Loveless

3 Capítulo 3 - ♫ Bullet For Prisoner ♪


"Estas mãos contaminadas
Não podem tocar você
Aqueles olhos fixos
Levam meu dedo a vacilar
Se ao menos eu nunca tivesse te conhecido
Eu não teria tido esse sonho"

~~~~~X~~~~~X~~~~~

Na manhã seguinte Gakupo já acordou completamente exausto. Não por causa do leilão da noite anterior em si, e sim por causa das consequências que o mesmo lhe causou. Graças ao pedido de Rin, ele agora tinha um menino traumatizado e inexpressivo em sua mansão, que parecia pensar que ele o tinha comprado com as piores intenções do mundo, e não sabia como lidar com ele. Isso só serviu para aumentar o cansaço do jovem Duque, somando à ele um tremendo mau-humor.


Felizmente, ele não precisou aturar a complexa personalidade de Len logo cedo, pois, assim que acordou, Gakupo saiu de casa antes mesmo que o visse. Tinha ido visitar a culpada por lhe causar toda aquela perturbação.


— Gakupo-san! — Rin exclamou, surpresa ao ver o homem adentrando a sala de sua casa, sem nem mesmo dar bom dia, como ela mesma havia feito dois dias atrás — Que surpresa... o que faz aqui tão cedo?
— O que eu faço aqui? — Gakupo repetiu — Vou lhe dizer o que eu faço aqui, Rin-chan. Vim lhe dizer que é melhor que você consiga um milhão de yenes bem depressa, pra comprar aquele seu irmão estranho de volta, antes que ele acabe me enlouquecendo!
— Então o senhor conseguiu?! — ela exclamou sorridente, levantando-se com um salto — Eu sabia! Sabia que o senhor conseguiria! Ai, nem acredito que ele finalmente está livre daquele Conde horroroso!
— Mas o garoto não está completamente livre ainda, isso só acontecerá quando você comprar a liberdade dele — Gakupo lembrou — E vá se preparando, porque ele me custou um milhão de yeses
— T-Tudo isso?! — ela boquiabriu-se — Céus... a-ainda bem que o senhor tinha essa quantia disponível... m-mas não se preocupe, Excelência, começarei a juntar essa quantia desde já, e prometo pagar cada centavo ao senhor um dia! E mesmo que o Len ainda não esteja livre... ele ao menos está em melhor mãos estando com o senhor
— Esse que é o problema — o homem resmungou — O garoto está esquisito demais, não sei quanto tempo vou aguentar mantê-lo em minha casa!
— Ele... mudou tanto assim?
— Infelizmente sim. Eu me lembro de tê-lo visto apenas uma vez, quando seus pais biológicos ainda eram vivos — Gakupo recordou, lembrando-se de como Len era mais parecido com a irmã também na personaldiade, e não apenas na aparência. Uma criança feliz, inocente e cheia de vida. Completamente diferente do que tinha se tornado agora — Ele está muito mudado... quero dizer, ainda é idêntico à você fisicamente, é claro, mas... a personalidade dele se tornou distorcida, e fria. Parece que ele perdeu todo o pudor e inocência que tinha antes de vocês serem separados... e também se tornou um tanto inexpressivo. Achei que ele estaria amedrontado e depressivo, mas nem isso ele está. Parece que se conformou com a situação em que se encontra... como se nada mais importasse, e ele tivesse perdido seus sentimentos
— É minha culpa — Rin falou abrupdamente e, ao encará-la, Gakupo notou que ela segurava com força a barra do vestido entre as mãos trêmulas, tentando reprimir uma onda de choro — Eu é quem deveria ter ido pra casa do Conde, não ele... quando começaram os boatos sobre as c-c-coisas que o Conde estava f-fazendo com o Len... e-eu logo percebi que ele devia ter descoberto sobre a troca, e que apareceria a qualquer momento para devolvê-lo e me levar no lugar dele, mas ele não o fez. O Barão também, depois que descobriu... disse que já tinha se acostumado comigo, e que cuidaria de mim mesmo assim, não importando que eu fosse uma menina. Eu continuei vivendo aqui no lugar dele, enquanto meu irmão passava por todas aquelas coisas horríveis... o Len se tornou assim por minha culpa!
— Ahn... v-vamos, não fique assim, Rin-chan — Gakupo falou, sem saber o que dizer. Arrependeu-se instantaneamente de ter contado todas aquelas coisas pra ela — Não é culpa sua que isso tenha acontecido, é culpa do Conde, que fez aquelas coisas com ele. Quem sabe, se você falasse com o Len, talvez ajudasse...
