Loverzone
1 Best Friends
Notas iniciais
Tá meio atrasadinha em relação a data em que se passa a one, porém ainda estamos no início do ano e é válido haha :)
Espero que gostem!
Loverzone
Eu já havia feito milhares de péssimas escolhas. Pintar meu cabelo de rosa aos quatorze, beber até vomitar aos dezesseis, xingar meu professor de botânica de uma forma totalmente grosseira e beijar um dos meus incontáveis primos em um jogo de desafio eram apenas alguns dos ítens da minha enorme lista. Eu era a líder suprema das péssimas escolhas, na verdade. Ganhava de todos — todos mesmo. Até Louis e seu péssimo gosto musical perdiam para minhas incríveis habilidades de fazer merda.
Ser um desastre ambulante desde 1998 não é algo muito relevante, devo concordar, mas a questão é que dessa vez eu tinha me superado. É, por completo.
Vamos começar por aí.
CASA DE VICTORIE
31 de dezembro | 12:40 p.m.
Ele estava muito atrasado — constatei, depois de olhar com certa admiração a maravilhosa decoração do apartamento de Vic. Minha nova meta de vida: aos vinte e dois morar desse jeito e com uma conta bancária parecida, obrigada. Mas a questão é que ele estava muito atrasado mesmo, e aparentemente bombardeá-lo com mensagens de “eu te mato se você não aparecer” não dava conta da situação.
— Parece que Scorpius nos deu um bolo daqueles — Albus constatou, parando ao meu lado. Eu ainda não havia me acostumado com o fato dele ter crescido vários centímetros nos últimos meses, quando sua baixa estatura parecia permanente para todos nós. Era estranho.
Estreitei os olhos em sua direção.
— Minha mente, por si só, é pessimista o suficiente, Albus. Mas se você tiver com vontade de apostar, eu fico feliz em ganhar mais uma. Ele vai aparecer.
Meu primo riu, como se lembrasse de algo. Minhas fichas nas diversas situações em que ele teimava em apostar comigo e perdia incansavelmente. Sorri ao pensar nisso também.
Apesar do bom-humor, a Rose interna estava roendo as unhas. Ele havia prometido que apareceria, mesmo com tumulto em sua família após a morte do avô — não muito estimável, porém um ícone nos negócios dos Malfoy. Disse que dessa vez passaria a virada do ano com a gente e não em uma daquelas festas de engomadinhos da empresa do pai. No fundo eu sabia que, de certa forma, ele estava fugindo de uma noite recheada de “sinto muito” da parte dos convidados e o entendia perfeitamente.
— Sabe, eu gosto das festas da empresa do tio Draco. — comentou, como se soubesse sobre o que eu pensava. — Me sinto em um daqueles filmes do James Bond. Então, no lugar dele, eu não viria.
Revirei os olhos. Albus ficava muito empolgado com a ideia de ir novamente em alguma das festas chiques dos Malfoy. Vestir a roupa social de James, que a mãe fazia questão de manter em perfeito estado, o fazia pular de animação e sair repetindo “eu sou Potter, Albus Potter” pelo corredor, rendendo risadas por parte de Lily, Teddy, James e eu. Meu tio havia lhe dado um terno, de fato, mas ele sempre reagia da mesma forma. Era hilário.
— Case-se com o Scorpius, então. Aí você teria muitas chances de ir nesse tipo de festas.
Ele deu uma risada e me olhou de lado.
— Eu não poderia. Você sabe como eu tenho uma aversão a relacionamentos monogâmicos antes dos trinta, e, além do mais, o maior presente de ano novo que vocês poderiam me dar é ficarem juntos. Então por favor, fiquem juntos. — ele estava sério, como se pudesse fazer alguma mágica de convencimento ao meu lado. — Eu shippo demais.
Apenas levantei as sobrancelhas, tentando parecer controlada — quando no fundo eu sentia meu sangue borbulhar. Eu me iludia o bastante sozinha há certo tempo, Albus não poderia ser mais realista e chegar dizendo “para de ser maluca, nada vai rolar entre vocês!” e me ajudar a superar aquela coisa?!
Ah, sim, porque há alguns meses eu descobri que existia uma coisa bem insuportável e ridícula, romantizada pelos livros, porém bem complicada, chamada paixão pelo melhor amigo. E existia uma muito pior, que eu estava começando a conhecer de perto, chamada friendzone.
— Para de falar bobagens, Albus. Nós somos amigos, só isso.
