Lovely Petals
1 Lovely
Notas iniciais
Sem mais delongas, boa leitura!
?”MC
Era difícil respirar naquele momento. Mesmo em seus sonhos, ele sentia a dificuldade na inspiração e a dor da expiração. Seu peito parecia queimar, e isso se refletia nas imagens inconscientes em sua cabeça. Elas assumiam tons avermelhados, como se estivessem em chamas. As imagens os poucos desmoronavam lentamente, deixando apenas um vazio rubro.
Uma figura se destacava naquele cenário de destruição porque se mantinha intacta. Apesar de estar um pouco borrada, a figura do rapaz de cabelos dourados era facilmente reconhecível. Seus olhos vermelhos conseguiam se sobressair em comparação àquele ambiente. Sua expressão era de raiva, como sempre, mas ela continha algo mais que não era fácil de se decifrar. Rancor, talvez? Não sabia dizer.
Ele parecia estar dizendo algo, mas o que exatamente… O ambiente, mesmo silencioso, tinha uma interferência, era disruptivo de alguma forma. Aos poucos, o vermelho começou a engolir a figura, que passivamente a aceitou. Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, a dor o consumiu e Midoriya Izuku acordou com sua tosse violenta rotineira.
Algum tempo se passou até que ele parasse de tossir e conseguisse voltar a respirar novamente. Não era uma respiração limpa e sem esforço, mas era o que ele conseguia naquele momento. Vagarosamente, levantou-se e cambaleou até o interruptor. Com a luz, percebeu o vermelho que dominava sua cama: pétalas de rosas espalhadas com sangue, suor e bile. Midoriya não gostava de pensar que teria que lavar os lençóis novamente na manhã seguinte. Já seria a terceira vez naquela mesma semana, as pessoas começariam a suspeitar que algo não estava certo.
Ainda se sentindo fraco, recolheu os lençóis sujos e jogou em um canto do quarto. Aquele era um problema para o seu eu do futuro, então ele que lidasse com os olhares curiosos na lavanderia da escola. Deitou em sua cama fria, agora sem cobertas, e percebeu que já não tinha mais sono. A adrenalina de acordar daquela forma o despertara completamente.
Dormir estava se mostrando uma tarefa árdua naquelas últimas semanas. Sentia-se cada vez mais exausto e seu corpo começava a não obedecê-lo durante o dia, mas ainda não conseguia descansar durante a noite. Suspirou profundamente frustrado, mas essa não foi a melhor ideia que teve, já que isso só desencadeou mais uma crise de tosse. A dor era tão extrema que seus olhos começaram a lacrimejar.
Permitiu-se chorar naquele momento, se encolhendo na cama. Já fazia um mês desde que recebera o diagnóstico e a cada dia sentia-se pior. A memória daquele dia estava nítida em sua mente.
— Me conte um pouco sobre seus sintomas, querido.
Um pouco envergonhado, ele alcançou um papel dobrado em seu bolso e o entregou para a pequena senhora com um sorriso gentil e sereno.
— Era só um pouco de falta de ar e tosse leve, mas recentemente… A tosse começou a piorar e isso começou a sair junto.
A senhora pegou o papel dobrado com uma expressão um pouco confusa, ajeitando os óculos antes de abrí-lo. No centro do papel, pétalas vermelhas manchadas com respingos de sangue. Aos poucos, sua expressão transformou-se em incredulidade e choque.
— Eu não sei como isso foi parar dentro de mim! — Confidenciou, ainda envergonhado — Eu não comeria pétalas de rosas, eu saberia onde encontrar rosas, é impossível eu fazer algo assim! Talvez alguém tenha feito alguma brincadeira de mau gosto enquanto eu estava dormindo e…
— Oh, não. Isso não foi algo que você ingeriu, meu querido. Creio que está crescendo dentro de você. — Ela desceu de sua cadeira e começou a procurar nas gavetas da enfermaria por seu estetoscópio — Retire a camisa, por favor.
Midoriya a encarou, sentindo-se confuso, mas obedeceu da mesma forma. O que poderia estar crescendo dentro dele? Quando ela retornou, pousou a parte metálica em seu peito e pediu para que ele respirasse profundamente algumas vezes. Não era muito confortável para ele, já que o ar parecia não querer entrar, e quando entrava era acompanhado de uma ardência insistente.
— Hm, nada bom. — A senhora comentou distraída.
— Como assim "nada bom"? — Midoriya não conseguiu se segurar depois de ouvir aquilo.
