Loving the enemy
7 SEIS – You gonna set me on fire!
Notas iniciais
You gonna set me on fire
My brain is flaming
I don't know which way to go
(Burning Love – Elvis Presley)
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J A M E S
JOGO DE QUADRIBOL CLANDESTINO – 62ª DIA
Ele considerava que Quadribol era uma arte, excetuando quando jogava com sua família: virava algo parecido com um ringue de luta livre – o que James adorava. A adrenalina de jogar com seus primos poderia ser comparada a poucas coisas que ele já vivera nos seus vintes e poucos anos de vida.
Riu quando Rose tentou acertá-lo com uma goles. Conseguiu se livrar de uma pancada brutal por alguns centímetros. Sua prima passou o dedo indicador na própria garganta, o gesto aparentando ser uma ameaça direta. Depois de conseguir marcar alguns pontos que ampliou consideravelmente o placar, o clima do jogo mudou de forma drástica.
Sobrou até para Scorpius, que era do time de Rose. Viu quando a prima resmungou algo como "néscio, sandeu!" Será que era uma superstição? Porque James poderia jurar que a ouvia proferir aquelas palavras em todos os jogos de Quadribol possíveis. Seja lá o que fosse, funcionava. De alguma forma, Rose ganhava todos os jogos. Até aquele magnífico dia na vida de James. Era o primeiro jogo em anos que Rose perdia e o Potter não poderia estar mais feliz. Ele soltou uma risada no rosto dela assim que a partida terminou e afastou-se em seguida, é claro. Afinal, prezava por seu pescoço no lugar.
Aproximou-se do Malfoy quando começaram a arrumar os equipamentos de jogo.
— Do que a Rose te chamou no jogo?
— Sandeu – ele respondeu, apesar dos olhos estarem longe dali, especificamente na direção da princesa. – Hm, algo como nésquio? Não, não… néscio. Eu acho.
— E o que significa?
— Não faço ideia. Esperava que você pudesse me dizer.
— Tento descobrir há anos – James deu de ombros. – Cheguei à conclusão que deve ser alguma superstição ou maldição para que o outro time perca.
— Você só esqueceu um detalhe: eu e ela estávamos no mesmo time. Qual o sentido dela rogar uma praga para a própria equipe? – observou Scorpius.
— Verdade – disse James. – Talvez ela só estivesse rogando uma praga para você. Seja o que for, o que importa é que nós destruímos vocês – ele pegou o taco do batedor e o jogou de uma mão para outra.
Quando percebeu que Scorpius não o respondeu, o Potter mais velho estreitou de leve os olhos castanhos para o Malfoy, analisando a postura do outro e o modo como Scorpius continuava a perscrutar Rose. Não demorou para que compreendesse o que estava ocorrendo.
— Você está afim da Rose?
Fato importante sobre James S. Potter: ele era direto. A dúvida apareceu na sua mente e não pensou duas vezes antes de perguntar. Aliás, a indagação pareceu, finalmente, acordar Scorpius.
— Quê? Não.
— Você está afim da Rose? – inquiriu Albus, que havia aparecido no exato segundo que James perguntou.
— Não – respondeu Scorpius e começou a colocar uma das goles dentro da maleta. O Malfoy soltou uma risada abafada, a qual saiu demasiadamente falsa na visão do Potter. – Por quê?
Os irmãos pararam lado a lado e encararam Scorpius.
— O que foi?
— Você está afim da Rose? – repetiu James.
— Já disse que não.
— Não me convenceu – afirmou Albus e virou-se para o irmão. – Convenceu você?
— Nem chegou perto.
— Você está afim da Rose? – indagou Albus mais uma vez.
— Não – negou Scorpius com uma expressão séria.
Os três se enfrentaram com os olhares por mais alguns segundos, antes de James garantir: – Você está sim.
— Imagina se você entrasse para a família? – perguntou Albus, animado. Olhou com as sobrancelhas erguidas para o irmão, percebendo que Albus não conseguia enxergar o problema na situação e a impossibilidade do que acabara de falar.
— E ele tem grandes chances – assegurou o Potter mais velho, mas ele não estava falando de Rose. – Já que a Molly 'tá afim de você também, não? Ah e não vamos esquecer de adicionar a Parkinson nessa equação e os pretendentes de Rose.
— Molly? – Albus virou-se para Scorpius com um olhar acusador. – E a Parkinson?