— Não!!! — ela gritou, encarando-o, e uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto — Não tenho coragem de encará-lo... não depois do que ele passou por minha causa. O Len sofreu tudo aquilo no meu lugar, ele deve estar me odiando agora...
— Não acho que ele te odeie — Gakupo discordou — Eu te disse, o menino se tornou inexpressivo e desprovido de emoções. Ele parece incapaz de sentir o que quer que seja, inclusive ódio de alguém. Além do mais... acho que ele não teria trocado de lugar com você se te odiasse. Ele fez isso pra te proteger, então é claro que ele te ama muito
— T-Talvez o senhor tenha r-razão... — ela gaguejou, limpando com as costas da mão uma segunda lágrima que escorria pelo seu rosto, o corpo ainda trêmulo — Mas, ainda assim, não tenho coragem de encará-lo... pelo menos não por enquanto
— Faça como achar melhor — Gakupo suspirou, desistindo de convencê-la a ver o irmão — Tem algum recado pra ele pelo menos? O garoto pode perguntar por você, sabe
— Diga apenas... que eu estou bem agora. E que o sacrifício dele não foi em vão.


Gakupo deixou a casa de Rin mais calmo, porém ainda mais exausto do que se sentia quando foi até lá. Sem querer, havia descarregado toda sua impaciência na pobre Rin que nem tinha culpa de nada. Ela também era apenas uma criança afinal, e estava somente tentando ajudar o irmão, não podia culpá-la por isso. Mas então quem ele deveria culpar? Kaito? Bem, certamente ele tinha boa parte da culpa. Mas não importava realmente quem era o culpado, o fato é que o estrago já tinha sido feito, e agora Gakupo teria que reparar os danos causados à mente e ao coração de Len se quisesse preservar sua sanidade mental. Sim, porque, se não conseguisse, o garoto acabaria enlouquecendo-o.


No caminho de volta pra casa, avistou algumas crianças camponesas, entre 12 e 14 anos, correndo e brincando, pela janela da carruagem. Se aquilo não tivesse acontecido, Len seria como aquelas crianças agora, um menino sorridente, puro e cheio de energia, e não apenas uma sombra sem vida e sem vontade própria, como ele havia se tornado. Viu as crianças camponesas pararem em frente a uma senhora que vendia balas caseiras, e mandou o condutor da carruagem parar por um instante, tendo uma súbita idéia.



—----




— Mestre Gakupo! — uma empregada veio correndo esbaforida ao ver que seu mestre tinha chegado em casa — Graças ao céus o senhor está aqui! Aconteceu um desastre!
— O que aconteceu? — ele perguntou
— Aquele menino que o senhor trouxe, o que era de Sua Graça, o Conde...
— O que houve com o Len? — ele indagou mais impaciente para a mulher
— B-Bem... como o senhor disse que ele ajudaria a cuidar da casa, então demos algumas tarefas simples pra ele fazer, mas... o menino parece que nunca lavou uma colher sequer na vida! Quebrou boa parte dos copos, os pratos, e...
— Onde ele está?? — Gakupo interrompeu a ladainha interminável da mulher
— E-Estava na cozinha agora à pouco... mas ele quebrou tantas coisas que começou a sujar a louça com sangue, então o mandamos ir para o quarto del... — ela nem sequer terminou a frase, e Gakupo deixou-a parada no hall de entrada falando sozinha, e saiu correndo na direção do quarto de Len.



Gakupo correu até o quarto do mais novo e, assim que abriu a porta, viu-o sentado em um canto do quarto, as costas encostadas contra a parede, os joelhos dobrados e a cabeça apoiada deles. Os cabelos loiros estavam soltos, e ele ainda trajava o mesmo vestido da noite anterior, o que, somando-se à sua aparência frágil e desolada, o fazia parecer terrivelmente uma garotinha violada.


— Len — Gakupo chamou hesitante, e o loiro ergueu minimamente os olhos para encará-lo — Uma das empregadas me disse que você... ahn... teve uns contratempos... está tudo bem?


Em resposta ele apenas ergueu uma das mãos, enfaixada pateticamente em uma bandagem frouxa manchada de vermelho, por onde ainda escorria sangue de um ferimento recente. Gakupo adentrou o quarto assim que viu aquilo e, cobrindo os poucos passos que os separavam, ajoelhou-se ao lado do garoto para refazer o curativo.


— O senhor não precisa...