Ele não desmanchou aquela cara de “quem sabe de algo mais” e continuou ao meu lado. No fundo, não me importava tanto assim em ter Albus sabendo dos meus sentimentos indevidos por Scorpius. Meu medo era saber se aquilo estava tão evidente assim a ponto de outras pessoas desconfiarem. Eu já era complicada sozinha, e aquele era, com toda certeza, o pior momento para a melhor amiga resolver abrir seu entupido coração para o melhor amigo também cheio de problemas.
— Mas não é como se vocês dois não quisessem que isso evoluísse para outra coisa, não?!
Pisquei, virando na direção dele. Ele queria dizer o que eu achava que ele queria? Não! Não queria.
— O que você está sabendo?
— Algumas coisas aí... — se fez de desentendido. Eu estava pronta para pressioná-lo quando completou, indicando a porta da frente. — Mas acho que você estava certa, olha quem chegou.
Bastou olhar para onde Albus indicava — quem ele indicava — que um alvoroço se instalou em mim. Todo mundo já leu sobre isso, na verdade. Os claros sinais da coisa (que, para o bem de minha sanidade, eu preferia não nomear): sobre como você não consegue impedir de sorrir ao vê-lo, sobre o bichinho traiçoeiro que se instala em seu peito e faz seu coração bombear com mais velocidade o sangue, sobre suas mãos suando frio, o nervosismo fazendo a adrenalina correr por todo seu corpo... Aquela bobeira toda. Sentir é bem diferente do que ler sobre. Juro. E é bem mais aterrorizante.
E lá estava Scorpius, embrulhado em diversos suéteres de lã e o gorro azul que ganhara de presente de aniversário. Quando seus olhos encontraram os meus, e ele abriu aquele sorriso brilhante, eu quis me bater. Muito. Qual era o meu problema?! Eu conhecia ele há quase um século, nós éramos amigos a quase meio e agora eu me via completamente apaixonada por ele? Aquilo era péssimo! Onde nossa amizade iria acabar?
Estava aí um dos meus maiores medos.
Como predestinado nos livros modernos, meu destino estava fadado à temida zona de amor não correspondido pelo amigo. E, claro, isso não seria o pior. Péssimo seria o clima dramático que ficaria entre nós dois. Ótimo.
— Hey — ele beijou minha bochecha em um meio abraço. — Cheguei a tempo, não cheguei?!
Pelo menos minha cabeça burra ainda funcionava.
— Eu disse — olhei vencedora para Albus. Ele apenas deu risada, reconhecendo meu ótimo pressentimento. Não imaginando que, no fundo, eu estava em pânico segundo a segundo, com medo do que a coisa poderia fazer com todo o clima bom entre nós três.
— Aqui é bem diferente d’A Toca — comentou Scorpius, olhando em volta e acenando para algumas pessoas que o cumprimentava. — Mas é bacana.
— Mas?! — levantei uma sobrancelha. Não existia “mas” para aquele lugar. O apartamento era incrível e bem decorado, “digno de uma Delacuor”.
Ele riu, balançando os ombros. O engraçado de Scorpius é que, mesmo vivendo em uma realidade de riqueza e luxo, seus gostos não eram exagerados.
— Ela tá se mordendo de inveja, sabe. — Albus disse, apontando para mim. Sacana como ele era, pigarreou. — Ah, e a Rose tem um negócio muito importante pra falar com você, com licença.
Demorou apenas alguns segundos para entender suas intenções com aquela frase. Ele só podia estar brincando com a minha cara. Péssimo amigo, péssimo. Albus movimentou os lábios e disse, mesmo mudo, casem-se. Arregalei os olhos. Graças a Deus que Scorpius prestava atenção em mim, não nele.
Dei um sorriso amarelo em sua direção, pensando em como enrolar.
— Ah, não é nada, na verdade...
Ele franziu o cenho e, no momento em que estava pronto para questionar, seus olhos pareceram captar algo atrás de mim. Uma onda de compreensão atravessou seu olhar.
— Ah, ok. Eu já entendi, Rose.
Na minha mente um sinal de alerta apitava. Espera, como assim ele entendia? Scorpius não queria dizer que sabia realmente o que meu pânico interno significava, certo?! Aquele só podia ser meu pesadelo...
Minha cara deveria estar esquisita. Com uma careta enorme.
— Olha... Você sabe que pode contar comigo pra qualquer coisa, sério, e apesar de eu não gostar da ideia, eu posso... lidar com isso, se é o que vai te fazer bem.
