Lovesick
1 Capítulo Único
Quando foi que as coisas chegaram a este ponto? De qualquer forma, nada mais importa. Afinal, depois de tanto tempo apenas observando e desejando, tenho o coração do meu adorado somente para mim.
Czeslaw Quates, minha querida obsessão. Acompanho todos os seus passos desde o ensino fundamental, quando nos conhecemos. Apesar do meu conhecimento absoluto sobre sua vida, de mim ele nada sabe. Conhecemo-nos ainda crianças, mesmo tendo conversado com ele apenas uma vez, apaixonei-me profundamente pelo meu adorado Czes. Diria até que profundamente demais. Para poder ficar junto a ele mudei de escola e de casa. Precisava estar perto dele de qualquer maneira, não importava o que os outros dissessem. No começo, me contentei em observá-lo somente durante o período escolar e a escutar seus passos dentro de casa, passando horas com os ouvidos colados na parede em uma posição ridícula. Consegui, com um pouco de esforço e cacos de vidro, o apartamento vizinho ao dele. Pobre senhora Russel... Mas é do Czes de quem estamos falando, por ele valeria qualquer coisa.
Ao passar do tempo fui aprimorando minhas técnicas, tornando-me cada vez mais próxima de Czeslaw, mesmo sem ele ter consciência da minha presença. Um dia, quando ele teve de viajar, aproveitei e instalei câmeras em todo seu apartamento. Ah, como foi duro passar aqueles dias infernais sem vê-lo. Porém, todo o meu esforço seria recompensado: agora sempre que desejasse poderia ver o que o meu querido estava a fazer.
Lembro-me perfeitamente da manhã em que tudo começou a desmoronar... Como eu gostaria de esquecer aquilo.
Havia uma nova aluna na sala de Czeslaw. Abigail Arthin, uma simpática estudante transferida de uma das mais caras escolas da cidade. Com seus cabelos loiros esvoaçantes e seu sorriso sempre aberto, não demorou a se tornar a garota mais popular da escola. Deixava as meninas mortas de inveja, os meninos caíam aos seus pés. Não liguei muito para ela, afinal, se ela se mantivesse afastada do Czes estaria tudo bem. O problema é que aquela tola não se manteve. Pelo contrário, parecia estar sempre do seu lado, e ele parecia gostar da presença daquela puta! Tentei me controlar. “Logo ele perceberá quem ela realmente é, perceberá quem o realmente ama” foi o que pensei.
As férias de verão começaram. Assim, sem vê-la todos os dias, talvez, ele a esquecesse um pouco. Acabei apanhando um resfriado de verão, podendo observá-lo somente enquanto ele estava em casa porque tive de ficar em repouso para recuperar-me sem demora. Czeslaw quase não ficava em casa mais. Estranhei, pois, antes ele passava todo o tempo lendo ou na frente do computador. Já era tarde da noite quando ele voltou numa sexta-feira. Estava acompanhado. Logo percebi de quem se tratava. Abigail, pobre Abigail. Tomaram chá, riam muito. Não pude acreditar quando vi os dois se beijarem. Como? Como eu podia ter sido passada para trás, assim, tão banalmente? Nada mais fazia sentido. Apenas continuei a olhá-los agarrando-se, pareciam dois animais.
Esqueci o cansaço, esqueci tudo. Fui mecanicamente até a cozinha e remexi algumas gavetas. Era tudo o que eu precisava. Vesti-me calmamente, pensando se o que eu faria a seguir valeria realmente a pena. Decidi que sim.
Depois de pronta, tranquei a casa e, ainda mantendo a calma, toquei insistentemente a campainha do apartamento ao lado.
-Já vai, já vai! Espere só um segundo. – Respondeu ele, ofegante.
Ignorei-o, continuando a pressionar o botão que fazia um som terrivelmente irritante pelo que eu me lembrava, agora nenhum som chegava aos meus ouvidos. Ainda cogitei em desistir, mas no momento em que ia voltar, Abigail atendeu a porta.
-Oi? O Czes está vindo. – O cabelo estava despenteado. Ela estava dentro de uma camisa que centenas de vezes eu já o vira vestido. Não parecia se importar que eu a visse assim. Ela queria isso. Me desafiar assim foi o segundo erro de Abigail Arthin.
Abri a pequena bolsa que havia trazido comigo, retirando uma afiada faca de cozinha.
-Tudo ficará bem. Não há o que temer. Fique quieta como uma boa menina, certo? – Murmurei.
Gritos. Sangue, muito sangue. Quem diria que ela tinha tanto sangue assim dentro de si?
Esfaqueei-a com movimentos mecânicos no tórax e nos olhos. Eu não tinha raiva dela propriamente. Era ele quem me irritara ao me trocar por alguém como ela. Arrastei o corpo de Abigail para dentro do apartamento. Após cortar seu couro cabeludo e desenhar um largo sorriso em sua face, joguei-a de lado. Que venha o prato principal. Ele estava encolhido num canto da sala. Chorando, tremendo, chegara até a urinar agarrado ao telefone. O garoto por quem eu antes me apaixonara, agora, me inspirava pena.
-O que houve? Não tenha medo de mim, fiz isso para o seu bem. – Disse aproximando-me dele.
-P-por favor, n-não me machuque. – Conseguiu gaguejar, voltando depois ao choro compulsivo. Não podia ser o Czeslaw Quates que eu conheci! Não era ele!
-Isso não é possível. O que você fez com meu adorado? – Perguntei furiosa. Não obtendo resposta, comecei a enchê-lo de buracos como um queijo suíço! Ele tentou escapar, mas a vantagem era minha. Continuei a cortá-lo, mesmo ele tendo morrido há algum tempo. Foi difícil, contudo não desisti de achar o que estava procurando. Passaram-se alguns minutos até que eu o encontrei. Vermelho, uma linda esfera pulsante, vermelha, sangrenta. Arranquei o coração do peito daquele que deveria ser o Czeslaw. Batidas na porta. Mais gritos. Diziam algo que eu não compreendia. Deixem-me, estou cansada demais. Sabia exatamente onde Czes dormia, perdi a conta de quantas horas passei vigiando eu sono. Arrastei seu corpo e acomodei-o na cama, deitando-me ao seu lado. Agarrada ao órgão como um bicho de pelúcia, adormeci profundamente.
Ureshii himei ga kyou mo kikoeru?
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