— Fique quieto e me deixe terminar — Gakupo interrompeu o sussurro dele — Sua mão está sangrando muito, você devia ter cuidado melhor disso
— Mas eu já tirei os cacos de vidro — Len alegou, e o mais velho notou que de fato não havia nenhum caco de vidro enterrado em sua pele — É sério, não foi nada...
— Mandei você ficar quieto! — Gakupo exclamou, o tom de voz aumentando algumas oitavas, e Len se calou, deixando que ele refizesse o curativo direito enquanto resmungava sobre o quanto Len era desleixado com o próprio bem-estar — Pronto, agora está melhor — Gakupo anunciou após terminar o curativo. O fermimento finalmente tinha parado de sangrar — Não descuide da sua saúde assim de novo, ouviu?
— Por que o senhor fez isso? — o mais novo não pôde evitar de perguntar
— "Por que"? — Gakupo repetiu, sem entender a pergunta
— É, por que. Eu sou apenas um dos seus servos. Por que se deu ao trabalho de cuidar de mim pessoalmente?


Gakupo pensou na pergunta dele por alguns segundos e concluiu que Len poderia estar pensando que talvez ele estivesse apenas sendo bonzinho e tentando ganhar sua confiança, para fazer maldades com ele depois. O garoto já tinha passado por uma experiência horrível antes afinal, não seria de se estranhar que ele pensasse que todas as pessoas eram iguais ao homem que destruiu sua vida.


— Que tipo de pergunta é essa? Eu sou seu Mestre, não tenho que lhe dar satisfações! — o mais velho exclamou, meio ofendido — Mas, só pra você saber... não pense que eu fiz isso com segundas intenções ou coisa do tipo, porque não foi, ouviu? Eu apenas preciso de você inteiro para me servir, e não aos pedaços, cheio de fermimentos. Você não vai poder me servir em nada se estiver doente ou ferido afinal
— Ah, é isso... está bem então — Len baixou os olhos, parecendo aceitar aquela justificativa — Obrigado, Mestre
— Não tem de quê — Gakupo suspirou, sentindo uma nova onda de cansaço. Ele mal havia trocado algumas poucas palavras com o garoto, e já estava se sentindo desorientado e exausto outra vez. Vai ser difícil conviver com alguém assim por mais tempo — À propósito, eu trouxe uma coisa pra você — ele se lembrou, tentando mudar de assunto. Tirou do bolso do paletó um saco cheio de balas mastigáveis — Tome. Vi uma mulher vendendo na rua enquanto voltava pra casa e lembrei de você.


Gakupo estendeu o saco de balas para o mais novo, no entanto, ao invés se abrir um sorriso, agradecer e devorar as balas, como uma criança normal faria, Len arregalou os olhos azuis, baixando a cabeça logo depois, com uma expressão de "como eu pensei" no rosto.


— O que foi? Não gosta de balas? — Gakupo indagou, confuso
— Eu sabia — o loiro sussurrou
— O que disse?
— Disse que eu sabia — Len tornou a erguer o rosto, encarando-o nos olhos — Sabia que seria assim. Sabia que o senhor tentaria ser bonzinho e gentil comigo no começo, mas no fim acabaria sendo igual. É claro... por que outro motivo o senhor teria me comprado no leilão afinal? É claro que era por isso. Eu não sou um bom servo, nunca fui. Sou pequeno e fraco, mesmo pra um garoto de 14 anos... para qualquer tipo de garoto, aliás. Eu não tenho força nos braços e nas pernas, e tenho essa aparência frágil.... também não sou bom em serviços domésticos. Não importa o quanto eu tente, sempre acabo destruindo a louça e quebrando as coisas, sou desajeitado demais pra fazer essas coisas. Não sirvo pra nada. Exceto para "aquilo". A única coisa que fez o Conde se apossar de mim, supostamente me adotando... e que, agora, o senhor está fazendo também
— Ei... o que você...