Só então percebi que minha boca estava aberta, como se eu pudesse dizer uma palavrinha mágica e toda a situação desapareceria.
Ah, eu queria me enfiar em um buraco. Sim, todos os livros estavam certos, eu realmente era aquela personagem que, com violinos ao fundo, levava um fora e, por piedade, era abraçada pelo cara que está apaixonada. Seu melhor amigo há anos. A pessoa pela qual jurou que nunca cairia pelos encantos, e a única por quem só tinha olhos.
Eu conseguia sentir minha pele queimando de vergonha e embaraço. Como se tivesse percebido, seus olhos azuis opacos fixaram-se nos meus e, hesitando um pouco, continuou.
— Sabe, na verdade eu não acho que isso vai te fazer bem. — fez uma careta. Eu também acho que não, que tal evitarmos essa conversa? — Quer dizer... Ele é um idiota, entende? Você não merece que um estrume como aquele ali namore você, muito menos fique com você. Se você gosta dele, tudo bem, eu vou entender. Eu já pisei na bola várias vezes ficando com gente que você não conseguia suportar e, mesmo assim, você esteve lá pra me apoiar. Isso é amizade, né, a gente se apoia. E eu quero te ver feliz, então... Tudo bem, eu vou tentar apoiar vocês. — ele respirou fundo, esperando alguma resposta.
Pisquei algumas vezes, confusa.
— É, acho que é isso. Preciso de álcool.
Scorpius passou por mim e foi em direção à cozinha. Parecia completamente desconfortável enquanto abria a geladeira em busca de alguma coisa alcóolica. Fiquei parada, esperando meu cérebro processar seu longo monólogo.
— Scorpius, eu não entendi porcaria nenhuma. — constatei, odiando a forma como eu não conseguia compreender a situação.— do que você tá falando?!
Ele respirou fundo, fechando a geladeira e olhando para o nada. Aquilo era agoniante.
— Eu tô falando de...
— Oi, Rose! O pessoal tá te procurando, os fogos logo vão começar. Da sacada dá pra ver tudo, acredita?! — uma voz animada surgiu atrás de mim.
Olhei para Elias, um dos amigos de James (na verdade, o irmão da namorada dele) e estranhei sua presença ali. Não o havia visto antes. Ainda confusa, assenti.
— Tudo bem, ahm, eu já tô indo... Só...
Ele aquiesceu, vendo Scorpius atrás de mim. Quando estava dando as costas para nós, meu amigo resmungou algo e passou por mim tragando goles em sua cerveja recém aberta. Ugh, eu odiava cerveja.
— Acho que é melhor eu dar privacidade pros dois.
Minha cara estava com um ponto de interrogação explícito, e eu ficava mais perdida ainda. O que tinha dado no Scorpius? Por que ele estava agindo dessa forma completamente maluca?! Quando desviei o olhar da silhueta que se afastava da cozinha e encarei Elias, algo parecia ter caído ao meu entendimento.
Uma coisa muito imatura que acontece quando você tem certo carinho por algo ou alguém é ciúmes. Desde que eu descobrira a coisa, não conseguia mais ouvir os papos de garoto de Scorpius (sobre as colegas muito beijáveis) sem parecer completamente enciumada com isso. Era bem evidente, na verdade, mas parecia impossível de sua massa cinzenta entender aquilo. Então, por pura infantilidade, em uma das vezes, eu dissera algo como “o que você acha do cara que apareceu no café aquele dia? Nós começamos a conversar de uns tempos pra cá...”. Meu coringa em questão era Elias, que convenientemente aparecera com a irmã em um dos encontros entre amigos que combinamos, e pediu meu número. Nunca trocamos mensagem alguma, porém a mentira havia funcionado até ali.
Scorpius havia juntado todas aquelas informações em uma só. Além do jeito bem estranho com que eu andava agindo, não podia culpá-lo. Péssima amiga, péssima.
— Ai merda... Scorpius!
Andei apressada atrás dele. Todos já estavam reunidos na varanda, esperando pela contagem regressiva. A sala estava vazia quando o alcancei.
— Meu deus, não tem nada a ver! — soltei uma risada esganiçada. Não era certo rir do desespero de ninguém, muito menos o meu, mas a situação era ridícula.
Ele virou-se pra mim, agora visivelmente confuso. Estar nessa posição, eu sabia, era horrível, por isso tentei ser o mais clara possível.
— Eu e o Elias não temos nada. Nunca tivemos, na verdade.
