Lovely, dark and deep
10 Capítulo 8
Notas iniciais
Olhe, eu realmente queria poder ter resolvido toda essa situação assim que eu cheguei em 221b naquele dia, mas não, eu não havia tido coragem suficiente para quilo. Nós continuávamos na mesma situação sem saída.
Uma semana havia se passado, uma maldita semana de confusão e constrangimento. Minha mente estava uma completa bagunça, tudo em relação a Sherlock e ao que havia acontecido era uma incógnita, um paradoxo fatal, e eu estava assustado. Eu não sabia o que dizer ou o que fazer por medo, medo de perder Sherlock e tudo o que tínhamos juntos, aquilo me deixava desesperado de uma maneira que eu nunca imaginei que pudesse ficar, porque sem ele eu não seria nada
Eu não podia perdê-lo.
Eu o amava.
Mas como dizer isso para a pessoa mais insensível do mundo? Eu não podia simplesmente falar casualmente e esperar alguma coisa em troca, seria estúpido. Mas mesmo assim, durante aquela semana, com a pouca habilidade de dedução que eu havia desenvolvido com Sherlock, eu pude perceber que o detetive não estava muito melhor do que eu. Ele genuinamente tentava fingir que estava bem, tentava, mas os sinais eram claros por mais discreto que ele tentasse ser. O detetive havia voltado a fumar como uma chaminé, as olheiras ficavam cada vez mais perceptíveis ao passar dos dias, ele quase nunca comia. De algum modo, era muito perturbador ver Sherlock daquela maneira, tão frágil e perdido, eu queria poder fazer alguma coisa, mas eu estava tão perdido quanto ele.
Nós dois estávamos completamente perdidos.
Nossa comunicação também não estava muito boa. A conversa era a mínima; bom dia, boa noite e perguntas corriqueiras que podiam ser tranquilamente respondidas com sim ou não. Aquilo parecia algum tipo de tortura psicológica, ter Sherlock tão próximo, mas tão longe era enlouquecedor e eu só me prejudicava mais com as lembranças daquele maldito beijo. Eu podia sentir as pontas dos dedos formigando, meus lábios ardiam, meus músculos tencionavam. Era inegável, eu precisava de Sherlock desesperadamente.
Então, na noite do oitavo dia, uma segunda-feira, eu resolvi falar. Eu não podia mais aguentar todo aquele silencio, todo aquele desespero, eu precisava de respostas e precisava desabafar.
E lá estávamos nós, eu sentado olhando para o nada com um copo de whisky na mão e Sherlock, caindo, quase deitado na poltrona com o cigarro entre os lábios. Com minha visão periférica eu podia ver a fumaça subindo da boca do detetive, como demônios emergindo das trevas, formando infinitas e imprevisíveis espirais e desaparecendo lentamente, deixando apenas o cheiro do carbono para trás, empesteando a sala. Eu comecei a me perguntar como ele podia estar tão relaxado, mas eu sabia que ele não estava, o detetive estava apenas fingindo.
“Como você faz isso?” Perguntei olhando diretamente para Sherlock.
“Isso o que?” Ele perguntou de volta.
“Fingir que está tudo bem, que nada aconteceu.”
Ele se sentou direito e me encarou. “Eu não estou fingindo. Nada aconteceu.”
“Me beijar e sair correndo... Isso não é nada para você?” Falei ácido. “Por que para mim, foi alguma coisa.”
Sherlock se levantou e eu já sabia, ele iria fugir novamente. Porém, minha determinação ainda estava alta; eu não iria deixá-lo ir a lugar algum sem uma resposta. Aquela conversa era inevitável e quanto mais ele fugisse mais difícil ficaria.
“Você não pode fugir para sempre desse assunto, Sherlock.” Também me levantei.
“Mas eu vou enquanto posso.”
“Não, não vai.” Eu o segurei pelo braço, impedindo o detetive de sair do lugar. “Eu preciso de respostas, Sherlock.”
Ele encarou a mão que o segurava e depois se voltou para mim com uma expressão irritada. “Não há nada para ser respondido. Você não pode simplesmente esquecer?”