— Um momento por favor. Evite falar durante a examinação. — Recovery Girl continuou a mudar o estetoscópio de posição, ouvindo atentamente. Assim que terminou, fez algumas anotações e se voltou para o rapaz com um palito longo — Abra a boca por favor, querido.
O rapaz ficava cada vez mais ansioso com o silêncio da médica enquanto ela avaliava sua garganta. Por sua expressão, poderia ser tão grave assim? Ele realmente esperava que não. Terminado o exame, ela voltou a fazer anotações na ficha médica de Midoriya, fazendo perguntas aqui e ali.
— Há quanto tempo está com essa falta de ar acompanhada da tosse?
— Uma semana? Talvez um pouco mais… Não tenho certeza. — O garoto nervosamente mexia nas cicatrizes da mão, como se aquilo pudesse acalmá-lo.
— Algum evento específico que pode ter desencadeado essa reação?
— Acho que não… — Ele respondeu honestamente — Eu nunca tive isso antes.
— Tem mais algum sintoma que você tenha esquecido de comentar? Fatiga, falta de apetite…?
— Não, não. Só esses e as… hm, as pétalas. — Completou envergonhado.
Ela finalmente pousou a prancheta com sua ficha na mesa e encarou o garoto com um feição quase entristecida. Ao proceder, falou de maneira pausada, como se não quisesse assustá-lo.
— Meu caro, você já ouviu falar numa doença chamada Hanahaki?
Não, Midoriya nunca tinha ouvido falar naquilo. Pelo nome, ele poderia imaginar do que tratava, mas ainda não entendia muito bem o que ela queria dizer.
— Bom, essa doença é muito rara, então imagino que você não deva conhecer. — Em sua mesa, ela puxou um manequim de tamanho médio do corpo humano, que mostrava a estrutura interna e os órgãos — Essa doença vem de algum tipo de fungo. Os esporos se alojam no pulmão e criam… Raízes. Ali é um lugar perfeito para expandirem e florescerem. — Seu dedo seguia cada área que ela descrevia — As flores começam a desabrochar com uma ou duas semanas e as pétalas vão se soltando para a região da traquéia. Isso dificulta a respiração e causa irritação na garganta, o que pode acarretar em tosse e regurgitação. Aos poucos, haverá uma obstrução das vias aéreas e o hospedeiro pode morrer por asfixia.
— Espera… Estão nascendo flores dentro de mim? — Tocou em seu peito suavemente, incrédulo — Mas como isso aconteceu?! Eu me cuido bem, tenho uma alimentação saudável, sempre limpo meu quarto, lavo meus lençóis… Não é possível!
— Não se sabe muito bem como se contrai isso. É uma doença misteriosa, isso eu posso dizer. — Comentou enquanto analisava mais de perto a pétala que o rapaz entregou a ela. Esta lembrava uma pétala de rosa, tanto em questão de aparência quanto de textura — Mas ela está associada a amor não-correspondido.
— Amor não-correspondido?! — Aquilo era informação demais para ele.
— Sim. Todos os pacientes que tiveram essa doença relataram ter sentimentos românticos não correspondidos. Os casos de cura natural se deram quando os pacientes terminavam juntos com seus objetos de desejos. As flores murchavam e simplesmente desapareciam.
A cabeça do rapaz estava girando. Isso não era real, não poderia ser.
— Você tem alguém assim, meu querido? — Ela pousou a mão na cabeça menino, que estava quase encolhido na cadeira, numa tentativa de consolá-lo.
Claro que ele tinha. Mas esse era um sentimento antigo, que estava escondido há anos dentro de si. Por que estava vindo incomodá-lo só agora? Imagens dos olhos vermelhos enraivecidos passavam em suas cabeça.
Vermelhos como as graciosas pétalas que ele conseguia sentir em sua garganta.
— Você não pode me curar? Fazer com que as flores sumam? — Implorou.
— Com meus poderes, não. É possível fazer a remoção dos esporos e das raízes por intervenção cirúrgica, mas é extremamente arriscado. O pulmão é muito sensível e seria difícil conter um sangramento ali se, por exemplo, uma raiz rompesse algum brônquio. Eu só sugiro esse tipo de tratamento apenas em casos graves e emergenciais. — Ela tentou manter um tom calmo, mas era possível perceber a tensão em sua voz.
— E o que eu posso fazer?!
— Tente falar com a pessoa. Quem sabe seus sentimentos não são mútuos?
