Lo(vn)eless
1 Silêncio mudo.
Notas iniciais
Aquilo machucava. E como. Parecia uma facada bem no meio do peito, só que a faca estava alojada entre os ossos do esterno. Um sangramento que não estancava, por mais que se apertasse o machucado.
No momento que a notícia chegou, quase não aguentou. Parecia uma brincadeira de mal gosto, de algum amigo sacana. A ficha não caiu, sabe? No momento que o telefone tocou e ouviu aquela voz chorosa, não pôde acreditar. Ele disse que voltava no dia seguinte. Que não demoraria e que quando voltasse queria passar o fim de semana juntos. A aquela voz do melhor amigo ao telefone denunciava algo errado.
Preciso te falar uma coisa... Ele não volta... Ele se foi... Ele se...Se...
O choro desencadeado foi mútuo. Ambos sentiam aquela dor sufocante de perder alguém amado.
O enterro foi lindo. Os pais, irmãos, familiares, amigos, e ela. Muitas flores, um dia ensolarado, como ele teria gostado. Todos tinham rosas brancas nas mãos para jogar no caixão, quando este fosse baixado a sete palmos abaixo da terra. Mas ao olhar aquela flor, viu que para eles ela não tinha nenhum significado, nenhuma emoção. Jogou a flor fora e pegou duas florzinhas cor-de-rosa que nasciam ali na grama. Ele teria apreciado.
Ao chegar em casa, deixou os pés levarem o corpo até o quarto. Deitou-se no chão, e como num impulso, encolheu-se e chorou desesperadamente. A dor começara a surgir aí.
Nos dias seguintes, passou na cama. Tomava banho por obrigação, quase não comia. Só ficava revirando as fotos que tinham juntos, os presentes ganhos. Lembrava dos momentos que passaram, e chorava. Chorava como uma criança. Sem vergonha, sem receio. Chorava tentando fazer aquele vazio se encher de lágrimas, mas no fundo, sabia que isso não aconteceria.
Lembrava-se das promessas. Ambos prometeram muito um ao outro. Prometeram viajar juntos, ter filhos, envelhecer juntos e felizes, pois tinham um ao outro. Prometeram amor eterno, e ambos sabiam que era perfeitamente cabível prometer aquilo, pois o que tinham era especial e forte demais. Eram um só.
Prometeram também que não viveriam sem o outro.
A família logo quis que voltasse à vida normal. Mas era difícil. Devagar, começou a frenquentar a escola novamente, e quase não reparava nas aulas, quem dirá dos olhares de pesar que lhe eram dirigidos.
As pessoas foram se recuperando. Os amigos logo voltaram a sorrir. Os pais dele se mudaram, e todos foram seguindo seu caminho. Entretanto, ela não conseguia. Sorrir estava fora de cogitação. Quanto mais esquecer. Apenas sobrevivia a cada dia. O corpo apenas. O espírito não estava mais presente.
Com o passar do tempo, não aguentou mais. Foi até a escadaria externa de seu prédio, no último andar. Pensou em pular, mas teve uma idéia melhor. Trouxe uma pistola consigo e, entre lágrima, a engatilhou e apontou para uma das têmporas.
Antes de apertar o gatilho, porém, subiu na muretinha que separava a escada segura da queda livre. Olhou para o horizonte e teve o momento mais maravilhoso de sua vida até então.
Ela o sentiu ali. Sentiu seu abraço, em todos os detalhes. E ouviu sua voz em seu ouvido:
Estou aqui. Não vou te largar por nada nesse mundo. Estou te esperando.
Eu puxei o gatilho.
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