Loyalty
1 I - Sobretudo e sangue
A tarde caía rapidamente, junto com a temperatura, e o vento era frio e cruel.
A garota descia apressada as ruas apinhadas de neve, o estojo escuro do violino balançando às costas, os cabelos rosados flutuando atrás dela. Carregava sacolas em suas mãos cobertas por luvas e tratava de andar logo, pois sabia que ao cair da noite as ruas de seu bairro eram ainda mais perigosas que de costume.
Passou correndo pelas vielas estreitas e sombrias. Dali podia avistar a quadra de prédios baixos e antigos onde vivia, logo adiante. Respirou fundo e desceu a ladeira com pressa.
Ouviu uma conversa alta e risadas, e parou no mesmo momento. Escondeu-se num beco úmido, esperando que o grupo de homens mal-encarados atravessasse a rua, até que ela estivesse fora de sua vista. Eles sumiram numa viela e a garota respirou aliviada, preparando-se para voltar a correr.
E então, ouviu uma tosse abafada e sofrida, bem próxima a ela.
A garota saltou de susto. Então se recompôs e virou-se para o beco atrás dela, procurando a pessoa que tossiu. Estava com medo, mas sua curiosidade naquele momento era maior.
Ouviu a tosse novamente, mais aberta e agoniada. E então percebeu que não estava apenas curiosa. Alguém ali poderia estar precisando de ajuda. E mesmo ciente do perigo da situação, a garota sentia-se impelida a ir em frente.
A estreita faixa de céu cinzento iluminava fracamente o beco. Entre montes de papelão e latas de lixo ela encontrou uma pessoa, envolta num manto velho, respirando pausadamente. O manto formava uma espécie de capuz, escondendo seu rosto. A pessoa estava toda encolhida contra a parede, tiritando de frio e tossindo ocasionalmente. Devia estar ali havia algum tempo, ela pensou ao ver os flocos de neve caída sobre os ombros do manto.
A garota se aproximou hesitante, sentindo o coração suspenso pela ansiedade. Chegou mais perto, as botas avançando lentamente sobre o chão úmido e coberto de neve. A pessoa de repente parou de tossir e pareceu apenas esperá-la.
― Você... está bem?― ela sacudiu a cabeça, frustrada. Era óbvio que ele não estava bem, que pergunta idiota.
A pessoa continuava em silêncio. A garota respirou fundo, e ao dar mais um passo, exclamou surpresa. O manto ergue-se num pulo, uma mão agarrou-a pela nuca dela e outra encostou uma navalha em sua garganta.
― Calada― uma voz masculina e jovem exclamou por baixo do manto.
Ela sentiu uma vontade muito grande de gritar, mas se conteve. Soltou as bolsas no chão, e o barulho das coisas caindo atraiu a atenção do agressor. Ele empurrou a garota para o fundo do beco e se pôs a vasculhar as bolsas, a navalha erguida numa das mãos enquanto a outra mexia entre os produtos. A garota estava encostada na parede, tremendo da cabeça aos pés. Mesmo que sua mente não estivesse tão confusa por conta do susto, ela não poderia sair. O agressor tinha lhe encurralado.
Observou a mão ossuda encontrar a sacola de pão, e ao perceber do que se tratava, usar a navalha e abri-la. Agachou-se diante dela e apanhou um dos pães, devorando-o avidamente. O manto caiu de seu rosto, revelando um rapaz jovem, talvez da mesma idade da garota. Os cabelos lisos e castanhos caíam revoltos sobre um rosto sujo e magro. Ele parecia faminto.
Ela o viu comer mais da metade da sacola de pães quase de uma só vez. Quis dizer para ele ir devagar, mas não achou que ele fosse lhe ouvir. O rapaz encontrou uma caixa de leite e a abriu, virando na boca de uma vez.
Enquanto comia, seu manto caiu e a garota se surpreendeu com o quão finas e esfarrapadas eram as roupas dele. Como conseguia sobreviver daquele jeito, naquele frio?
Súbito ele ergueu o rosto para ela, a navalha em punho.
― Seu dinheiro― exigiu.
Ela enfiou as mãos nos bolsos sem nem pensar. Não havia mais do que alguns trocados, e mesmo assim era todo o dinheiro de que ela dispunha naquele mês. Mas continuar viva era muito mais importante. O rapaz apanhou o dinheiro da sua mão e olhou para ela fixamente por um momento.