— Será que dá para falarmos desse assunto em outro lugar? – apesar do Malfoy sorrir enquanto falava seu tom era baixo e um pouco desesperado.
— Você é perigosamente lerdo, Al – apontou James.
Segundo fato importante sobre James S. Potter: diferente do irmão, ele era apegado aos detalhes. Não se distraía com facilidade e conseguia perceber minudências, as quais Albus não notaria nem se estivessem evidentes na sua frente. Como era exatamente a situação que se desenvolvia entre Scorpius e Rose – não devemos esquecer dos pretendentes dela, Molly e Parkinson. James poderia confirmar com segurança que existia algo entre Scorpius e Rose, apesar de que não poderia saber o quão platônico era.
No primeiro dia de Scorpius, Lyra e o Zabini no Palácio, James se interessara em uma primeira impressão pela Parkinson, o que deve ter durado por dois minutos. Ela era bonita; não podia negar, só que, um dia antes, ficara sabendo que Alice Longbottom estaria de volta ao Reino de Hogwarts. Depois dessa informação, ainda que James desejasse colocar sua atenção em qualquer outra pessoa, ele não conseguia desligar seus pensamentos daquela mulher. Um caso mal resolvido que o corroía por dentro apenas ao ouvir o nome dela, a perspectiva de voltar a vê-la era ainda pior. O fato era que, para James Sirius, ninguém se comparava a Longbottom.
Além do mais, o Potter praticamente farejava segundas intenções e ele sentiu-as em Lyra. Quando a Parkinson notou que não conseguiria o que desejava com James, provavelmente decidira partir para Albus e, no fundo, estava satisfeito por seu irmão ser devagar o suficiente para não reparar nos objetivos indecorosos de Lyra. Sabia que Albus seria, com facilidade, manipulado pela morena e só perceberia quando fosse tarde demais. A qualidade do seu irmão mais novo de sempre ver o lado bom das situações e pessoas irritava um pouco James, porquanto ele era o exato oposto. Alguns poderiam até chamar de pessimismo, porém preferia tratar como um modo mais realista de visão do mundo.
Olhou para a Parkinson ao longe. Ela conversava com Lily, que ergueu a pequena mão, colocando uma mecha dos fios ruivos atrás da orelha. Talvez fosse somente uma coincidência ou, se James deixasse seu pessimismo falar mais alto, acharia no mínimo inusitado o interesse de Lyra por todo o Potter que conhecia. Guardou a informação. Ficaria de olho na Parkinson, assim como em Scorpius Malfoy.
Terceiro fato importante sobre James S. Potter: ele era um exímio jogador de xadrez; sempre pensava à frente.
Por mais que estivesse criando uma amizade com Scorpius, ele não deixava de ser um Malfoy. Toda a possível história com Rose e o fato dela precisar casar para ser considerada qualificada para subir ao Trono, deixava-o inquieto. De todas as suas primas, porque Scorpius se interessaria logo pela herdeira de Hogwarts? Não se precipitaria em julgamentos, tampouco confiaria cegamente.
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L Y R A • P A R K I N S O N
APOSENTOS DE SCORPIUS MALFOY – 3 MESES
Ela se jogou na cama de Scorpius Malfoy, reparando instantaneamente no perfume dele, que estava impregnado nos lençóis. Poderia nunca admitir, mas apreciava o cheiro do Malfoy. Amadeirado e, muitas vezes, com um leve aroma que a lembrava o lago perto do local em que moravam e no qual Scorpius costumava praticar remo. Naquele momento só conseguia sentir a característica amadeirada; porquanto, desde que chegaram a Hogwarts o loiro ainda não havia se aventurado no mar que banhava uma parte do Reino.
Suspirou e fechou os olhos, sentindo-se mais confortável com a cabeça enfiada no travesseiro dele do que na própria cama – possivelmente por causa do perfume que era demasiado conhecido. Ora, não era apenas o cheiro de Scorpius que Lyra conhecia. Ela sabia tudo sobre o Malfoy e, à vista disso, mesmo que ele houvesse negado veemente, tinha certeza que existia algo entre ele e Rose Weasley, algo que Scorpius tentava ao máximo manter longe da Parkinson. Não que estivesse com ciúmes. Sua paixão adolescente por ele passara há muito tempo, restara apenas um sentimento de… Bem, ela não sabia como definir. Eles eram amigos? Já foram, porém as diferenças gritantes entre os dois eram irremediáveis. O cerne era que, no fundo, Scorpius Malfoy era uma das poucas coisas no mundo que importavam para Lyra – ainda que não compreendesse tal sentimento.
