Lovely, dark and deep
6 Capítulo 5
Notas iniciais
O relógio marcava exatamente três da manhã e meus olhos continuavam abertos e vidrados na escuridão do quarto. A noite estava fria e chuvosa, o vento batia violentamente contra a janela e eu estava lá, parado, estagnado, sentindo meus pés gelados como o inverno.
O sono e o descanso me pareciam tão distantes naquele momento e tudo que permanecia em minha mente era o vazio, o nada, vácuo. Hoje faz exatamente três meses desde o velório e o enterro de Mary e minha filha e o que pensei que iria melhorar só piorou. Eu parei de trabalhar, deixei de me cuidar e minha autoestima está em um nível ridiculamente baixo. Passo os dias nas profundezas do oceano de minha mente, sobrevivendo de quantidades absurdas de café e biscoitos. Por diversas vezes durante esses três meses Mrs. Hudson veio me visitar tentando de todas as maneiras me arrastar de volta para Baker Street, mas ela não entendia, eu não conseguiria voltar naquele estado, acabado, depressivo e viciado em cafeína; seria um vergonha, eu só iria atrapalhar, eu não podia deixar Sherlock me ver assim.
Falando em Sherlock, há quanto tempo eu não o vejo? Parece uma eternidade, mas na verdade a última vez que eu o vi foi no hospital, nem no velório ele apareceu, Mrs. Hudson apareceu no lugar e tentou justificar a falta do detetive. Mas tudo bem, é bom não manter o contato, é bom ficar escondido um pouco... Eu acho.
Três e dez. Levantei e me arrastei pela escuridão da casa, apenas usando o tato para me guiar até a cozinha. Meu corpo estava cansado e pesado, tudo que eu precisava era de um café para revigorar um pouco as forças já que eu não iria conseguir dormir de qualquer maneira. Tropecei em algumas coisas no caminho e cheguei ao meu destino. Passei a mão pela parede até achar o interruptor e acendi a luz.
No instante em que a luz se acendeu eu pude sentir a adrenalina sendo injetada em meu sangue com violência, senti meu coração acelerar de zero a mil em um milissegundo, meus músculos tencionarem e esquentarem e meu modo soldado foi ativado quase que instantaneamente, mas logo foi desligado ao perceber quem era a pessoa sentada tranquilamente em minha cozinha.
“O que diabos você está fazendo aqui?!” Perguntei irritado e desconcentrado, tentando me recuperar do susto que havia tomado.
“Olá para você também, John.” Sherlock falou calmamente. “Eu estava te esperando.”
Tentei acalmar a respiração e franzi o cenho.“Você o que?” perguntei sussurrando.
“Eu estava te esperando.”
“Sherlock! São três horas da manhã!”
“Pois é, eu não esperava que você fosse acordar tão cedo.” Ele sorriu e virou o rosto um pouco para o lado. Eu não aquentava quando ele era irônico daquela maneira.
“Que horas você entrou? Como eu não te ouvi?”
“Era duas e meia se não me engano.”
“E seu plano era me esperar aqui até de manhã?” Fiquei um pouco impressionado.
Ele balançou a cabeça positivamente. “É. Eu ando meio sem ter o que fazer.” O detetive me pareceu um pouco perdido por um momento, mas logo voltou. “Mas, oh, por favor, faça o que você veio fazer aqui, não me deixe te atrapalhar.”
Ainda com o coração batendo forte e a raiva me queimando por dentro eu fui. Durante todo o processo de preparar o café eu pude sentir o olhar de Sherlock sobre mim, Me sentia analisado detalhe por detalhe e eu sabia que ele estava me analisando. Eu queria poder esconder todas evidencias da minha decadência dos últimos meses, a barba por fazer, as olheiras, a má postura e tudo mais, mas ele havia me pegado desprevenido e agora tudo estava exposto. E por que ele havia aparecido mesmo?
Eu inconscientemente coloquei café em duas xicaras e uma delas eu preparei da maneira que Sherlock tomava; quantidade mediana e dois cubos de açúcar. Quando eu percebi já era tarde demais e acabei levando para ele, nem perguntei se Sherlock queria, apenas deslizei a xícara para perto dele e me sentei na outra ponta da mesa esperando que ele falasse algo.
“Você pode perguntar agora.” Ele me encarou.
“O que você está fazendo aqui?” Perguntei de uma vez para evitar discussões.
“Bem, eu estou aqui para te convencer a voltar para Baker Street.”
Ergui uma sobrancelha. “Está fazendo o trabalho de Mrs. Hudson agora?”
Ele suspirou. “Ela não anda fazendo um bom trabalho.” O detetive tomou um longo e lento gole do café. “Ela não consegue mais fazer o que lhe é pedido com tanta eficiência... Deve ser a idade.”
Eu segurei o riso. Era Sherlock quem mandava minha antiga senhoria aqui e isso realmente era inesperado, de um jeito bom é claro, mas inesperado.
“Oh, então você quer que eu volte?” Falei sorrindo. “Me diga por que.”
“Oh, John, você não vai me fazer falar nada sentimental ou coisa do tipo.”
“Então é algo sentimental?”
Ele pareceu um pouco ofendido. “Não. Eu apenas estava pensado que já que você não tem mais ninguém aqui voltar para Baker Street seria uma boa opção”
“Só por isso?”
“Hum... Você poderia me ajudar nos casos, você sabe que eu aprecio muito a sua ajuda.”
Voltei minha atenção para o café e meu sorriso suavizou um pouco. Eu me senti mais motivado a voltar agora que era Sherlock em pessoa que havia me procurado e pedido para que eu voltasse, mas ele não entendia, eu não podia voltar, eu não poderia volta naquele estado.