"É, claro que são." Midoriya riu sem muito humor, tentando alcançar as pastilhas que a médica tinha lhe receitado para aliviar a dor. Não que elas ajudassem muito, mas era melhor do que nada.
A lembrança o deixava não só irritado, mas desesperançoso. Se ele fosse depender de ter seus sentimentos correspondidos, já poderia se considerar um homem morto. Recovery Girl tinha frisado que a progressão da doença era muito rápida: completando três meses, seus pulmões estariam infestados de "rosas" e ele não seria mais capaz de respirar. Talvez pudesse acontecer antes, cada caso era um caso… Mas não teria mais que três meses.
Midoriya considerou contar sobre seu quadro para sua mãe em determinado momento, mas não sabia se eles teriam dinheiro suficiente para a cirurgia. Não queria preocupá-la mais ainda, então manteria em segredo por enquanto. Também não se sentia confortável em contar para Iida e Uraraka. Seria difícil admitir seus sentimentos sobre a certa pessoa, mas seria ainda pior admitir que provavelmente ele não sobreviveria.
"Acho que não é bom ficar pensando sobre isso agora. Já estou depressivo demais."
Com as pastilhas, sentiu o fogo em sua garganta diminuir um pouco, mas o sono não retornou. No relógio em sua mesa de cabeceira, eram quatro da manhã. Só mais duras horas até ter que levantar? Talvez nem valesse tanto a pena assim voltar a dormir. Seria melhor aproveitar o tempo para lavar os lençóis, assim não levantaria suspeitas.
Reuniu todas as energias que tinha e saltou para fora da cama. Seu corpo estava pesado, mas se ignorasse e mentisse para si mesmo, conseguiria chegar até a lavanderia. Recolheu todos a roupa de cama do chão e tentou não fazer nenhum barulho ao sair do quarto para o corredor. Preferiu até usar as escadas, por mais que não estivesse se sentindo tão bem, mas o elevador era muito barulhento. Seria melhor que ninguém acordasse.
Ao chegar no térreo, percebeu que teria que passar pela área comum do dormitório para chegar à lavanderia. Por um momento ficou preocupado, mas quem estaria acordado naquele horário além dele? Passou por ali ainda preocupado em não fazer barulho, mas não se importou tanto se seria visto ou não.
— Isso é hora de estar fora da cama, seu nerd maldito? — A voz irritada ecoou pela sala.
Seu coração quase parou. Só podia ser brincadeira. De todas as pessoas que podiam estar acordadas, tinha que ser justo ele?
Bakugou Katsuki estava deitado em um dos sofás, olhando diretamente para ele. Mesmo no escuro, conseguia ver seus olhos rubros quase brilhando. Usava a mesma expressão que as imagens em seus sonhos: Enraivecida, mas com alguma outra coisa que Midoriya não conseguia decifrar. A visão deu um nó em sua garganta, e ele teve que se esforçar muito para não voltar a ter uma crise de tosse.
— Kacchan… — Disse com dificuldade, quase num sussurro, tentando esconder os lençóis — Não conseguiu dormir?
— Não te interessa. — Grosseiro, como sempre. Não que ele esperasse outro tipo de resposta vinda de seu amigo de infância — E você não respondeu, o que está fazendo fora da cama?
— Eu, ahn… Deixei minha garrafa d'água cair na minha roupa de cama. Ia secar tudo na lavanderia. — Midoriya já estava mentindo há alguns dias sobre isso, então tinha desculpas prontas na ponta da língua. Se sentia um pouco mal por mentir, mas o que poderia fazer?
Como não obteve mais nenhuma resposta dele, Izuku voltou a caminhar em direção a seu destino, agora com passadas mais rápidas. Era sempre assim entre eles. Como a médica esperava que o que ele sentisse pudesse ser mútuo? O melhor que ele poderia fazer era esperar seu caso ficar mais grave para ser elegível para a cirurgia.
Até lá, ele guardaria as adoráveis pétalas na garganta em silêncio.
Notas finais
Será uma história relativamente curta, então espero que continue a acompanhar! Desde já, agradeço!
Se quer me mandar críticas (construtivas ou não), comentários, dúvidas, erros de português que eu cometi, mensagens inspiradoras, recadinhos amorosos, dicas de beleza, me mandar pro inferno, falar que está com vontade de chorar, de cantar uma bela canção, ou simplesmente falar que gostou ou detestou a história, a minha caixinha de comentários estará sempre a sua disposição. Te aguardo no próximo capítulo!
Com carinho, -MC
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