De qualquer modo, se Scorpius não queria lhe contar, descobriria sozinha. Tentou arrancar alguma informação com as primas de Rose, contudo, aparentemente, todas achavam que poderia existir um envolvimento amoroso entre o Malfoy e Molly; não com a princesa. Lyra também reparara no interesse quase patético, na sua visão, da outra Weasley por Scorpius e conhecia-o bem demais para acreditar fielmente que não havia reciprocidade. Será que ele estava usando Molly Weasley apenas para que ocultar seu pseudo relacionamento com Rose? Era uma possibilidade crível demais, apesar de que sabia que uma hora ou outra as pessoas iriam começar a reparar, Scorpius era emotivo – adjetivo que sempre incomodara a Parkinson – e não conseguiria fingir por um longo tempo caso estivesse, de fato, apaixonando-se por Rose Weasley.
Torcia, realmente, para que o interesse estúpido de Scorpius pela princesa não prejudicasse o objetivo deles em Hogwarts. A estratégia inicial era no sentido do Malfoy se aproximar de Rose, somente não esperava que a Weasley reverteria a situação, embora não possuísse real noção do que se passava.
A porta do quarto foi aberta e Lyra levantou o pescoço para fitar um Scorpius aparentemente irritado com a sua presença.
— Saia de cima da minha cama.
— Nossa – deitou novamente a cabeça no travesseiro macio e cheiroso dele. – Nem um oi? – soltou uma risada forçada. – Você costumava ser mais carinhoso, Scorpius.
Ele parou ao lado da cama, os braços cruzados e a expressão fechada.
— Como você conseguiu entrar aqui?
Levantou a chave que ainda segurava em um das mãos e Scorpius rapidamente inclinou-se para pegá-la de volta. Aproveitando a oportunidade, segurou-o pelo pulso e o puxou para a cama. Ele caiu apenas por rápidos segundos, resmungando, e logo afastou-se, ficando o mais longe que conseguia das mãos de Lyra. Ela sorriu para ele, achando graça do modo quase desesperado que o Malfoy fugira.
— Você acha que Vossa Alteza ficaria chateada se me encontrasse aqui? – indagou, buscando fazê-lo cair nas suas palavras. Apoiou os cotovelos na cama, erguendo-se apenas o suficiente para poder olhá-lo.
— Não vejo porquê. E como você conseguiu essa chave?
— Não vejo porquê— exacerbou Lyra, perdendo a paciência. – Você é um mentiroso.
— Eu já disse que Rose não está interessada em mim – afirmou ele.
— Claro que não – ironizou.
— Como você conseguiu essa chave, Lyra? – Scorpius inquiriu mais uma vez.
— Do mesmo modo que conseguia estas – respondeu, levantando-se da cama e retirando um pequeno molho de chaves do bolso interno da sua jaqueta de couro. – Furtando, obviamente. Sabe por quê?
— Não estou interessado – Scorpius disse, colocando uma das mãos na lombar de Lyra para empurrá-la em direção à saída do quarto.
A morena desvencilhou-se dele, parando frente a frente. Antes que pudesse rebater, uma batida na porta foi ouvida. Lyra levantou as sobrancelhas.
— Bem na hora! – exclamou enquanto caminhava para abrir a porta.
— Malfoy! – cumprimentou o primeiro homem a entrar, sendo seguido de perto por outro tão parecido que muitas pessoas facilmente os confundia.
— O que eles estão fazendo aqui? – Scorpius indagou, dirigindo-se à Lyra e ignorando completamente os homens que tinham acabado de entrar no seu quarto.
— Precisei de, hm, reforços — ela colocou-se no meio dos dois homens. – Já que contar com a sua ajuda é o mesmo que nada, Scorpius.
Aqueles eram os irmãos mais velhos de Lyra. Brutus e Tiberius Parkinson. O primeiro que entrara no quarto era Tiberius; o mais confiável e menos propenso às atitudes impensadas e estúpidas. Já Brutus, o mais velho dos irmãos Parkinson, era preocupantemente instável. A princípio não desejava que os dois os acompanhassem no Reino de Hogwarts, considerando que existiam momentos que nem Lyra conseguia controlá-los. Em compensação, eles eram excelentes em situações que pediam certa frieza – coisa que Scorpius Malfoy evidentemente não possuía.