“Eu iria te atrapalhar.”
“Não, não iria.” Ele falou calmo, como se aquilo não fosse nada. “A única coisa que está te atrapalhando é você mesmo. Ficar aqui não vai ajudar, John. Por mais que eu não apreciasse muito Mary eu me importo com você, e eu sei que ficar preso aqui não vai lhe ajudar a passar pelo luto.” Ele tomou um pouco do café e eu o encarei. “Eu sinceramente acho que a sua volta para 221 vai ajudar nós dois.”
“Nós?” Questionei e vi Sherlock desviando o olhar para um ponto qualquer na mesa. “Sherlock?”
Ele não respondeu e ficamos em silencio durante alguns minutos.
O som de um trovão encheu a casa e logo depois veio a chuva, tudo em um estalo, um segundo. As palavras de Sherlock ecoaram em minha mente e minha voz interna me disse que ele tinha razão, como sempre. É, aquilo poderia me ajudar bastante.
“Eu posso perguntar uma coisa?” Perguntei quase sussurrando.
“Claro.”
“Você... você...” Minha mente travou de repente e aquela pergunta parecia ser extremamente difícil de ser feita.
“Vá em frente, John.”
Eu olhei diretamente para Sherlock, a maneira como ele havia falado meu nome mexeu comigo. A voz dele parecia um pouco mais aveludada do que o normal e o detetive havia usado aquele maldito tom muito sutil de incentivo que ele só usava quando queria manipular as pessoas... E ele sempre conseguia, ele conseguiu.
“Você sentiu minha falta quando eu fui embora de Baker Street?”
Sherlock me encarou tão intensamente que por um segundo eu me perdi e quase me afoguei naqueles olhos. Foi um olhar tão intenso que eu já sabia a resposta. Aquilo acabou comigo, meu coração apertou um pouco, mas pelo menos eu não havia sido o único.
“Essa é um pergunta muito estúpida.” Ele se levantou.“Se importa de me acompanhar até a saída?”
“Mas está chovendo.” Tentei falar, mas um trovão ecoou e quase apagou minha voz.
“Eu não tenho medo de ficar molhado.”
“Está uma tempestade lá fora.”
“Oh, John, vamos lá...”
Suspirei e me levantei acompanhando Sherlock até a porta de casa. Não liguei a luz da sala e a cozinha era a única coisa que iluminava o caminho e aquilo era o suficiente.
“Eu posso te levar de carro se quiser.” Tentei argumentar, mas o som que saiu da boca de Sherlock me fez deixar isso de lado. “Ok, eu não insisto mais.”
Por um instante eu fiquei extremamente nervoso, me despedir de Sherlock parecia algo incomodo e minhas mãos começaram a suar. O que diabos havia de errado comigo?!
“Então eu acho que é isso.” Ele falou colocando a mão na maçaneta, girando-a.
“Obrigado por vir aqui.”
“De nada.”
O vento entrou na casa e circulou tudo, senti meus pés ficarem ainda mais gelados do que antes e um arrepio percorreu minha espinha e eu tive o impulso de fechar os pulsos para agüentar o frio que vinha da porta. Sherlock já havia dado um passo para fora de casa, mas antes que ele pudesse dar outro eu cedi a um impulso que eu estava tentando segurar desesperadamente. Eu o puxei pela manga do casaco e o virei para mim. Envolvi meus braços entorno de Sherlock e fiquei assim durante alguns segundos. Mesmo sendo pouco tempo, eu pude sentir Sherlock estático em meus braços, ele realmente não era de demonstrações de afeto, mas eu precisava daquilo, daquele abraço, eu não sabia porque, mas eu simplesmente precisava.
O instante em que nos separamos foi o tenso. Parecia que eu nunca havia estado tão perto de Sherlock como eu estava naquele momento. Por um minuto eu quase perdi a sanidade olhando naqueles olhos indecifráveis e enigmáticos dele novamente, e a nossa proximidade era no mínimo desconfortável no momento. Foi uma experiência um pouco intensa de mais.
Mas eu não sentia nem uma pontada de arrependimento.
“Hum...” Sherlock se afastou de mim parecendo um pouco confuso. “Eu acho que é melhor eu ir agora.”
“Você tem certeza de que não que nem esperar a chuva parar um pouco?” Falei encostando no batente da porta tentando fingir que o que eu havia feito não era nada de constrangedor.
“Por que você está insistindo tanto?” Ele falou em um tom cansado.
“Porque, pelo que parece, estamos tendo um novo dilúvio e não é bom pra ninguém ficar saindo na chuva.”
Ele suspirou derrotado, Sherlock sabia que eu não iria desistir. Senti que ele não via a hora de sair da minha casa, e eu não fazia ideia do porque disso, mas de qualquer maneira eu não podia deixa-lo sair assim.
“Certo, eu fico até o tempo melhorar.”
Sorri satisfeito e o puxei para dentro de casa novamente. “Ok, eu vou dormir. Você pode ficar no quarto de hospedes se quiser.”
“Eu vou ficar por aqui mesmo,” ele se sentou no sofá. “Não vou demorar muito para ir.”
“Ok, você quem sabe... Boa noite.”
“Boa noite.”
Voltei para o meu quarto e me deitei na escuridão novamente e mesmo depois de uma xícara de café o sono bateu. Eu me sentia mais leve, relaxado e, ah, aquilo era ótimo... Há quanto tempo eu não me sentia daquela maneira? Meus olhos estavam pesados e eu logo os fechei. Talvez eu voltasse para Baker Street, talvez eu voltasse a viver minha vida normalmente com Sherlock e quem sabe viver novas aventuras. Mas eu resolvi pensar naquilo em um outro momento e deixei o sono me levar.
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