Vendo-o com mais cuidado, a garota percebeu por entre os rasgos da camisa dele, manchas de sangue e escoriações arroxeadas. Havia um hematoma amarelado em sua têmpora. Os olhos dele eram profundos e escuros, de uma frieza intensa e obstinada. Então seu corpo se dobrou e ele voltou a tossir sofregamente, o rosto avermelhando-se numa expressão de dor.
― Vá― ordenou ele num balbucio rouco, saindo da frente e apontando a saída do beco com a navalha. ―Rápido.
Havia sangue manchando os lábios dele. A garota parou, assustada, mas diante do gesto dele com a navalha apressou-se em se afastar.
Ao chegar à saída, ouviu-o ter um acesso ainda mais violento de tosse. Mordeu o lábio inferior, angustiada. Aquele rapaz ia acabar morrendo ali. Então respirou fundo e desabotoou o seu agasalho, um sobretudo antigo, de fibra grossa e escura, que era ligeiramente maior que ela. Era tudo o que podia fazer. Voltou ao beco cautelosamente e o avistou de volta às bolsas, catando o que comer dentro delas.
― Fique com ele― pediu, deixando o sobretudo em cima de um latão vazio junto a parede, e saiu correndo.
O rapaz só teve tempo de virar-se e vê-la correndo, os cabelos rosados flutuando atrás dela, o estojo do instrumento balançando às costas.
A velha senhora estranhou ao ver a neta chegar em casa esbaforida, assustada, de mãos vazias e sem seu sobretudo.
― O que aconteceu, Luka-chan?― indagou, caminhando lentamente até a sala.
A jovem trancou a porta e virou-se transtornada, o rosto entre as mãos.
― Fui assaltada, baa-chan― disse nervosa.― Levaram as compras, o dinheiro, tudo.
― Seu sobretudo também?― ela indagou sem entender.
Luka dirigiu os grandes olhos azuis para a avó, e acabou sorrindo. Estava em casa, e estava bem. Era o que importava.
― Deixei com o assaltante― confessou. ―Ele estava machucado e morrendo de fome e de frio... Sou uma idiota, não sou?
A avó foi até ela e a abraçou.
― Não é não― disse tranquilamente. ―É uma boa garota. Ele te machucou?
― Não, mas me deu um belo susto. E deixou a gente sem jantar amanhã.
― Tudo bem, ainda tenho umas reservas.
― São as suas reservas, baa-chan― Luka olhou para ela aflita.
A senhora apenas sorriu. Tinha os mesmos olhos e traços suaves do rosto da neta, apesar da idade. Seus cabelos longos e brancos estavam arrumados numa trança de lado. Ela tirou dos ombros o xale de lã pesada e envolveu os ombros enregelados da garota. ― São nossas reservas, querida. Só podemos contar uma com a outra, lembra?
Luka olhou para a avó, que lhe sorria com carinho. Assentiu pesarosa e beijou seu rosto.
― Vamos tomar um café bem quente― a senhora tomou sua mão, levando-a para a cozinha.― Me conte o que aconteceu. Onde foi esse assalto?
Depois do jantar a garota foi para seu quarto. Observou o estojo do violino, aliviada porque o assaltante não prestou atenção nele. Tinha pertencido ao seu avô, e Luka praticava com ele todos os dias no conservatório de música local. Era um instrumento valioso, em vários sentidos, e felizmente não sofreu um único arranhão.
Lembrou-se de que o sobretudo também havia pertencido ao seu avó, e ela o considerava igualmente valioso. Mas seu avó não gostaria de saber que ela tinha deixado um mendigo morrer de frio, mesmo que ele tivesse lhe assaltado.
Ao lado da cama, viu as contas se amontoarem na escrivaninha. O dinheiro da pensão de seu avô estava cada vez mais curto, o que dificultava tudo. A avó de Luka era bastante idosa e tomava uma infinidade de remédios. Luka tinha ainda 15 anos, estudava pela manhã e ia ao conservatório três vezes na semana, passando as noites com a avó. Tinha medo de sair e deixá-la sozinha. Aquela era uma vizinhança perigosa e ia piorando a cada dia. Por outro lado, precisavam de dinheiro. E tinham que dar um jeito de consegui-lo.
Viu a avó aparecer na porta.
― O dono da café ligou pra cá mais cedo― contou.― Ele perguntou se você não quer trabalhar lá, no período da noite.
― O que disse a ele?― Luka indagou interessada, sentando-se na cama.
― Disse que ia falar com você. ―A senhora sentou-se ao lado dela na cama.― Não é perigoso você sair à noite, Luka-chan?