— Tudo bem, meu Mestre. É só pra isso que eu sirvo afinal, deveria parar de me queixar e ficar feliz por ainda servir pra alguma coisa — Len colocou-se de pé e, repetindo o ato da noite anterior, começou a despir-se
— Ei, ei, ei! O que pensa que está fazendo?! Eu não mandei você tirar a roupa!! — Gakupo exaltou-se ao ver que ele tinha recomeçado a abrir os botões
— O senhor quer fazer isso com as roupas? Não entendo como isso pode ser possível... — Len murmurou, confuso, a meio caminho de abrir o terceiro botão do vestido
— Como eu disse, não quero fazer nenhuma dessas coisas com você! Então não precisa tirar a roupa!! — o mais velho gritou, perdendo a pouca paciência que lhe restava
— Mas então... por que as balas...? — Len indagou e, ao perceber que Gakupo estava ainda mais confuso do que antes, acrescentou — Quando eu fui para a mansão de meu antigo Mestre, logo nas primeiras semanas, ele sempre me trazia balas, doces, e todo o tipo de guloseimas. Ele sorria, conversava e era gentil comigo.... e assim que eu começava a pensar que aquilo não iria mais acontecer, e baixava a guarda, ele m-me... — a voz de Len falhou e ele abaixou a cabeça, sem terminar a frase. Não foi necessário, Gakupo sabia muito bem as coisas horríveis que Kaito fazia com ele. Arrependeu-se imediatamente por ter comprado aquelas balas, embora ele não tivesse culpa na verdade, já que não tinha como ele saber dessa história — P-Por isso eu pensei que o senhor... f-faria o mesmo — o loiro concluiu num fio de voz, vários segundos depois
— Desculpe. Eu não... sabia dessa história — Gakupo respondeu sem encará-lo. Colocou-se de pé, jogando o saco de doces aos pés do garoto — Eu não queria trazer essas... ahn, recordações ruins à tona. Também não comprei os doces com essa finalidade, apenas vi uma mulher vendendo as balas na rua e me lembrei de você. Pode comer se quiser, ou então dar pra alguém, ou jogar fora, eu não me importo.


Len colocou a mão dentro do saco de balas, puxou uma para fora, encarou-a por vários segundos como se ela fosse uma coisa extraordinária do outro mundo, até que disse por fim:


— O senhor sempre compra doces para seus criados?
— Eu... b-bem, não
— Então, se o senhor não comprou as balas com essa intenção... nem possui o hábito de comprar balas para os seus servos... por que comprou pra mim? — Len indagou novamente, encarando-o com aquele olhar inexpressivo, dessa vez com uma leve curiosidade e confusão misturadas à ele.


Gakupo balbuciou algo indecifrável, sem saber o que responder. Por que ele tinha comprado os doces afinal? Nem ele mesmo sabia. Provavelmente a conversa com Rin o fez se apiedar do garoto, e ele sentiu vontade de fazer algo para fazê-lo se sentir melhor, mas não podia dizer isso para Len.


— Eu já te falei ontem, não foi?! Eu sou seu Mestre, não tenho que lhe dar satisfações! Eu comprei as balas porque eu quis e pronto! — ele esbravejou por fim, e Len se encolheu minimamente, concluindo que era melhor não discutir — Agora escute aqui: Vou pedir à uma das criadas para trazer umas roupas novas pra você depois. Não me importa a aparência que tenha, você ainda é um garoto, e não é certo ficar andando de vestido por aí. Também não quero saber se você é frágil ou desajeitado, você vai aprender a fazer as tarefas da casa, nem que seja para trabalhar como meu mordomo, entendeu??
— Sim, Mestre...
— E mais uma coisa! — Gakupo interrompeu o sorpo de voz do garoto — Não quero mais saber de você interpretando mal as ações das pessoas e ficar se despindo por aí, ouviu?! Não me interessa daonde você veio ou como seu antigo Mestre era, eu sou seu Mestre agora! E nós não fazemos esse tipo de coisa por aqui, ouviu bem?!


Len ergueu os olhos para ele e o encarou boquiaberto por vários segundos antes de responder:


— Como o senhor desejar
— Ótimo! — o mais velho exclamou, parecendo estar procurando algo mais do que reclamar. Como não encontrou, achou melhor se retirar por enquanto. Ele caminhou até a porta e a abriu com certa violência, mas antes que saísse, Len o chamou de novo
— Mestre. Obrigado... pelas balas
— Ah... bem, não me agradeça. Apenas comece a se portar melhor se quiser demonstrar alguma gratidão! — Gakupo exclamou, meio sem saber o que responder, e saiu, batendo a porta.


Logo que Gakupo se retirou, Len voltou a se encolher em seu canto do quarto, tirou uma das balas do saco de doces e colocou-a na boca. Tinha o doce sabor de comida caseira, e era exatamente o mesmo tipo de bala que o Conde já havia trazido para ele tantas vezes antes, mas... ainda assim, por que parecia ser um sabor tão diferente agora? Por que parecia muito melhor do que antes se era o mesmo tipo de bala?


— É bom... — foi tudo o que Len conseguiu concluir, sem achar a resposta para aquela pergunta.

Notas finais
Yoo minna~! Estou meio mal hoje, então não tenho muito o que comentar... espero que tenham gostado do cap, deixem reviews onegai Matta nee~