— Scorpius – começou Brutus, cumprimentando-o.
— Diria que é um prazer revê-lo, se fosse verdade – murmurou Scorpius e Lyra percebeu o modo como o maxilar do loiro ficou tensionado. Brutus, pelo visto, achara engraçado porquanto riu brevemente.
— Fiquei sabendo que você anda comendo a princesa. É injusto, suas participações são sempre melhores.
— Privilégios – resmungou Tiberius logo em seguida.
— Soube errado – afirmou Scorpius, os olhos formando um cinza tempestuoso.
— É? – Brutus abriu um enorme sorriso. – Talvez eu tenha alguma chance ainda – e virou-se para a irmã. – Posso ficar no lugar dele?
— É melhor calar a boca se preza por seus dentes dentro dela – ameaçou Scorpius em um tom que evidenciava o pouco de tempo que restava para que perdesse a paciência.
— Tenho certeza que eu fiquei com a pior parte, já que estou tendo que ficar ouvindo vocês três idiotas rosnando – ralhou Lyra enquanto empurrava o irmão para o lado. Após, ela segurou o pulso de Scorpius, puxando-o para fora do quarto. – Temos que ir.
— Você sempre foi egoísta, Malfoy – continuou Brutus, ignorando a tentativa de Lyra de mudar de assunto.
Silenciosamente, e sem que os dois reparassem, Tiberius e Lyra se colocaram no meio deles, prontos para intervirem, caso fosse preciso.
— Brutus, chega — mandou Tiberius, parecendo exasperado com a insistência do irmão em confrontar Scorpius. – E Lyra tem razão: temos que ir.
— Aonde? – o Malfoy perguntou, finalmente desviando o olhar de Brutus para fitar o outro irmão.
— Em cinco minutos você vai saber – revelou Lyra.
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S C O R P I U S
Contrariado, ele seguiu os irmãos Parkinson pelos corredores de Hogwarts. Encontraram com quatro guardas no caminho, Lyra sorriu para eles, perguntando em qual andar ficava o salão de jantar, com a desculpa andrajosa de que ainda não se acostumara com o disposição do Palácio. Assim que os guardas se afastaram uma distância segura, Lyra os guiou para uma direção completamente oposta.
Scorpius não sabia o que a morena possuía em mente; todavia, decerto não era nada bom. As chaves, apesar de não conseguir mais vê-las, pois estavam guardadas no bolso da jaqueta dela, não saíam dos seus pensamentos. Ela furtara aquele molho de chaves para quê? As alternativas surgiam e todas eram terríveis. A sua vontade era revoltar-se de uma vez, o que não ajudaria em nada; na verdade, poderia até prejudicar a situação de Rose, reputando que Scorpius sabia que era dispensável. Seu avô simplesmente colocaria outra pessoa em seu lugar, sem cerimônias. Destarte, preferia permanecer no meio deles, atrasando o andamento dos objetivos de Lucius e, consequentemente, ajudando Rose.
Antes mesmo de chegar a Hogwarts, a ruiva era uma presença constante em sua vida, ainda que somente por ouvir falar dela e da sua família. Só que Scorpius nunca poderia imaginar que passaria todos os segundos dos últimos dias pensando nela. Até o momento não havia decidido se aquilo era desesperador ou só uma angústia. O fato era que a possibilidade dos seus sentimentos levarem a algo bom era praticamente inexistente.
Seria indubitavelmente melhor se não tivesse começado a criar sentimentos por Rose Weasley. Ele apenas permaneceria longe dela e poderia pensar em um jeito de seguir sua vida sem a influência de Lucius Malfoy. Envolvendo-se com Rose precisaria não somente pensar em um modo de fugir dos planos ardilosos do seu avô, mas também esconder o que acontecia entre si e a princesa.
Como Lyra havia falado, passando pouco mais de cinco minutos, eles chegaram em frente à uma sala, a qual Scorpius percebeu que localizava-se perto da biblioteca. A Parkinson retirou a chave do bolso interno da jaqueta de couro preto. Ela lançou um olhar para o corredor antes de encaixar a chave e girá-la, abrindo a porta. Logo após, todos entraram e Lyra trancou-os ali. Scorpius olhou ao redor, reparando que era, claramente, uma sala de arquivos.