― Acho que sim― ela murmurou, tentando parecer tranquila. Mas sabia que sim, era muito perigoso sair à noite.― O que me preocupa é deixar a senhora aqui sozinha.
― Ora― ela riu― aqui eu vou estar mais protegida que você, mocinha! Só preciso trancar a porta e deixar os remédios ao meu alcance. É com você que tem que se preocupar.
Ela abraçou a neta e lhe beijou a cabeça. Luka deitou-se na cama e acomodou a cabeça no colo da avó, encolhida junto a ela como uma criança.
― Vamos dar um jeito, não vamos, baa-chan?― indagou.
― Claro que sim.
Luka sorriu e ficou em silêncio, sentindo-se segura no colo acolhedor enquanto a avó acariciava seus cabelos.
― No que está pensando, Luka-chan?
― No assaltante― ela murmurou. ―Precisava ver ele, baa-chan. Parecia que estava prestes a desabar.
― Mesmo?
― Sim.― Ela suspirou fundo, pensativa.― Nunca vi olhos como os dele. Eram tão distantes e assustadores... E tão tristes.
O perfume do tecido fez o nariz de Meito franzir-se. Fazia tempo que não sentia um cheiro tão bom. Lembrava flores frescas, algo quente e aconchegante. Num impulso ele vestiu o sobretudo e se encolheu junto a algumas caixas de papelão, esperando o tecido aquecer o suficiente com o calor do seu corpo.
Se bem que ele estava com tanto frio, que duvidava que ainda tivesse algum calor dentro dele.
Na penumbra da noite, uma mancha esbranquiçada pairava no fundo do beco. Eram os restos do assalto recente, bolsas vazias e embalagens rasgadas. Meito tinha acabado com boa parte dos itens alimentícios, tendo guardado alguns pães e um resto de leite consigo. Talvez não tivesse sorte de achar comida no próximo lugar onde ele fosse.
O corpo estava todo dolorido pela surra recente que levou de um bando de homens sem-teto, por ter tentado roubar a comida deles. Algo que não tinham lhe ensinado, nos primeiros anos de sua vida no orfanato ou nos reformatórios onde esteve nos anos seguintes, era que não se roubava comida de alguém que nunca tinha o que comer. E agora Meito sabia que devia roubar de quem tinha, mesmo que essa pessoa tivesse trabalhado para conseguir.
Vivendo e aprendendo, ele refletiu mal-humorado, esfregando o ombro que tinha deslocado e ele pusera de volta sozinho. Parecia ter sido arrancado de seu corpo. Depois da surra ele foi se esconder naquele beco, machucado, esfomeado e coberto de farrapos. Esperava que Deus fosse bondoso o bastante para lhe enviar uma morte rápida, mas devia saber por experiência própria que não podia esperar muito Dele. E em vez de conceder uma solução definitiva para todas as desgraças de sua vida, Ele lhe enviara uma garota. Uma garota que trazia consigo comida, uns trocados e o melhor sobretudo que ele jamais havia usado. Meito sorriu irônico, passando a mão sobre os cabelos sujos. Se ela tivesse um xarope para tosse consigo, ele podia dizer que Deus era um grande piadista.
Por fim levantou-se e saiu do beco, sentindo-se aquecido e revigorado, e de modo geral bem melhor do que horas antes. Ele era relativamente jovem, calculava estar com 16 ou 17 anos, mas já havia vivido coisas demais para uma vida só. Não teria apanhado dos mendigos se não estivesse tão fraco e faminto. Havia crescido em ambientes violentos e hostis. Sabia atacar e se defender. Podia matar se as circunstâncias exigissem, e elas já haviam exigido algumas vezes.
Ele respirou fundo o ar gelado, o perfume do sobretudo envolvendo-o suavemente. Ainda lhe intrigava aquele gesto da garota. Não sabia por que alguém que acabou de ser assaltado faria aquilo; mas desde que chegou naquela cidade, aquele foi o primeiro ato de bondade que alguém teve com ele.
Aliás, foi o primeiro em muitos anos.
“Bom, isso é uma segunda chance, eu acho. Melhor tomar cuidado dessa vez.”
Meito ergueu a gola do sobretudo sobre o pescoço, observou a cidade luminosa e enevoada sob a noite.
E então se foi.
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Faziam cinco meses que Luka estava trabalhando no café.