“Não! Claro que não! Como você quer que eu esqueça uma coisa daquela?”
Eu o soltei e o encarei esperando algo, uma resposta, qualquer coisa, mas nada veio. Nem me surpreendi, era mais do que obvio que ele não iria se manifestar.
“Ok, tudo bem, tanto faz agora.” Falei dando as costas para Sherlock com um suspiro derrotado e decidi deixar a sala, me encaminhado para meu quarto.
Que vergonha, minha coragem e determinação não duraram nem cinco minutos. Mas o que eu podia fazer? Eu estava decepcionado e impotente, Sherlock era um cabeça dura, era impossível lidar com ele, especialmente quando ele não queria colaborar, eu nunca conseguiria tirar nada dele sem que o mesmo quisesse
“Quando eu te conheci...” Eu ouvi a voz de Sherlock d repente e parei. “Quando eu te conheci algo estranho aconteceu comigo. Era bom ter você por perto, era bom ter um amigo, alguém que realmente se importava comigo, que ouvia o que eu falava.” Ele fez uma pausa suspirando. “Você me fazia sentir coisas diferentes, eu simplesmente deduzi que aquilo era amizade.”
Eu me virei e encarei o detetive em duvida. Aquilo era real?
“Porém, com o passar do tempo, eu comecei a perceber que não era só aquilo. Eu tentei procurar outras explicações, neguei até o ultimo minuto, mas era inútil. Eu estava apaixonado.” E com isso Sherlock me lançou o olhar mais intenso que eu havia visto e voltou a falar “Era até fácil de esconder no começo, mesmo ainda não acreditando que eu realmente sentia aquilo, mesmo não querendo acreditar nunca...”
“Sherlock...” Eu tentei dei dizer algo mais fui interrompido.
“Mas como sempre, sentimentos nunca trazem coisas boas. Aqueles dois anos em que estive fora foram os piores da minha vida, eu sentia a sua falta vinte e quatro horas por dia, eu não via à hora de voltar e quando eu voltei tinha tudo planejado, eu iria te dizer o que eu sentia, eu ia explicar tudo, mas então...” Ele parou de repente como se as palavras tivessem acabado de uma hora para outra. “Mary.” Ele voltou a falar. “Eu morri por dentro quando soube, mas eu não podia fazer nada para evitar, e a única maneira que eu encontrei para dizer o eu sentia foi no meu discurso no seu casamento.”
“... Basicamente as duas pessoas que mais te amam nesse mundo...”
“Entretanto, estava cada vez mais difícil de esconder, eu estava sofrendo, morrendo e assustado de ter de passar o resto da minha vida longe de você e guardando esse sentimento. Então Mary morreu. Eu me sinto mal por isso, mas eu fiquei feliz; eu iria ter você novamente. Não do jeito que eu queria, mas você estaria aqui novamente.” Ele parou por um segundo, procurando as palavras certas. “O que aconteceu naquele dia, aquele beijo, foi um acidente, não era para ter acontecido, mas aconteceu, eu me descontrolei e me deixei levar, mas o que eu estou tentando dizer é que eu amo você, John Watson, e eu não posso fazer nada sobre isso... É o que eu sinto, é o que eu tenho a dizer.”
E o silencio caiu sobre nós; não era um silencio ruim, era um silencio de contemplação, de... realização.
Eu estava em palavras e sem ação naquele momento, aquilo era o que eu sempre quis ouvir de Sherlock, era tudo o que eu havia imaginado e muito mais. Ele me amava. E ali, num ato de desespero eu fui até ele, sem medo ou vergonha, eu fui com toda a certeza do mundo e o beijei. O beijo foi até mais doce do que o primeiro, e eu posso dar inúmeras razões para o porquê, mas a principal de todas elas é que naquele beijo não havia duvida, havia certeza. Certeza de que os lábios de Sherlock eram meus, sempre foram, certeza que não havia mais medo e a certeza de que aquele era o começo de uma nova fase para nós, até porque agora, o “nós” realmente podia existir e eu não poderia estar mais feliz.
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