— O que estamos fazendo aqui? – indagou.
— Diminuindo as chances da sua princesa subir ao Trono de Hogwarts – Lyra respondeu, sem qualquer indício de peso na consciência. – Infelizmente não consegui as chaves das outras salas. Existem arquivos com nível de proteção mais alto. De qualquer jeito, vai servir – ela retirou um isqueiro de dentro do bolso e o acendeu na frente do Malfoy. – Sabe que seus amigos— soltou, como se a palavra fosse amaldiçoada. – não te contam tudo? Os primos de Rose têm se revezado em procurar nos arquivos qualquer coisa que possa evitar o casamento forçado dela. Eles não confiam realmente em você, Scorpius. E eles estão certos, não? Afinal, você está aqui… – os olhos castanhos de Lyra fincaram-se nos cinzentos dele. – prestes a colocar fogo, literalmente, nas chances dela.
— Você ficou maluca? – inquiriu e tentou arrancar o isqueiro da mãos da Parkinson; porém, Tiberius o empurrou antes que pudesse alcançá-la e Brutus segurou-o pelos ombros. – Você não pode colocar fogo no Palácio, Lyra! O Zabini sabe disso?
— Quem você acha que está cuidando das câmeras de segurança? Tomamos todas as providências para não sermos pegos – Tiberius contou com uma entonação orgulhosa enquanto se colocava em frente à irmã.
A informação fez o estômago de Scorpius embrulhar, evidenciado o seu desespero e o sentimento de inutilidade. Ele sabia que Lyra não estava fazendo aquilo apenas para destruir possíveis documentos que ajudariam Rose; mas sim para começar a implantar o caos, desestabilizando a Família Real.
— Eles vão saber que não foi acidental – pontuou.
— Esse é o objetivo – Lyra falou. – O suspeito vai ser o último que esteve aqui. Pelo menos, o último que as câmeras filmaram.
— E quem seria? – perguntou o Malfoy, sentindo uma angústia ao pensar nas possíveis respostas.
A Parkinson acendeu o isqueiro e abriu uma das caixas dos antigos arquivos, deixando que a chama alcançasse facilmente o frágil pedaço de papel e, depois, virou o pescoço para responder Scorpius.
— Fred Weasley II.
— Ele nunca faria isso! – afirmou. – Ninguém vai acreditar que foi ele.
— Em uma crise, Scorpius, é mais fácil acreditar em fatos do que em pessoas.
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R O S E
APOSENTOS DA PRINCESA – 3 MESES E 1 SEMANA
A insônia nunca fora um problema na vida de Rose. Ela possuía uma facilidade invejável para dormir. Era só encostar-se em algum lugar, fechar os olhos e não passava dois segundos absorta em pensamentos antes de cair em um sono pesado. Tal fato poderia ser considerado ótimo para uma vida saudável no geral, só que, certamente, não fazia bem para o seu coração, considerando que acarretava uma tendência perigosa em dormir durante as aulas que lhe eram ministradas no Palácio.
Uma vez ousara dormir no meio de uma aula de sua tia, Ginny. Acabou acordando com um estrondo alto devido ao livro que a Weasley mais velha jogara em cima da sua mesa a fim de acordá-la. Em contrapartida, seu tio Harry deixava com que ela dormisse uma vez ou outra. Na realidade, seu grande medo de dormir nas aulas, estava concentrado na possibilidade de seus primos acabarem escrevendo algo na sua testa.
Entretanto, nas últimas noites, seus hábitos começaram a mudar.
Posteriormente ao incêndio que destruiu uma considerável parte de cinquenta anos do Reino de Hogwarts, fora impossível não deixar que uma pontada de ansiedade começasse a crescer dentro de si. Restou comprovado que a combustão não fora acidental, havia apenas um ponto de início do fogo, indicando que alguém começara as chamas de propósito. Quando as câmeras de segurança foram analisadas, descobriu-se que o último que deixara o local fora Fred.
Claro que Rose não acreditava que ele pudesse ter feito tal coisa; porém, mesmo assim, seu primo estava sendo obrigado a passar por uma investigação – ordens direta do Conselho. Hermione sustentou que se tratava de uma formalidade, mas que ela também não confiava na hipótese de Fred ter sido o autor da conduta. James fora o único da família que desconfiara do primo devido ao hábito de fumar que Fred adquiriu apenas durante o período da adolescência; porém, o Potter acreditava que ele pudesse ter voltado a fumar e talvez iniciado o fogo na sala de arquivos sem querer. Fred negou veemente. Apesar de achar que Fred estava falando a verdade, entendia o ponto de James. O Potter mais velho sempre fora racional demais. E Fred emotivo demais. Óbvio que a desconfiança gerou uma discussão gigantesca, o que resultou nos dois primos estarem a semana toda sem dirigir a palavra um ao outro.