Ele ficava perto do centro da cidade, numa área mais movimentada, o que era bom. O difícil era a hora de voltar – ela ia para o caixa às cinco da tarde e só saía depois das dez da noite. E se o bairro em que ela morava já era perigoso durante a noite, naquele horário específico ele era particularmente aterrador. Sempre que chegava em casa, encontrava a avó aflita de olho no relógio, e esta sempre soltava um suspiro de alivio ao vê-la.
Apesar do perigo da volta, o emprego estava ajudando bastante nas despesas de casa. O dono era um conhecido de sua avó, e tinha prometido que daria o emprego à garota. Luka sentia-se mais tranquila sabendo que poderia arcar com as contas de casa sem ter que passar fome junto com sua avó todo mês, por isso seguia para o trabalho determinada, todos os dias.
Naquela noite ela fechou o caixa e despediu-se dos colegas de trabalho, que também moravam em áreas distantes. Uma garota que trabalhava na cozinha costumava lhe dar uma carona de bicicleta até perto do seu bairro, o que facilitava um pouco sua jornada. Mas o problema mesmo era ao chegar lá, e ir sozinha para casa.
O bairro onde Luka vivia ficava nos limites da cidade. Era bastante antigo e fora construído sobre uma cadeia de morros, de modo que a maioria das ruas eram ladeiras perigosamente íngremes. O pequeno prédio onde ela e a avó viviam ficava do outro lado dos morros, e para chegar lá era preciso atravessar as ladeiras. Suas ruas eram desertas e mal-cuidadas, cheias de casas antigas, desocupadas e em ruínas. Não era possível contorná-las para chegar ao outro lado, pois o terreno cercado de uma fábrica abandonada impedia o acesso.
A fábrica, assim como a maioria das casas e prédios das ladeiras, eram abrigos de sem-tetos e marginais de todos os tipos, que circulavam por ali à noite, livremente. Sua proliferação no local fizera a maioria dos moradores fugir de medo daquele bairro. Luka e sua avó não puderam sair, simplesmente porque não tinham para onde ir.
Ela apressou o passo, olhando para os lados atentamente. Vez ou outra um carro da polícia aparecia por ali, mas por algum motivo eles preferiam não freqüentar o bairro. A garota se encolheu dentro do xale que a avó tinha lhe dado para protegê-la do frio – Luka saía de casa com pelo menos três camisas e um pulôver para se aquecer, mas ainda não eram tão eficientes quanto o seu sobretudo.
Ficou se perguntando se o assaltante ainda o possuía. Ou, se ele ainda estaria vivo.
O vento cortante arrepiou sua pele. Ela apertou os braços cruzados junto ao corpo. Mais algumas ruas e estaria em casa.
De repente, uma sensação terrível congelou sua espinha. Estava sendo observada. Ela olhou ao redor aflita, e mais adiante viu um vulto aparecer no topo da rua. Ela estacou hesitante, e decidiu mudar de rumo. Mas ao virar para trás, outro vulto apareceu. Estava encurralada.
Antes que começasse a se mover, os dois vultos vieram em sua direção. O medo tomava seu corpo inteiro, e Luka forçou-se a continuar a andar. Nisso os dois vultos apressaram o passo, e o que vinha do começo da rua veio correndo.
― Quietinha, criança― o homem se aproximou por trás dela, enquanto um terceiro emergia de uma casa em ruínas próxima dali.
Luka encarou-os apavorada. Não havia para onde correr. O homem atrás dela agarrou seus braços e ela soltou um grito desesperado. O outro veio e lhe deu um soco no rosto, fazendo-a perder o fôlego, a dor cegando-a por um momento.
― Quieta, sua puta, tá maluca?― ele rosnou enfurecido.― Ninguém tá te machucando.
― Cala a sua boca se não quiser ficar sem a língua― o homem atrás dela sussurrou em seu ouvido, e o contato da barba suja em seu rosto fez a pele de Luka encrespar de nojo. ―A gente vai cuidar bem de você.
O terceiro homem parou na calçada e fez um sinal para os outros dois irem com ele. Luka engoliu em seco, tentando não gritar enquanto os homens a arrastavam para os escombros da casa, um deles já abrindo as calças.
Eles a atiraram no chão da casa. Um deles se debruçou e tirou as botas da garota, que começou a se debater instintivamente. Luka virou o rosto ao receber o impacto de um novo soco, e antes que a dor tivesse dissipado, já tinham arrancado o jeans e a calcinha de seu corpo. Estava nua e exposta diante deles, e se sentia um animal prestes a ser abatido.
― Putinha pequena essa― reclamou o que prendeu os braços de Luka.― Vai dar trabalho pra comer.