Scorpius semicerrou os olhos. Sua mente tentando compreender o que aquilo significava. A minha também estava à mil. Era impressão minha ou o que eu havia presenciado era ciúmes? Algo se remexeu dentro do meu peito, uma pequena esperançazinha. Era errado alimentar minhas ilusões, e, além do mais, existia o ciúmes de amigo, tão comum quanto qualquer outra coisa.
— Eu pensei que...
— É, eu sei. É culpa minha, na verdade, eu meio que dei por entender isso.
Eu estava rindo, nervosa. Um burburinho se instalou mais adiante, e eu soube que a hora da virada do ano estava chegando. Todos ansiosos com os fogos que se espalhariam no horizonte e eu ali, ansiosa para falar o que eu tanto guardava pra mim por meses. Ansiosa porque sabia que iria ferrar com tudo e mesmo assim cogitava a ideia.
Eu era ridícula.
— Nossa, caraca, eu falei um monte de bobagens agora. — Scorpius ficou sem graça, coçando a nuca. — É que eu vi ele aqui e imaginei... Foi mal, Rosie, sério. E você teve que aguentar todo meu discurso esquisito, desculpa.
Balancei a cabeça, morrendo por dentro ao ouvir meu apelido. Era errado gostar tanto dessas pequenas coisas e ampliá-las a nível estratosférico?
— Foi sim bem estranho, quer dizer, desde quando você começou a falar estrume? — dei risada e ele me acompanhou. — Nós dois deixamos Elias bem confuso. Aliás, ele nem passou por aqui, deve ter ficado na cozinha mesmo...
Ele se encostou no sofá, batendo o dedo na long neck que segurava. Delicadamente tirei-a de suas mãos e coloquei na mesinha ao meu lado. Meu favoritismo com toda certeza nunca estaria em alguma cerveja.
Minha família e amigos começaram a gritar, exaltados. Um minuto, deduzi. Meus olhos estavam presos no rosto dele, algo que não pude evitar. Vocês sabem, encontrar uma brecha não tão suspeita no dia apenas para afundar um pouco mais na grande queda que se tem por alguém. Sorri levemente quando nossos olhares se encontraram, tão típico das cenas de romance... Uma pena a vida ser algo tão distante das obras de sucesso Hollywoodianos.
— Acho melhor irmos para lá — comentou e eu concordei.
Antes de o acompanhar, no entanto, precisava perguntar o que martelava em minha mente.
— Você por acaso iria nos deixar à sós na cozinha pra que, na hora da virada do ano, eu estivesse com ele?
Scorpius não precisou responder, a verdade estava bem ali.
— As pessoas devem passar a virada com quem é importante, acho que essa foi minha forma de... Enfim.
Assenti, sabendo o que ele queria dizer. Seus grandes encontros muitas vezes eram fruto de alguma ideia minha, suas brigas as vezes não acabavam em término porque eu tentava fazê-lo entender o lado da garota. E, mesmo não gostando de todas, meu desejo sempre foi de que as coisas dessem certo pra ele.
E, com o coração retumbando incansavelmente, disse a maior das verdades. Como ele podia imaginar que uma paquera fosse mais importante que uma amizade de anos? Nós confiávamos nossos segredos mais esquisitos para o outro, dividíamos nossos maiores sonhos, brigávamos em excesso e gargalhávamos da mesma forma depois. Nunca, em sonho ou pesadelo, aquilo não seria verdade.
— Você sabe que se eu tivesse que escolher com quem passar esse momento, eu não hesitaria não é? Você, Scorpius, é muito importante pra nós. É muito especial pra mim, e, sinceramente, é ridículo você achar que eu preferiria outra pessoa senão você a passar o ano novo junto.
O sorriso que iluminou seus olhos foi o suficiente para eu me desmanchar por completo na sua frente. Convencido! Era óbvio que ele adorava ter sua importância aumentada e, olhe só, lá estava eu fazendo isso com maestria.
— Que droga, Scorpius. — soquei seu braço, o fazendo rir.
Encarei-o. Estávamos frente a frente. Ele, dez centímetros mais alto, cheirando a hortelã, Heineken e ar puro. Eu, insegura, e cheia de receios, completamente boba. Porém, como é de conhecimento de todos, Rose Weasley, a garota com o maior número de péssimas escolhas da história inteira, era eu.
Mas, bem, não é como se ele não tivesse colaborado com a péssima escolha em questão.
