado.
― Desculpe― ela murmurou, cobrindo a boca com as mãos. ―Eu estava imaginando um bando de mal-encarados ao redor de uma mesa de ceia de Natal.
Ela baixou a cabeça entre risos, e Meito respirou fundo. Sentiu vontade de rir também, mas estava aborrecido. Ela não podia simplesmente vira a ele e lhe oferecer algo como aquilo.
Algo que ele nunca tinha experimentado na vida. E que ele já tinha se conformado a morrer sem saber como era.
― Estou falando sério, Sakine-san― ela disse por fim. ― Gostaria que viesse à minha casa. Gostaria que passasse ao menos algumas horas da noite de Natal conosco. Você fez muito por mim, e mesmo que não queira que eu o retribua, ao menos encare isso como um sinal de gratidão.
Ele parecia estar considerando a proposta, Luka pensou ansiosa. E ali no meio da rua, parada diante dele, sentia que podia esperar uma eternidade até que ele se decidisse. Desde que a resposta fosse um sim.
Sabia o quanto aquilo era realmente estranho, e realmente arriscado, como sua avó tinha feito questão de lembrar na noite anterior, quando ela lhe contou sua ideia. Mas o fato é que, apesar de tudo, ela acreditava nele.
Mesmo com seus instintos lhe dizendo que não devia.
Sentia em Meito uma infinidade de diferentes impressões negativas. A aura pesada de alguém que tirava vidas. Ódio, amargura, desprezo, orgulho e uma sombria indiferença. Mas devia haver mais. Meito não devia ser muito mais velho que ela, não era possível que aquele rapaz tivesse se fechado totalmente para a vida. Devia haver algo de bom nele. Senão, ele não teria salvo a vida dela. Senão, não estaria cuidando dela todas as noites.
Era no que Luka acreditava, e nada a demovia desse pensamento agora.
Meito encarou os olhos grandes e azuis, fixos nos seus. Não tinha passado por misérias em sua vida suficientes para lhe roubar o encanto ao ver olhos tão transparentes e honestos como aqueles. E agora que ele parava para refletir, percebia que aquela garota devia ser realmente uma grande idiota.
Mas era definitivamente uma idiota diferente dos outros, de um tipo difícil de encontrar.
Talvez fosse mesmo única.
― Não espere por mim― ele disse finalmente, num resmungo. ― Pode ser que eu mude de ideia.
― Espero que não― Luka sorriu, satisfeita. ―Vou tocar violino. Gostaria que você estivesse lá.
Notas finais
Sei que essa fic tá andando lenta... Assim como todas as outras >.< Mas como ela é a mais adiantada por enquanto, vou fazer o possível pra atualizar ela de uma vez.
A você que leu, muito obrigada! Se puder deixar uma review dizendo o que achou da história, agradeço mais ainda.
Té maisinho, pessoal! :******
Fale com o autor