― São as melhores― disse o que lhe socara.
― Deve ser apertada e seca como o diabo― o outro insistiu. ―Se ela machucar meu pau eu arranco o olho dela fora.
― Até parece que você tem o pau de um cavalo― o homem riu rudemente.
Luka chorava em silêncio, as lágrimas escorrendo pelo rosto, quentes e doentias. Não podia enxergar ao redor mais do que o luar pela fresta do teto semidestruído permitia ver. Estava caída no meio dos dois homens, que já tinham se despido da cintura para baixo e a encaravam de cima, ameaçadores.
― O que acha disso, garoto?― um deles disse.― Você arranjou o lugar. Quer comer primeiro?
Ela não podia ver o terceiro homem, oculto na penumbra do recinto. Ele se aproximou dos outros, ficando entre eles, diante de Luka.
― Vou ser o primeiro― disse friamente.
Os outros dois se entreolharam.
― Fica à vontade― disseram.
Aconteceu num piscar de olhos. Luka viu algo brilhante atingir a garganta de um deles, fazendo-a esguichar num jorro grosso e vermelho. O homem caiu no chão ao lado dela, gorgolejando.
― Mas que porra...― o outro exclamou , levando as mãos ao abdome.
Ela viu a mão do outro homem voar ao peito dele e golpeá-lo varias vezes ali. Podia ouvir o som úmido da lâmina entrando na carne, e o homem estremecia no chão, tentando inutilmente alcançar o pescoço de seu assassino para estrangulá-lo. Caiu morto antes que conseguisse.
Ele olhou para a garota caída, paralisada de pavor no chão.
― Se vista― disse, limpando na roupa de um dos mortos a lâmina de uma navalha estranhamente familiar. ―Temos que sair daqui.
Luka obedeceu imediatamente. Assim que se vestiu e calçou as botas, uma onda de desespero inundou sua mente e ela caiu de joelhos, fitando ao redor.
― Eles... Eles estão... Eles iam...― ela balbuciou entre lágrimas, respirando sofregamente, sentindo a sanidade lhe abandonar por um momento.
O homem se aproximou dela e se agachou à sua frente, e ela reconheceu aqueles olhos frios e escuros, nos quais uma estranha e perigosa chama brilhava agora.
― Você ainda vai acabar morrendo, qualquer dia desses― o rapaz resmungou impaciente.― Vem, vamos sair daqui.
Passaram por uma estrada que margeava as montanhas nos limites da cidade. Nos terrenos baldios, um grupo de baderneiros depredava carros e fazia um barulho aterrador.
― Fique perto de mim― recomendou o rapaz, e Luka apressou o passo para acompanhá-lo.
Podia reconhecer o assaltante pelos traços finos do rosto, pelos olhos, pelas mãos magras e longas. Mas ele não parecia mais estar à beira da morte. Tinha o andar ágil e furtivo de um gato de rua e usava uma jaqueta e calças escuras que o protegiam contra o frio. Em nada parecia com a criatura maltrapilha e agonizante que assaltara Luka num beco, cinco meses atrás.
― Pra onde estamos indo?― ela indagou trêmula.
Tinha pensado em sair correndo, mas as pernas não lhe obedeciam. E ao ver a selvageria que a cercava naquele lugar, concluiu que devia ser mais seguro ficar ao lado do rapaz.
― Você tá machucada― ele disse apenas.
Luka instintivamente pôs a mão sobre o rosto, sentindo-o dolorido e úmido. Olhou para o rapaz, que continuava em frente, sem encará-la. Respirou fundo o ar gelado da noite e seguiu ao lado dele.
Chegaram a um conjunto de prédios baixos e sombrios, de aparência abandonada. O rapaz guiou Luka por um corredor aberto que dava acesso às entradas dos prédios, e parou diante de uma porta. Sentados no degrau dela havia duas crianças fumando tranquilamente.
― Fora― disse ele friamente.
Os dois garotos lhe dirigiram um sorrisinho zombeteiro e saíram correndo. Ele empurrou a porta e Luka entrou atrás dele, atordoada.
― Não vou fazer nada― ele disse, notando o estado de confusão da jovem. ―Só quero tirar esse sangue de você.
Acendeu uma lâmpada, revelando um cômodo de teto baixo e mobília escassa e arruinada pelo tempo. Ele lhe apontou um sofá e Luka sentou-se, observando ao redor e tentando controlar os próprios nervos.