— Você também é muito especial pra mim, Rosie. — seus dedos colocaram minha franja para trás da orelha e ali, em meu rosto, permaneceram, acariciando minha bochecha. Completamente perdida, só conseguia pensar que se nenhum de nós fizesse algo, 2017 começaria péssimo e incompleto. Nesses momentos alguma coisa dentro da gente nos faz fazer pequenas loucuras. Ele olhou para cima, refletindo. — Você também é mandona, chata, complicada e um pouquinho possessiv...
Impulsiva — esperava que impulsiva também estivesse naquela lista incompleta. Se inicialmente não, talvez pudesse ser acrescentada. A questão era que eu não estava interessada em saber minhas (péssimas) qualidades, e também não possuía uma força de vontade intensa o bastante para me afastar. Então... bem, eu o beijei.
Sua mão trouxe meu rosto para mais perto, aprofundando o beijo e, com o outro braço, me abraçou pela cintura. Sem demora minhas mãos já acariciavam sua nuca. Imaginar aquele momento não chegaria aos pés do que ele realmente havia sido. Por que, de fato, eu nunca imaginaria ser correspondida — e, de fato, todas as suas ex-ficantes estavam certas. Scorpius Malfoy beijava muito bem. Muitíssimo. Excepcionalmente bem.
Os estalos do lado de fora foram altos o suficiente para que ouvíssemos e, como se pensássemos a mesma coisa, nos separamos. Sua polegar continuava acariciando meu rosto e nossas respirações, superficiais. Existia algo mais insano do que beijar seu melhor amigo no final de ano e, bem naquele instante, fogos fossem soltos?! Aquilo era o cúmulo do clichê, de fato. E apesar disso, não parecia nem um pouco ruim. Pude ver que um sorriso espalhava-se pelo seu rosto.
— Rose, eu acho que... — um grito vindo da varanda nos sobressaltou, e então vieram outros, ficando mais audíveis. Nos soltamos e, antes mesmo determos a chance de ir até lá, Lucy vinha correndo. Pálida como estava, nem sequer nos explicou o que estava acontecendo, e logo correu porta a fora.
— PUTA MERDA! — James ria, levando tapas de Abbie, sua namorada esguia e temperamental. — Ai, tá, já parei, amor...
O mar de Weasleys e convidados preocupados passavam por nós e saíam do apartamento.
— Alguém pode nos explicar o que tá acontecendo? — questionei, estranhando a movimentação.
Molly reprimiu um riso, parando ao nosso lado. Não pareceu perceber qualquer estranheza em nossos rostos, o que era de certa forma bom. Não seria interessante que descobrissem que estávamos nos beijando antes mesmo de entendermos o que isso significava por completo.
— Albus caiu da varanda, diretamente para a caçamba de lixo. Dramático como é diz que quebrou alguma coisa, mas ele está bêbado, então não dá pra acreditar muito.
Eu e Scorpius nos olhamos, e, como se nada de incomum tivesse acontecido, gargalhamos. Não soube dizer se era pela insanidade que nos levou aos beijos ou o desequilíbrio e empolgação que fizera Albus cair da varanda. No meu caso, acho que um pouco dos dois. Acompanhamos o fluxo e, em alguns minutos, todos estávamos na rua ajudando Albus. Apesar de estar com alto nível alcoólico no sangue, havia dado um mal jeito no braço e recebia provocações de todos. Mesmo assim, parecia que nenhum de nós dois conseguia parar de sorrir — ou evitar os olhares que seguiam-se após os sorrisos.
— No próximo ano não se empolga demais, hein maninho — James dissera, quando Albus já estava no chão.
— Muito engraçado, tiozão.
Apesar de imprevisível, a madrugada havia terminado com a família toda reunida no Hospital St. Mungos. Meus tios levemente irritados por sua noite ter sido atrapalhada por um braço quebrado e um filho (muito) embriagado em uma das festas de adolescentes, mas sem deixar de ficarem preocupados.
— Isso foi doido, não sei como todos os Weasleys da festa conseguiram vir pra cá em um único carro — Scorpius brincou, sentado ao meu lado no corredor. Albus estava sendo medicado em uma das salas.
Ri, assentindo.
— Você também estava junto, hein... Graças que não eram todos os Weasleys. Seríamos multados.
— E morreríamos no caminho — completou.
Balancei a cabeça, e uma das portas a nossa direita abriu, revelando Albus com o braço enfaixado. Ele suspirou quando nos viu.
— Ainda aqui?
— Tio Harry vai me dar uma carona até em casa.