Felizmente, o incêndio fora descoberto e controlado a tempo. Uma parte dos arquivos daquela sala foram salvos; porém, eles nunca saberiam se havia algo naqueles papéis capazes de ajudar Rose. O fogo não abalou somente a rotina do Palácio por dias, mas também a estrutura de sua família e trouxe a desconfiança de que exista uma oposição vivendo no meio deles. Eles tentaram não transparecer ao restante do Reino o que acontecia; seus pais decidiram que seria informado que o incêndio fora acidental, causaria menos caos. Pelo menos, não aumentaria o caos.
Os primeiros dias após o trágico acontecimento foram os piores. Rose não conseguira pregar os olhos, teve que recorrer ao uso de um remédio para insônia – coisa que nunca precisara. O número de guardas no seu encalço aumentou, o que lhe deixava ainda mais inquieta, mesmo que entendesse os motivos dos seus pais. Ficara muito mais tempo no seu quarto e somente nos últimos dois dias que voltara a perambular pelo Palácio, sempre acompanhada. Tentava se apegar ao fato de que, aos poucos, sua rotina parecia estar voltando ao normal. Uma ilusão, claro. Sabia que nada estava perto de ser evidentemente resolvido.
Rose deitou a cabeça no travesseiro, afofou-o como de costume, suspirou de alívio por estar na sua cama e fechou os olhos. E nada. Nenhum pingo de sono. Resmungou e tentou mais uma vez, sendo que o resultado fora o mesmo. Não se sentia mais tão ansiosa e já descartara o uso de medicamentos para insônia; tentou buscar a origem da ausência de sono… Até que sentiu e ouviu sua barriga roncar. Se havia outra coisa que tirava o sono de Rose Weasley, era a fome. Quando estava com apetite não conseguia apenas esquecer e dormir. Precisava alimentar o monstrinho que vivia dentro de si.
Levantou-se, colocando as pernas para fora da cama. Mirou o relógio no seu celular. Não desejava incomodar ninguém com um pedido para o seu quarto sendo tão tarde. Resolveu por ir sozinha até a cozinha. Vestiu uma calça jeans e uma blusa confortável, além de colocar um all star vermelho nos pés. Parecia uma roupa adequada para uma breve escalada, com um pequena possibilidade de morte – nada que pudesse impedi-la.
Estava decidida. Não dava para sair pela porta, reputando os guardas. Iria pela varanda, então. Já tinha feito aquele caminho incontáveis vezes, seria fácil. Deu olhada para os lados, a fim de conferir se havia alguém vigiando-a. Aparentemente não. Ótimo. Como o esperado, conseguiu pular para a varanda ao lado, depois para a próxima, e a outra, e mais outra e contou mais cinco varandas – aquilo com facilidade poderia ser considerado seu exercício físico do dia –, finalmente, chegara ao quarto que sempre ficara vazio e que possuía uma posição longe o suficiente dos seus guardas.
Suspirou, ofegante pelo esforço e sentindo uma gota de suor escorrer pela têmpora. Sem perder tempo, abriu a porta da varanda, entrando nos aposentos. Deu um grito involuntário, levando as mãos ao coração, quando avistou um homem no quarto. Seu primeiro pensamento fora no sentido de que deveria ter escutado seus pais e só sair acompanhada deles; contudo, o sentimento logo passou, considerando que...
— Malfoy? – chamou ao perceber que era ele. – Você é mesmo uma assombração.
Scorpius virou-se, vestindo uma camisa cinza lisa e uma calça de moletom branca. Ele estava no meio do quarto com um livro nas mãos. O Malfoy sorriu e continuou a caminhar em direção a uma estante envelhecida, colocando o livro sobre ela.
— Alteza – respondeu com um sorriso e uma pequena reverência.
— Engraçado que de todas as pessoas que moram neste Palácio a que eu sempre encontro é você.
— Deve ser o destino – ele insinuou. – Ou devo lembrar que você está invadindo o meu quarto?
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