O rapaz saiu e voltou com uma pequena bacia de água. Ajoelhou-se diante de Luka e tirou da bacia um pedaço de pano, que espremeu e passou sobre o rosto da jovem.
Ela retesou-se diante do contato gelado do tecido, que fez sua pele arder. Engoliu uma exclamação de dor e trincou os dentes, até que a sensação abrandasse.
O rosto dele estava concentrado no trabalho. Seus olhos pareciam ser cor de mel sob a luz amarelada da sala, e os cabelos lisos e castanhos caíam despenteados sobre eles. Se ele não lhe desse medo agora, Luka poderia dizer que ele era até bonito.
― Aqueles homens...― ela murmurou hesitante.
― Não vão fazer falta a ninguém― ele respondeu com firmeza. Molhou o pano na água, tingindo-a levemente de vermelho.― Quando começarem a cheirar mal, alguém tira eles de lá.
Os olhos azuis dilataram-se de terror. Um sorriso leve apareceu no canto dos lábios finos dele.
― Acha que tinha outro jeito de sairmos?― indagou, voltando a enxugar o rosto dela.
― N-não...― ela franziu a testa, confusa. ― Não estou questionando o que você fez. Eu... Agradeço por ter me tirado de lá.
Seus braços estavam cruzados, apertando-se contra seu corpo. O rapaz apenas assentiu. ―Estamos quites agora.
Depois de ser salvo da fome e do frio, Meito havia perambulado pelas zonas mais sombrias da cidade. E com o tempo, se recuperou.
Estava forte outra vez. Podia lutar, se defender. E atacar.
Depois de matar três de seus oponentes numa rinha humana entre sem-tetos, tinha ganho dinheiro o bastante para comprar uma arma e se estabelecer no que chamavam de “subúrbio do crime”, a área de prédios abandonados e condenados na saída da cidade. Logo estava no rol de cães de caça dos criminosos locais, e era contratado por eles para roubar e matar. Ás vezes o serviço era rentável, mas haviam temporadas em que as coisas acalmavam, e Meito ficava sem dinheiro. Nessas horas ele recorria à sua forma principal de subsistência – roubos e assalto à mão armada.
Foi num desses momentos que reencontrou a sua salvadora, a garota de cabelos rosados. Estava prestes a assaltar o café onde ela trabalhava, mas ao vê-la no caixa, resolveu procurar outro lugar. E nas noites em que estava livre, ele a acompanhava de longe, vigiando o caminho que ela percorria para chegar em casa. Naquela noite porém, ele quase não pôde chegar a tempo. Os estupradores o conheciam de vista, e graças a aquele momento de reconhecimento entre criminosos Meito conseguiu deles confiança o bastante para matá-los.
Só lamentava ter feito aquilo na frente da garota. Ela não merecia ver aquele tipo de coisa. Nem passar pelo que tinha passado.
― Pode ficar essa noite aqui, se quiser― disse ele, indo até a sala. ―Vou ficar do lado de fora da casa, não se preocupe.
A garota o observava com seus olhos grandes e azuis, o rosto ferido e intumescido pelos golpes. Estava trêmula, mas parecia determinada a resistir bravamente a tudo o que estava passando.
― Tenho que voltar ir para casa― disse.
Meito assentiu; devia ter imaginado. Ela tinha fugido de um estupro e testemunhado dois assassinatos, não devia estar disposta a dormir na casa de um completo estranho.
Que por sinal já tinha lhe assaltado uma vez.
―Minha avó está me esperando― ela acrescentou.― Deve estar muito preocupada, eu não posso deixá-la sozinha.
― Certo― ele respondeu apenas.
Foi até seu quarto, um aposento que só possuía uma cama e um armário caindo aos pedaços, e apanhou uma roupa dentro do móvel.
― Vai precisar disso― falou, entregando à garota.
Ela abrandou a expressão ao reconhecer o agasalho. Meito foi até a porta e ela o seguiu, vestindo o sobretudo.
Notas finais
Espero que tenham curtido! Os capítulos são assim meio grandes porque, bem, eu não consegui fazer menores :P Mas serão poucos os capítulos, e não vai demorar muito até alcançarmos a cronologia de Pretty Sinner pra poder continuar as duas histórias.
Quanto à periodicidade, a princípio os capítulos serão quinzenais, à medida que eu puder ir adiantando a história. Se eu conseguir escrever mais rápido do que posto, vou mudar para capítulos semanais.
Enfim, você que leu, agradeço muito! Se puder deixar uma review dizendo o que achou, vou agradecer mais ainda. Té maisinho! :***
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