Ele coçou o rosto e bocejou.
— Bacana, e eu vou levar um castigo daqueles quando chegar na minha casa.
Neguei, levantando. Scorpius, Albus e eu caminhamos em direção a saída do hospital, onde seus pais esperavam.
— Não, eles vão esperar você acordar e então vai levar um xingão daqueles — disse, olhando para Scorpius, que, com um sorriso de lado completou.
— E só então vem o castigo.
Ele sorriu para mim, ainda mantendo o olhar no meu. Com toda a certeza do mundo eu sabia que minhas bochechas estavam coradas.
— Sabe, acho que esqueci meu celular lá no banco. Rose, você não quer vir me ajudar a procurar?
Não precisei estranhar, eu sabia o que ele estava fazendo. Sorrindo sem jeito para Albus, que nos encarava com dificuldade por causa do álcool e do sono, e concordei. Albus fez menção de nos acompanhar, mas ambos negamos, muito solícitos, pedindo para ele seguir o caminho sem nós.
— Por que eu não posso ir também?
— Você... ahm... enxerga mal — falei rapidamente, dando as costas e fazendo uma careta. Péssima escolha de palavras.
— Muito mal mesmo, cara — Scorpius incentivou a mentira. — A gente já volta.
Nos afastamos o suficiente para que ele não nos ouvisse, e paramos, meio sem jeito.
— Você não perdeu mesmo o celular, né? — questionei, arrumando minha franja em um sinal de nervosismo.
Ele riu, negando.
— Não, eu não perdi meu celular. — deu alguns passos se aproximando. — Mas eu sou uma pessoa que não poderia cogitar a ideia de ter complicado a nossa amizade essa noite. E vai saber o que se passa nessa sua cabeça maluca, garota...
— Obrigada pela consideração — o interrompi, rindo.
— De nada. O que eu quero dizer é que — ele riu como se estivesse tão nervoso quanto eu estava. — eu definitivamente não deveria de ter esse momento em um hospital, porque deveria ser estranho. Mas com você, por incrível que isso pareça, nada é estranho.
— Me sinto lisonjeada — interrompi novamente, o fazendo revirar os olhos.
— Você não está me deixando falar, Rose. — disse, rindo. — Mas acho que você já tem um jeito melhor de me fazer parar de tagarelar, não?
Senti o sangue correr quente sob minhas bochechas.
— Sobre isso, eu...
Seus lábios alcançaram os meus a tempo de impedir qualquer possível justificativa falsa ou desculpa inventada. Na verdade, eu não me importei nem um único segundo pela interrupção — e, sinceramente, eu destruiria tudo se ele não o tivesse feito.
— É, você pegou o jeito — falei, sorrindo, quando afastamos nossos rostos para encararmos um ao outro.
— Sou um ótimo aluno — justificou, mordiscando minha boca.
Era difícil não pensar que a qualquer momento poderíamos estragar nossa amizade, mas era de certa forma um alívio não reprimir sentimento algum.
— Você sabe que isso pode dar errado, não sabe? — questionei, quando voltávamos para onde largamos Albus.
— Existe essa possibilidade, mas eu não quero ignorar o que está acontecendo, você quer?
Fixei meus olhos nos seus.
— Não, definitivamente não. Mas você sabe, eu sou mestre em complicar as coisas.
Ele sorriu de um jeito carinhoso e enlaçou sua mão na minha, fazendo uma onda de ansiedade e conforto tomar conta do meu corpo.
— Eu não vou deixar você complicar o que não precisa... Prometo.
Meu sorriso não poderia ter sido maior.
Naquele primeiro de janeiro, em meio ao cheiro hospitalar e um corredor iluminado pelas luzes brancas tradicionais, olhando para aqueles olhos cinzas inebriantes, eu percebi algo. Beijar o melhor amigo está no topo das piores escolhas possíveis; uma das mais complicadas, e mais irresistíveis. Aquele momento, porém, nunca teria preço ou comparação. E eu não voltaria no tempo por nada.
Eu era a líder das péssimas escolhas, pura verdade, mas nem todas as péssimas escolhas são acompanhadas de péssimas consequências. Não aquela, pelo menos.
E, me perdoem a sinceridade, mas se beijar Scorpius Malfoy era uma péssima escolha e eu a líder de as fazê-las, devo dizer que não estou muito inclinada a mudar isso.
Notas finais
Espero que tenha gostado, amiga secreta!
Beijão!
Fale com o autor