Lovers on the sun
8 The phantom agony
Quando chegou perto da porta, notou que ela estava entreaberta, porém não saia nenhum tipo de luz dela. Concentrou-se em abrir a porta e em instantes ela se abriu, lentamente.
Entrou, com certo receio do que poderia haver atrás dela. O interior era o mesmo, mas dessa vez estava mobiliado e devidamente iluminado. No centro havia um enorme tapete persa. A esquerda do tapete havia um sofá marrom de três lugares com uma capa branca rendada. Na parede atrás do sofá havia alguns quadros de animais diversos, como cavalos e ursos. De um dos lados do sofá havia um criado mudo com um abajur.
A direita do tapete tinha uma televisão de 70 polegadas, na qual estava passando o telejornal em uma língua que Azazel não conhecia. Atrás do tapete tinha uma escada que levava para o andar de cima da casa. A escada estava coberta de sangue, o que surpreendeu Azazel.
Ele as subiu lentamente, desconfiado. Havia um corredor com quatro portas exatamente iguais com candelabros entre elas. Um carpete avermelhado cobria todo o chão do corredor. As paredes eram de um branco pálido, inexpressível. De ambos os lados, o corredor dava entrada em outro. Cada lado havia duas portas, com os mesmos candelabros e as paredes brancas.
No teto, no centro da casa, pendia um lustre de cristal gigante.
Quando chegou no andar de cima, o rastro de sangue continuava e levava até uma das portas. Ele seguiu o rastro e abriu a porta. Era um quarto totalmente escuro. Assim que entrou, uma forte luz brilhou no fundo do quarto e a porta se trancou atrás dele. Havia uma cama de solteiro encostada na parede, ao lado da forte luz. Do outro lado havia um armário e uma escrivaninha com um computador e um abajur.
Um carpete acinzentado cobria todo o piso e as paredes. A luz estava praticamente cegando Azazel. O rastro de sangue seguia direto até ele, não lhe deixando outra escolha senão segui-la. Seguiu em direção a luz. Sentiu uma presença no quarto, quase que o guiando para a luz.
Isso está soando extremamente clichê, pensou. Vá para a luz.
A luz se mostrou uma espécie de passagem. Ao passar por ela, sentou em um lugar totalmente branco. Tão branco e luminoso que não dava para ver nada. Sentiu a mesma presença do quarto o dominar. Caiu de joelhos no chão. Seu corpo havia retornado. A luz branca no recinto desapareceu.
O rastro de sangue seguia até alguns metros adiante, onde Azazel conseguiu ver o corpo de Abalam, esquartejado em cima de uma poça de sangue.
Ficou ainda mais confuso e desorientado. Não podia dizer que se importava com Abalam, mas vê-lo daquele jeito o enjoava. Uma voz ressoou pelas paredes.
– Quem é você?
– O que quer de nós? – perguntou outra voz.
– Volte de onde veio! – ordenou uma terceira.
– Sou Azazel. Eu vim do inferno e não quero nada de vocês. Nada além de uma maneira de sair daqui. Por falar nisso, onde estou?
As vozes riram e três formas fantasmagóricas se materializaram na sua frente. Três velhas senhoras, trêmulas e quase transparentes.
– Somos fantasmas – disse a primeira voz – Meu nome é Anna. Fantasma do passado.
– Sou Jade – disse a segunda – Fantasma do presente.
– E eu sou Amélia – anunciou a terceira – Fantasma do futuro.
– E lamento, mas não podemos deixar você ir – disseram em uníssono. Lâminas celestiais desceram de seus braços para suas mãos. Suas formas tremeluziram e se tornaram aparentemente mais sólidas. Começaram a girar em volta de Azazel rápido o bastante para ele não conseguir distinguir onde elas estavam, exatamente.
Agora que seu corpo estava de volta, tentou contatar Abaddon. Ainda não conseguiu.
Suas asas começaram a se agitar, inicialmente contra sua vontade, mas entendeu o que elas queriam dizer. Elas se enrijeceram e se abaixaram, tomando impulso em seguida, fazendo-o flutuar dezenas de metros acima dos fantasmas. Elas pararam de girar e olharam para cima, furiosas. Aparentemente, não conseguiam vê-lo, pois ficavam piscando os olhos rapidamente e procurando por ele com a cabeça. Azazel olhou para cima e entendeu o porquê. A luz branca que iluminava o recinto estava bem acima dele, ofuscando sua imagem.
Azazel preparou suas asas e mergulhou em direção a Anna, fantasma do passado, que estava afastada das outras duas, procurando por ele. Prendeu seus braços com suas garras e levantou voo novamente. Quando chegou abaixo da luz novamente, usou seus poderes para fazê-la flutuar a sua frente.
– Quem são vocês, de verdade? – perguntou, com um tom ameaçador.
– Éramos anjos – começou ela, após alguns segundos – Mas acabamos caindo porque começamos a questionar o mundo a nosso redor. Entenda, anjos não são livres como vocês demônios. Éramos escravos da vontade Dele. Alguns de nós nos revoltamos com isso e caímos. O primeiro a cair foi Lúcifer, o segundo Gadriel, e por ai vai. E aqui estamos nós. Vivendo em agonia, esquecidas. Fantasmas.
– Passado, presente e futuro – lembrou – O que querem dizer com isso?
– Somos como as irmãs do destino da mitologia grega. Porém cada uma de nós temos uma época sobre a qual temos domínio. Nossa função era cuidar das memórias, das aventuras e do futuro dos humanos. Mantemos nossos poderes quando caímos.
Algumas imagens começaram a dominar a cabeça de Azazel. Imagens de sua infância pobre e sofrível como órfão morando com uma tia no campo, longe de tudo e todos. Imagens de quando vendeu sua alma em troca de uma vida melhor. Imagens das torturas inimagináveis que sofreu no inferno, antes de se tornar um demônio. Seus olhos reviravam nas órbitas. Mais e mais lembranças invadiam sua mente como um turbilhão. Sentiu que estava caindo, mas não conseguia reaver o controle sobre seu corpo. Caiu no chão com um impacto que fez as paredes tremerem violentamente.
Os fantasmas estavam na frente dele, ajoelhadas.
Imagens de Abalam sendo torturado, mutilado e morto entraram em sua cabeça. Em seguida, imagens da cidade de Nova York, tomada por Samael. Imagens do planeta inteiro sendo consumido pelas chamas infernais que saiam do corpo de Samael.
Os fantasmas se levantaram e se afastaram, assustadas. Azazel se levantou com dificuldade e retomou o controle sobre sua mente. Seus olhos ficaram totalmente negros. Os fantasmas olhavam para ele com desespero. Ele andou em direção a elas, que se afastavam à medida que ele se aproximava. Elas encontraram a parede atrás de si. Estavam encurraladas.
– Pedimos desculpas Azazel. Não sabíamos que era você.
– Bom, agora que sabem, deixe-me esclarecer algo para vocês. Sim, eu vendi minha alma para Lúcifer. Sim, eu fui o primeiro humano a se tornar um demônio, após séculos de tortura. Mas não há nada que ninguém possa fazer para me surpreender. Eu praticamente não sinto dor. Mas vocês três, por incrível que pareça, conseguiram tal façanha.
Focou seu olhar demoníaco sobre as irmãs, fazendo-as gritar e agonizar de dor. Seus corpos começaram a se materializar, com asas brancas e uma auréola sobre suas cabeças. Elas pararam de gritar e olharam uma para outra, notando que eram anjos novamente. Mas essa sensação só durou alguns instantes, pois o sangue começou a ferver em suas veias. Seus corpos entraram em combustão; Azazel levantou voo e seguiu em direção a luz, saindo daquele lugar deixando apenas cinzas para trás.
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